domingo

MÁRIO SOARES (1924-2017) Mário Soares, um esboço biográfico (Parte 1) - por Vasco Pulido Valente -


Nota prévia: Um grande artigo biográfico de MS por VPV

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O Diário de VPV
A carreira de Mário Soares não teve nada de particularmente notável até 1962. Como muito boa gente começou aos vinte anos pelo PC, atraído pela aventura (e os perigos dela), pelo radicalismo e pelo facto simples de não existir na oposição qualquer outra alternativa. Com o PC e pelo PC trabalhou no MUD e, a seguir, na candidatura de Norton de Matos à Presidência da República. A “colaboração” com os comunistas, se assim se pode chamar, porque ele chegou a dirigente, não resistiu à ineficiência e à intolerância geral da seita. Em 1950, é expulso do “Partido” por “indisciplina” e “derrotismo”.
Isto, que lhe deu tempo para acabar de se formar em Histórico-Filosóficas e começar o curso de Direito, também o deixou isolado e sem destino político evidente. Fora a actividade platónica de um pequeno círculo de advogados da Baixa, não havia nesse tempo desértico nada a que ele pudesse aplicar a sua habilidade e energia política. De quando em quando, lá vinha um abaixo-assinado ou protesto de personalidades, que no fundo só serviam para actualizar os ficheiros da PIDE. A oposição foi um incómodo para a Ditadura, mas nunca foi uma verdadeira ameaça. Certamente sem grande esperança e por puro desemprego cívico, Soares funda em 1955, a Resistência Republicana com uma dezena de amigos, que não se distinguiu por coisa alguma na vida política portuguesa; e adere ao Directório Democrático Social de três figuras venerandas da democracia (António Sérgio, Jaime Cortesão e Azevedo Gomes), que eram um símbolo mais do que uma força.
Entretanto o mundo mudava. Em 1958, aparece surpreendentemente a candidatura de Humberto Delgado (com o apoio de Soares), que revelou ao melancólico país da Ditadura a extensão e a fúria de uma boa parte da população. E, em 1962, a chamada “crise académica”, para grande estupefacção dos próceres do regime, veio provar que nem com os filhos da burguesia podiam contar. Infelizmente, as relações entre os dirigentes da “crise” e Mário Soares não foram boas. Primeiro, por culpa dos dirigentes da “crise”, que com uma ridícula arrogância desprezavam a “velha” oposição republicana (mas não o PC). Eles mobilizavam de um dia para o outro milhares de estudantes, tinham uma espécie de imprensa (em stencil), tinham instalações, tinham automóveis e tinham dinheiro. E o que tinham os democratas da Baixa, excepto 30 anos de mal empregada indignação e de conspirações falhadas? Mas, fora isso, que já não era pouco, o pessoal do movimento académico, quando não militava no Partido Comunista, exibia – por competição e para defesa própria – um radicalismo que Soares já várias vezes rejeitara. A geração de 1962 ficou por isso longe da social-democracia europeia e do futuro PS até muito depois do “25 de Abril”.
De qualquer maneira estas pequenas questões domésticas interessavam pouco perante a guerra de África, que em 1961 começou em Angola. Dos políticos portugueses com uma certa notoriedade só Soares percebeu que a Ditadura deixara de ser um pequeno problema de um país pequeno e sem influência para se tornar um problema internacional, em que tarde ou cedo as grandes potências se envolveriam. A oposição já não se fazia, ou devia fazer, em Lisboa ou no Alentejo, mas na América e na Europa, principalmente na Europa. Em 1962, Soares transformou a Resistência Republicana em Resistência Republicana Socialista e, em 1964, criou na Suíça a Acção Socialista Portuguesa, uma maneira hábil de se ir ligando aos grandes partidos europeus.
