quinta-feira

O mestre da encrenca - por Vasco Pulido Valente -


Nota prévia: Uma reflexão sobre Marcelo por quem conhece bem duas coisas: a natureza e a condição humanas e o próprio Marcelo. Além do hiper-realismo sobre o carácter e comportamento do visado, a descrição chega a ser hilariante, mas também é assim que MRS está na vida política.
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MARCELO REBELO DE SOUSA

O mestre da encrenca

hopes expire of a low dishonest decade… W. H. Auden
Quem conheceu Marcelo nestes quarenta anos de democracia com certeza não se espanta com a encrenca que ele agora arranjou com o primeiro-ministro e o ministro das Finanças. Onde ele pode baralhar as coisas, baralha – pelo prazer, por impulso, porque a sua natureza o impede de se calar, quando devia ficar calado, ou de falar quando devia falar. Com vinte anos, foi o “lélé da cuca” e a “vichyssoise”. Depois vieram outras mais graves, menos graves, numa sucessão irresistível até à Presidência da República, onde ele tem finalmente a oportunidade de exercer o seu talento e consolar o espírito. Mesmo na televisão os comentários dele eram sempre sobre a habilidade de cada um para enganar o próximo e o bom povo, a quem hoje ele inunda de “afecto”, num espectáculo pelo menos pouco sério. Há quem goste e há quem se desgoste. Não interessa. Se o elegeram, que o aturem.
De resto, Marcelo em parte não tem culpa. A espécie de sarilho em que desta vez se resolveu meter exige parceiros e ele descobriu dois com muitas possibilidades: Centeno e Costa. O jogo do diz que disse e que não disse, ou que disse e não pensou, ou que pensou e não disse, precisa de um certo treino e de uma certa vocação. Pena que o Estado e as finanças da ralé sofram com isso. E que a Presidência da República, como o parlamento e os partidos, caia no desprezo geral. Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco cometeram erros, consentiram abusos, mas nunca se arriscaram ao ridículo e as querelas pueris, a que o vivaz Marcelo diariamente se presta. A República pede por força um Presidente; e a nossa, com origem militar, deu a essa personagem um papel, aliás, pouco a pouco limitado, mas que, de qualquer maneira, ainda é excessivo e lhe permite uma ingerência constante na política partidária.
Com Marcelo em Belém não consigo conceber onde iremos parar. Ou consigo: iremos de encrenca em encrenca até ao desastre final.
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domingo

A política dos BonBons - por Marcelo Rebelo de sousa


Nunca se viu em Portugal um comentador político iniciar a sua "missa" começando por oferecer BonBons à entrevistadora


Não se percebe se através do gesto o comentador pretende adocicar a entrevistadora ou dar uma bombinha de chocolate aos eleitores para melhor se lembrarem dele na corrida a Belém. 

Espero que os diabéticos não estejam a ver esta caricata marmelada. 

É que "marmelada" a mais também enjoa...

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O excesso de garantismo de Marcelo Rebelo de Sousa

DA SÉRIE: ARTISTAS PORTUGUESES




Por vezes, o excesso de garantismo do comentador MRS só me pode evocar o Whisky, em particular o whisky de Sacavém, famoso por ser feito a marcelo, perdão, a martelo!!!











