domingo

MÁRIO SOARES (1924-2017) Mário Soares, um esboço biográfico (Parte 1) - por Vasco Pulido Valente -


Nota prévia: Um grande artigo biográfico de MS por VPV

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O Diário de VPV
A carreira de Mário Soares não teve nada de particularmente notável até 1962. Como muito boa gente começou aos vinte anos pelo PC, atraído pela aventura (e os perigos dela), pelo radicalismo e pelo facto simples de não existir na oposição qualquer outra alternativa. Com o PC e pelo PC trabalhou no MUD e, a seguir, na candidatura de Norton de Matos à Presidência da República. A “colaboração” com os comunistas, se assim se pode chamar, porque ele chegou a dirigente, não resistiu à ineficiência e à intolerância geral da seita. Em 1950, é expulso do “Partido” por “indisciplina” e “derrotismo”.
Isto, que lhe deu tempo para acabar de se formar em Histórico-Filosóficas e começar o curso de Direito, também o deixou isolado e sem destino político evidente. Fora a actividade platónica de um pequeno círculo de advogados da Baixa, não havia nesse tempo desértico nada a que ele pudesse aplicar a sua habilidade e energia política. De quando em quando, lá vinha um abaixo-assinado ou protesto de personalidades, que no fundo só serviam para actualizar os ficheiros da PIDE. A oposição foi um incómodo para a Ditadura, mas nunca foi uma verdadeira ameaça. Certamente sem grande esperança e por puro desemprego cívico, Soares funda em 1955, a Resistência Republicana com uma dezena de amigos, que não se distinguiu por coisa alguma na vida política portuguesa; e adere ao Directório Democrático Social de três figuras venerandas da democracia (António Sérgio, Jaime Cortesão e Azevedo Gomes), que eram um símbolo mais do que uma força.
Entretanto o mundo mudava. Em 1958, aparece surpreendentemente a candidatura de Humberto Delgado (com o apoio de Soares), que revelou ao melancólico país da Ditadura a extensão e a fúria de uma boa parte da população. E, em 1962, a chamada “crise académica”, para grande estupefacção dos próceres do regime, veio provar que nem com os filhos da burguesia podiam contar. Infelizmente, as relações entre os dirigentes da “crise” e Mário Soares não foram boas. Primeiro, por culpa dos dirigentes da “crise”, que com uma ridícula arrogância desprezavam a “velha” oposição republicana (mas não o PC). Eles mobilizavam de um dia para o outro milhares de estudantes, tinham uma espécie de imprensa (em stencil), tinham instalações, tinham automóveis e tinham dinheiro. E o que tinham os democratas da Baixa, excepto 30 anos de mal empregada indignação e de conspirações falhadas? Mas, fora isso, que já não era pouco, o pessoal do movimento académico, quando não militava no Partido Comunista, exibia – por competição e para defesa própria – um radicalismo que Soares já várias vezes rejeitara. A geração de 1962 ficou por isso longe da social-democracia europeia e do futuro PS até muito depois do “25 de Abril”.
De qualquer maneira estas pequenas questões domésticas interessavam pouco perante a guerra de África, que em 1961 começou em Angola. Dos políticos portugueses com uma certa notoriedade só Soares percebeu que a Ditadura deixara de ser um pequeno problema de um país pequeno e sem influência para se tornar um problema internacional, em que tarde ou cedo as grandes potências se envolveriam. A oposição já não se fazia, ou devia fazer, em Lisboa ou no Alentejo, mas na América e na Europa, principalmente na Europa. Em 1962, Soares transformou a Resistência Republicana em Resistência Republicana Socialista e, em 1964, criou na Suíça a Acção Socialista Portuguesa, uma maneira hábil de se ir ligando aos grandes partidos europeus.
