segunda-feira

Mário Soares 1924-2017. Já pode ser estátua - por Daniel Oliveira -

Nota prévia: Uma reflexão lúcida e realista por Daniel Oliveira que merece meditação.

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As escolhas que Soares fez, que lhe garantiram sempre novos inimigos, marcam a história de Portugal nos últimos 50 anos. Daniel Oliveira explica porquê, (in Expresso, link)





O maior elogio que posso fazer a Mário Soares é aquele que poucos farão por estes dias, em que a canonização simula consensos que nunca existiram: ele está entre as figuras mais odiadas e mais amadas deste País. Como apenas acontece aos políticos que fazem escolhas difíceis. E as escolhas que Soares fez, que lhe garantiram sempre novos inimigos, marcam a história de Portugal nos últimos 50 anos. Soares escolheu o combate ao fascismo e os saudosistas não o suportam. Escolheu a descolonização e os retornados odeiam-no. Escolheu a democracia liberal e a CEE e os comunistas não lhe perdoam. E cada escolha sua deixou tanto ressentimento por ser quase sempre decisiva para o que somos hoje. Tem a sua cota-parte de culpa em tudo o que de bom e de mau nos aconteceu desde o 25 de Abril. Essa é a qualidade que ninguém lhe pode tirar: não é inocente de nada. Felizmente, porque não há maiores inúteis do que os políticos que se banham nas águas puras das ideias e morrem sem culpa nem obra.
Com o papel que teve na nossa história, Mário Soares nunca se pôde dar ao luxo da coerência absoluta e da mera declaração de princípios. Isso é para os homens de religião. O seu percurso, as suas lealdades, até as suas convicções foram muitas vezes sinuosas, tendo apenas a democracia como único valor constante, o que não é pouco. Houve o Soares da austeridade de 1983 e o que combateu a austeridade de 2011. O que meteu o socialismo na gaveta e o que tirou, já na velhice, o radicalismo do armário. O que escolheu o lado dos EUA na Guerra Fria e se manifestou contra os EUA na guerra do Iraque. O que se abraçou a Cunhal no Aeroporto da Portela e combateu Cunhal na Fonte Luminosa. O que fez dupla com Zenha e enfrentou Zenha, foi amigo de Alegre e conspirou contra Alegre. O que foi desleal com os amigos de sempre e o que levou a lealdade para lá do limite da sanidade na prisão de Sócrates. Não foi apenas porque a realidade mudou e só os burros não mudam. Foi porque Soares sempre foi mais pragmático do que ideológico.
Enquanto o corpo deixou, Soares manteve-se em cena, sem nunca deixar que o transformassem numa figura de museu. Acreditou que todo o tempo de vida era o seu tempo. Na sua reeleição para Belém, em 1991, tinha conseguido 70% dos votos. Era o pai querido da Nação, principal referência política e moral da democracia portuguesa. Mas, com 80 anos, não teve medo de descer de um pedestal com que poucos poderiam sonhar para se candidatar de novo à Presidência. A política que reencontrou era muito diferente, com uma comunicação social muito mais agressiva do que no passado e um escrutínio muito mais apertado. Este já não era, afinal, o seu tempo.
Não vou fingir que venho do lado de onde vem Soares. Não me revia no que na sua vida foi excesso de tática e intuição e pouco de estratégia e convicção. No vício da política que valeu sempre mais do que a própria política. Mas tenho por Soares a admiração que se tem por quem foi intransigente na defesa da democracia e nunca quis ser uma estátua de si mesmo. Mesmo quando a estátua que estava encomendada, e que lhe era totalmente devida, era de pai fundador da nossa democracia. Como todas as contradições e erros que se exigem a quem faz questão de deixar uma marca da sua passagem pela vida, Soares mudou Portugal. E mudou-o para melhor. Agora sim, podemos erguer a estátua.

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domingo

MÁRIO SOARES (1924-2017) Mário Soares, um esboço biográfico (Parte 1) - por Vasco Pulido Valente -


