sexta-feira

Da indecibilidade à memória curta e longa das coisas e das pessoas

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O Outono, por suceder ao Verão e antecipar o Inverno impele-nos para alinhar balanços no vagão da memória, mas a que nem sempre a linguagem e a reflexão disponíveis conseguem dar vazão ou definição precisa. 

Alguma queda de temperatura também nos modela os pensamentos e a forma de reagir aos factos do mundo que nos rodeia, o qual nos desafia constantemente para o organizarmos, para o compreendermos e, por fim, para o explicarmos ou, no limite, o modificar. Ora, é sob este ambiente de outono astral, a que se associa a queda das folhas das árvores, que percepcionamos a relação do sentir com o pensar, ou seja, invocamos o existencialismo como corrente explicativa da evolução das nossas vidas, para o melhor e para o pior. 

É nessa fenomenologia existencialista, que fez carreira com J.P.-Sartre, A. Malrau, Maurice Merleau-Ponty, ou, mais remotamente com A. Schopenhauer, Soren Kierkgaard, F. Nietzsche, E. Husserl e M. Heideger - todos - com diferenças de pensamento procuraram enquadrar o existencialismo no humanismo e, com nuances, defendiam que o indivíduo é o único responsável por conferir significado à sua vida e em vivê-la de modo sincero e apaixonado. Um modo de vida que não descarta, naturalmente, a ansiedade, o absurdo, a alienação e, no limite, o desespero humano de que nos falava Soren Kierkgaard e para cujo mal não há cura. Ainda assim, considerava que a morte era um mal menor comparado com o desespero...

O Outono é assim um tempo implacável, pois arrasta-nos para o que queremos e não queremos, partilhando as memórias boas com a más e atravessa-nos com o passado (recente e remoto) como se fosse uma espada a recortar o presente e, de certo modo, a modelar o futuro. Ora, é nesse movimento interior que nos revelamos, que trazemos à superfície o nosso EU - e o pomos em contacto com a morte e o desespero ou a sua perspectiva. 

Por outro lado, este dilúvio outonal, como se fosse uma Aparição (por alusão à obra de Vergílio Ferreira) abre-nos o passado através da memória, e dela parte um cruzamento que pode ser mais ou menos fecundo consoante o conhecimento e a capacidade de correlacionar factos, situações e circunstâncias no caleidoscópio da vida de cada um de nós. Entre a filosofia, a reflexão, o common sense, a criatividade poética e a aguçada memória (romanesca ou não!!) pode sintetizar-se 80 ou 90% de nossas vidas. É nesse carrefour que muitos dos nossos pensamentos, percepções e emoções deambulam no vagão da memória em busca de ordenamento racional que empreste sentido e significado à vida. 

Resultado de imagem para mata de benficaPorventura, e é assim em todos os homens, a condição humana é muito marcada pela ausência, seja por via da morte de alguém especial ou o cárcere forçado imposto por circunstâncias extraordinárias que ora têm reflexo na vida de cada um de nós, ora integram as narrativas romanescas. De resto, e dada a complexidade crescente da condição humana, é cada vez mais difícil isolar a criação ficcional dum pensamento ou duma reflexão filosófica mais estruturada que percorre a memória de cada um de nós e que encontra nos Romances, na Pintura, na Poesia, da Filosofia, no Tempo, na Memória, na Morte ou na Vida - uma unidade de preocupação temática que empresta ritmo ao pensamento e às emoções. 

No fundo, vivemos nessa busca permanente para encontrar a Palavra criadora de mundos capaz de dizer a verdade acerca de nós e daqueles que nos são importantes e capazes de resumir uma vida, ou parte dela mas como se fosse uma vida inteira pela intensidade conseguida. 

Por último, e esta também é uma marca deste Outono astral que sinaliza a transição das estações e pauta toda a condição humana, decorre dum confronto inescapável. Com ele, ou através dele, somos transportados para o desafiante confronto entre dois tempos: o tempo diário, marcado pela espuma dos dias do nosso quotidiano; e o tempo longo e estrutural da memória que abarca e alcance outros horizontes. 

