sábado

Evocação de Vergílio Ferreira

Narrativas do Tempo



De tempos a tempos regresso a Vergílio Ferreira como quem regressa a algo que se gostou, gosta ou se vai continuar a gostar. Algo que coze a estrutura ternária do Tempo (passado-presente-futuro) fundindo-o num Tempo só, mesmo sabendo tratar-se dum exercício impossível.

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Vive o Dia de Hoje!

Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora. Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro. 

Vergílio Ferreira, in "Escrever"

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domingo

Evocação de Sto Agostinho: o Tempo é o espaço onde as coisas acontecem

O tempo é uma variável psicológica mas também um sério problema metafísico para o qual não há racionalização cabal. Ele existe dentro e fora de nós. Para Sto Agostinho não há tempos futuros nem passados. É incorrecto dizer: os tempos são três: Pretérito, Presente e Futuro. Mas talvez fosse próprio dizer - os tempos são em número de três: presente das coisas passadas, presente dos presentes, presente dos futuros.

Faz sentido esta reposição de Sto Agostinho porque quando olhamos para o passado fazêmo-lo sempre com as lentes do presente, e isso interfere com os factos que efectivamente acorreram no passado e que agora só o são porque mediados pela nossa mente do presente.
Daí a razão do sábio e doutor da Igreja quando sistematizava esses três tempos: 1) a lembrança presente das coisas passadas; 2) a visão presente das coisas presentes; 3) e a esperança presente das coisas futuras.

Nesta linha mais rigorista acerca do tempo Sto Agostinho ensina-nos que o que existe é, de facto, a primazia do presente em relação ao passado e ao futuro. Ou seja, o tempo não tem existência fora da nossa mente, anda associado ao homem, existe dentro das nossas mentes. Se não existirmos o tempo também não tem lugar em nossas mentes, senão na consciência de outros homens onde terá razão de ser a sua estrutura tripartida entre passado, presente e futuro.
Ou seja, o TEMPO é, ou deverá ser, um imenso passado-presente-futuro todos fundidos numa quarta categoria que ainda não inventámos, mas desconfiamos poder existir. Embora seja uma existência para a qual ainda não temos relógio, é ainda um tempo a aguardar base de medição neste tempo que passa.
O tempo é o espaço onde as coisas acontecem. Sto Agostinho tinha razão. A razão do tempo.
A razão do futuro neste jogo de inter-futuros pensado no presente.
Santo Agostinho: Filosofia da Idade Média

Igreja Medieval

Gregorian - Ordinary world

Alan Parsons Project "TIME"

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