Nota prévia: Um grande artigo biográfico de MS por VPV

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O Diário de VPV
A carreira de Mário Soares não teve nada de particularmente notável até 1962. Como muito boa gente começou aos vinte anos pelo PC, atraído pela aventura (e os perigos dela), pelo radicalismo e pelo facto simples de não existir na oposição qualquer outra alternativa. Com o PC e pelo PC trabalhou no MUD e, a seguir, na candidatura de Norton de Matos à Presidência da República. A “colaboração” com os comunistas, se assim se pode chamar, porque ele chegou a dirigente, não resistiu à ineficiência e à intolerância geral da seita. Em 1950, é expulso do “Partido” por “indisciplina” e “derrotismo”.
Isto, que lhe deu tempo para acabar de se formar em Histórico-Filosóficas e começar o curso de Direito, também o deixou isolado e sem destino político evidente. Fora a actividade platónica de um pequeno círculo de advogados da Baixa, não havia nesse tempo desértico nada a que ele pudesse aplicar a sua habilidade e energia política. De quando em quando, lá vinha um abaixo-assinado ou protesto de personalidades, que no fundo só serviam para actualizar os ficheiros da PIDE. A oposição foi um incómodo para a Ditadura, mas nunca foi uma verdadeira ameaça. Certamente sem grande esperança e por puro desemprego cívico, Soares funda em 1955, a Resistência Republicana com uma dezena de amigos, que não se distinguiu por coisa alguma na vida política portuguesa; e adere ao Directório Democrático Social de três figuras venerandas da democracia (António Sérgio, Jaime Cortesão e Azevedo Gomes), que eram um símbolo mais do que uma força.
Entretanto o mundo mudava. Em 1958, aparece surpreendentemente a candidatura de Humberto Delgado (com o apoio de Soares), que revelou ao melancólico país da Ditadura a extensão e a fúria de uma boa parte da população. E, em 1962, a chamada “crise académica”, para grande estupefacção dos próceres do regime, veio provar que nem com os filhos da burguesia podiam contar. Infelizmente, as relações entre os dirigentes da “crise” e Mário Soares não foram boas. Primeiro, por culpa dos dirigentes da “crise”, que com uma ridícula arrogância desprezavam a “velha” oposição republicana (mas não o PC). Eles mobilizavam de um dia para o outro milhares de estudantes, tinham uma espécie de imprensa (em stencil), tinham instalações, tinham automóveis e tinham dinheiro. E o que tinham os democratas da Baixa, excepto 30 anos de mal empregada indignação e de conspirações falhadas? Mas, fora isso, que já não era pouco, o pessoal do movimento académico, quando não militava no Partido Comunista, exibia – por competição e para defesa própria – um radicalismo que Soares já várias vezes rejeitara. A geração de 1962 ficou por isso longe da social-democracia europeia e do futuro PS até muito depois do “25 de Abril”.
De qualquer maneira estas pequenas questões domésticas interessavam pouco perante a guerra de África, que em 1961 começou em Angola. Dos políticos portugueses com uma certa notoriedade só Soares percebeu que a Ditadura deixara de ser um pequeno problema de um país pequeno e sem influência para se tornar um problema internacional, em que tarde ou cedo as grandes potências se envolveriam. A oposição já não se fazia, ou devia fazer, em Lisboa ou no Alentejo, mas na América e na Europa, principalmente na Europa. Em 1962, Soares transformou a Resistência Republicana em Resistência Republicana Socialista e, em 1964, criou na Suíça a Acção Socialista Portuguesa, uma maneira hábil de se ir ligando aos grandes partidos europeus.
Estabelecer a credibilidade da oposição portuguesa num Ocidente anticomunista e desconfiado era uma extraordinária tarefa para um extraordinário homem. Sem a sobre-humana simpatia e a sobre-humana confiança de Mário Soares talvez fosse impossível. Mas, pouco a pouco, ele conseguiu; e Salazar percebeu. O regime não se inquietava excessivamente com a agitação da Baixa ou com um ou outro protesto de estudantes, nem sequer com as raras greves que o PC ia promovendo. Mas Soares falando à solta na América, na Alemanha ou em Inglaterra, era um risco real, ainda por cima com uma guerra em curso e sendo ele advogado do general Humberto Delgado, que a PIDE matara. Salazar não hesitou em o desterrar para S. Tomé.
Quando ascendeu a Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, provavelmente para mostrar o seu duvidoso liberalismo, arranjou uma tranquibérnia jurídica para permitir que Soares voltasse a Portugal. Voltou e imediatamente concorreu à eleição para a Assembleia Nacional (como na altura se chamava o “parlamento”) com uma lista de gente socialista ou próxima do socialismo, rompendo com a tradição de “unidade” anti-salazarista sob a qual o Partido Comunista se disfarçava sempre. Mais do que isso. Marcelo prometera eleições “honestas” (que evidentemente o não seriam) e Mário Soares trouxe a Portugal um grupo de inspectores da Internacional Socialista, que as declararam falsas. Dali em diante, a presença em Portugal do homem que o denunciara em público como mentiroso e que lhe retirara qualquer espécie de legitimidade era intolerável para Marcelo Caetano. Ameaçando Soares com a prisão e o desterro, Marcelo conseguiu que ele ficasse num exílio forçado até 1974. Mas perdeu mais com esta manobra do que ganhou. Por uma vez relativamente livre, Soares tinha tempo e meios para expandir e fortalecer a ASP, que em 1972 a Internacional Socialista admitiu como membro pleno; e para escrever um livro, o “Portugal Amordaçado”, publicado em francês. Mas nem nestes anos de solidão se aproximou dos novos “resistentes”, que haviam fugido à PIDE, à guerra e a Penamacor (uma unidade penal), e que em Paris se deixaram absorver pelo “renascimento marxista”, conduzido por um louco, Louis Althusser, que acabou por se proclamar um profeta e matar a mulher. De revista para revista, esta gente discutia com ódio teológico as miudezas da sua fé, enquanto Soares tratava do que era importante e consequente.
Por essa altura, já o império soviético se começava a desfazer. A Europa de Leste e a própria URSS estavam endividadas ao Ocidente até ao pescoço e a URSS, em particular, não queria pagar uma segunda Cuba ao dr. Álvaro Cunhal e mesmo depois do “25 de Abril” foi parca com o PCP e crítica da política “revolucionária”. A Europa ocidental, pelo contrário, ainda não sentia a gravidade da sua decadência e abria a porta a um (ainda modesto) alargamento. Soares já se tornara parte dessa Europa. Conheceu Brandt, Schmidt, Callaghan, Nenni, Mitterrand e a generalidade das grandes personagens que, tarde ou cedo, decidiriam do nosso destino.
Em 1973, fundara o PS na Alemanha, com dinheiro alemão e o patrocínio do SPD, e no dia em que desembarcou em Santa Apolónia não desembarcava sem apoios, sem um instrumento e sem um papel. Havia muita força sob a sua aparente fraqueza.
(continua)
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quarta-feira

A história é um conjunto de desatinos modelada pelo imprevisto e o risco: Sá Carneiro e Mário Soares


O que seria o futuro do futuro se o presente e o passado tivessem tido mais justiça e dignidade entre nós?

