quinta-feira

arranjinhocosta.pt - por André Macedo -

Nota prévia: André Macedo faz um eficiente apanhado do último mês e meio neste Portugal da novela mexicana da CGD e, agora, complementado pelo folhetim da descida (não consentida pelo BE e PCP) da TSU visando a concertação social sem que, para o efeito, o Governo PS se tenha acertado com aqueles dois partidos que integram a geringonça e viabilizam o seu funcionamento. Ainda é cedo para avaliar se o risco é maior para Passos, ao ter feito o seu volte face relativamente a esta medida que no passado recente aplicou; ou se a geringonça sofre aqui o seu primeiro grande revés.
A sorte de A. Costa é que nesta guerra - o papel do PR, MRS, é também coadjuvante e crucial para o governo. A essa luz Costa e Marcelo funcionam como a bossa do camelo para Passos - e parece não haver dúvidas que o intuito é esmagá-lo. Através do "arranjinho", como sublinha o articulista.

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quarta-feira

Carta aberta de Silva Peneda a Pedro Passos Coelho - por José Silva Peneda -

Nota prévia: Isto não é uma carta ao líder da mais fraca oposição de que há memória no Portugal democrático, é uma encomenda de caixão (político) fino à Servilusa visando a pessoa do sr. Passos Coelho. 




Exmo. Senhor Dr. Passos Coelho
Presidente do Partido Social Democrata
Maia, 17 de janeiro de 2017
A decisão anunciada por V. Ex.ª, de que o grupo parlamentar do PSD votará contra um dos pontos do acordo celebrado em sede de concertação social fere muito gravemente a identidade do PSD e atenta contra o seu património. Ora, é sabido que quando se começa a alienar património, normalmente o que se segue é a falência.
Qualquer força política só tem credibilidade se for capaz de se apresentar na base de um conjunto de valores coerentes entre si e que a diferencia de todas as outras.
O PSD nasceu em condições muito difíceis, sem beneficiar de apoios internacionais, e cresceu com base num entusiástico apoio popular, muito assente nas classes médias e em muitos portugueses do meio rural.
"É sabido que quando se começa a alienar património, normalmente o que se segue é a falência."
Os valores fundamentais que caracterizam a identidade do PSD são a liberdade, valor supremo para a plena realização do ser humano; a valorização da chamada sociedade civil, em que o PSD é a força política que melhor soube encarnar o pensamento do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, quando este escreveu: "Tanto do Estado quanto seja necessário, tanto da liberdade cívico-política quanto seja possível"; a importância do papel da classe média, pois o PSD desde o início percebeu que uma sociedade desenvolvida pressupõe uma classe média pujante; a existência de estabilidade política, como elemento basilar para o desenvolvimento; e uma visão de modernidade na forma de governar assente na valorização e no desenvolvimento de uma cultura de compromisso.
Ao contrário de outras forças políticas de origem marxista que querem impor as suas verdades, na base de uma pretensa vitória de uma classe social sobre as outras, o PSD, como partido interclassista que é, sempre entendeu que as melhores soluções para os problemas do país devem ser estudadas, analisadas, discutidas e decididas atendendo aos diversos interesses envolvidos. O crescimento económico e o desenvolvimento não resultam da ação de uns poucos, mas sim do esforço conjugado de muitos.
A concertação social é, por isso, um património do PSD, e prova disso tem sido o papel dos seus governos no desenvolvimento dessa plataforma de entendimento.
"Aceito o facto de o governo ter agido com ligeireza, não assegurando condições para assinar o acordo."
Sobre o recente acordo de concertação aceito o facto de o governo ter agido com ligeireza, não cuidando de assegurar que dispunha de todas as condições para assinar o acordo. Também aceito que se possa discordar da solução, relativamente ao desconto da taxa social única para os beneficiários do salário mínimo, muito embora eu próprio, como titular da área social em dois governos de Cavaco Silva, tenha adotado soluções idênticas, para ajudar a atenuar problemas relacionados com grupos sociais mais desfavorecidos em termos de acesso ao emprego como foram os casos dos jovens, dos desempregados de longa duração e dos deficientes, ou para serem aplicadas em regiões mais afetadas por crises económicas e sociais, como aconteceu na península de Setúbal e no Vale do Ave.
Mas tenho muita dificuldade em aceitar que, de forma direta e objetiva, o meu partido vote ao lado de forças políticas que nunca valorizaram a concertação social, nem o diálogo entre as partes, porque sempre tiveram uma conceção totalitária de exercício do poder.
"Tenho dificuldade em aceitar que o meu partido vote ao lado de quem nunca valorizou a concertação social"
Dos valores que atrás identifiquei como fazendo parte do património do PSD, um deles tem estado esquecido. Refiro-me à importância da classe média, fortemente fustigada durante a aplicação do programa da troika. Neste ponto, não me assiste o direito de responsabilizar exclusivamente o PSD, porque a criação de condições para essa desvalorização tem as suas raízes em governos do PS, mas também não deixa de ser verdade que os governos presididos por V. Ex.ª não evidenciaram sinais evidentes de preocupação com a derrocada que se abateu sobre grande parte da classe média no nosso país.
Mas agora, com a decisão anunciada por V. Ex.ª, a situação é pior porque o PSD criará uma rotura numa das suas bases identitárias, atentará contra o seu próprio património político e contra muito dos seus tradicionais apoiantes que estão nas pequenas e médias empresas, nas instituições particulares de solidariedade social, nas Misericórdias e em sindicatos da UGT.
"A decisão anunciada por V. Ex.ª criará [no PSD"
O PSD só foi um partido de roturas quando sentiu que algum dos seus valores fundamentais se encontrava ameaçado e, nessas alturas, soube portar-se com muita coragem e foi entendido pelos portugueses.
Os portugueses sempre identificaram o PSD como o partido que busca de forma incessante o compromisso.
É em nome desta componente ideológica e de toda uma coerente prática passada, baseada em valores que identificam o PSD como o partido português autenticamente social-democrata, que apelo a V. Ex.ª para que mude de opinião.
Cumprimentos.
José A. da Silva Peneda
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segunda-feira