Estabelecer a credibilidade da oposição portuguesa num Ocidente anticomunista e desconfiado era uma extraordinária tarefa para um extraordinário homem. Sem a sobre-humana simpatia e a sobre-humana confiança de Mário Soares talvez fosse impossível. Mas, pouco a pouco, ele conseguiu; e Salazar percebeu. O regime não se inquietava excessivamente com a agitação da Baixa ou com um ou outro protesto de estudantes, nem sequer com as raras greves que o PC ia promovendo. Mas Soares falando à solta na América, na Alemanha ou em Inglaterra, era um risco real, ainda por cima com uma guerra em curso e sendo ele advogado do general Humberto Delgado, que a PIDE matara. Salazar não hesitou em o desterrar para S. Tomé.
Quando ascendeu a Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, provavelmente para mostrar o seu duvidoso liberalismo, arranjou uma tranquibérnia jurídica para permitir que Soares voltasse a Portugal. Voltou e imediatamente concorreu à eleição para a Assembleia Nacional (como na altura se chamava o “parlamento”) com uma lista de gente socialista ou próxima do socialismo, rompendo com a tradição de “unidade” anti-salazarista sob a qual o Partido Comunista se disfarçava sempre. Mais do que isso. Marcelo prometera eleições “honestas” (que evidentemente o não seriam) e Mário Soares trouxe a Portugal um grupo de inspectores da Internacional Socialista, que as declararam falsas. Dali em diante, a presença em Portugal do homem que o denunciara em público como mentiroso e que lhe retirara qualquer espécie de legitimidade era intolerável para Marcelo Caetano. Ameaçando Soares com a prisão e o desterro, Marcelo conseguiu que ele ficasse num exílio forçado até 1974. Mas perdeu mais com esta manobra do que ganhou. Por uma vez relativamente livre, Soares tinha tempo e meios para expandir e fortalecer a ASP, que em 1972 a Internacional Socialista admitiu como membro pleno; e para escrever um livro, o “Portugal Amordaçado”, publicado em francês. Mas nem nestes anos de solidão se aproximou dos novos “resistentes”, que haviam fugido à PIDE, à guerra e a Penamacor (uma unidade penal), e que em Paris se deixaram absorver pelo “renascimento marxista”, conduzido por um louco, Louis Althusser, que acabou por se proclamar um profeta e matar a mulher. De revista para revista, esta gente discutia com ódio teológico as miudezas da sua fé, enquanto Soares tratava do que era importante e consequente.
Por essa altura, já o império soviético se começava a desfazer. A Europa de Leste e a própria URSS estavam endividadas ao Ocidente até ao pescoço e a URSS, em particular, não queria pagar uma segunda Cuba ao dr. Álvaro Cunhal e mesmo depois do “25 de Abril” foi parca com o PCP e crítica da política “revolucionária”. A Europa ocidental, pelo contrário, ainda não sentia a gravidade da sua decadência e abria a porta a um (ainda modesto) alargamento. Soares já se tornara parte dessa Europa. Conheceu Brandt, Schmidt, Callaghan, Nenni, Mitterrand e a generalidade das grandes personagens que, tarde ou cedo, decidiriam do nosso destino.
Em 1973, fundara o PS na Alemanha, com dinheiro alemão e o patrocínio do SPD, e no dia em que desembarcou em Santa Apolónia não desembarcava sem apoios, sem um instrumento e sem um papel. Havia muita força sob a sua aparente fraqueza.
(continua)
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segunda-feira