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O que é a história? Lato senso, é tudo o que se refere ao desenvolvimento das comunidades humanas: acontecimentos, factos, manifestações da actividade humana no passado que tendem ou ajudam a explicar e a compreender o presente.

- Imaginemos, por uns instantes, o que teria sido o futuro e a face de Portugal caso o acidente (ou atentado!?) de Camarate que vitimou Sá Carneiro (e outras personalidades da vida pública nacional) não tivesse ocorrido?

- De forma talvez grosseira, atrevo-me a sugerir que Cavaco jamais teria sido PM de Portugal durante uma década seguida (e talvez não passasse de ministro das Finanças de SC), como foi; Sá Carneiro poderia ter preenchido esse papel durante uns anos; o papel de Mário Soares, por seu turno, quer como PM e depois como PR, também poderia ter sido diferente, amputado (com diminuição de algum protagonismo, como veio a ter); e a história do país ter assumido - em algumas áreas ou sectores da economia e da sociedade - uma dinâmica diferente. 

Para melhor, para pior? Não o sabemos.

- Só sabemos que...  


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... o futuro - pessoal e colectivo de Portugal - teria sido seguramente diferente. 

- Felizes daqueles que morrem de morte natural, fruíram duma vida longa e deixaram um legado.

- Infelizes daqueles que morrem antes do tempo e, sobretudo, num país em que a miséria da Justiça espelha bem a justiça da miséria que temos, que nem os crimes - ou alegados crimes cometidos conseguem ser apurados e as respectivas responsabilidades (civis e criminais) devidamente imputadas aos agentes criminosos. 

- A justiça é em Portugal um verdadeiro cancro que penaliza seriamente a vida das pessoas, das empresas e do tecido conjuntivo da economia nacional. 

- O futuro já é uma tremenda incerteza e risco. Nunca sabemos se regressamos a casa quando saímos. Mas a justiça que tem minado a coesão social deste Portugal contemporâneo em nada ajuda à clarificação dos "mistérios" que ainda hoje se abatem sobre a cabeça colectiva do povo português que, depois de ser esmagado, empobrecido e embrutecido por 40 anos de ditadura salazarista - nem sequer ter direito a saber o resultado dos alegados crimes praticados em solo nacional. Ou seja, a justiça em Portugal tem negado ao povo o acesso à verdade. 

- É que a resposta a esta questão poderia refazer todo o futuro que se seguiu a 1980, ainda que a opção pela integração europeia fosse tão desejada por Mário Soares como por Sá Carneiro. 

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terça-feira

Profusão de boletins clínicos do ex-PR

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A profusão de boletins clínicos acerca da vida do ex-PR não aproveita a ninguém: aqueles que gostam ou veneram o ex-PR não ficam satisfeitos porque tarda a sua recuperação; aqueles que querem ver o dr. Mário Soares pelas costas - também nunca mais atingem o seu momento zen, pois o fundador do PS teima em agarrar-se à vida.

Neste up & down que tipifica bem a ciclotimia lusa - talvez aquele senhor de nariz curioso que lê diariamente os boletins clínicos do paciente, sob ordem da família, talvez - digo eu - devesse calar-se por uns dias.

Aos vivos e lúcidos resta aguardar a lógica natural das coisas. Aliás, nada mais nos resta senão AGUARDAR.

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domingo

Mário Soares vive com intensidade. Parabéns pelas 90 primaveras




Nenhuma outra personalidade da nossa vida pública foi tão marcante no Portugal contemporâneo como Mário Soares, agora a completar 90 primaveras (noventa!!!). No decurso do fascismo salazarista viveu exilado (um exílio dourado, é certo!!). Mas foi em França, que lutou por um Portugal livre, democrático, moderno e desenvolvido. Enquanto uns se exilaram, porque não hesitaram em criticar o regime ditatorial de António Oliveira outros, como Cavaco, assinavam fichas da PIDE para puderem continuar a fazer estudos de doutoramento no Reino Unido. Soares criticou e combateu a ditadura, outros, como Cavaco, foram-lhe criminosamente cúmplices. E nisto, Cunhal igualou Soares na luta pela Liberdade (embora divergissem depois na definição do projecto de sociedade e de organização da economia). Souberam ambos, Cunhal e Soares, estar à altura das circunstâncias e do seu tempo. 

Depois, Mário Soares foi Primeiro-Ministro (1976-77 e em 1983-85), tempo de estadia do FMI em Portugal, um tempo de austeridade, embora sem a gravidade da intrusão da troika entre nós. Então, bastou desvalorizar a moeda para fazer os ajustamento económico e facilitar as exportações e acomodar os salários; hoje, Passos Coelho esbulha os salários às pessoas, potencia o desemprego, densifica a emigração económica e empobrece estruturalmente o país. É tudo pior relativamente ao contexto de austeridade em que Soares foi PM, há 30 anos...