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segunda-feira

BES compromete “ambições presidenciais” de Marcelo, diz Pais do Amaral

Miguel Pais do Amaral defende que a ligação de Marcelo Rebelo de Sousa ao BES “não pode ser maior e, como tal, as ambições presidenciais não podem ser mais afetadas”.
“O impacto político desta situação poderá ser muito relevante. Todos sabem ainda que a companheira do putativo candidato presidencial é administradora no grupo BES e que o seu filho é funcionário da PT”, afirmou o empresário, em entrevista sábado ao Dinheiro Vivo, acrescentando que “ele e a sua companheira eram os melhores amigos do casal Salgado. Viajavam juntos, passavam férias juntos”.
“Neste caso, diz-me quem são os teus amigos, dir-te-ei quem és”, disse Pais do Amaral, insistindo que “obviamente que uma pessoa que é a melhor amiga de alguém, se esse alguém não sair bem, não tem quaisquer condições para ser candidato presidencial, nem para alimentar essa candidatura”.
Lembra ainda o caso Madoff nos EUA em que, quando este foi preso, os “políticos amigos mudaram de carreira, não tinham qualquer hipótese de continuar a exercer a política, porque eram amigos de alguém que tinha feito coisas que não devia”.
O empresário acrescenta que os impactos políticos podem sentir-se tanto nas presidenciais, como nas legislativas. “Sabe-se que há alguns ministros que eram muito próximos do presidente da comissão executiva do BES [liderada até há uma semana por Ricardo Salgado] e essa proximidade poderá ser negativa”, disse, sem apontar nomes.
Há cerca de uma semana, João Rendeiro, o banqueiro acusado de burla qualificada aos antigos clientes da Privado Holding, tinha escrito no seu blog que Marcelo Rebelo de Sousa “é um dos danos colaterais da pesada queda de Ricardo Salgado”. Comentando a entrevista de Santana Lopes ao Expresso, em que admite candidatar-se às eleições presidenciais, disse que o ex-primeiro-ministro “percebeu imediatamente que as fortes relações pessoais de Marcelo com o BES e Ricardo Salgado são mortais para qualquer hipótese de candidatura presidencial”.
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Obs: MRS é o que é graças a ele próprio e a mais ninguém. Tem competência como académico, como eminente jurisconsulto, é considerado o príncipe dos analistas políticos nacionais e como agente político já granjeou algum sucesso no PSD, ainda que tenha caído em resultado duma coligação contra-natura com o CDS de Paulinho Portas, que não hesita em trair a confiança de alguém - se esse alguém não servir os seus intentos e a sua desmesurada ambição pessoal. Uma ambição que tem lesado os interesses da República.  
Afirmar que a eventual candidatura de MRS a Belém era condicionada pela banca e, em concreto, pelo banqueiro agora caído em desgraça - parece-me excessivo, além de apoucar as qualidades e virtudes que o ex-Presidente do PSD inequivocamente tem. Não sei se era esse o objectivo da opinião supra-referida.
Entre Marcelo e Santana lopes há uma distância que vai do Guincho à China. O banqueiro até pode passar uma década no Estabelecimento Prisional de Campolide (o que será tão verosímil como a estátua do Marquês de Pombal fazer break dance na Av. da Liberdade) e Marcelo ser, neste momento e na área do centro-direita, o melhor candidato para Belém. 
Se MRS é amigo do banqueiro - só lhe fica bem não terraplanar essa relação num momento em que o amigo caiu em desgraça, pois as pessoas que votaram, votam ou irão votar no candidato MRS nunca o fizeram em relação ou por referência às suas amizades pessoais. Se assim fosse, Cavaco há muito já teria sido destituído das funções presidenciais, pois ter Oliveira e Costa e Dias Loureiro, só para citar dois banqueiros encartados em offshores, no seu inner circle, a ajuizar pelo raciocínio ligeiro de pais do Amaral -  tal representaria uma catástrofe política. 
Sucede, porém, que Cavaco, consabidamente, ainda é, com custos é certo, o locatário do Palácio Rosa. 
Admitindo que MRS assuma o desafio de se candidatar a Belém nessas circunstâncias - terá também de considerar a possibilidade de perder para Guterres, caso seja este o candidato do centro-esquerda. 

Mas este será sempre um resultado provável independentemente das amizades do putativo candidato. 
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terça-feira

Marcelo e Freitas do Amaral querem substituir as actuais lideranças partidárias



Os professores Diogo Freitas do Amaral e Marcelo Rebelo de Sousa, ambos eminentes jurisconsultos e com grande visibilidade pública, têm, doravante, uma outra característica em comum: pretendem ambos mandar para "o caixote do lixo da história" duas lideranças altamente perniciosas que ocupam os partidos da actual coligação do centro-direita em Portugal, e que agravaram sobremaneira os resultados da governação em Portugal desde 2011. 

