quarta-feira

Portugal FEDE. Manipulação dos motivos e interesses da classe política vs national interest



A Habilidade Específica do Político
A habilidade específica do político consiste em saber que paixões pode com maior facilidade despertar e como evitar, quando despertas, que sejam nocivas a ele próprio e aos seus aliados. Na política como na moeda há uma lei de Gresham; o homem que visa a objectivos mais nobres será expulso, excepto naqueles raros momentos (principalmente revoluções) em que o idealismo se conjuga com um poderoso movimento de paixão interesseira. Além disso, como os políticos estão divididos em grupos rivais, visam a dividir a nação, a menos que tenham a sorte de a unir na guerra contra outra. Vivem à custa do «ruído e da fúria, que nada significam». Não podem prestar atenção a nada que seja difícil de explicar, nem a nada que não acarrete divisão (seja entre nações ou na frente nacional), nem a nada que reduza o poderio dos políticos como classe. 


Bertrand Russell, in 'Ensaios Cépticos: A Necessidade do Ceptcismo Político' 

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Obs: Nada como citar o maior filósofo da política do séc. XX, Sir Bertrand Russel, para enquadrar esta questão, a qual permite compreender, no domínio da manipulação das paixões das massas, o modo como os agentes políticos mitigam as suas motivações, objectivos, razões e interesses pessoais com os supostos interesses nacionais. Ainda que esta deriva tenha sido, com mais propriedade, estudada e desenvolvida por Gustave Le Bon. 

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quinta-feira

Recuperação de Sir Bertrand Russel


É sempre útil regressar aos ensinamentos de Bertrand Russel para compreendermos melhor o tempo em que vivemos. 

No passado, os homens vendiam-se ao Demónio para conseguir poderes mágicos. Actualmente, eles adquirem esses poderes através da ciência e sentem-se compelidos a tornar-se demónios:


- como é possível desmantelar o Estado social sem sucedâneo à altura, o que potencia a pobreza e a emigração compulsiva em larga escala e a falência de empresas e consequente destruição de emprego;
- como é possível fazer leis em flagrante violação do espírito e da letra da Constituição da República Portuguesa, com a agravante de ter a benção de Belém, uma outra cabeça da serpente nessa imensa hidra;
- como é possível ter-se atingido o grau de conivência entre Estado, banca e alta administração, leia-se o BdP (vis-à-vis BES, BPN, BPP, etc) - cujo papel é regular e não comportar-se como o polícia mau que à noite se mascara no assalto final;
- como foi possível manter ministros no Governo, como Miguel Relvas, que condensavam em si todas as corruptelas e vícios que uma sociedade civilizada rejeita;
- como foi possível meter em S. Bento um sujeito que não conhece os problemas do país, não tinha (e não tem) preparação para a governação e apenas governa sob a lei férrea do imposto constante e progressivo dinamizado pela má fé, pelo dolo, pela violação da CRP e pela obsessão contra a generalidade dos portugueses, denunciando um padrão de patologia política digna de estudo.

Um tipo assim jamais deveria gerir o que quer que fosse, nem uma retrosaria de bairro em falência.

Estamos, pois, diante do maior  logro e embuste da nossa história política do pós-25A.

Eis o quadro que nos subtrai a esperança para um mundo melhor. A menos que o poder possa ser domado e posto ao serviço, não deste ou daquele grupo de interesses, desta ou daquela personalidade promovida pelo governo ainda no poder, deste ou daquele fanático ultraliberal, mas de todos os portugueses, sem excepção: brancos, negros, comunistas, fascistas, salazaristas, passistas, e, claro, também, democratas. 

Uma vez que a ciência tornou inevitável que tudo tem de viver ou tudo tem de morrer. 

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segunda-feira

Evocação de Bertrand Russel, o maior filósofo do séc. XX

Porque não sou cristão
A EXISTÊNCIA DE DEUS, Bertrand Russel
Esta questão da existência de Deus é assunto longo e sério e, se eu tentasse tratar do tema de maneira adequada, teria de reter-vos aqui até o advento do Reino dos Céus, de modo que me perdoareis se o abordar de maneira um tanto sumária. Sabeis, certamente, que a Igreja Católica estabeleceu como dogma que a existência de Deus pode ser provada sem ajuda da razão. É esse um dogma um tanto curioso, mas constitui um de seus dogmas. Tiveram de introduzi-lo porque, em certa ocasião, os livre-pensadores adotaram o hábito de dizer que havia tais e tais argumentos que a simples razão poderia levantar contra a existência de Deus, mas eles certamente sabiam, como uma questão de fé, que Deus existia. Tais argumentos e razões foram minuciosamente expostos, e a Igreja Católica achou que devia acabar com aquilo. Estabeleceu, por conseguinte, que a existência de Deus pode ser provada sem ajuda da razão, e seus dirigentes tiveram de estabelecer o que consideravam argumentos capazes de prová-lo. Há, por certo, muitos deles, mas tomarei apenas alguns.
O ARGUMENTO DA CAUSA PRIMEIRA
Blockquote Talvez o mais simples e o mais fácil de compreender-se seja o argumento da Causa Primeira. (Afirma-se que tudo o que vemos neste mundo tem uma causa e que, se retrocedermos cada vez mais na cadeia de tais causas, acabaremos por chegar a uma Causa Primeira, e que a essa Causa Primeira se dá o nome de Deus). Esse argumento, creio eu, não tem muito peso hoje em dia, em primeiro lugar porque causa já não é bem o que costumava ser. Os filósofos e os homens de ciência têm martelado muito a questão de causa, e ela não possui hoje nada que se assemelhe à vitalidade que tinha antes; mas, à parte tal fato, pode-se ver que o argumento de que deve haver uma Causa Primeira é um argumento que não pode ter qualquer validade. Posso dizer que quando era jovem e debatia muito seriamente em meu espírito tais questões, eu, durante longo tempo, aceitei o argumento da Causa Primeira, até que certo dia, aos dezoito anos de idade, li a Autobiografia de John Stuart Mill, lá encontrando a seguinte sentença: “Meu pai ensinou-me que a pergunta ‘Quem me fez?’ não pode ser respondida, já que sugere imediatamente a pergunta imediata: ‘Quem fez Deus?’” Essa simples sentença me mostrou, como ainda hoje penso, a falácia do argumento da Causa Primeira.
Se tudo tem de ter uma causa, então Deus deve ter uma causa. Se pode haver alguma coisa sem uma causa, pode muito bem ser tanto o mundo como Deus, de modo que não pode haver validade alguma em tal argumento. Este, é exatamente da mesma natureza que o ponto de vista hindu, de que o mundo se apoiava sobre um elefante e o elefante sobre uma tartaruga, e quando alguém perguntava: “E a tartaruga?”, o indiano respondia: “Que tal se mudássemos de assunto?”.
O argumento, na verdade, não é melhor do que este. Não há razão pela qual o mundo não pudesse vir a ser sem uma causa; por outro lado, tampouco há qualquer razão pela qual o mesmo não devesse ter sempre existido. Não há razão, de modo algum, para se supor que o mundo teve um começo. A idéia de que as coisas devem ter um começo é devido, realmente, à pobreza de nossa imaginação. Por conseguinte, eu talvez não precise desperdiçar mais tempo com o argumento acerca da Causa Primeira.

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