Num terceiro momento, Mário Soares marcou o ritmo de Portugal na década que esteve em Belém, na qualidade de PR (1986-96), um tempo que culminou com a aventura restauradora da Expo-98, em que a capital - no plano urbanístico e cultural - se renovou e abriu ao Mundo. Soares, assim como Guterres, representaram a imagem dum Portugal novo, rebelde, capaz de se renovar e reinventar fazendo, assim, ius a um passado glorioso em que Portugal deu novos mundos ao Mundo, evocando a gesta dos Descobrimentos dos portugueses maiores de 1500. E aqui pontificam também dois nomes grandes da nossa cultura, ainda que filiados em campos políticos opostos: António Mega Ferreira (PS) e Vasco Graça Moura (PSD) - ambos os idealizadores da Expo-98. 

Por outro lado, Soares sempre combateu uma certa forma tecnocrática e cinzenta de fazer política, nessa medida foi o arqui-rival de Cavaco, a ponto deste considerar Soares a força de bloqueio de Belém que o impedia de governar e de reformar o país. O resultado viu-se: Portugal cresceu em betão e em número de jeeps dos jovens agricultores e da corrupção na aplicação dos fundos sociais europeus (que nunca foram devidamente fiscalizados), mas não se qualificou. Foi o Portugal cavaquista cuja factura hoje os 10 milhões de portugueses estão a pagar caro. 

Soares aparece, pois, associado a estas fases da economia e da democracia portuguesa. Quer na sua qualidade de PM, de PR ou ainda da de homem de cultura que, com alguns excessos, vai fazendo erguer a sua voz junto dos que não têm vox. A esta luz, Soares foi - e é - uma espécie de "poder dos sem poder" - evocando o ex-PR checo, Vaclav Havel. 

Hoje está com 90 anos, por vezes articula mal o seu pensamento, mas nunca se deixa calar perante as adversidades: seja para apoiar um amigo, vide o caso de Sócrates, seja para criticar a cumplicidade criminosa de Belém relativamente à delapidação económica que este Governo de incompetentes e ultra-liberal está a fazer à economia nacional: desmantelar o Estado social e a privatizar tudo, sem regra nem visão estratégica para o país. Na calha está a privatização da TAP, e o ministro da economia, que é um inepto, ainda não se apercebeu que o sector do Turismo, uma vaca sagrada, poderá sair fortemente penalizado com essa privatização.

Cunhal, talvez a única personalidade política da dimensão de Soares, viveu sem conhecer o futuro próximo do seu país, morrendo na incerteza dos tempos; Soares, que sempre defendeu um modelo de sociedade democrática, livre, representativa e pluralista (diferente da de Cunhal, que alinhava pelo modelo político do leste e foi sempre contra o projecto europeu!!!) - merece viver o tempo que lhe resta sabendo qual o futuro que Portugal irá trilhar nos próximos anos. 

Este seria, na minha perspectiva, a justiça que o tempo e a circunstância deviam legar a Mário Soares: um homem frontal, que cometeu erros e excessos (até na descolonização), mas que nunca deixou de afirmar as suas convicções, mesmo nos momentos de maior adversidade. E é nestas circunstâncias que se conhecem os verdadeiros homens públicos.

Cavaco, que não tem nenhum passado antifascista, nunca poderá ombrear com Soares um lugar na história, ainda que aquele não faça outra coisa senão viver e trabalhar em função desse desiderato, ao invés de Soares que diz o que pensa e vive verdadeiramente em função das suas convicções. Quer na Fonte Luminosa, em 1975, ou em Évora, em 2014, Mário Soares é sempre ele próprio, logo com afirmações e contradições.

Se antes era o modelo de sociedade e de organização económica e política que estava em causa, hoje, na defesa do ex-PM, em Évora, talvez não seja tanto a questão da legalidade que está em causa (cujos detalhes desconhece), mas a circunstância de se sentir o chefe duma tribo que está  finar-se e precisa, quase na antecâmara da morte, de afirmar a sua liderança, paternidade (e legado) relativamente aos seus filhos politico-partidários e ideológicos. É nisso que Soares joga toda a sua vida. Por isso também vive a vida intensamente, e será assim até aos dias do Fim. Até ao fim dos seus dias.

Parabéns, Dr. Soares. Venham mais cinco...
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A coerência de Mário Soares, Link

Rui ramos

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terça-feira

Mário Soares chama os "bois" pelos nomes

MÁRIO SOARES
O TEMPO E A MEMÓRIA

Quadragésimo aniversário, DN

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Secas e os tufões - por Mário Soares -