Um e outro(s), com diferenças de discurso, reclamam um novo Governo. Freitas do Amaral, Mário Soares e Marcelo, todos fundadores da 3ª República, ainda que com posições distintas, traços ideológicos marcados e campos de influência sociológica variada, já há muito compreenderam que este governo é francamente mau: no todo, em parte, nas pessoas, nas políticas públicas, na forma e no conteúdo, na comunicação com a opinião pública, que utiliza a mentira e chantagem como expedientes sistemáticos para iludir os portugueses - que já deixaram de nutrir qualquer esperança neste ajuntamento de pessoas que alguns, por cortesia, ainda designam de governo. 

No entanto, Marcelo é mais polido, superficial e cínico nas críticas que dirige ao governo, na medida em que tem ambições políticas a curto e médio prazos, ante o desastre comunicacional que foram as prestações de Durão Barroso aos media portugueses (Sic e Expresso), em que até advogou o tipo de Educação ministrado ao tempo de Salazar como modelo a seguir hoje pelos portugueses. 

Marcelo, como eficiente manipulador, só fala do que quer, e, por isso, só coloca em agenda assuntos e temas que lhe interessam. Marcelo, nunca quis saber das causas profundas da corrupção em Portugal, raramente critica as pessoas e as instituições alegadamente acusadas de corrupção. Esta extrema cautela, que não deriva apenas da sua formação e prudência jurídica, decorre naturalmente da sua ambição política, a qual passa, naturalmente, por contar com o apoio do PSD e das suas bases. Daí o cinismo institucionalizado praticado normalmente pelo comentador-mor da república. Em excesso acaba por ser um fardo para o próprio. 

Ao invés, e porque estão mais desprendidos e não têm ambições políticas, Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares são mais francos e sinceros nas apreciações que fazem no espaço público relativamente ao cadáver adiado agrupado no XIX Governo (in)Constitucional - que continua a escavacar Portugal sob o pretexto da Austeridade imposta pela troika, e a que Passos Coelho ultrapassou pela direita nas medidas que quis, deliberadamente, executar no país e que conduziram à sua desertificação, empobrecimento e emigração que conhecemos.

Soares quer um governo novo; Marcelo pretende mexer no calendário eleitoral a pretexto da incapacidade de se chegar a um consenso entre PSD e PS; e Freitas do Amaral reclama um novo partido que anule a escassa importância patente nos 4% que actualmente vale o CDS de Paulinho Portas - com quem há anos se incompatibilizou.

Em rigor, Freitas deseja uma nova liderança no CDS, mais até do que um novo partido (que reclama), e ele bem sabe da dificuldade desse novo ente se afirmar no actual espectro partidário, é bem conhecida a história do PRD; Soares quer enterrar Passos Coelho e Portas vivos; e Marcelo, mais cínico, pretende que uma nova corrente interna no PSD desponte e ganhe importância a fim de, e em tempo útil, lhe ser mais favorável para a sua sonhada candidatura presidencial.

Todos, afinal, pretendem o mesmo: enterrar o XIX Governo (in)Constitucional, e nisto colhem o apoio da esmagadora maioria dos portugueses. 

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Marcelo defende eleições legislativas antecipadas

Marcelo defende antecipação das eleições legislativas

por Paula Sá
Marcelo defende antecipação das eleições legislativas
Fotografia © Gerardo Santos/Global Imagens
(...) 
Na opinião de Marcelo, logo a seguir às eleições europeias, Cavaco Silva devia sentar à mesma mesa Pedro Passos Coelho, António José Seguro e Paulo Portas. "Se o consenso falhar, devia depois ponderar seriamente o calendário eleitoral", defendeu.
Marcelo assumiu que se fosse Presidente "não teria a mínima dúvida de que colocaria à consideração dos partidos a antecipação das legislativas para não cair tudo ao mesmo tempo" (...)
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Obs: Marcelo já percebeu há muito que algo está podre nos reinos de S. Bento e Belém. 
- Entretanto, e ante o falhanço rotundo das entrevistas de Barroso aos media, que lhe deram a conhecer que o povo português é lento mas não é idiota e não lhe perdoou ter DESERTADO do país em 2004, vai-se posicionando para Belém. Contra a vontade deste miserável PSD, evidentemente.
- Ao menos, com Marcelo em Belém a vida política no Palácio Rosa ficaria animada duma intriga diária e o país talvez conhecesse motivos suplementares para se renovar e reformar, nem que fosse à custa de polémicas diárias entre os vários órgãos de soberania, os partidos e demais instituições. 
- Hoje, é a tragédia da Austeridade e a congénita incompetência do Governo que estão a liquidar Portugal. 
- Portanto, Marcelo em Belém seria um mal menor, talvez necessário e com alguma utilidade criativa para o espaço público nacional que, contando com o comentador em Belém, seria também mais culto e preparado. 
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segunda-feira