Frequentemente, a nossa vida é profundamente marcada por essa relação tensa entre o tempo curto e mensurável, do aqui e agora, e o tempo longo que empresta um sentido humano à vida, mesmo que façamos promessas abstrusas a meio da ponte - os dados já foram lançados,  e esses foram gravados a lazer na nossa memória que é, segundo a segundo, desafiado com o cheiro a chuva batida na terra seca numa qualquer mata da nossa exisstência.


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segunda-feira

Jungle - Happy Man (Director's Cut)

- UM DIAMANTE SONORO - A NÃO PERDER DE VISTA - 




Happy Man
Jungle
I'm a troubled man, changed by the things I do
True, but it's funny how they all remember you
It all could be different, time to do something new
I've given everything, I want to be a happy man too
Got to understand, blamed by the friends I lose
Who's getting outta hand, do you think they depend on you?
It all could be different, try to do something new
I've given everything, I want to be a happy man too
Buy yourself a dream, how's it looking?
Buy yourself a car and a house to live in
Get yourself a girl, someone different
Buy yourself a dream and it won't mean nothing
Gonna run it 'round, strange but it just won't do, no
When it's coming down, taking a hold on you
It all could be different, try to do something new
Given everything, all to be a happy man too
Buy yourself a dream, how's it looking?
Buy yourself a car and a house to live in
Get yourself a girl, someone different
Buy yourself a dream and it won't mean nothing
Closer
Turning it over
It all could be different
Closer
Time to do something new
I've given everything all to be a happy man too
Buy yourself a dream, how's it looking?
Buy yourself a car and a house to live in
Get yourself a girl, someone different
Buy yourself a dream
No, I won't let it tame or twist me
I just got told that I gotta move on
No, I won't let it tame or twist me
I just got told that I gotta move on
Compositores: Joshua Lloyd-Watson / Thomas McFarland

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domingo

A Arte que nos dá cabo da cabeça

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Não integrando a minha área de formação académica matricial, a Arte e a Sociologia que trata da sua representação foram domínios supletivos de interesse intelectual que me ajudaram a formar a minha visão do mundo. Daí os meus conhecimentos rudimentares sobre esse sector do conhecimento. Daí os meus limites na discussão do tema. 

Dito isto, que é pouco, o país viu-se envolvido numa guerra de alecrim e manjerona a propósito do que é, ou deve ser, a arte e de que como ela deve ser servida aos vários públicos, maiores e menores, elitistas e mais basistas. 

Quando evocamos a Sociologia da Arte falamos de quê, afinal?! Seguramente, trata-se dum domínio de relações mais ou menos reconhecível, nos seus conteúdos e formas que permitem antever certas leituras dessa mesma arte; e perceber que modos de prazer e/ou interpretação os vários públicos fazem dum determinado espólio, e de que como relacionam isso ao seu autor e à sua representação mais global na sociedade. No fundo, cada artista insere-se numa certa filosofia de actuação, que visa influir na estrutura de poder e de representação social do seu tempo, para alterar os mecanismos de formação daquilo que é a cultura, suas formas de dominação, ideologia, e, por via desse conjunto de representações afirmar a sua linha artística e assegurar uma marca na sociedade do seu tempo. 

É isto, no fundo, que cada artista pretende no seu espaço e no seu tempo, ou seja, ele visa moldar a sua circunstância moldando também culturalmente o mundo do seu tempo. E é assim na literatura, na pintura, nas artes plásticas, sendo que cada uma dessas valências interage mais ou menos com as demais. 

Depois, há certos autores que pela sua natureza são mais apegados à expressão sexual do homem do que a outras esferas de representação humana, como a componente cognitiva ou a outros sinais e símbolos do comportamento e da natureza humana. 

E é esse cariz sexual que pode suscitar maior polémica e que levou à demissão dum responsável do museu de Serralves, após ter alegadamente sido contrariado pela Fundação do mesmo nome que lhe terá imposto condições de visionamento da obra que contemplava imagens chocantes de Mapplethorpe e que só poderiam ser vistas por pessoas maiores de 18 anos. Pouco importa aqui debater esses detalhes em concreto, ou as práticas sexuais sadomasoquistas exigidas pelas peças do seu autor. 

Estamos aqui no domínio puro aplicado da cultura, portanto, num domínio em que é fácil politizar uma questão que é primariamente cultural, i.é., convertê-la numa visão política ou populista do que deve ser e para que serve a arte em dado momento. 