Mário Soares 1924-2017. Já pode ser estátua - por Daniel Oliveira -

Nota prévia: Uma reflexão lúcida e realista por Daniel Oliveira que merece meditação.

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As escolhas que Soares fez, que lhe garantiram sempre novos inimigos, marcam a história de Portugal nos últimos 50 anos. Daniel Oliveira explica porquê, (in Expresso, link)





O maior elogio que posso fazer a Mário Soares é aquele que poucos farão por estes dias, em que a canonização simula consensos que nunca existiram: ele está entre as figuras mais odiadas e mais amadas deste País. Como apenas acontece aos políticos que fazem escolhas difíceis. E as escolhas que Soares fez, que lhe garantiram sempre novos inimigos, marcam a história de Portugal nos últimos 50 anos. Soares escolheu o combate ao fascismo e os saudosistas não o suportam. Escolheu a descolonização e os retornados odeiam-no. Escolheu a democracia liberal e a CEE e os comunistas não lhe perdoam. E cada escolha sua deixou tanto ressentimento por ser quase sempre decisiva para o que somos hoje. Tem a sua cota-parte de culpa em tudo o que de bom e de mau nos aconteceu desde o 25 de Abril. Essa é a qualidade que ninguém lhe pode tirar: não é inocente de nada. Felizmente, porque não há maiores inúteis do que os políticos que se banham nas águas puras das ideias e morrem sem culpa nem obra.
Com o papel que teve na nossa história, Mário Soares nunca se pôde dar ao luxo da coerência absoluta e da mera declaração de princípios. Isso é para os homens de religião. O seu percurso, as suas lealdades, até as suas convicções foram muitas vezes sinuosas, tendo apenas a democracia como único valor constante, o que não é pouco. Houve o Soares da austeridade de 1983 e o que combateu a austeridade de 2011. O que meteu o socialismo na gaveta e o que tirou, já na velhice, o radicalismo do armário. O que escolheu o lado dos EUA na Guerra Fria e se manifestou contra os EUA na guerra do Iraque. O que se abraçou a Cunhal no Aeroporto da Portela e combateu Cunhal na Fonte Luminosa. O que fez dupla com Zenha e enfrentou Zenha, foi amigo de Alegre e conspirou contra Alegre. O que foi desleal com os amigos de sempre e o que levou a lealdade para lá do limite da sanidade na prisão de Sócrates. Não foi apenas porque a realidade mudou e só os burros não mudam. Foi porque Soares sempre foi mais pragmático do que ideológico.
Enquanto o corpo deixou, Soares manteve-se em cena, sem nunca deixar que o transformassem numa figura de museu. Acreditou que todo o tempo de vida era o seu tempo. Na sua reeleição para Belém, em 1991, tinha conseguido 70% dos votos. Era o pai querido da Nação, principal referência política e moral da democracia portuguesa. Mas, com 80 anos, não teve medo de descer de um pedestal com que poucos poderiam sonhar para se candidatar de novo à Presidência. A política que reencontrou era muito diferente, com uma comunicação social muito mais agressiva do que no passado e um escrutínio muito mais apertado. Este já não era, afinal, o seu tempo.
Não vou fingir que venho do lado de onde vem Soares. Não me revia no que na sua vida foi excesso de tática e intuição e pouco de estratégia e convicção. No vício da política que valeu sempre mais do que a própria política. Mas tenho por Soares a admiração que se tem por quem foi intransigente na defesa da democracia e nunca quis ser uma estátua de si mesmo. Mesmo quando a estátua que estava encomendada, e que lhe era totalmente devida, era de pai fundador da nossa democracia. Como todas as contradições e erros que se exigem a quem faz questão de deixar uma marca da sua passagem pela vida, Soares mudou Portugal. E mudou-o para melhor. Agora sim, podemos erguer a estátua.