A mentira política é a nova droga do séc. XXI


Há casos em que a mentira é verdadeiramente difícil de identificar. A mentira vai muito para além da dissimulação ou da deformação deliberada de um facto, de um gesto ou comportamento ou de uma interpretação. Quando assim ocorre, pode haver a denúncia contrafactual ou o reconhecimento, pelo autor da mentira, de que efectivamente mentiu. Pode acreditar-se no mentiroso quando, ao denunciar a sua mentira, se revela como ela foi construída, e daí deriva o processo interno da sua reconstituição e da falta cometida mediante confissão. 

Mais problemático de clarificar é o caso em que a mentira tem a sua origem na impossibilidade, por parte de quem mente, de aceitar e de reconhecer a verdade da sua mentira. Trata-se, pois, duma patologia do comportamento que distorce a avaliação dos factos. Ou seja, quando alguém mente porque não pode reconhecer a verdade, isso poderá não decorrer do efeito da vergonha, da culpa, do pudor ou de uma intencionalidade perversa, poderá decorrer do facto de a mentira se ter tornado inconsciente.

Esta teorização empresta cobertura aquele sujeito que, recém-chegado ao aeroporto da Portela, apanha o táxi no respectivo terminal para regressar a Cascais, mas só em plena 2ª Circular é que decide ir a um congresso partidário que referiu não ir, até por julgar nada ter por dizer. 

Politicamente isto é pouco relevante, mas no plano dos valores, princípios e estruturas morais que formam o carácter e orientam a conduta das pessoas, é grave. E é grave porque se esconde no inconsciente aquilo que, por obra e graça do espírito santo, se fez desaparecer do consciente. 

Neste caso, assistimos à sinceridade consciente de quem mente, porque reprimiu a mentira no inconsciente, explica a capacidade de adaptação e de renascimento de alguns desses personagens políticos. É óbvio que não estou a falar do Sr. dr. Miguel Relvas, mas do doutor Marcelo que, apesar de serem muito diferentes, em certos casos parecem iguais. 

Nestes casos, quem mente nunca reconhecerá que mentiu, mas o seu inconsciente continuará a conhecer a verdade. No entanto, o mentiroso acabará por ser denunciado enquanto tal pelo seu inconsciente, que se revela na forma de sintoma.

A vida pública portuguesa, por causa do poder, da sua captura e manutenção, está repleta deste tipo de condutas lamentáveis que sistematicamente ocultam a verdadeira informação em democracia. E uma democracia onde a mentira fique oculta, é uma democracia incapaz de ser regulada, não apenas pela manifesta incapacidade crítica e de construção de alternativas pela oposição, mas também porque a dissimulação e a simulação transformaram-se na regra no âmbito da actuação do espaço público nacional. 

Foi a este processo que em tempos aqui chamamos de sociedade que institucionaliza  a mentira em política em Portugal. 

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domingo

A coerência do doutor Marcelo


Marcelo Rebelo de Sousa anda, pelo menos há 24 meses, a criticar frontalmente as políticas públicas do PSD de Passos Coelho, agora reentronizado no partido. Marcelo tem criticado a política dos Negócios Estrangeiros de Rui Machete (que se tem pautado por sucessivos tiros nos pés, vide o caso de Angola), a política Económica de Portas (agora reinterpretada pelo novel ministro Pires de Lima, o homem dos "milagres" que todos desconhecem), a política das Finanças da Miss Swaps (pelo esbulho e confisco fiscal a pessoas e empresas), a política da Agricultura que tarda em produzir resultados num sector completamente esfrangalhado, a política de Emprego (aqui não é necessário tecer comentários, porque eles seriam supérfluos), a política de Saúde pelos cortes nas comparticipações e diminuição das condições de acesso a esses serviços, a política de Ciência & Educação pela desafectação de investimentos no sector, apoio ao ensino privado e a um galopante desinvestimento em I&D.

