Umberto Eco: "No momento em que todos têm direito à palavra na internet, temo-la dada aos idiotas"
Nota prévia: Sempre que vejo uma referência a Umberto Eco, seguramente um dos maiores filósofos (e estetas) contemporâneos (e com uma variedade de interesses alargada), lembro-me sempre daquele sujeito que conduzia o seu carro pelas ruas de Lisboa à procura de acidentes de viação. Quando via um parava e deslocava-se ao local para ver o sangue e os contornos do acidente. Isso alimentava-lhe o ego e dava-lhe pasto para o dia. Fazia isso sistematicamente. Mais do que um vício, era um gosto, um capricho e depois tornou-se num vício, além do futebol e dos jogos na consola dos então velhinhos computadores amstrads. Esta atracção pelo abismo de nós próprios - desviando-nos o olhar e a reflexão pelos aspectos verdadeiramente importantes e essenciais à vida - é que faz de muitos de nós autênticos idiotas. E esses idiotas estão hoje bem patentes nas redes sociais, na blogosfera e, naturalmente, também fora dela, que é onde começa sempre o "crime" da futilidade, da insustentável leveza dos pensamentos, das preocupações e de grande parte daquilo que as pessoas hoje pensam, dizem e escrevem. As pessoas hoje pouco mais fazem do que mostrar-se, pavonear-se nas imagens que delas fazem, mas a esse excesso de narcisismo corresponde, naturalmente, um brutal défice de formação cultural, histórica, social, económica, estética e o mais que, aliás, espelha aquilo que também alimenta os new media. As pessoas não gostam de assumir isto porque tal implica assumir a sua própria fealdade, mas, infelizmente, Eco tem razão. E só por isso vale bem uma missa de Domingo, ou duas... Mais importante do que a Grécia antiga é, para alguns, muitos infelizmente, as selfies que as pessoas tiram de si mesmas. Mesmo que desconheçam boa parte da geografia e da história e cultura que os embrulha na sua própria futilidade. Umberto Eco: "No momento em que todos têm direito à palavra na internet, temo-la dada aos idiotas"
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Talvez o mais simples e o mais fácil de compreender-se seja o argumento da Causa Primeira. (Afirma-se que tudo o que vemos neste mundo tem uma causa e que, se retrocedermos cada vez mais na cadeia de tais causas, acabaremos por chegar a uma Causa Primeira, e que a essa Causa Primeira se dá o nome de Deus). Esse argumento, creio eu, não tem muito peso hoje em dia, em primeiro lugar porque causa já não é bem o que costumava ser. Os filósofos e os homens de ciência têm martelado muito a questão de causa, e ela não possui hoje nada que se assemelhe à vitalidade que tinha antes; mas, à parte tal fato, pode-se ver que o argumento de que deve haver uma Causa Primeira é um argumento que não pode ter qualquer validade. Posso dizer que quando era jovem e debatia muito seriamente em meu espírito tais questões, eu, durante longo tempo, aceitei o argumento da Causa Primeira, até que certo dia, aos dezoito anos de idade, li a Autobiografia de John Stuart Mill, lá encontrando a seguinte sentença: “Meu pai ensinou-me que a pergunta ‘Quem me fez?’ não pode ser respondida, já que sugere imediatamente a pergunta imediata: ‘Quem fez Deus?’” Essa simples sentença me mostrou, como ainda hoje penso, a falácia do argumento da Causa Primeira.
Se tudo tem de ter uma causa, então Deus deve ter uma causa. Se pode haver alguma coisa sem uma causa, pode muito bem ser tanto o mundo como Deus, de modo que não pode haver validade alguma em tal argumento. Este, é exatamente da mesma natureza que o ponto de vista hindu, de que o mundo se apoiava sobre um elefante e o elefante sobre uma tartaruga, e quando alguém perguntava: “E a tartaruga?”, o indiano respondia: “Que tal se mudássemos de assunto?”. O argumento, na verdade, não é melhor do que este. Não há razão pela qual o mundo não pudesse vir a ser sem uma causa; por outro lado, tampouco há qualquer razão pela qual o mesmo não devesse ter sempre existido. Não há razão, de modo algum, para se supor que o mundo teve um começo. A idéia de que as coisas devem ter um começo é devido, realmente, à pobreza de nossa imaginação. Por conseguinte, eu talvez não precise desperdiçar mais tempo com o argumento acerca da Causa Primeira. 




