domingo

Mário Soares vive com intensidade. Parabéns pelas 90 primaveras




Nenhuma outra personalidade da nossa vida pública foi tão marcante no Portugal contemporâneo como Mário Soares, agora a completar 90 primaveras (noventa!!!). No decurso do fascismo salazarista viveu exilado (um exílio dourado, é certo!!). Mas foi em França, que lutou por um Portugal livre, democrático, moderno e desenvolvido. Enquanto uns se exilaram, porque não hesitaram em criticar o regime ditatorial de António Oliveira outros, como Cavaco, assinavam fichas da PIDE para puderem continuar a fazer estudos de doutoramento no Reino Unido. Soares criticou e combateu a ditadura, outros, como Cavaco, foram-lhe criminosamente cúmplices. E nisto, Cunhal igualou Soares na luta pela Liberdade (embora divergissem depois na definição do projecto de sociedade e de organização da economia). Souberam ambos, Cunhal e Soares, estar à altura das circunstâncias e do seu tempo. 

Depois, Mário Soares foi Primeiro-Ministro (1976-77 e em 1983-85), tempo de estadia do FMI em Portugal, um tempo de austeridade, embora sem a gravidade da intrusão da troika entre nós. Então, bastou desvalorizar a moeda para fazer os ajustamento económico e facilitar as exportações e acomodar os salários; hoje, Passos Coelho esbulha os salários às pessoas, potencia o desemprego, densifica a emigração económica e empobrece estruturalmente o país. É tudo pior relativamente ao contexto de austeridade em que Soares foi PM, há 30 anos...

Num terceiro momento, Mário Soares marcou o ritmo de Portugal na década que esteve em Belém, na qualidade de PR (1986-96), um tempo que culminou com a aventura restauradora da Expo-98, em que a capital - no plano urbanístico e cultural - se renovou e abriu ao Mundo. Soares, assim como Guterres, representaram a imagem dum Portugal novo, rebelde, capaz de se renovar e reinventar fazendo, assim, ius a um passado glorioso em que Portugal deu novos mundos ao Mundo, evocando a gesta dos Descobrimentos dos portugueses maiores de 1500. E aqui pontificam também dois nomes grandes da nossa cultura, ainda que filiados em campos políticos opostos: António Mega Ferreira (PS) e Vasco Graça Moura (PSD) - ambos os idealizadores da Expo-98. 

Por outro lado, Soares sempre combateu uma certa forma tecnocrática e cinzenta de fazer política, nessa medida foi o arqui-rival de Cavaco, a ponto deste considerar Soares a força de bloqueio de Belém que o impedia de governar e de reformar o país. O resultado viu-se: Portugal cresceu em betão e em número de jeeps dos jovens agricultores e da corrupção na aplicação dos fundos sociais europeus (que nunca foram devidamente fiscalizados), mas não se qualificou. Foi o Portugal cavaquista cuja factura hoje os 10 milhões de portugueses estão a pagar caro. 

Soares aparece, pois, associado a estas fases da economia e da democracia portuguesa. Quer na sua qualidade de PM, de PR ou ainda da de homem de cultura que, com alguns excessos, vai fazendo erguer a sua voz junto dos que não têm vox. A esta luz, Soares foi - e é - uma espécie de "poder dos sem poder" - evocando o ex-PR checo, Vaclav Havel. 

Hoje está com 90 anos, por vezes articula mal o seu pensamento, mas nunca se deixa calar perante as adversidades: seja para apoiar um amigo, vide o caso de Sócrates, seja para criticar a cumplicidade criminosa de Belém relativamente à delapidação económica que este Governo de incompetentes e ultra-liberal está a fazer à economia nacional: desmantelar o Estado social e a privatizar tudo, sem regra nem visão estratégica para o país. Na calha está a privatização da TAP, e o ministro da economia, que é um inepto, ainda não se apercebeu que o sector do Turismo, uma vaca sagrada, poderá sair fortemente penalizado com essa privatização.

Cunhal, talvez a única personalidade política da dimensão de Soares, viveu sem conhecer o futuro próximo do seu país, morrendo na incerteza dos tempos; Soares, que sempre defendeu um modelo de sociedade democrática, livre, representativa e pluralista (diferente da de Cunhal, que alinhava pelo modelo político do leste e foi sempre contra o projecto europeu!!!) - merece viver o tempo que lhe resta sabendo qual o futuro que Portugal irá trilhar nos próximos anos. 

Este seria, na minha perspectiva, a justiça que o tempo e a circunstância deviam legar a Mário Soares: um homem frontal, que cometeu erros e excessos (até na descolonização), mas que nunca deixou de afirmar as suas convicções, mesmo nos momentos de maior adversidade. E é nestas circunstâncias que se conhecem os verdadeiros homens públicos.

Cavaco, que não tem nenhum passado antifascista, nunca poderá ombrear com Soares um lugar na história, ainda que aquele não faça outra coisa senão viver e trabalhar em função desse desiderato, ao invés de Soares que diz o que pensa e vive verdadeiramente em função das suas convicções. Quer na Fonte Luminosa, em 1975, ou em Évora, em 2014, Mário Soares é sempre ele próprio, logo com afirmações e contradições.

Se antes era o modelo de sociedade e de organização económica e política que estava em causa, hoje, na defesa do ex-PM, em Évora, talvez não seja tanto a questão da legalidade que está em causa (cujos detalhes desconhece), mas a circunstância de se sentir o chefe duma tribo que está  finar-se e precisa, quase na antecâmara da morte, de afirmar a sua liderança, paternidade (e legado) relativamente aos seus filhos politico-partidários e ideológicos. É nisso que Soares joga toda a sua vida. Por isso também vive a vida intensamente, e será assim até aos dias do Fim. Até ao fim dos seus dias.

Parabéns, Dr. Soares. Venham mais cinco...
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A coerência de Mário Soares, Link

Rui ramos

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