Em rigor, não se conhece um elogio a uma única política pública de Marcelo no âmbito da acção do XIX Governo Constitucional. Em face destes factos, que têm sido veiculados e ilustrados com exemplos na sua função de comentador domingueiro no sítio do costume, Marcelo tem a lata de ir ao XXXV Congresso do PSD e tecer um conjunto de emoções que visavam congregar as massas partidárias desavindas e não ser coerente com as verdades que sempre defendeu publicamente.

Será Marcelo um novo demo-populista, que tudo sacrifica a um apoio da liderança do PSD à sua candidatura a Belém?!

Será Marcelo um desmiolado que já se esqueceu de tudo aquilo que andou a defender nos domingos à noite da estação de TV do Big brother?!

Será Marcelo coerente com os valores, princípios e verdades que andou a defender nestes últimos dois anos?!

Afinal, quem é este ilusionista? 

Será que o político-comentador também acha que as pessoas não estão melhor, mas o país está?!



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sábado

Marques Mendes é o porta-voz oficioso de Marcelo a Belém


Marques Mendes posicionou-se hoje como o novo porta-voz não oficial de Marcelo Rebelo de Sousa a Belém. O analista ocupa mais de 2/3 do seu tempo de antena a criticar as políticas do XIX Governo (in)Constitucional bem como muitos dos seus actores, mas entende, paradoxalmente, que são todos muito rigorosos e competentes (!?) 

Entende, por outro lado, que o primeiro ministro mistificou os números do desemprego em Portugal na sua mensagem de Natal, e depois tece considerações acerca do rigor de Passos Coelho. Não se compreende tanta cambalhota analítica. 

Afinal, [a] quem serve Mendes com as suas mestelas analíticas?!

Marques Mendes é norte e sul no mesmo trajecto, é  black & white, quer, no fundo, agradar a gregos e a troianos. Revela escassa coerência analítica, denota parcialidade e fraca sustentabilidade nas suas apreciações e, por todas essas razões, denuncia uma agenda pessoal mais ou menos oculta que serve para apoiar/lançar candidatos a Belém -  posicionando-se, ele próprio, nessas proposituras mais ou menos dissimuladas.

Será que Marcelo o autorizou a dizer o que disse, ou pediu-lhe expressamente que o fizesse!?

Entrámos no jogo de espelhos pré-eleitoral a um ano e meio de distância do acto. 

Seja como for, acho que fica mal ao comentadeiro identificar uma falácia grave debitada pelo primeiro ministro na noite de Natal, que afecta tanta gente, e, acto contínuo, referir (ou sugerir) que se trata dum homem rigoroso.

Provavelmente, o rigor a que Marques Mendes se reporta é o mesmo rigor que levou Gaspar a demitir-se por ter reconhecido que estava a rebentar a economia nacional e a implodir a sociedade portuguesa. 

Em suma: Marques Mendes integra aquela categoria de "ex-futuros" cavaquistas que não tem emenda. E, pior, vai para a televisão de Balsemão, sócio fundador n.º 1 do PSD, denunciar em directo essas suas mazelas analíticas que espelham uma lamentável inconsistência. 

Não admira que Coelho não o tenha convidado para o Governo, mas se o fizesse estaria em linha com o conjunto da sua acção, pois estão bem uns para os outros. 