1- Há meses li um livro que depois comentei num artigo, por me ter impressionado muito. Intitulava-se: "Dez mil milhões, enfrentando o nosso futuro", cujo autor Stephen Emmott, é um reputado cientista que chefia um grupo de novos cientistas que trabalham em Cambridge num laboratório sobre a Terra. E que chegaram à conclusão de que em cerca de cinquenta anos, a Terra pode implodir, por culpa dos humanos.
Curiosamente, na quinta-feira última, a Televisão TVI 24/7 passou um longo e muito interessante documentário sobre o que está a acontecer no nosso planeta, com os mais variados desastres climáticos. Têm dado origem a tsunamis, secas, tufões e inundações. Estão a destruir o Ártico e o Antártico, a perder o gelo e, em consequência, a aumentar o nível dos oceanos.
E mais: a revista Courrier International na sua última edição de 24 de novembro de 2013, intitula-se: "O tempo das catástrofes", sublinhando: tufões, secas, inundações e interrogando-se: "Em que medida o aquecimento da Terra é responsável por tudo o que está a acontecer?"
Mas ficou-se pela capa sem ir mais longe. Os mercados usurários não deixam, nem isso lhes importa...
No final do século passado falou-se muito do perigo do aquecimento da Terra. A ONU organizou sessões entre os grandes Estados do nosso planeta - da América do Norte à China, ao Japão à Rússia, ao México, ao Brasil e América do Sul, à União Europeia e mesmo ao Universo Muçulmano e à África.
Mas de repente, depois do fracasso da última reunião da ONU, que teve lugar na Dinamarca, e que foi totalmente sabotada pelas grandes potências - os Estados Unidos, a China, a Rússia e o Japão - os mercados usurários calaram a comunicação social, que em grande parte dominam, e a ONU com o atual presidente, que não gosta de sarilhos, calou-se igualmente.
Entretanto, as desgraças climáticas surgem e desenvolvem-se por toda a parte. O que se passou recentemente nas Filipinas e também nos Estados Unidos devia obrigar-nos a refletir. Mas não. A comunicação social é cada vez mais dominada pelos mercados e os jornalistas e os políticos independentes, que deviam dizer o que pensam, e não o que lhes mandam, têm vindo a diminuir. Por isso, os jornais e as revistas vendem-se cada vez menos...
Claro que a internet é uma poderosíssima rival, visto que as pessoas escrevem no Facebook e noutras redes sociais e dizem o que pensam. É o que de algum modo nos vale. Embora para os velhos, como eu, o hábito da leitura dos jornais e das revistas continue a impor-se, ao contrário dos mais novos.
Voltando a este nosso tempo das catástrofes climáticas - e o que dizem os cientistas acerca do que pode acontecer ao nosso planeta -, impõe-se-nos a necessidade de refletir a sério. São os nossos filhos e netos que vão pagar mais duramente aquilo que de pior pode vir a acontecer.
Para que serve hoje a ONU, se continua a calar-se perante os desastres climáticos, cada vez mais graves, que o nosso planeta está a viver, por culpa exclusiva dos humanos e que está já a refletir-se nas várias espécies animais, nas árvores e em certos vegetais? Para que serve o dinheiro - que é hoje o que conta - perante as catástrofes ecológicas a que hoje impunemente estão a assistir? [...]
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Obs: Até o dr. Soares, que há anos não tem responsabilidades públicas e está quase a fazer 90 anos, anda preocupado com a gestão de crises dos eventos extremos que afectam a vida do planeta e a de todos nós que nele habitamos, tem uma consciência que contrasta, grosseiramente, com aqueles que têm hoje elevadas responsabilidades e não têm uma frase, uma ideia, um documento de suporte que sirva de orientação futura à tentativa de resolução desse magno problema, que é global - e só globalmente deve ser discutido e "resolvido".
- O que impressiona não é tanto o dr. Soares procurar manter-se actualizado acerca de temas candentes que questionam a sustentabilidade do nosso planeta, mas, sim, a mais grosseira ignorância e falta de sensibilidade ambiental, cultural, técnica e política que colonizou a mente daqueles que ocupam hoje os lugares de representação do Estado e que, ainda hoje, são incapazes de distinguir um tsunami duma pedrada.
- Com tanta ignorância funcional mitigada com alheamento político sobre problemática tão comum ("tragédia dos comuns") - não admira que se amanhã houvesse um sismo na capital talvez metade do PIB do país fosse à vida e dezenas de milhar de mortos poderiam ser sinalizados.
- Para aqueles que gostam de fazer comparações entre os ex-PR, como há dias fez o jornalista Paulo Baldaia, talvez possamos encontrar aqui mais um termo de equiparação: o velho Soares preocupa-se com os bens comuns da humanidade, como são os recursos naturais que hoje estão sendo delapidados por alguns Estados, e elege os danos ao ambiente como forma - pedagógica - de chamar a atenção para esse tipo de dano ecológico; o dr. Cavaco - apresenta-se em público e come bolo-rei de boca aberta, e depois queixa-se da magreza das sua reforma e procura justificar o injustificável com acções do BPN que foram vendidas num regime de out of law, logo incorrendo em crime económico que deveria ter sido sancionado pelas autoridades competentes, como a CMVM e outras... 
- Apesar do exagero do exemplo, deliberado, diz a história que há sempre um fundo de verdade nesta caricatura. Mas também não vejo outra forma de tratar o actual locatário do Pátio do Bichos. 