Estabelecer a credibilidade da oposição portuguesa num Ocidente anticomunista e desconfiado era uma extraordinária tarefa para um extraordinário homem. Sem a sobre-humana simpatia e a sobre-humana confiança de Mário Soares talvez fosse impossível. Mas, pouco a pouco, ele conseguiu; e Salazar percebeu. O regime não se inquietava excessivamente com a agitação da Baixa ou com um ou outro protesto de estudantes, nem sequer com as raras greves que o PC ia promovendo. Mas Soares falando à solta na América, na Alemanha ou em Inglaterra, era um risco real, ainda por cima com uma guerra em curso e sendo ele advogado do general Humberto Delgado, que a PIDE matara. Salazar não hesitou em o desterrar para S. Tomé.
Quando ascendeu a Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, provavelmente para mostrar o seu duvidoso liberalismo, arranjou uma tranquibérnia jurídica para permitir que Soares voltasse a Portugal. Voltou e imediatamente concorreu à eleição para a Assembleia Nacional (como na altura se chamava o “parlamento”) com uma lista de gente socialista ou próxima do socialismo, rompendo com a tradição de “unidade” anti-salazarista sob a qual o Partido Comunista se disfarçava sempre. Mais do que isso. Marcelo prometera eleições “honestas” (que evidentemente o não seriam) e Mário Soares trouxe a Portugal um grupo de inspectores da Internacional Socialista, que as declararam falsas. Dali em diante, a presença em Portugal do homem que o denunciara em público como mentiroso e que lhe retirara qualquer espécie de legitimidade era intolerável para Marcelo Caetano. Ameaçando Soares com a prisão e o desterro, Marcelo conseguiu que ele ficasse num exílio forçado até 1974. Mas perdeu mais com esta manobra do que ganhou. Por uma vez relativamente livre, Soares tinha tempo e meios para expandir e fortalecer a ASP, que em 1972 a Internacional Socialista admitiu como membro pleno; e para escrever um livro, o “Portugal Amordaçado”, publicado em francês. Mas nem nestes anos de solidão se aproximou dos novos “resistentes”, que haviam fugido à PIDE, à guerra e a Penamacor (uma unidade penal), e que em Paris se deixaram absorver pelo “renascimento marxista”, conduzido por um louco, Louis Althusser, que acabou por se proclamar um profeta e matar a mulher. De revista para revista, esta gente discutia com ódio teológico as miudezas da sua fé, enquanto Soares tratava do que era importante e consequente.
Por essa altura, já o império soviético se começava a desfazer. A Europa de Leste e a própria URSS estavam endividadas ao Ocidente até ao pescoço e a URSS, em particular, não queria pagar uma segunda Cuba ao dr. Álvaro Cunhal e mesmo depois do “25 de Abril” foi parca com o PCP e crítica da política “revolucionária”. A Europa ocidental, pelo contrário, ainda não sentia a gravidade da sua decadência e abria a porta a um (ainda modesto) alargamento. Soares já se tornara parte dessa Europa. Conheceu Brandt, Schmidt, Callaghan, Nenni, Mitterrand e a generalidade das grandes personagens que, tarde ou cedo, decidiriam do nosso destino.
Em 1973, fundara o PS na Alemanha, com dinheiro alemão e o patrocínio do SPD, e no dia em que desembarcou em Santa Apolónia não desembarcava sem apoios, sem um instrumento e sem um papel. Havia muita força sob a sua aparente fraqueza.
(continua)
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quarta-feira