No caso concreto da obra de Robert Mapplethorte, podemos inquirir a Fundação de Serralves e o seu próprio curador neste sentido: conhecendo ambos a natureza dessa obra, como é que ambos a aceitam e depois a condicionam?! Quem aceita uma obra depois arroga-se o direito de restringir ou de excluir o visionamento de certas peças? Então, não será curial que esse papel fique a cargo dos pais ou de encarregados de educação dos jovens menores que frequentam esse espaço (?!)...

Seja como for, há males que vêm por bem, esta polémica obrigou Portugal e os portugueses a discutir o que é a Arte, para que serve e como deve ser vista e em que termos. Cair nesta obrigação intelectual sempre é preferível do que vegetar no mundo do comentário da bola, dos programas pimba ou da valoração em torno das transferências milionárias de sopeiras apresentadoras de estações de tv que deambulam entre estações privadas, como se isso fosse algo de relevante para a nação. 

No limite, é da liberdade que falamos: da liberdade intelectual, artística, cultural, e de como ela deve mediada entre artistas, instituições de cultura que a promovem, de pais e de público menor. 

Dando por adquirido que a componente sexual sempre esteve presente na forma de expressão artística, e até a pornografia, deve-se delegar essa opção de escolha ao público, sob pena de incorrermos na defesa duma sociedade paternalista e até retrógrada. Em rigor, tanto podemos supor que uma criança de 16 anos pode ficar chocada ao ver uma imagem que descreve um punho invadir uma vagina, como pensar que essa mesma imagem pode moldar a sua conduta futura em termos de opção profissional que mais tarde fará dela um grande artista. Há, pois, sempre duas (ou mais) leituras possíveis para o mesmo fenómeno e essa versatilidade também decorre da criatividade cultural e estética de cada actor em sociedade. 

Em suma: podemos falar de censura no caso do museu de Serralves? 

Creio que em matéria artística há sempre aqueles que, por força de desejarem criar o seu próprio sistema de signos, simbolos para ordenar o seu campo estético vão sempre contra os valores e regras estabelecidos, e é dessa luta de contrários que o mundo pula e avança... 

E essa também é a história do poder e do contra-poder que percorre o mundo complexo e problemático dos artistas e das instituições de cultura que os promovem. 

Com mais ou menos escândalo e prazer...

- Sendo certo que, no médio e longo prazos, perdem aqueles que visam cercear aquelas opções e liberdades. 


JOSÉ COELHO

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sexta-feira

Ernest Hemingway - na esquina da memória



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Se as duas pessoas se amam uma à outra, não pode haver finAl feliz.
Ernest HemingwAy
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Tempo - por Miguel TORGA

TORGA em busca da eternidade...

Resultado de imagem para tempo, miguel torgaTempo

Tempo — definição da angústia. 
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te 
Ao coração pulsátil dum poema! 
Era o devir eterno em harmonia. 
Mas foges das vogais, como a frescura 
Da tinta com que escrevo. 
Fica apenas a tua negra sombra: 
— O passado, 
Amargura maior, fotografada. 

Tempo... 
E não haver nada, 
Ninguém, 
Uma alma penada 
Que estrangule a ampulheta duma vez! 

Que realize o crime e a perfeição 
De cortar aquele fio movediço 
De areia 
Que nenhum tecelão 
É capaz de tecer na sua teia! 

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem' 
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quinta-feira