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domingo

MÁRIO SOARES (1924-2017) Mário Soares, um esboço biográfico (Parte 1) - por Vasco Pulido Valente -


Nota prévia: Um grande artigo biográfico de MS por VPV

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O Diário de VPV
A carreira de Mário Soares não teve nada de particularmente notável até 1962. Como muito boa gente começou aos vinte anos pelo PC, atraído pela aventura (e os perigos dela), pelo radicalismo e pelo facto simples de não existir na oposição qualquer outra alternativa. Com o PC e pelo PC trabalhou no MUD e, a seguir, na candidatura de Norton de Matos à Presidência da República. A “colaboração” com os comunistas, se assim se pode chamar, porque ele chegou a dirigente, não resistiu à ineficiência e à intolerância geral da seita. Em 1950, é expulso do “Partido” por “indisciplina” e “derrotismo”.
Isto, que lhe deu tempo para acabar de se formar em Histórico-Filosóficas e começar o curso de Direito, também o deixou isolado e sem destino político evidente. Fora a actividade platónica de um pequeno círculo de advogados da Baixa, não havia nesse tempo desértico nada a que ele pudesse aplicar a sua habilidade e energia política. De quando em quando, lá vinha um abaixo-assinado ou protesto de personalidades, que no fundo só serviam para actualizar os ficheiros da PIDE. A oposição foi um incómodo para a Ditadura, mas nunca foi uma verdadeira ameaça. Certamente sem grande esperança e por puro desemprego cívico, Soares funda em 1955, a Resistência Republicana com uma dezena de amigos, que não se distinguiu por coisa alguma na vida política portuguesa; e adere ao Directório Democrático Social de três figuras venerandas da democracia (António Sérgio, Jaime Cortesão e Azevedo Gomes), que eram um símbolo mais do que uma força.
Entretanto o mundo mudava. Em 1958, aparece surpreendentemente a candidatura de Humberto Delgado (com o apoio de Soares), que revelou ao melancólico país da Ditadura a extensão e a fúria de uma boa parte da população. E, em 1962, a chamada “crise académica”, para grande estupefacção dos próceres do regime, veio provar que nem com os filhos da burguesia podiam contar. Infelizmente, as relações entre os dirigentes da “crise” e Mário Soares não foram boas. Primeiro, por culpa dos dirigentes da “crise”, que com uma ridícula arrogância desprezavam a “velha” oposição republicana (mas não o PC). Eles mobilizavam de um dia para o outro milhares de estudantes, tinham uma espécie de imprensa (em stencil), tinham instalações, tinham automóveis e tinham dinheiro. E o que tinham os democratas da Baixa, excepto 30 anos de mal empregada indignação e de conspirações falhadas? Mas, fora isso, que já não era pouco, o pessoal do movimento académico, quando não militava no Partido Comunista, exibia – por competição e para defesa própria – um radicalismo que Soares já várias vezes rejeitara. A geração de 1962 ficou por isso longe da social-democracia europeia e do futuro PS até muito depois do “25 de Abril”.
De qualquer maneira estas pequenas questões domésticas interessavam pouco perante a guerra de África, que em 1961 começou em Angola. Dos políticos portugueses com uma certa notoriedade só Soares percebeu que a Ditadura deixara de ser um pequeno problema de um país pequeno e sem influência para se tornar um problema internacional, em que tarde ou cedo as grandes potências se envolveriam. A oposição já não se fazia, ou devia fazer, em Lisboa ou no Alentejo, mas na América e na Europa, principalmente na Europa. Em 1962, Soares transformou a Resistência Republicana em Resistência Republicana Socialista e, em 1964, criou na Suíça a Acção Socialista Portuguesa, uma maneira hábil de se ir ligando aos grandes partidos europeus.
Estabelecer a credibilidade da oposição portuguesa num Ocidente anticomunista e desconfiado era uma extraordinária tarefa para um extraordinário homem. Sem a sobre-humana simpatia e a sobre-humana confiança de Mário Soares talvez fosse impossível. Mas, pouco a pouco, ele conseguiu; e Salazar percebeu. O regime não se inquietava excessivamente com a agitação da Baixa ou com um ou outro protesto de estudantes, nem sequer com as raras greves que o PC ia promovendo. Mas Soares falando à solta na América, na Alemanha ou em Inglaterra, era um risco real, ainda por cima com uma guerra em curso e sendo ele advogado do general Humberto Delgado, que a PIDE matara. Salazar não hesitou em o desterrar para S. Tomé.
Quando ascendeu a Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, provavelmente para mostrar o seu duvidoso liberalismo, arranjou uma tranquibérnia jurídica para permitir que Soares voltasse a Portugal. Voltou e imediatamente concorreu à eleição para a Assembleia Nacional (como na altura se chamava o “parlamento”) com uma lista de gente socialista ou próxima do socialismo, rompendo com a tradição de “unidade” anti-salazarista sob a qual o Partido Comunista se disfarçava sempre. Mais do que isso. Marcelo prometera eleições “honestas” (que evidentemente o não seriam) e Mário Soares trouxe a Portugal um grupo de inspectores da Internacional Socialista, que as declararam falsas. Dali em diante, a presença em Portugal do homem que o denunciara em público como mentiroso e que lhe retirara qualquer espécie de legitimidade era intolerável para Marcelo Caetano. Ameaçando Soares com a prisão e o desterro, Marcelo conseguiu que ele ficasse num exílio forçado até 1974. Mas perdeu mais com esta manobra do que ganhou. Por uma vez relativamente livre, Soares tinha tempo e meios para expandir e fortalecer a ASP, que em 1972 a Internacional Socialista admitiu como membro pleno; e para escrever um livro, o “Portugal Amordaçado”, publicado em francês. Mas nem nestes anos de solidão se aproximou dos novos “resistentes”, que haviam fugido à PIDE, à guerra e a Penamacor (uma unidade penal), e que em Paris se deixaram absorver pelo “renascimento marxista”, conduzido por um louco, Louis Althusser, que acabou por se proclamar um profeta e matar a mulher. De revista para revista, esta gente discutia com ódio teológico as miudezas da sua fé, enquanto Soares tratava do que era importante e consequente.
Por essa altura, já o império soviético se começava a desfazer. A Europa de Leste e a própria URSS estavam endividadas ao Ocidente até ao pescoço e a URSS, em particular, não queria pagar uma segunda Cuba ao dr. Álvaro Cunhal e mesmo depois do “25 de Abril” foi parca com o PCP e crítica da política “revolucionária”. A Europa ocidental, pelo contrário, ainda não sentia a gravidade da sua decadência e abria a porta a um (ainda modesto) alargamento. Soares já se tornara parte dessa Europa. Conheceu Brandt, Schmidt, Callaghan, Nenni, Mitterrand e a generalidade das grandes personagens que, tarde ou cedo, decidiriam do nosso destino.
Em 1973, fundara o PS na Alemanha, com dinheiro alemão e o patrocínio do SPD, e no dia em que desembarcou em Santa Apolónia não desembarcava sem apoios, sem um instrumento e sem um papel. Havia muita força sob a sua aparente fraqueza.
(continua)
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sexta-feira