PS quer ouvir Relvas sobre Efisa

Nota prévia: Há uma dúvida de forma que consiste em saber se o ex-ministro de Passos (e seu braço-direito e esquerdo..) será tratado nessa audição parlamentar como do "dr." Relvas ou, meramente, como Miguel Relvas a quem a autoridade judicial mandou retirar o título indevido que a Lusófona atribuiu ao sujeito que, de facto e de iure, não a merecia. Mesmo após já ter passado à estória, este Relvas continua a manchar a estória da república com os negócios pouco claros em que se envolveu e que exige , da parte do contribuinte, vigilância atenta em nome do interesse comum. Com estes players todo o cuidado é pouco..

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PS quer ouvir Relvas sobre Efisa


Filipe Amorim / Global Imagens


O requerimento do PS para ouvir Miguel Relvas no Parlamento foi entregue esta quarta-feira na comissão parlamentar de Orçamento e contempla também a audição da antiga secretária de Estado do Tesouro, Isabel Castelo Branco.
O PS diz que estão em causa "múltiplos episódios" sobre a alienação do banco Efisa e quer ouvir o antigo ministro Miguel Relvas por ser candidato a acionista da sociedade que comprou o banco.
A audição de Isabel Castelo Branco está relacionada com o facto de antiga governante ter autorizado a recapitalização pública da entidade num total de 90 milhões de euros.
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domingo

Já falta pouco - por Paulo Baldaia -

Nota prévia: Paulo Baldaia, de forma previsível, desenha aqui o destino de A.Costa,  ainda que sublinhando os escolhos que o PS terá pela frente com a agravante de ter de identificar quem, à  esquerda, lhe dará a mão para formar a maioria parlamentar necessária à governação (socialista) estável.Tudo em aberto, portanto...


por PAULO BALDAIAHoje
A grande política que supera em energia gasta o trabalho ideológico - em que o que importa é a marcação cerrada que a coligação fez ao PS com as garantias e as fintas do PS à maioria com o programa antecipado na internet - acabou eclipsada pela mais irracional das coisas que contam na vida das pessoas: o futebol. Religiosamente, os milhões de benfiquistas e de sportinguistas fizeram jejum da política para se dedicar em exclusivo à traição de Jesus. Nada é mais sério para quem vê o seu profeta fazer a via-sacra da Segunda Circular, trocando o vermelho pelo verde. Descontando esta suprema ironia, a verdade é que há na coligação quem saiba bem o que é marketing político.
Com um PS que pareceu muitas vezes parado no tempo, julgando que ainda resulta prometer o fontanário em Alguidares de Baixo e as rotundas em Alguidares de Cima, a coligação aposta na mais simples das mensagens. PSD e CDS procuram ter espaço para ainda lutar pela vitória, garantindo que com eles o país não voltará a passar por uma crise e o oferecendo uma cláusula constitucional que impede os governos de aumentar a dívida. A maioria, que aposta tudo em marcar a diferença com o que considera ser a irresponsabilidade socialista, lança a casca de banana e o PS escorrega feliz, recusando qualquer limite constitucional ao que os governos podem fazer com o dinheiro futuro dos portugueses. Assim trabalha para o marketing da coligação que apenas nos quer convencer de que o PS vai de novo fazer derrapar a despesa pública, o défice e a dívida.
O PS já não tem muito tempo para mostrar que é de facto diferente, diferente para lá das propostas avulso, como a descida da TSU que se limita a prometer um pouquinho mais de crescimento económico, por via do consumo privado. O que está em jogo nestas eleições é uma ideia de país. Sabemos o que quer a coligação, precisamos de saber em que é o PS é verdadeiramente de esquerda e em que é que isso se reflecte num país que precisa urgentemente de mais justiça social. Ontem, António Costa ensaiou um bom discurso sobre o emprego que considera ser a causa das causas. Só precisa de ser afinado para não ficar perdido entre os fontanários.
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Uma questão de fé - por Paulo Baldaia -


Nota prévia: Uma reflexão interessante de Paulo Baldaia que, por regra, pensa e equaciona eficientemente o fenómeno político em Portugal. 