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sexta-feira

António Vitorino revelou-se o analista político e o "intérprete do simbólico" mais eficiente do ano de 2009 findo. Once again

O ano de 2009 foi um ano de política intensa e dura, ainda que pouco proveitosa em termos de ganhos líquidos para o povo português. Três actos eleitorais, muita guerrilha política, alguma produção legislativa, muitos vetos presidenciais, pouca e magra economia, muita crise financeira e social. Eis o resultado mitigado de duas crises que se sobrepuseram em Portugal: a crise externa agravou ainda mais as crónicas deficiências estruturais do nosso tecido económico. O resultado traduziu-se em falência de empresas e um desemprego galopante que a débil modernização e reconversão da economia e a atracção de Investimento Directo Externo não conseguiu repor ou compensar.
Daí que o comentário político se traduza num exercício tão interessante quanto crucial para a marcha dos acontecimentos políticos nacionais, porque são eles, em inúmeros casos, que ajudam a detonar os raciocínios, as correlações e a revelar os desafios e as pistas em que Governo e oposição – cada qual à sua maneira e assumindo os seus níveis de responsabilidade – podem encontrar a escapatória possível para a crise.
Quantas vezes os governantes aproveitam ideias lançadas por comentadores no espaço público?!
E neste cenário, mais uma vez, é inevitável comparar a prestação analítica de Marcelo de Sousa, do centro direita, com a prestação de António Vitorino que, diria, é cada vez menos de esquerda e mais da lógica dos factos.
Ou seja, enquanto que Marcelo teatraliza, tem uma agenda política oculta, é comentador que toma parte dos interesses em presença, António Vitorino tem-se revelado um comentador mais isento, mais imparcial, por vezes mesmo crítico ao PS, buscando a autenticidade dos factos e das lógicas políticas que presidem à sua dinâmica na esfera pública.
Ora, o erro do analista, como sabemos, não é igual ao erro duma pessoa comum, de observador ocasional, que tende a deixar vir para primeiro plano as suas emoções e, portanto, os seus interesses particulares – que são mais ou menos organizados. A este propósito é com alguma dificuldade que vejo Marcelo na figura mitigada do analista-candidato à liderança do PSD que, por sua vez, é candidato a PM, logo opositor directo a Sócrates. Neste contexto, a sua análise é, tendencialmente, mais inquinada e/ou parcial do que a análise produzida por António Vitorino, que não é candidato a coisa nenhuma, e quando se colocou a possibilidade de ser PM – pura e simplesmente – virou costas ao poder para assumir a sua vida profissional de advogado.
Fazendo o paralelo, nunca vi António Vitorino neste papel contra a srª Ferreira Leite que, coitada, “não pode com uma gata pelo rabo”, passe a expressão, não tem liderança, não tem projecto, não tem identidade e só comete gralhas políticas e revela uma gritante falta de cultura democrática que faz dela o “bobo da corte” – qual saco de boxe do próprio PSD, apesar das ajudazinhas de Belém querendo fazer dela a locatária do cadeirão de S. Bento, em vão. Frustrando, assim, as ambições de Cavaco presidencializar o regime, teleguiando as funções de PM a partir do Palácio Rosa.
AV, nesta perspectiva, e apesar de não haver neutralidade absoluta, como ensinara Max Weber nos seus trabalhos de sociologia na relação do Político com o Cientista, não distorce os factos, não oculta uma realidade para tirar partido daquilo que ela esconde, não representa nem dramatiza os materiais políticos nacionais.
Além de que o formato do Notas Soltas tem a vantagem de ser mais curto e sucinto, incluir uma rubrica internacional interessante e de não apresentar livros, alguns dos quais além de não terem qualidade são apenas um expediente que Marcelo utiliza para promover autores amigos, coleccionar apoios nas editoras (que não deixam de ser empresas que visam o lucro) e de valorizar a sua biblioteca de Celorico de Basto. Muitos desses livros, diga-se, o apresentador Marcelo também não os leu, podendo simpatizar com a capa, alegrar-se com o índice ou nutrir simpatia pelo autor ou, tão só, apreciar a estética da lombada.
Ou seja, esta comparabilidade, além de feia é necessária, na medida em que serve para separar o útil do acessório, e nesta comparabilidade somos de opinião que o analista e intérprete do simbólico António Vitorino não se ilude, não ilude os espectadores com análises que não correspondem à realidade, não obedece a lobies económicos ou de índole partidária. Tudo boas razões que fazem dele o melhor analista político de 2009.