Portugal foi o país europeu onde mais desceu a oposição à imigração

Portugal foi o país europeu onde mais desceu a oposição à imigração



Portugal é o país europeu onde a oposição à imigração mais desceu nos últimos três anos, dentro de uma Europa dividida, mas com a maioria dos países em defesa da entrada de imigrantes, revela o Inquérito Social Europeu.
De acordo com os dados mais recentes do Inquérito Social Europeu, foi em Portugal que mais diminuiu a oposição à imigração no período entre 2014 e 2017, logo seguido do Reino Unido.
No inquérito de 2014/2015 foram ouvidos 1.174 portugueses, número que aumentou para 1.184 no inquérito de 2016/2017, e se a média europeia se fixa nos 2,52 (entre 1 para muita oposição e 4 para nenhuma oposição), Portugal consegue ficar nos 2,27 no inquérito mais recente, depois de ter estado nos 2,64.(..) 
in Público
(...) No que diz respeito a Portugal, Alice Ramos frisou que "as pessoas estão mais favoráveis à entrada de imigrantes", ao mesmo tempo que defendem que o Governo deve ser generoso e sensível aos problemas dos refugiados e ao seu acolhimento".
No entanto, dividindo o grupo "imigração", é possível constatar que os portugueses são mais favoráveis à entrada de imigrantes quando eles pertencem à mesma raça ou grupo étnico, com 70% a defender que se deve "deixar vir alguns ou muitos".
Número que muda para pouco mais de 50% quando estão em causa pessoas de raça ou grupo étnico diferente e para os 50% quando são pessoas vindas de países não europeus pobres.
No que diz respeito à percepção dos imigrantes como uma ameaça, "os portugueses, tendencialmente, estão mais inclinados a ver os benefícios da diversidade cultural que os imigrantes trazem do que a ver como aspecto negativo". Algo que se repete para o indicador económico, com os portugueses a entenderem que a vinda destas pessoas é boa para a economia portuguesa.
Relativamente à Europa, é possível constatar que se divide em três grupos, entre os que mantém a posição (caso da Alemanha, Estónia e Eslovénia), os que aumentam a sua oposição à imigração e os que descem.
Alice Ramos admitiu ter ficado surpreendida, já que os dados mostraram uma "generalização da abertura à imigração", com o bloco mais a favor da imigração a incluir Bélgica, Suíça, Espanha, Portugal, Finlândia, França, Reino Unido, Irlanda, Holanda e Noruega.

Não estava à espera que houvesse tantos países a manifestar uma maior abertura porque quando comparamos 2002 com 2014 a tendência era para a estabilidade e agora vemos que há cada vez mais opiniões favoráveis aos imigrantes, mesmo nos países que já eram favoráveis", disse.

Já no outro lado da barricada estão a Áustria, República Checa, Polónia, Itália, Lituânia, Suécia e Hungria, com este último a ser aquele onde mais aumentou a oposição aos imigrantes.

No global, foram ouvidos 34.456 cidadãos europeus, e os resultados vão ser apresentados esta quarta-feira, em Lisboa, por altura da apresentação do consórcio PASSDA, que junta o Arquivo Português de Informação Social, Atitudes Sociais dos Portugueses, Comportamento Eleitoral dos Portugueses.

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Racismo, saber de preconceito e o disco de cores de Newton Um inquérito apresentado numa(s) escola(s) onde se perguntava aos alunos a sua origem étnico/geográfica

ABRANGENTE E MULTICULTURAL. UMA REFLEXÃO COM MUNDO. 