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Apresentadas as primeiras linhas programáticas do PS, o que se dá como certo é a clivagem ideológica em relação à linha do governo e o assumir por parte dos socialistas que, com eles, a despesa pública será maior. É também provável que o PS tenha seguido uma estratégia política, em que garante responsabilidade com a manutenção da austeridade e promete "amanhãs que cantam" com o fim da austeridade, acreditando que assim consegue convencer este mundo e o outro, a começar por eles próprios. No entanto, os socialistas podem proclamar aos quatro ventos a certeza das suas previsões, mas nenhum ser racional pode acreditar no que ouve fazendo fé na simples vontade de mudança. É claro que isso não impede que os eleitores façam a sua opção com base em promessas que lhes permitem sonhar com o fim de uma realidade da qual estão fartos. Ver para crer, não sendo um princípio cristão, é uma boa bitola para avaliar as políticas que cada partido apresenta. O problema é que nós temos de votar antes de ver em concreto.
O escrutínio às propostas de cada um dos lados tem de ser reforçado, porque vivemos tempos de risco elevado e a dicotomia empresas/pessoas é redutora, porque nenhuma existe sem outra. A ideologia certa, portanto, é a que não separa o que não pode viver separado. Para bem do país, para bem de nós todos, é preciso é que tudo seja muito bem explicado. Temos todos, por isso, de fazer um apelo à memória para avaliar historicamente o que vale cada um dos políticos que se apresentam a eleições. E avaliar igualmente as políticas. Pelas propostas já apresentadas pelo PSD-CDS e pelo PS parece que os dois blocos vão no caminho de reduzir a austeridade, mantendo-a. É uma questão de velocidade. Podemos confiar? Se depender apenas da nossa fé nos economistas, convém recordar que eles existem para todas as teorias e só as que foram amplamente testadas têm validade científica. O resto é política. Pode andar pelas ruas da amargura, mas ainda é o que faz a diferença.
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quarta-feira

O plano miraculoso para Portugal

Nota prévia: O PS assumiu hoje parte do seu Programa eleitoral que comunicará à sociedade para conquistar o poder em 2015, com base no estudo realizado por um grupo de economistas. Mal de um país em crise ficar apenas nas mãos dos economistas, que têm falhado todas as previsões (internas e estratégicas), é como na guerra: um assunto demasiado importante para ser entregue apenas a generais. Inevitavelmente, os impostos teriam de vir à baila e ocupar o eixo da comunicação, da qual todas as outras dependem. O dinheiro, sempre o dinheiro, ou a forma como ele é usado.  
- Com efeito, o PS tinha de começar por algum lado, e prometer aliviar os impostos e os descontos para a SS suportados pelos trabalhadores e pelas empresas nos próximos anos. Tal é não só inevitável como recomendável. Com esta medida, o PS procura libertar mais recursos e liquidez às famílias para potenciarem o consumo interno e, desse modo, dinamizar a economia (mercado interno). Logo, aliviar as pensões e os custos às empresas é transferir para ambos maior capacidade competitiva no futuro próximo. O objectivo do PS, nesta política de alívio contributivo, é a de ultrapassar a proposta do PSD, cujos planos de Governo para reduzir a TSU às empresas - se ficam apenas no âmbito dos mecanismos de flexibilidade ditados por Bruxelas, e com um período mais dilatado no tempo. Ou seja, o PS quer menos impostos e num espaço de tempo mais curto. Menos para melhor. 
-  Sobre os 600 ME que o Governo defende ser preciso poupar com a reforma dos sistemas de pensões, o PS entendeu não dar-lhe "pasto", mas o grupo de economistas que realizou o Relatório entende ser necessário uma homogeneidade dos regimes de pensões, eliminando as diferenças ainda subsistentes entre o regime geral e a CGA. E para a sustentabilidade da SS, o mesmo Relatório sugere algo perigoso, porque de receitas incertas, ou seja, pretender consignar a fonte de financiamento da SS à receita do IRC e ao novo imposto sobre heranças acima de 1ME. Foi aqui que "cai da cadeira", a não ser que A. Costa pense que a SS encontra a sua sustentabilidade - com a crise de emprego conhecida (e que não mudará automaticamente com o PS em S. Bento), que intensifica o défice dos descontos para o sistema de pensões, agravada por uma maior longevidade das populações, no tal imposto sobre heranças, hoje cada vez mais raras, ou então está a pensar no mercado chinês... 
- Afectar ou condicionar o sistema de SS a impostos fora desse mesmo sistema é, no mínimo, um erro e um risco que as futuras gerações não devem assumir, e que o Estado não tem o direito de hipotecar "jogando" com o dinheiro que os cidadãos lhes confiam para gerir. Importa notar, que o dinheiro da SS não pertence ao Estado, é dos cidadãos que fazem os descontos, ao Estado incumbe geri-los de forma eficiente e transparente. 
- Esperava que A. Costa nos dissesse que iria questionar e anular, em nome do interesse público, inúmeras Parcerias Público Privadas (PPPs) que, essas sim, são o verdadeiro sorvedouro de recursos ao Estado sem que os cidadãos tenham a devida contrapartida desses onerosos contratos leoninos que o Estado mantém com os Melo das "Brisas" e companhia. 
- Ou seja, tudo girou em torno dos recursos financeiros e da forma como os afectar no funcionamento do Estado. Não vi, nesta fase de apresentação do Relatório, uma única ideia sobre o modelo de desenvolvimento económico e social para Portugal, e como conseguir assegurar duas ou três coisas básicas numa economia, numa comunidade: assegurar crescimento, coesão e desenvolvimento. E como dinamizar esses vectores na discussão com Bruxelas, que hoje até tem um novel presidente da CE, Jean-Claude Juncker que foi e é amigo dos pequenos países do Sul da Europa. 
- Pode ser que no futuro próximo, o Relatório "venda" ao país melhores ideias. Ansiamos por elas. 