Pensar out of box: evocação de Charles Bukowski


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Esperamos e esperamos. Todos nós. Não saberia o analista que a espera é uma das coisas que faziam as pessoas ficarem loucas? Esperavam para viver, esperavam para morrer. Esperavam para comprar papel higiênico. Esperavam na fila para pegar dinheiro. E, se não tinham dinheiro, precisavam esperar em filas mais longas. A gente tinha de esperar para dormir e esperar para acordar. Tinha de esperar para se casar e para se divorciar. Esperar para comer e esperar para comer de novo. A gente tinha de esperar na sala de espera do analista com um monte de doidos, e começava a pensar se não estava doido também.
Charles Bukowski

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quinta-feira

Donald Trump poderá vir a ser o Miguel de Vasconcelos à portuguesa. A rocha Tarpéia


Donald Trump poderá vir a ser o Miguel de Vasconcelos à portuguesa 
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D. Trump, consabidamente, é um tipo rico, soberbo e guiado pela avareza. Tudo nele destila pecado capital. Até na ignorância e impreparação (técnica e cultural) essa bestialidade avulta como trovão na terra. Tanto é capaz de elogiar Putin como acusar os seus serviços de pirataria informática de interferir no funcionamento do partido democrata, como agora veio a reconhecer (finalmente!!), e cujo facto penalizou Hilary Clintou e beneficiou a sua própria campanha eleitoral  e, quiça, o resultado final global. I.é, Trump reconheceu a batota eleitoral de que foi o principal e único beneficiário. 