Julgo que, no essencial, os críticos contestam o mesmo, a diferença com base na origem étnica. São, no fundo, racistas multicolores. São racistas porque fazem equivaler a raças as diferenças étnicas. Para eles a humanidade não é formada por grupos de humanos que se adaptaram ao ambiente, que ganharam visões do mundo, criaram deuses e rituais, tons pele, línguas e modos de comunicar.
Esses críticos, normalmente com extensos currículos académicos, vêem a humanidade como nós vemos o disco de Newton a rodar, uniformizado no branco. As cores que constituem o disco são diferenças que só servem para eles afiançarem que somos todos da mesma cor e temos todos a mesma visão do mundo. Que não temos passado. Apenas presente. Para eles as cores continuam a corresponder a raças e vivem desta fé, como os sacerdotes vivem dos demónios, mesmo que só eles os elejam como símbolos do mal. Para o seu exorcismo em nome do racismo, estes esconjuradores contam com os ditos representantes das “minorias” erigidas estas em representes das raças, sempre oprimidas: o resultado é um negócio em que se aproveitam para aparecer, ganhar visibilidade e, em muitos casos, fazer uns negócios em nome da integração e da inclusão, curiosamente de quem eles não reconhecem ser diferentes, porque isso é racismo!
A critica a este tipo de inquéritos revela um antiracismo paradoxal.
Esta categoria de críticos considera que um cigano tem a mesma visão do mundo de um eslavo, que um chinês vê o mundo como um indiano, que um fula da Guiné, islamizado, tem o mesmo Deus de um balanta, animista, que um brasileiro aculturado entre a ascendência africana, índia e portuguesa tem a mesma atitude perante a vida e a morte, o trabalho e o lazer que um chinês, ou um indiano, ou um eslavo. Por isso é condenável perguntar-lhe pelas diferenças!
Esta gente que não distingue diferenças vive neste mundo? Saiu de casa? Trabalha? Passou fronteiras de continentes? Já bebeu chá de cócoras? Comeu bolas de arroz à mão? Sabe o que é um Irã, uma árvore sagrada? O certo é que vendo tudo a branco consegue impor as suas ideias racistas, os seus demónios. Os mesmos para todos! Nada de aceitar os nove círculos propostos por Dante na Divina Comédia, porque seria racismo perguntar de onde vieram os condenados!
Uma anedota exemplifica a atitude destes adeptos do disco de Newton: quando oficialmente terminou o apartheid na África do Sul, as escolas passaram a ser multiétnicas, com alunos brancos e negros nas mesmas salas. A professora, branca, explicou aos alunos que tinha deixado de haver meninos brancos e negros, agora eram todos azuis e terminou: os meninos azuis claros para a frente e os  meninos azuis escuras para o fim.
Conhecer as diferenças de cultura é essencial para a convivência entre os homens. Um chinês não come da mesma maneira que um europeu. O mesmo para um indiano. Os tabus relativamente ao corpo são muito distintos entre um africano subsariano e um magrebino, entre um brasileiro e um eslavo.
Disco de Newton
Perguntar de onde vimos, de onde vieram os nossos pais ajuda entender, a quem quiser estudar essas culturas de origem, o que posso esperar daquele jovem, como o posso ajudar a perceber os outros e ajudar os outros a compreendê-lo. Os adeptos do anti-racismo à moda do disco de Newton consideram um avanço civilizacional relacionarmo-nos sem respeito pelas diferenças, pelo passado, pelas tradições, pelas cosmogonias! Para estes racistas, somos todos como as garrafas de plástico, feitos do mesmo material, vindos do mesmo caldeiro!
“Quando vais ao território dos Kuba não comeces a montar as tuas armadilhas, vê primeiro como eles montam as suas” proverbio dos Lubuva, do Congo. Para estes anti-racistas de alta sensibilidade não há estrangeiros. Também não os colhe a sabedoria dos Tumbuka, da Zâmbia: “O estrangeiro é como uma galinha branca, reconhece-se imediatamente”.
Blasfémias racistas! – gritarão os ofendidos pelas perguntas. E, já agora o que fazer com a proverbial paciência chinesa se não podemos perguntar a um chinês se ele é chinês? E o que fará quem gere uma escola quando lhe entrar pela escola uma família cigana (que não pode ser nomeada) porque um jovem da Europa do Leste quer namorar com uma cigana? Dirão os ofendidos do inquérito que nada se deve perguntar, nada se deve discriminar.
Outra linha das críticas é pseudocientífica. O inquérito não tem validade porque confunde situações que não são equivalentes, ser português diz respeito à nacionalidade e ser cigano é uma pertença étnica, por exemplo. É uma mistificação. Nas comunidades multiétnicas como as escolas e os quartéis, por exemplo, os seus elementos sabem muito bem distinguir-se e entender a pergunta. Sabem mesmo dar a resposta que entenderem mais conveniente. Um exemplo, o doutor Narana Coissoró, numa entrevista tanto se afirmou como português, como indiano brâmane. Como, aliás, embora num registo menos definido, o fez o primeiro-ministro António Costa em viagens à Índia e a Moçambique. E como o fazem vários atletas que escolhem representar a selecção nacional que mais convenha às suas carreiras, a dos pais ou a de nascimento, ou de adopção.
Estes críticos, de grande exigência na definição do elemento definidor, também não aceitariam grupagens do género “africano”, ou “indiano” – africano de onde, um bacongo de Angola é distinto de ovimbundo e este de um macua de Moçambique e este de um ronga que, por sua vez é distinto de um fula islamizado da Guiné. E um russo distingue-se de um polaco. Na realidade estas grupagens, apesar de serem de malha larga, contribuem para gerir melhor as relações entre indivíduos e entre comunidades. Contribuem para gerir conflitos de relacionamento entre sexos, tabus alimentares, conceitos de família e papéis sociais, por exemplo.
A acusação de racista a qualquer tentativa de identificar diferenças (pré-existentes, oriundas da cultura profunda, da superestrutura) entre membros de comunidades com distintos passados e que têm de conviver numa comunidade de outro nível, caso da escola, ou do quartel, ou do bairro é não só ofensiva das comunidades e das suas diferenças, como é perigosa e contra procedente.
Dado que estes espasmos de sensibilidade racista têm uma particular recorrência entre docentes e activistas ligados à educação, e causam nela reacções de “aqui del rei”, como abordará um professor, numa comunidade tratada como o disco branco do Newton, a questão da morte, por exemplo, em que um africano (assim designado com a devida penitência às almas mais sensíveis) animista, que acredita que os mortos continuam presentes na família, se defronta com um hindu crente na reencarnação, mesmo que sob outra forma, de um animal, de um vegetal? E quanto ao papel das mulheres? À monogamia e à poligamia? E à carne de porco, ou ao álcool?
Não se pode, não se deve perguntar de onde vêm os alunos! Mas eles sabem de onde vêm. Eles organizam por origens étnicas. Eles sabem distinguir-se. Eles vivem a realidade. Os ofendidos do inquérito, os adeptos da ilusão do branco do disco de Newton, vivem na deliberada cegueira, na utopia do mundo povoado por bons selvagens, carregados de teses, de títulos doutorais, de verdades retiradas de páginas de sábios também eles mergulhados nas suas conchas.
Viaja pelo mundo e conhecerás os problemas
Provérbio de comerciantes (jilas) fulas (Senegal e Guiné)