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Doutorado em Harvard. Polémico. Liberal. Eis Mário Centeno. A caminho de ser ministro?


Mário Centeno, coordenador do grupo de peritos económicos de António Costa, alerta há anos que a segmentação entre trabalhadores que estão muito protegidos e trabalhadores quase sem proteção está no centro dos problemas do mercado de trabalho português. 
Porta-voz. Mário Centeno apresentou hoje as grande linhas do relatório do grupo de peritos económicos. As propostas apresentadas deverão servir de base à vertente económica do programa com que o PS se vai apresentar a eleições
Porta-voz. Mário Centeno apresentou hoje as grande linhas do relatório do grupo de peritos económicos. As propostas 
apresentadas deverão servir de base à vertente económica do programa com que o PS se vai apresentar a eleições.


Mário Centeno, o economista que coordenou o grupo de peritos que elaborou o documento técnico com o cenário 
macroeconómico e as propostas que, espera-se, venham a servir de base à vertente económica do programa com que o PS 
se vai apresentar a eleições, é, aos 48 anos, um ilustre desconhecido para a maioria dos portugueses. 
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sexta-feira

Sondagem da Católica coloca PS à beira da maioria absoluta

Sondagem da Católica coloca PS à beira da maioria absoluta, Link



Sondagem da Católica coloca PS à beira da maioria absoluta

Sara Piteira, RTP

O Partido Socialista está à beira de uma maioria absoluta nas legislativas do próximo ano, aponta o barómetro realizado pela Universidade Católica para a RTPAntena 1Jornal de Notícias eDiário de Notícias. O estudo realizado duas semanas após a vitória de António Costa nas Primárias do PS revela um desejo de mudança dos portugueses, que castigam os partidos do Governo com percentagens que são das piores já registadas, quer pelo PSD quer pelo CDS-PP.

Estes números foram obtidos calculando a percentagem de intenções diretas de voto em cada partido em relação ao total de votos válidos (excluindo abstenção e não respostas) e redistribuindo indecisos com base numa segunda pergunta sobre intenção de voto. São apenas consideradas intenções e inclinações de voto de inquiridos que dizem ter a certeza que vão votar ou que dizem que em princípio vão votar.O estudo da Universidade Católica para a RTP e Antena 1 revela uma clara intenção de mudança do universo eleitoral português, que ganha força na resposta sobre a abstenção: 70% dos inquiridos manifestam a intenção de votar (15% “em princípio” e 55% “de certeza”). Dados que quebram o ciclo de crescimento da abstenção dos últimos atos eleitorais.
Assim, se as eleições fossem hoje - e respondendo já depois de António Costa assumir a liderança do PS – 45% dos inquiridos votariam no PS, percentagem que em anteriores cenários eleitorais já valeu ao PS uma maioria absoluta. No PSD votariam 28% da amostra e 4% no CDS-PP, o que representa para a atual coligação uma queda superior aos 10 pontos percentuais, face à última sondagem.

À esquerda, a CDU (coligação do PCP com os Verdes) garante 10% de intenção de voto (desce 2 pontos) e o BE prossegue a curva descendente com apenas 4% da preferência da amostra. O Bloco é o partido que mais cai desde o barómetro anterior (tinha 7%).