Resultado de imagem para donald trump houseQuando tomar posse, se o fizer, não será difícil antecipar os erros, as acusações, os conflitos, as blasfémias, as tensões que o sujeito mais impreparado na sala oval e da história da América irá cometer, a propósito e a despropósito de qualquer tema ou assunto: da China ao Irão, da base das Lajes à Síria passando pelas relações com o México - onde prometeu construir um novo muro de Berlim dos tempos modernos mas agora, curiosamente, só está disposto a lá colocar uma rede anti-mosquitos. 

- Tenho para mim que D. Trump é tão ignorante que nem com o mapa diante dos olhos consegue soletrar os países e arrumá-los na sua relação de alianças internacionais, o que não surpreende, já que sendo o americano médio um ignorante crónico na área da geografia - Trump fará, na perfeição, jus a essa condição de ignorante geopolítico de eleição desta nova América que opera em regime de pós-verdade, como ora se diz.

- Daqui decorrem algumas consequências na vida política de Trump: ou há um milagre e consegue cumprir um mandato, mas os milagres em política são mesmo um milagre, por isso raramente ocorrem; ou ele  nem sequer chegará a tomar posse pelo colégio eleitoral que o irá empossar; ou, uma vez empossado, os erros serão tantos, tão graves e a toda a hora que Trump se tornará na chacota global, na anedota planetária que cairá de podre ao cabo de uns meses de mandato. Seja a propósito das relações com a China, em que já recuou a propósito de Taiwan (Formosa), ou no quadro do combate ao terrorismo, ou ainda no contexto das ligações transatlânticas e com a Europa e a NATO.

- Portanto, não será difícil enquadrar Trump na rocha Tarpéia que era, na Roma Antiga, o local onde eram realizadas as execuções, com as vítimas a serem literalmente jogadas dessa rocha para a morte. 

Alguém ainda se lembrará de Miguel de Vasconcelos, que tomou posição a favor da Dinastia Filipina (como Secretário de Estado) contra Portugal em matéria de esbulho fiscal, e talvez por essa razão foi, depois de morto, defenestrado, i.é, atirado pela janela - a 1 de Dezembro de 1640 - do Paço da Ribeira para o Terreiro do Paço. 

Pergunto-me o que irá acontecer a D. Trump nos próximos tempos... 

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quarta-feira

A história é um conjunto de desatinos modelada pelo imprevisto e o risco: Sá Carneiro e Mário Soares


O que seria o futuro do futuro se o presente e o passado tivessem tido mais justiça e dignidade entre nós?

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O que é a história? Lato senso, é tudo o que se refere ao desenvolvimento das comunidades humanas: acontecimentos, factos, manifestações da actividade humana no passado que tendem ou ajudam a explicar e a compreender o presente.

- Imaginemos, por uns instantes, o que teria sido o futuro e a face de Portugal caso o acidente (ou atentado!?) de Camarate que vitimou Sá Carneiro (e outras personalidades da vida pública nacional) não tivesse ocorrido?

- De forma talvez grosseira, atrevo-me a sugerir que Cavaco jamais teria sido PM de Portugal durante uma década seguida (e talvez não passasse de ministro das Finanças de SC), como foi; Sá Carneiro poderia ter preenchido esse papel durante uns anos; o papel de Mário Soares, por seu turno, quer como PM e depois como PR, também poderia ter sido diferente, amputado (com diminuição de algum protagonismo, como veio a ter); e a história do país ter assumido - em algumas áreas ou sectores da economia e da sociedade - uma dinâmica diferente. 

Para melhor, para pior? Não o sabemos.

- Só sabemos que...  


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... o futuro - pessoal e colectivo de Portugal - teria sido seguramente diferente. 

- Felizes daqueles que morrem de morte natural, fruíram duma vida longa e deixaram um legado.

- Infelizes daqueles que morrem antes do tempo e, sobretudo, num país em que a miséria da Justiça espelha bem a justiça da miséria que temos, que nem os crimes - ou alegados crimes cometidos conseguem ser apurados e as respectivas responsabilidades (civis e criminais) devidamente imputadas aos agentes criminosos. 

- A justiça é em Portugal um verdadeiro cancro que penaliza seriamente a vida das pessoas, das empresas e do tecido conjuntivo da economia nacional. 