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segunda-feira

Sobre Soares por PAULO BALDAIA




Mário Soares é em Portugal, na minha opinião, a personalidade maior do século XX. Friso o século XX porque estamos já no século XXI e não me apetece boiar nas águas paradas com que o olham nos dias que correm. Aborrece-me a complacência como é olhado por uma certa esquerda saudosista da mesma forma que me enjoa a forma troglodita como uma certa direita teima em ver apenas os seus defeitos esquecendo as suas virtudes.
- A memória não é curta e por isso se extremam tanto as posições. O que os seus acérrimos defensores não podem querer é que a comunicação social continue a dar grande destaque às posições do ex-presidente da República, mas que o faça de forma acrítica. Soares é tão livre de dizer o que pensa como são livres os comentadores de dizer o que pensam sobre o que ele diz. Na monarquia é que há "vacas sagradas".
- Do mesmo modo, Soares não é o conjunto de ficções que sobre ele montaram a propósito da descolonização nem a sua actividade política se resume às coisas mais ou menos disparatadas que tem dito nos últimos tempos. Há um momento crucial na vida de Mário Soares, que é o momento em que deu corajosamente a cara pela defesa da democracia como a única forma de trazer a Portugal o desenvolvimento social.
- O combate contra todas as teorias totalitárias é o maior legado que este político nos deixou para o podermos agora criticar. Soares (e os que por mera fidelidade não se atrevem a criticá-lo) não pode esperar que todos os outros esqueçam o que aprenderam com ele. Posso estar errado, mas prefiro errar a não pensar.
- Faço pela enésima vez uma declaração de interesses: Assessorei Mário Soares e trabalhei o melhor que soube para que tivesse um bom resultado nas eleições Europeias de 1999. Conheci um homem fantástico, confirmei o que tinha lido sobre o seu espírito livre. Vivi como profissional da comunicação a melhor experiência da minha vida. Livre me juntei a ele como assessor e livre regressei à profissão de jornalista.
- Com a mesma liberdade o critico agora pela forma como tenta condicionar a actual liderança do PS, chegando ao ponto de dar maior importância à reabilitação política de José Sócrates do que ao apoio crítico que dele merece António José Seguro. Sem medo das palavras, também me parece importante chamar a atenção para o simples ajuste de contas a que Soares quer sujeitar Cavaco Silva.
- Desenganem-se os que vêem na crítica a Mário Soares uma barreira liderada por uma força oculta para o calar. O que há, entre a elite dominante, é uma grande discrepância no tratamento que se dá ao antigo presidente e ao actual. Soares pode fazer mal que estará sempre bem, Cavaco pode fazer bem que estará sempre mal. Não dou para esse peditório.
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  • Sublinhado é meu


Obs: Paulo Baldaia faz aqui um rasgado elogio a Mário Soares, mesmo quando procura desvalorizar a sua actuação na comparação com Cavaco, que tem uma escassa dimensão cultural e nenhum currículo na transição dos regimes (ditadura para a democracia), cujo desenlace poderia, ao menos, até porque Cavaco já tinha idade para isso, ter servido para institucionalizar a democracia pluralista - saída dum regime de ditadura conservadora de quase quatro décadas. 
- Esse crédito político ninguém hoje pode atribuir a Cavaco, mas é inteiramente imputado ao ex-PR que, de resto, só condiciona António José Seguro (como defende o jornalista) na exacta medida em que este decide, deliberadamente, falar ou manter-se discreto para surfar a onda e estar atento às movimentações internas que - do lado de António Costa ou do lado de Sócrates, possam, de súbito, despontar. 
- No fundo, a crítica que Baldaia procura direccionar a Soares, com quem trabalhou, acaba, perversamente, por atingir mais Seguro e Cavaco: àquele porque, subjectiva e objectivamente, tem revelado uma frágil liderança e incapacidade de afirmar um projecto de oposição alternativo ao XIX Governo Constitucional, além de não ter ainda conseguido "arrumar a casa" (leia-se, o PS); a Cavaco - porque põe a nu a sua falta de background político e um esteio de cultura democrática tão urgente no pós-74 - e sem a qual muitos de nós, jornalistas ou não, hoje estaríamos impedidos de estar aqui a comentar.
- Por isso, junto-me aqui a Paulo Baldaia no rasgado elogio que tece ao "velho leão" da 3ª República Portuguesa logo na sua 1ª linha. 

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quinta-feira

Não matem o mensageiro por - Viriato soromenho Marques

O discurso de Mário Soares na Aula Magna tem sido objeto de várias críticas, sendo a mais grave entre elas a de ser um incitamento à violência. Compreendo o desagrado em relação ao estilo usado, mas importa-me mais o espírito do que a letra no discurso da figura maior da nossa democracia representativa. Soares continua a ser um lutador, nos seus quase 89 anos. Ainda há menos de um ano teve um grave problema de saúde e isso não o fez recuar. Não é do tipo depressivo. Se a pátria está em perigo, Soares não cai na meditação melancólica do trágico destino da condição humana. Ergue a sua voz para denunciar a indiferença de um Governo que conduz não só uma política intelectualmente medíocre mas que é um reflexo inapagável do niilismo ético em que os atuais governantes navegam. Não hesita também em tentar acordar as várias oposições do seu torpor, entrincheiradas que se encontram numa espécie de imobilismo conformado. Soares tem um olfato raro para detetar a infâmia e a injustiça disfarçadas em narrativas ideológicas, tenham elas vindo do "socialismo real", de há quatro décadas, ou dos atuais campeões do capitalismo de miséria, disfarçado na cartilha mal aprendida do neoliberalismo. Soares podia ficar no conforto da sua casa, mas prefere mostrar uma empatia ativa com aqueles que sofrem na carne e na alma as consequências de uma crise de que não foram os causadores. Quando o general Cambronne se recusou a render em Waterloo, com o seu famoso palavrão, o que ficou para a história foi apenas a sua coragem. Esperemos estar ainda a tempo para que o discurso de Mário Soares na Aula Magna não venha a ser recordado no futuro pelo seu profético rigor.