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A grande escritora, Maria Lejárraga - que apagou seu nome para que o marido levasse o crédito por suas obras

Nota prévia: O que pode explicar que uma mulher-activista, que lutou para que a consciência feminina mudasse e se alterasse a sua condição civil e social de seres subjugados, se acantonasse à  sombra do marido, o qual veio a recolher todos os louros da sua produção intelectual?! 

E apesar de ter sido deputada na 2ª República, Maria Lejárraga viveu o seu tempo, marcado pela guerra civil espanhola (1936-39), e foi no exílio onde escreveu as suas memórias. 

Todavia, o que me parece mais paradoxal na história deste singular percurso de vida, é que Maria Lejárraga era tudo menos uma mulher tradicional, pois tratava-se duma grande feminista, duma mulher progressista que tinha uma forma de pensar e de actuar muito à frente do seu tempo. Ora, é esta condição que não "casa" com a forma como ocultou depois todo o seu trajecto intelectual e literário na vida do seu marido, permitindo até que este usurpasse o seu talento intelectual e reconhecimento público. 

Como se explica, então, esta atitude e comportamento? 
- por entrega amorosa;
- por uma fidelidade a toda a prova;
- por doença;
- por medo ou uma fatalidade inexplicável.

Seja como for, a vida e obra deste Mulher de excepção deve fazer-nos reflectir sobre quem somos, em que tempo vivemos, o que produzimos e, se tivermos essa capacidade analítica e distanciamento histórico, perguntar-mo-nos o que faríamos no lugar e circunstância de Maria Lejárraga. 

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“Las mujeres deben ser feministas, como los militares son militaristas y como los reyes son  monárquicos; porque si no lo son, contradicen la razón misma de su existencia” 

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A grande escritora que apagou seu nome para que o marido levasse o crédito por suas obras

A editora Renacimiento resgata a obra de María Lejárraga, a mulher que escreveu as obras com as quais o marido, Gregorio Martínez Sierra, conheceu o sucesso. Romancista e dramaturga, morreu pobre e exilada