- O futuro já é uma tremenda incerteza e risco. Nunca sabemos se regressamos a casa quando saímos. Mas a justiça que tem minado a coesão social deste Portugal contemporâneo em nada ajuda à clarificação dos "mistérios" que ainda hoje se abatem sobre a cabeça colectiva do povo português que, depois de ser esmagado, empobrecido e embrutecido por 40 anos de ditadura salazarista - nem sequer ter direito a saber o resultado dos alegados crimes praticados em solo nacional. Ou seja, a justiça em Portugal tem negado ao povo o acesso à verdade. 

- É que a resposta a esta questão poderia refazer todo o futuro que se seguiu a 1980, ainda que a opção pela integração europeia fosse tão desejada por Mário Soares como por Sá Carneiro. 

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terça-feira

Soares é fixe? Dizem que sim - por Paulo Baldaia -




Resultado de imagem para mário soares e a descolonizaçãoNota prévia: Eis um artigo que gostaria de ter escrito acerca da figura mais relevante da nossa vida democrática, goste-se ou não de Mário Soares, tenhamos votado ou não nele como sublinha, e bem, Paulo Baldaia (aqui). 
- Mas foi por ele, em larga medida (de par com os militares e os capitães de Abril, com Salgueiro Maia à cabeça) que a democracia pluralista se instituiu sobre os escombros de 40 anos de ditadura salazarista, a unicidade sindical desapareceu (com muita pena do PCP..), se acelerou o processo de descolonização (que poderia, "talvez", ter sido mais bem negociado e gradualista) e se caminhou, a passos largos, para a integração de Portugal na então C.E.E. que permitiu aos 10 anos de cavaquismo subsequentes, i.é, de 1985-95 - modernizar o país por via da construção de estradas e pontes, escolas e hospitais e inúmeras infra-estruturas que modificaram a face de Portugal e nos tornaram um país distinto da Albânia ou da Roménia - que seria o modelo de organização social e económico preconizado pelo centralismo democrático adoptado pelo PCP de Cunhal, que recebia as directivas de Moscovo e as pretendia impor no rectângulo. 

- Soares foi, sem dúvida, o grande travão a essa deriva totalitária do PCP liderado por Cunhal, e talvez tenha sido esse o seu principal activo aliado ao processo de estabilização da democracia pluralista, que é, consabidamente, mais sensível do que uma flor. Também por isso o PCP, o da altura como o actual, tivesse odiado Soares toda a vida. 

Como diria alguém: todos gostaram de Mário Soares, só que esse processo não foi ao mesmo tempo. E como Mário Soares viveu quase um século (um século!!) apanhou todos, ou quase todos, nesse processo de arrasto político e psico-afectivo. Pois mesmo aqueles que nunca votaram nele devem sentir nisso mais uma incapacidade e uma frustração do que uma virtude ou uma vantagem.

Pois lá no fundo, lá bem no fundo.., e pondo de lado os interesses familiares, pessoais e corporativos (se é que isso alguma vez será possível fazer), por parte dos opositores a MS - há uma certa frustração pela queda do império, pela consequente perda de estatuto e de qualidade de vida dessa categoria de pessoas e de quadros que asseguravam a gestão ultramarina - que a manutenção das colónias e do império permitia beneficiar e perpetuar. 

Mas isso ia contra os ventos (de mudança) da História - cuja força soprava da Assembleia Geral da ONU e que implicava, no curto prazo, juntamente com a política externa norte-americana e soviética pró-independência africana - uma descolonização rápida, maciça e, em inúmeros casos, feita com armas, gritos e muito, muito sangue. Mas essa responsabilidade não pode - nem deve - assacar-se a MS - mas sim à  ditadura e à sua incapacidade em planear a negociação das independências de modo pacífico e concertado com todos os agentes envolvidos no processo. Mas mesmo que isso tivesse acontecido, nenhumas garantias teríamos que não houvesse sangue decorrente das guerras civis que se seguiram na chamada África portuguesa. 

Naturalmente, alguns ignorantes que desconhecem a história e as teorias sociais e políticas que a enquadram e padecem de saudosismo (para não lhes chamar uns "pequenos fascistas de trazer por casa que vegeta no chamado "engraçadismo" nas redes sociais"!!) jamais conseguirão compreender os ventos da história e as dinâmicas das relações internacionais, pelo que se torna mais fácil arranjar um bode expiatório em Soares (enquanto negociador da descolonização), mas cuja responsabilidade deveria ser assacada a Salazar e, na parte final do regime, a Marcello Caetano (que foi um grande académico), mas uma nulidade como político. 

Com estas linhas espero não ter estragado a reflexão do articulista que é um dos mais brilhantes jornalistas políticos portugueses que republico abaixo.

