segunda-feira

A mentira política é a nova droga do séc. XXI


Há casos em que a mentira é verdadeiramente difícil de identificar. A mentira vai muito para além da dissimulação ou da deformação deliberada de um facto, de um gesto ou comportamento ou de uma interpretação. Quando assim ocorre, pode haver a denúncia contrafactual ou o reconhecimento, pelo autor da mentira, de que efectivamente mentiu. Pode acreditar-se no mentiroso quando, ao denunciar a sua mentira, se revela como ela foi construída, e daí deriva o processo interno da sua reconstituição e da falta cometida mediante confissão. 

Mais problemático de clarificar é o caso em que a mentira tem a sua origem na impossibilidade, por parte de quem mente, de aceitar e de reconhecer a verdade da sua mentira. Trata-se, pois, duma patologia do comportamento que distorce a avaliação dos factos. Ou seja, quando alguém mente porque não pode reconhecer a verdade, isso poderá não decorrer do efeito da vergonha, da culpa, do pudor ou de uma intencionalidade perversa, poderá decorrer do facto de a mentira se ter tornado inconsciente.

Esta teorização empresta cobertura aquele sujeito que, recém-chegado ao aeroporto da Portela, apanha o táxi no respectivo terminal para regressar a Cascais, mas só em plena 2ª Circular é que decide ir a um congresso partidário que referiu não ir, até por julgar nada ter por dizer. 

Politicamente isto é pouco relevante, mas no plano dos valores, princípios e estruturas morais que formam o carácter e orientam a conduta das pessoas, é grave. E é grave porque se esconde no inconsciente aquilo que, por obra e graça do espírito santo, se fez desaparecer do consciente. 

Neste caso, assistimos à sinceridade consciente de quem mente, porque reprimiu a mentira no inconsciente, explica a capacidade de adaptação e de renascimento de alguns desses personagens políticos. É óbvio que não estou a falar do Sr. dr. Miguel Relvas, mas do doutor Marcelo que, apesar de serem muito diferentes, em certos casos parecem iguais. 

Nestes casos, quem mente nunca reconhecerá que mentiu, mas o seu inconsciente continuará a conhecer a verdade. No entanto, o mentiroso acabará por ser denunciado enquanto tal pelo seu inconsciente, que se revela na forma de sintoma.

A vida pública portuguesa, por causa do poder, da sua captura e manutenção, está repleta deste tipo de condutas lamentáveis que sistematicamente ocultam a verdadeira informação em democracia. E uma democracia onde a mentira fique oculta, é uma democracia incapaz de ser regulada, não apenas pela manifesta incapacidade crítica e de construção de alternativas pela oposição, mas também porque a dissimulação e a simulação transformaram-se na regra no âmbito da actuação do espaço público nacional. 

Foi a este processo que em tempos aqui chamamos de sociedade que institucionaliza  a mentira em política em Portugal. 

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