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quarta-feira

Mário Soares acerca do PS do Tó Zé.


Categoria de frases impactantes:


"Se PS fosse "mais ativo, tinha 90 por cento" dos votos" link


  • Mário Soares acerca do PS do Tó Zé.

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terça-feira

Opinião de Mário Soares



[...]


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quarta-feira

Mário Soares em Paris: um português livre e cosmopolita que não tem medo da VERDADE

Uma verdade que tem destruído Portugal a partir de Bruxelas

Ele, só quer é dinheiro...




Mário Soares tem quase 90 anos. 

Não obstante a sua provecta idade, e já se encontrar fora da política activa, ainda é o único português vivo, e com prestígio além fronteiras, sobretudo em França (de cuja cultura francofila é um cultor), capaz de dirigir críticas ao estado da arte que desgoverna Portugal e, ao mesmo tempo, lançar uma farpa a Bruxelas - cuja posição tem procurado reforçar o sequestro político, económico, financeiro e social a que os portugueses foram votados na sequência da entrada da Troika e, acima de tudo, pelas interpretações e intervenções abusivas que o XIX Governo (in)Constitucional tem feito - na economia e na sociedade portuguesas - a fim de o governo fortalecer o seu poder interno e, assim, desmantelar o Estado social no quadro da ideologia neoliberal professada. 

Mário Soares recebe a Medalha Vermeil das mãos do Presidente da Câmara de Paris, e, nessa ocasião, em pleno coração da Europa, não hesitou um só segundo em dizer aquilo que 10 milhões de portugueses pensam do actual presidente da Comissão Europeia, par hazard, um português. 

Ele, o tal português.., que um dia desertou do governo que dirigia, coisa nunca vista em Portugal (nem em ditadura, nem em democracia, em monarquia ou república, excepto em contexto de guerra civil e/ou ameaça militar externa) - só quer é dinheiro. 

Se traduzirmos assim: "a actual Europa e os fracos líderes que a integram, não passa duma rameira em profunda decomposição" (aspas minhas) que é incapaz de ter um projecto de reconstrução que lhe devolva a esperança, a imagem e o estatuto de grande potência que, em tempos, ocupou no concerto das nações. 

O grande mérito de Mário Soares reside nesta coisa simples: falar VERDADE num tempo em que todos parecem ter medo dela. Mas é bom que alguém o faça, intra e extra-muros, porque o silêncio é sempre mais penoso do que a afirmação dos valores e princípios da verdade, da solidariedade e da justiça social. 

Valores esses que estão hoje completamente arredados desta miserável (des)União Europeia - porque miseráveis são também os seus pequenos e impertigados líderes. 

Veremos o que a obra - Portugal, état dúrgence, Chroniques 2011-2013 - nos diz a respeito do que se pode (ou não) fazer pelo futuro de Portugal. 


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sexta-feira

O balanço de Mário Soares de 25 anos de União Europeia

Vídeo RTP Mário Soares está desiludido com a Europa. Em entrevista à TSF, o antigo líder socialista diz que se vive uma crise sem precedentes, com a qual a Europa ainda não sabe lidar.
Obs: Mário Soares como é, hoje, um homem livre pode-se dar ao luxo de falar verdade e dizer exactamente o que pensa, e, infelizmente, o que pensa é verdade - para mal de todos nós, europeus.