Sendo aquele que falta menos à verdade, é também aquele que credibiliza mais a análise política vista aqui como uma espécie de deontologia política – visando o respeito integral pela verdade dos factos e pela razão política dos actores e das instituições objecto de análise em Portugal.
Marcelo, ao invés, teatraliza muito, tem muitos “clientes” e “patrocinadores”, é, não raro, parte interessada no comentário que faz porque aspira à liderança do governo ou, mais concretamente, ao lugar de Cavaco em Belém. É, pois, um analista engagé, por vezes até ao pescoço…
A comparabilidade destas duas referências torna-se, portanto, inevitável, até porque não existem muitos analistas com alguma densidade intelectual em Portugal. Mas estas notas servem também para fomentar o aparecimento de um código deontológico do comentário político entre nós, na medida em que o respeito pela verdade dos factos e das análises sérias que sobre eles se pode construir não deixam de ser um eficiente contributo à democracia, à cidadania e à qualidade global das instituições em Portugal.
Cabe aos comentadores mais credenciados na sociedade não incorrer em erros quando avaliam os produtos políticos, e o facto de uma análise ou um comentário ter “patrocinadores” (partidos, empresas, corporações, etc) ou ter “clientes” (autores, editores por ex.,) – significa que aqueles que “pagam” o custo dessas operações mediáticas, podem interferir na liberdade e na responsabilidade dos analistas, que podem sentir-se inclinados a valorizar mais os sinais de continuidade e de expansão do que os sinais de crise e de recessão. É evidente que neste quadro, se os analistas forem pouco sérios, tendem a fazer esses alinhamentos em função das sua matriz político-partidária, amizades políticas e da cosmovisão que têm da vida e do mundo, bem como a interpretação concreta que fazem dos desafios que a sociedade portuguesa enfrenta na conjuntura actual.
Tais análises podem (ou não) valorizar as propostas de solução com vista à sua resolução, seja nas questões mais gerais, seja nas questões mais concretas que envolvem a estruturação de políticas públicas no curto, médio e longo prazos. Porém, tal como os médicos, inflectir a análise para observar essa inclinação e agradar aos tais “patrocinadores e clientes” que “pagam a factura” de alguma análise, equivale a violar a razão de ser da própria análise política convertendo-a em propaganda política com o fito de promoção pessoal, que é o que inúmeras vezes o doutor Marcelo Rebelo de Sousa faz a fim de se posicionar seja para o farol de S. Bento seja para a torre de Belém. António Vitorino já não desenvolve estas derivas, não alimenta estas motivações, logo não tem estas dependências ou limitações à sua liberdade de expressão, fazendo dele, inevitavelmente, um intérprete do simbólico mais credível quando comparado com Marcelo Rebelo de Sousa.
Também não interessa, seguindo o exemplo comparativo dos médicos (que têm uma deontologia rígida a observar), substituir o diagnóstico do tratamento e a cura ao paciente (sociedade portuguesa) pela mera aplicação de um placebo. Talvez o “doente” recupere, mas não será já pela acção do médico; talvez a crise seja invertida e a fase de crescimento e de expansão económica retome a sua linha de continuidade, mas será já sem o recurso ao contributo do analista.
Olhando para um e para outro, registando as respectivas prestações analíticas, não terei dúvidas em afirmar que Marcelo interfere com a liberdade dos actores políticos e a vida das instituições em Portugal, por vezes semeando intriga onde reina a paz e a concórdia; António Vitorino credibiliza e aclara os factos escondidos da agenda-setting nacional; Marcelo inclina os factos que escolhe para deles criar um efeito simbólico-político; António Vitorino, apesar de diplomático, diz o que pensa, nem que isso se traduza na denuncia dos alinhamentos escandalosos que Belém tem feito nas suas ligações à S. Caetano à Lapa – procurando ajudar a senhora que agora Passos Coelho, Marcelo de Sousa e outros terão de fazer para ajudar Ferreira leite a sair com alguma dignidade da direcção do PSD, o que é manifestamente uma tarefa tão difícil quanto complexa e delicada, dado o adiantado índice de sinistralidade política que reina na oposição em Portugal.
Sinistralidade a que o próprio governo também não é alheio.

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