Juro que não - por Vasco Pulido Valente -

Nota prévia: É curioso notar, à  excepção das três razões que levaram o BE e PCP a não querer integrar o Executivo (e que sublinhei a amarelo) - em que é fácil concordar com o articulista - tudo o mais poderia encontrar uma conclusão diversa daquela pela qual o autor afinou. Pelo que presumo que cada vez é maior o fosso entre a teoria e a práxis, o pensado e a realidade, a aparência e a convicção. Não raro, tendemos a arrumar aquilo de que desgostamos numa tremenda fatalidade, e fazê-mo-lo sem curar de saber que é nessa incerteza (qual lei da vida!!) que pode radicar a esperança num Portugal melhor. Numa palavra: esta prosa de VPV tanto dá para cobrir a ligação do PS à esquerda, como para a ainda coligação contra-natura do PSD-CDS. É assim uma espécie de "teoria pronto-a-vestir" que se aplica à esquerda e à direita simultaneamente, deixando aqui uma vontade imensa de questionar VPV se a pior das "catástrofes" - para retomar a sua terminologia - não seria deixar perpetuar o actual gang no poder. Pulido Valente ou é "estúpido", hipótese pouco verosímil - ou então pretende fazer-nos de idiotas, o que ainda é pior...

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Juro que não




A única maneira de controlar o que se passa é ter directamente na mão o poder a que se chama, com propriedade, executivo. O PC e o Bloco não quiseram ir para o governo do dr. Costa por três claríssimas razões. Primeiro, querem evitar que o descontentamento, sempre inevitável, e agora mais numa situação de crise, caia sobre eles e venha a diminuir o seu já exíguo eleitorado. Segundo, precisam de uma porta aberta para uma saída nada airosa, mas muito rápida: as pequenas seitas vivem de ilusões e, quando desiludem, morrem. E, terceiro, preferem algumas vitórias de longe na Assembleia da República a ter dia a dia de carregar as “gaffes” de uma gente cheia de zelo e sem experiência: sem dúvida a pior das combinações. Jerónimo de Sousa não nasceu ontem, parece que Louçã educa Catarina Martins.
Se o dr. Cavaco resolver dar posse a António Costa não dará posse com certeza a um governo coerente, estável e duradouro. Dará posse a uma velha igreja que sempre se distinguiu pelas suas querelas teológicas e que, apesar de caduca, não desistiu do exercício. Os grupinhos que infestaram a Primavera e o Verão de 2015 não foram engolidos pela sua triste figura eleitoral. Estão aí por detrás de cada pedra à espera que Jerónimo, Catarina ou Costa mexam um dedo para os desfazer com aquele ódio fraternal que distingue a verdadeira esquerda. E hoje com a ajuda das centenas de “sensibilidades” do PS, que o novo regime deixou de fora e por quem os jornalistas se pelam para estabelecer a sua trapalhadazita da ordem. O dr. Cavaco irá dar posse a uma balbúrdia, por definição instável e incoerente, e ainda por cima bastante mais curta do que ele pensa. No meio desta catástrofe só me espanta o dr. António Costa: não o achava estúpido, juro que não.

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quinta-feira

Uma fraude - por Vasco Pulido Valente -




Seguro, é verdade, podia resolver o caso, saindo imediatamente de secretário-geral e convocando um congresso. Preferiu resistir palmo a palmo ao que ele considerava uma imerecida ofensa pessoal e inventou a absurda manobra das “primárias”, com a desculpa de que se fazia em França (a designação de Hollande para presidente foi o meritório resultado). Costa, sem maneira de se opor a este delírio, acabou por aceitar e hoje, entrincheirado em disputas processuais, vê a intervenção, que ele supunha salvífica, perder o seu peso e o seu sentido original. O cidadão comum, mesmo o cidadão interessado, não compreende esta história esotérica, que se passa ao lado da sua miséria e que tanto interessa os facciosos das duas partes, agora engolfados numa querela ociosa.

Pior ainda: as “primárias” são inconciliáveis com a política portuguesa, em que a “classe operária”, apesar do esforço do PC, não produziu uma cultura autónoma e as diferenças das três seitas do “arco governativo” mal se distinguem. Interrompendo as tradições políticas do século XIX, a Ditadura impediu que se formassem e consolidassem as grandes correntes que dominaram a sociedade moderna: o obreirismo, o sindicalismo, o socialismo, o anticlericalismo, o conservadorismo. Em 2014, há talvez um pequeno número de “famílias católicas”. Mas não há famílias socialistas, ou CDS ou PSD. O eleitorado, como geralmente se reconhece, flutua em grosso com os chefes de partido e o rendimento disponível. Costa e Seguro insistem que os participantes declarem a sua “concordância com a Declaração de Princípios” do PS. De que serve isto e que raio de confiança inspira, quando o próprio PS (como, de resto, o CDS e o PSD) é o primeiro a não os respeitar? Que nova fraude nos querem impingir?