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segunda-feira

O espectáculo da morte numa República que parece uma Monarquia

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Monarquia e República. A luta pela LIBERDADE
- Pelo que me é dado ouvir via rádio - e com o devido respeito pelas opiniões mais infundadas (até no plano histórico) relativamente ao falecimento do dr. Mário Soares (que ainda tem o fardo dos efeitos da descolonização às costas, e que é uma história ainda mal contada..., porque se lhe assacam responsabilidades que devem ser imputadas à ditadura) - começo a ficar baralhado se a nossa república é já uma monarquia...
- Sendo certo que a "presidencialização do regimen" por Marcelo irá reforçar essa tendência ou regra não escrita na nossa Constituição.
- Uma coisa é certa: morreu uma era em Portugal cuja vida de Mário Soares - pela sua longevidade e sempre em nome do combate pela LIBERDADE - conseguiu atravessar três séculos. E isso é obra.

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A ascensão da nova ignorância e a democracia como fragilidade - por José Pacheco Pereira -

Nota prévia: Vale a pena ler esta peça de sociologia da cultura e da comunicação contemporânea - de Pacheco Pereira - que baliza a espuma dos nossos dias. É um autentico banho de cultura que ajuda a descodificar muitos dos usos, práticas e vícios da vida moderna. 

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José Pacheco PereiraA ascensão da nova ignorância e a democracia como fragilidade