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Escreveu em silêncio, na solidão entre quatro paredes, longe dos aplausos para as peças que saíam de sua pluma. Seu nome é uma ausência, uma sombra, um vazio e uma história dolorosa. María de la O Lejárraga (San Millán de la Cogolla, 1874 - Buenos Aires, 1974) atravessou um século inteiro e foi uma dessas mulheres brilhantes e pioneiras da Idade de Prata da cultura espanhola. Romancista, dramaturga, ensaísta, tradutora, feminista e, no entanto, ausente das capas de seus livros. O nome que lemos é o de seu marido, Gregorio Martínez Sierra, que recebia elogios nas estreias de Canción de CunaEl Amor Brujo e El Sombrero de Tres Picos, de Manuel de Falla, enquanto a autora e libretista esperava em casa.
Nestes tempos em que a história da criação parece estar reparando esquecimentos e variando a bússola do cânone oficial, a figura de María Lejárraga retorna com sede de justiça poética. A recuperação de seu nome na capa de sua obra é o reconhecimento a uma das mais destacadas autoras de sua época.
Agora a editora Renacimiento publica Viajes de Una Gota de Água, uma coleção de histórias infantis que a autora publicou na Argentina em 1954, quando já vivia no exílio. Juan Aguilera Sastre e Isabel Lizarraga Vizcarra, especialistas na Idade de Prata, são os responsáveis pelo estudo introdutório e dois outros resgates editoriais: Como Sueñan los Hombres a las Mujeres e Tragedia de la Perra Vida y Otras DiversionesTeatro del Exilio (1939-1974).

O reconhecimento era para o marido

Esta edição tem valor especial porque ela aparece com seu nome autêntico: María Lejárraga, como fez a autora, pela primeira e única vez em sua vida, no livro de estreia, Cuentos Breves, publicado em 1899. A irritação que provocou em sua família o fato de que seu nome aparecesse nessa primeira obra foi a razão pela qual ela decidiu se eclipsar.
Quando se casou com Gregorio Martínez Sierra, decidiu se esconder atrás do nome dele. Ambos formaram um dos casais artísticos mais produtivos da época. Gregorio era responsável pela direção das obras e quem ficava com a glória nas estreias. María aceitou esse papel de sombra, como Antonina Rodrigo apropriadamente intitulou sua biografia da autora: María Lejárraja, una Mujer a la Sombra.
Gregorio se ocupava da parte externa da parceria, mas era ela quem escrevia. Às vezes os ensaios eram interrompidos porque María estava escrevendo o último ato da obra assinada por Gregorio Martínez Sierra. Todos sabiam que Lejárraga era a "serviçal" de seu bem-sucedido marido. A tal extremo chegou esta situação que Gregorio fazia discursos feministas escritos pela mulher. Aí está o livro Cartas a las Mujeres de España, em que ela encoraja a liberdade e a independência feminina, embora seu nome não apareça em nenhum lugar. Apesar desse silêncio, Lejárraga chegou a ser deputada socialista na Segunda República, uma experiência que relatou em seu livro Una Mujer por los Caminos de España, escrito no exílio.
María Lejárraga e o marido em sua casa em Madri.
María Lejárraga e o marido em sua casa em Madri. ARCHIVO MANUEL DE FALLA
A história de Lejárraga tem um momento especialmente doloroso. Gregorio se apaixonou pela famosa atriz Catalina Bárcena, com quem teve uma filha. O casamento acabou, mas Lejárraga continuou a colaborar com o marido, escrevendo os livros que ele continuou assinando.
A grande decepção de Lejárraga veio em 1947 com a morte de Gregorio Martínez Sierra, quando a filha de Catalina Bárcena exigiu os direitos autorais do pai. María vivia com poucos recursos no exílio e foi então que reagiu e começou a publicar com seu nome, mas ainda refugiada nos sobrenomes do marido: María Martínez Sierra. E decidiu escrever suas memórias – Gregorio y Yo – onde revela em que consistia a colaboração. Uma obra na qual finalmente saiu do silêncio, embora de forma muito morna.
A filha da amante do marido ficou com os direitos autorais de suas obras
Viajes de una Gota de Água é um livro de melancolia, a lembrança dolorosa de uma exilada: “É um exercício de nostalgia alimentado pela frustração de sentir que seus livros eram proibidos na Espanha e que tampouco encontrava uma maneira de chegar os palcos espanhóis, onde apenas ocasionalmente sua produção anterior era reapresentada”, explicam Juan Aguilera e Isabel Lizarraga.
Com uma dessas histórias, Lejárraga teve outra decepção. Por intermédio de sua tradutora Collice Portnoff, a autora enviou a Walt Disney em 1951 o manuscrito de Merlín y Viviana, que conta a história de um cachorro que se apaixona por uma gata encantadora, que talvez o interessasse para um filme. No entanto, dois meses depois, Disney o devolveu. Em 1955 estreou A Dama e o Vagabundo, cuja história tinha certas semelhanças. Em uma carta à tradutora Lejárraga fala do suposto plágio. “Enviamos a história a Walt Disney, que ficou com ela durante dois meses e a devolveu dizendo que só aceitavam as obras que encomendavam. Em seguida, fez um filme, A Dama e o Vagabundo, que era a mesma história, sem outra mudança além de transformar a gata em uma cadela elegante. Desta vez não quis protestar, para quê?”.
Embora se tenha falado em plágio “as semelhanças são escassas, além do fato de que o projeto de Disney ter começado a tomar forma muito antes de María ter lhe enviado o original”, de acordo com os autores do estudo. Assim foi, mas para María Lejárraga foi outro novo episódio de apropriação de sua obra. Agora, finalmente, aquelas histórias escritas na solidão não esquecem quem foi a verdadeira autora.