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segunda-feira

Mário Soares homenageia o historiador Vitorino Magalhães Godinho

UMA SIMPLES HOMENAGEM por Mário Soares
O professor Vitorino Magalhães Godinho, que celebrou há dias o seu nonagésimo aniversário, em plena lucidez, foi - e é - um professor excepcional da Universidade Portuguesa. Digo-o com conhecimento de causa. Conheci-o em 1942, quando entrei para a Faculdade de Letras, Secção de Histórico-Filosóficas da Universidade de Lisboa e ele era jovem assistente de História Antiga, salvo erro, tendo já uma grande reputação como professor e historiador. Fui seu aluno no último curso que regeu então, porque no ano seguinte o seu contrato foi rescindido, por não merecer a confiança política do Ministério.
Esse facto - que nos revoltou a todos - fez com que organizássemos um protesto, que foi o primeiro movimento cívico-político em que participei. Tinha então dezassete anos. O protesto, como era natural, não teve consequências práticas. A não ser terem os seus alunos decidido organizar-se e quotizar-se para lhe pagarem as aulas, que continuaram, fora da Faculdade. Salvo erro, numa sala do Ateneu Comercial, às portas de Santo Antão, perto do velho Coliseu. Fiquei desde então amigo de Magalhães Godinho, apesar do seu temperamento difícil e um tanto distante. Mais do que isso: discípulo, para a vida inteira. Foi a ele que pedi para prefaciar o meu primeiro livro "As ideias políticas e sociais de Teófilo Braga", tese de licenciatura para a Faculdade de Letras, aliás muito mal acolhida pelo meu arguente, Professor Délio Santos, recém convertido ao Estado Novo e deputado à Assembleia Nacional. Um prefácio excelente, que excede em muito o pequeno valor conjuntural do livro e que sempre recordo. Fiquei-lhe a dever um amigo patrocínio extremamente solidário, que não esqueço e que tenho recordado sempre pela vida fora.
O professor Magalhães Godinho, é sem qualquer favor, um grande historiador, dedicando-se sobretudo a estudar a Economia das Descobertas e os temas ligados à expansão portuguesa no Mundo, na linha dos grandes historiadores Jaime Cortesão, Duarte Leite e de um dos seus discípulos Joaquim Barradas de Carvalho, meu saudoso amigo. Entre vários outros. Magalhães Godinho é também um homem de grande cultura universalista, sabe de tudo, e de arreigadas convicções político-ideológicas. É de uma rara competência profissional e de invulgar verticalidade moral. Colaborou na Seara Nova, desde jovem, imbuído do "espírito crítico e racionalista seareiro", filho de uma família de ilustres republicanos, antigos ministros da I República, como seu Pai, o coronel Vitorino Godinho (do qual há pouco tempo publicou uma notável biografia) e do eminente professor de Direito, também antigo ministro, Barbosa de Magalhães, seu tio materno. Teve como irmão mais velho um dos advogados, mais considerados de Lisboa, um dos fundadores do Movimento de Unidade Democrática (MUD), José Magalhães Godinho, conspirador inveterado, antifascista, membro da Comissão Executiva do MUNAF, foi também um dos fundadores da União Socialista (como, aliás o Vitorino) que se extinguiu nos anos cinquenta, para dar origem, mais tarde, ao actual PS, de que foi igualmente fundador e proeminente militante. Vitorino Magalhães Godinho impossibilitado de ser professor na Faculdade de Letras foi para Paris, voluntariamente, onde esteve como investigador e bolseiro no Centre National de la Recherche Scientifique (1947-1960), próximo da equipa dos Annales e de historiadores como: Lucien Febvre, Fernand Braudel e Ernest Labrousse, de 2 quem foi amigo, tendo-se doutorado - Lettres pela Faculdade de Letras da Universidade de Paris, em 1959. Entre 1960-1962 regressou a Lisboa como professor catedrático do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, tendo voltado a França à Faculté de Lettres et Sciences Humaines da Universidade de Clermont Ferrand (1970-74). Voltei a encontrá-lo, nessa altura, e a conviver um pouco com ele, quando estava no exílio em Paris. Encorajou-me, aliás, a preparar uma tese de doutoramento para a Sorbonne, sobre os exilados republicanos portugueses em Paris, patrocinada pelo professor Albert Silbert, seu amigo e meu, cujo trabalho foi interrompido pelo 25 de Abril e o meu regresso a Portugal. Vitorino Godinho regressou também a Portugal, sempre igual a si próprio.
Depois da Revolução dos Cravos, foi Ministro da Educação e Cultura no II Governo Provisório, presidido pelo General Vasco Gonçalves. Era em plena fase do PREC. As dificuldades políticas - e as contradições - eram muitas e todos estávamos empenhados no desfecho da confrontação que se estabeleceu entre socialistas e comunistas. Não era o momento de fazer grandes reformas na educação e na cultura, como Vitorino Godinho desejava. Poucos meses depois, demitiu-se, por falta de apoio. Mas criou-nos um problema: com a sua demissão - de que tentei demovê-lo - e a consequente substituição por um militar, perdemos a escassa maioria de que até então dispunhamos no Conselho de Ministros... Depois da normalização democrática, que se seguiu ao 25 de Novembro, votada a Constituição de 1976, com a única excepção dos deputados do CDS, eleito Ramalho Eanes presidente da República, nomeou-me, primeiro ministro, por ser o líder do Partido mais votado. Foi o primeiro Governo Constitucional. Seguiram-se outros, de várias procedências, como é natural em Democracia. Em 1983 voltei a formar Governo, por o PS ter ganho de novo as eleições. Nesse Governo Constitucional - o meu terceiro - tive como ministro da Cultura o historiador e crítico literário, António Coimbra Martins, também do grupo dos estrangeirados, por ter sido leitor em várias Universidades estrangeiras e Director do Instituto da Gulbenkian, em Paris. Foi ele que me sugeriu o nome de Vitorino Magalhães Godinho para Director da Biblioteca Nacional, o que aconteceu em 1984. Fui eu próprio a dar-lhe posse, pela profunda admiração, apreço e amizade que sempre por ele tive e pela sua Família. Recordo, em especial, e com saudade a sua falecida Esposa, pelo enorme respeito que por ela sempre tive.
Vitorino Godinho não esteve muito tempo na Direcção da Biblioteca. Nunca quis compreender, julgo, os complexos mecanismos do funcionalismo público. Voltou, e muito bem, às suas investigações históricas - de enorme rigor e sabedoria - tendo publicado também ensaios críticos sobre Portugal, a "Pátria bloqueada e a responsabilidade da cidadania", por exemplo, como tinha feito antes, com "O Socialismo e o futuro da Península", em 1970. E regressou ao ensino, na Universidade Nova de Lisboa. Magalhães Godinho foi sempre um cidadão exemplar. Um homem probo, de uma inteireza de carácter excepcional e de uma honestidade moral e intelectual invulgar. Tem uma obra que o classifica entre os maiores historiadores portugueses. A par de um Herculano, de um Oliveira Martins, de um Damião Peres, de um Paulo Merêa, ou de um Jaime Cortesão. Na juventude dos seus noventa anos, não pára de trabalhar. Tem ainda muito para fazer, como sempre, ao serviço de Portugal.
Lisboa, 12 de Junho de 2008

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