, in Público - 
O artigo que precedeu o actual, sobre a “nova ignorância”, suscitou todas as reacções esperadas, muitas das quais nem justificam resposta, porque não são críticas ao que eu disse, mas ao que eu não disse. Há excepções e nesse caso voltaremos a elas, como é o caso da crítica de António Guerreiro de que o “meio” inquina o conteúdo, logo uma crítica da natureza da que faço à questão da ignorância não pode ser feita nos jornais. Guerreiro admite que a contradição que aponta se aplica a si próprio, mas vale a pena discutir essas críticas, feitas na tradição de Karl Kraus, e que contêm um problema quando generalizadas ao debate racional em democracia, por escasso que seja. O mesmo se aplica à tradição crítica oriunda da chamada “escola de Frankfurt” e de um marxismo assente nos primeiros textos de Marx.
Há também o problema da relação da antiga e nova ignorância e se tem sentido falar em “nova” ignorância e sobre a sua caracterização, questões que justificam ser mais discutidas, assim como saber se o que se passa é apenas uma evolução de novas (in)competências que não justificam ser desvalorizadas ou anatemizadas.
A maioria das críticas, algumas, insisto, que nem merecem esse nome, é feita a posições que não são as que defendo. Aliás, nalguns casos, acusando-me de posições que são explicitamente negadas no artigo. Muitas das críticas têm a habitual agressividade de quem pensa que está a ser moderno ou que emigrou para as redes onde encontra uma sociabilidade que lhe basta e uma fama paroquial entre pares, e por isso considera-se visado na nova ecologia onde “existe”. É penoso ver pequenas personagens que vivem no Twitter entre variantes do mau engraçadismo e a coluna social da irrelevância e que estão muito contentes consigo próprias, com o aconchego de uma pequena corte de ecos. O mal é do Twitter? Em si não é, como não é da Internet, nem do telemóvel, nem das aplicações, nem de nada. Repito-me: recuso “a crença de que são as novas tecnologias que estão a mudar a sociedade. É o contrário. É a mudança da sociedade que potencia o uso de determinadas tecnologias, que depois acentuam os efeitos de partida”.
Basta compreender isto que estou sempre a repetir, para se perceber que a acusação de ludismo também não tem pés nem cabeça. Sejam bem-vindos todos os devices, todos os gadgets, todas as máquinas, desde que não as liguem ao meu corpo, ao meu sistema nervoso, nem à minha cabeça, se não forem próteses, pacemakers, bombas de insulina, etc. Como com os químicos, sempre que seja o meu comportamento e a minha autonomia que está em causa, há um problema. Claro que a morfina pode ser particularmente bem recebida, mas não preciso de estar a enunciar excepções, quando se percebe bem o que quero dizer.
Um exemplo de que é o uso social e não o gadget que conta é o telemóvel. Voltemos à nova ignorância, com exemplos daquele que é o principal instrumento de mudança da sociabilidade, o telemóvel. Há dois mecanismos em que o telemóvel, em conjugação próxima com a autopublicação nas redes sociais, exerce efeitos socialmente perversos: a prevalência do controlo em relação à comunicação e a perda da privacidade. São efeitos conjugados todos associados a uma espécie de presentificação da vida, uma obrigação, cuja ausência é socialmente punida, de estar sempre presente, de estar sempre a responder a telefonemas ou mensagens que fazem o efeito dos velhose pings destinados a saber se dois equipamentos estavam ligados. Quem envia um ping espera um pong, e isso é que explica os biliões de telefonemas, mensagens de sms, ou no Whats App que são o contínuo ruído de fundo de uma nova sociabilidade e que representam novas formas de controlo. Comunicar no sentido de enviar ou de fornecer uma informação útil é um uso muito minoritário, face ao enviar o ping do “onde estás?” ou qualquer outra variante, que é controlo.
O mesmo “recuo” se dá na privacidade e no seu valor, com o retorno nas redes sociais à sociabilidade da aldeia, ao mundo pequeno e claustrofóbico onde se sabe tudo sobre todos, onde todos se revelam, expõem, justificam e cometem inconfidências sobre si próprios e outros, sem reserva e discrição, valores em desuso.
Também nunca falei de jornais bons versus redes sociais más. Bem pelo contrário, há anos que digo que o nosso jornalismo é de péssima qualidade e, pior ainda, que mais do que a pressão totalitária de fora o risco para as democracias vem de uma usura do espaço público que vem de dentro e que também é recente na sua dimensão, porque acompanha o acesso das “massas” a consumos materiais e “espirituais” que ocorrem desde o início do século XX e foram potenciados por conquistas sociais como o tempo livre pago. Fenómenos como a publicidade e a propaganda, ou mecanismos cada vez mais sofisticados de manipulação da opinião acompanham este processo, mas, para o que penso ser uma democracia, tem de haver circulação de informação mediada profissionalmente, pelas mesmas razões, repito-me, que não troco um médico por um curandeiro.
Por isso, também é verdade que por muito maus que muitos órgãos de comunicação social sejam, são infinitamente melhores do que as redes sociais como fontes de informação. O que disse e digo é que o que falta é “edição”, ou seja, a aplicação de regras profissionais que transformam um evento numa notícia. Existe uma ideologia nessas regras, tais como são aplicadas? Existe, mas também existe ideologia quando não o são.
A rasoira da complexidade, a redução de tudo ao preto e branco facilita como é óbvio uma contestação fácil. Por exemplo, nunca disse que as razões do crescendo populista se encontram nas redes sociais. Explicitamente neguei-o, mas não vale a pena. Cito-me “[A nova ignorância] não explica, nem é a causa de nenhum destes fenómenos, mas é sua parente próxima e faz parte da mesma família.” É mais simples responder ao que não disse do que ao que disse. O que disse é que as redes sociais são um importante reservatório desse populismo e um mecanismo de ampliação “as redes sociais, que, não sendo a causa do populismo, são um seu grande factor de crescimento e consolidação”. Não é o mesmo, pois não? E por aí adiante.
Há um ponto essencial no que escrevi e escrevo que é o que me interessa desenvolver. E esse ponto não precisa de nenhuma sofisticação, é um modus vivendi, é uma escolha precária e débil, impressionista e muito pouco intelectualizada.
Tenho a posição, que é eminentemente subjectiva, ou seja, cultural, de que a democracia, entendida como uma conjugação entre a vontade popular, a lei e o direito, e o melhorismo social, é a única forma que temos de viver razoavelmente. Tenho também a posição de que se trata de uma opção cultural, uma escolha que contraria tudo, a natureza, todas as variantes de darwinismo social, a sociobiologia, o Id do dr. Freud, a seta da história de Marx e as múltiplas variantes actuais da TINA (“there is no alternative”). É, digamos, uma suspensão volitiva, assumida colectivamente, de que é melhor viver assim do que de qualquer outra maneira. Por ser apenas isto é de uma fragilidade extrema, é a excepção à regra, uma violação da entropia, que talvez por isso dure pouco ou seja sempre minoritária, já que imperfeita é certamente. Não produz uma qualquer teleologia da história, nem emana dela, mas também não é uma utopia, porque circunstancialmente na história existiu e existe por mera vontade dos homens.
É uma posição minimalista que reconhece todas as forças e todos os poderes, muito mais “naturais”, mas que se centra na ideia, que me parece moralmente satisfatória, de que só há uma possibilidade de “paraíso” e ele é terrestre, e que o único mecanismo político aceitável é o que assenta no “bem comum”, seja lá o que isso for. “Seja lá o que isso for”, mas, repito, quando não há, sabemos todos que não há. Não é sequer o churchilliano “menos mau de todos os regimes”, porque, quando existe, não é mau, é bom. É uma manifestação social e socializada do “milk of human kindness” de Shakespeare. Parte, no fundo, da consciência da finitude, da morte, do carácter único da vida e da vontade de a viver o melhor possível.
Esta ideia da democracia é particularmente ameaçada pela ignorância, como por todas as formas de pobreza material e espiritual.
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