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quarta-feira

Da discriminação positiva ou negativa...


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Da discriminação positiva ou negativa...

- À priori, julga-se que o inquérito pode enfermar mais de discriminação negativa do que positiva, apesar de as intenções poderem ter sido as melhores, ou seja, melhorar os métodos de ensino em razão da cor, raça ou étnica.
Mas será que a epistemologia moderna pode dar cobertura a isto!?
- Tenho dúvidas.
- talvez o estudo tenha pretendido quantificar o número de ciganos, africanos, brasileiros, etc existentes nas escolas de Lisboa e Porto.
Seja como for, se o estudo visou fazer o recorte social e étnico dos que integram as escolas portuguesas ou os que abordam a Europa para aí estudar, trabalhar e viver poder-se-ia inquirir os pais se têm formação superior, que especialidades profissionais dominam, ou contratos laborais têm.
Aos filhos, perguntar se possuem iPhones, se falam à família pelo sistema WhatsApp, se declaravam possuir dinheiro para comunicações, recarregamentos, ou ainda se tinham dinheiro para andar de táxi.
Fica, pois, uma ideia para um inquérito futuro assente nesta bateria de questões, as quais, à partida, parecem menos discriminatórias do que as questões formuladas inicialmente.

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"Cigano, africano ou brasileiro?" Pais denunciam "inquérito racista" nas escolas

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A densidade de Nuno Júdice - na esteira do indizível de VF. As palavras no moinho de vento...

Na esteira de VF, Nuno Júdice retrata aqui, com abundante eficácia poética, essa arte difícil de tratar e de detalhar que é destapar o indizível das coisas para emprestar um sentido à incomunicabilidade, porque a linguagem, e todos os seus recursos linguísticos, são sempre limitados para o homem comunicar com o seu semelhante. 
Por vezes, as palavras só atrapalham, como algumas imagens.., mas sem elas também não conseguimos organizar o pensamento e emprestar um caminho para a acção. As palavras, sempre elas, a girar no moinho de vento, com este a bater-nos na cara repleta de cicatrizes que povoam a dura memória e os muros da nossa existência. 

Lembro-me hoje destes dois monstros da cultura nacional: um porque o avistei, o outro porque ainda me lembro do shake hands frio e furtivo algures numa livraria da capital na década de 90 do séc. XX. 

Ficam ambos.
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Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um 
encontro contigo, num sítio em que ambos 
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma 
das ocorrências da vida venha 
interferir no que temos para nos dizer. Muitas 
vezes me lembrei de que esse sítio podia 
ser, até, um lugar sem nada de especial, 
como um canto de café, em frente de um espelho 
que poderia servir de pretexto 
para reflectir a alma, a impressão da tarde, 
o último estertor do dia antes de nos despedirmos, 
quando é preciso encontrar uma fórmula que 
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É 
que o amor nem sempre é uma palavra de uso, 
aquela que permite a passagem à comunicação ; 
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, 
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós 
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio 
ser, como se uma troca de almas fosse possível 
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e 
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas 
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, 
isto é, a porta tinha-se fechado até outro 
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então 
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem 
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar 
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos 
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que 
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por 
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia 
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores 
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos 
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que 
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí 
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, 
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo 
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros. 

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida” 

// Consultar versos e eventuais rimas

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