Por Vasco Pulido Valente
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Obs: Medite-se nestas contradições expostas por VPV, as quais parecem ter fundamento histórico entre nós, especialmente se atentarmos no efeito báscula que se exerce entre PS e PSD nos momentos eleitorais. 

I.é, os eleitorados oscilam entre um e outro partido não em função do ideário ou do rasto ideológico de cada um, ou do seu programa eleitoral comunicado à sociedade, cujas promessas sabemos antecipadamente converterem-se em mentiras políticas institucionalizadas (vide o caso da mega-fraude eleitoral e o erro de casting que foi e é Passos Coelho!!!) - mas em função dos chefes que, a cada momento, aqueles partidos oferecem ao mercado político e eleitoral - tendo em atenção o carisma, a liderança e a empatia que os respectivos líderes partidários conseguem estabelecer com os eleitorados e a sociedade em geral. 

Numa palavra: mais importante do que os partidos, estão os líderes que consigam inspirar mais eficientemente as bases sociológicas de apoio e com elas estabelecer um laço psico-afectivo, antecâmara da criação de legitimidade política.

A esta luz, só me ocorre perguntar o seguinte: o que pensarão os agricultores, os pensionistas e reformados, muitos funcionários públicos e os portugueses em geral - do CDS de Paulinho Portas e do PSD de Coelho?!

Coisa boa não será, certamente!!!

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domingo

O empobrecimento - VASCO PULIDO VALENTE. Os sinais que o país começa a voltar atrás são claros


Com 30 anos no “25 de Abril”, não me esqueci depressa do que era a vida nessa altura. Não falo da esquálida miséria do campo, que numa região rica a uns quilómetros de Lisboa, em que as pessoas trabalhavam o dia inteiro, envelheciam depressa e morriam de qualquer maneira, sem diagnóstico e sem assistência. Como não falo da província – do Minho ao Algarve – onde o horror se tinha tornado a normalidade. Na falta de uma experiência directa, seria um impudor.
Mas não me importo de falar da classe média (de resto privilegiada) em que nasci: e posso dizer que a pobreza contaminava tudo. O que se vestia, o que se comia, o que se fazia, o que se pensava. Mais do que na gente que mandava no Estado e no cidadão comum, a tirania estava, como dizia o outro, na necessidade de poupar, na privação perpétua da frivolidade e do prazer, no mundo imóvel e sem saída, que pouco a pouco se tornava numa prisão a céu aberto. As dores de crescimento num liceu de crianças caladas, que muito manifestamente esperavam o pior e, a seguir, numa Faculdade, que se destinava a premiar os filhos de família e a submissão, não levavam a uma descoberta ou sequer a uma aprendizagem, no seu melhor levavam a uma espécie de punição que moía e predispunha à desistência e ao cansaço.
O Portugal de hoje não conseguiria nunca perceber o Portugal de 1950 ou de 1960. Agora, até se glorifica o crescimento da economia e a estabilidade financeira do regime. O primeiro-ministro com certeza nunca se deu ao trabalho de imaginar aquilo a que a pobreza haveria condenado um rapazinho de Trás-os-Montes com uma mediana boa voz. Nem lhe descreveram o deserto que foi Lisboa nessa época de chumbo, onde ir ao café ou a um cinema de “reposição” tomavam as proporções de um acontecimento. Os sinais que o país começa a voltar atrás são claros. Verdade que a civilização que entretanto se criou não vai desaparecer. Mas nada disso consola se imitações substituírem o que existia antes e acabarmos na mediocridade e na tristeza de uma simples sobrevivência sem destino.
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Obs: VPV não se pode surpreender com a terrível ignorância histórica do alegado pm, porque todos os dias ele dá mostras de ser um sistémico ignorante. Lamente-se o facto de o país ter eleito um ignorante para tão importante cargo. O último desses exemplos ocorreu a semana passada no hemiciclo, em pleno debate parlamentar, em que Coelho se recusou responder a questões objectivas e directas que dizem respeito à vida dos portugueses, e não aos caprichos de um impreparado que capturou o poder em S. Bento. 
 

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