Estes dados revelam ainda que, desde o barómetro realizado em abril, a diferença entre PS e PSD alargou-se de 6 para 17 pontos percentuais. Os socialistas são aliás o partido que mais sobe desde o estudo anterior, com mais 9 pontos.Efeito Costa
Os números da sondagem vão no sentido de um novo ciclo sob a liderança de António Costa como candidato do PS a primeiro-ministro. Quando questionados acerca das personalidades mais influentes da vida política portuguesa, é António Costa que merece mais avaliações positivas (62%), seguido a uma larga distância por Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP (53%). Todos os outros líderes partidários e o Presidente Cavaco Silva têm avaliações abaixo dos 50%.

António Costa consegue uma preferência pouco inferior àquela de Passos Coelho e Paulo Portas em conjunto (respectivamente 36% e 33% para uma soma de 69%). Os líderes dos partidos que compõem a coligação do Governo são as figuras políticas mais penalizados nesta avaliação.

De referir ainda a entrada para esta tabela de Marinho e Pinto, que recolhe para já 47% de avaliações positivas. Cavaco Silva, que em abril obteve 48% de avaliações positivas, fica-se agora pelos 46%.
Apenas 22% dão nota positiva ao Governo
À semelhança do barómetro realizado há seis meses, o desempenho do Governo continua a colher uma avaliação esmagadoramente negativa (37% Mau e 33% Muito Mau).

Face a estes dados penalizadores para o Executivo Passos-Portas, as pessoas que respondem à sondagem manifestam-se contudo descrentes (54%) na capacidade de qualquer dos outros partidos para fazer melhor.

Apenas 26% dos inquiridos acreditam nas capacidades dos partidos da oposição. Destes, 61% apontam o PS como a melhor alternativa à coligação PSD-CDS. A CDU mereceu 16% e o BE 7%.
Coligações sim… mas à esquerda
A Universidade Católica questionou ainda a amostra do Barómetro quanto aos cenários eleitorais do próximo ano (caso se mantenha o calendário eleitoral previsto).

A ideia que fica das respostas é que a maior parte dos inquiridos que votam PSD ou CDS-PP defendem que devem concorrer coligados (PSD: 60% contra 33%; CDS: 62% contra 32%).

Já os eleitores identificados com a esquerda parlamentar (PS, CDU e BE) consideram que a coligação deve dissolver-se para as próximas Legislativas.

Colocados perante o cenário de uma vitória do PS no próximo escrutínio, os eleitores de direita preferem um executivo de coligação do PS com um partido da direita a um Governo apenas socialista. O mesmo sucede com os partidos à esquerda do PS, que manifestam igualmente a preferência por um executivo de coligação, neste caso com um partido de esquerda.

Os eleitores do PS prererem um governo de partido único, o Partido Socialista (46%, contra 32% de eleitores socialistas que aceitariam de bom grado uma coligação à esquerda).


Ficha Técnica

Esta sondagem foi realizada pelo CESOP–Universidade Católica Portuguesa para a Antena 1, a RTP, o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias nos dias 11, 12 e 13 de outubro de 2014. O universo alvo é composto pelos indivíduos com 18 ou mais anos recenseados eleitoralmente e residentes em Portugal Continental. Foram selecionadas aleatoriamente dezanove freguesias do país, tendo em conta a distribuição da população recenseada eleitoralmente por regiões NUT II e por freguesias com mais e menos de 3200 recenseados. A seleção aleatória das freguesias foi sistematicamente repetida até que os resultados eleitorais das últimas eleições legislativas nesse conjunto de freguesias (ponderado o número de inquéritos a realizar em cada uma) estivessem a menos de 1% dos resultados nacionais dos cinco maiores partidos. Os domicílios em cada freguesia foram selecionados por caminho aleatório e foi inquirido em cada domicílio o mais recente aniversariante recenseado eleitoralmente na freguesia. Foram obtidos 1064 inquéritos válidos, sendo 62% dos inquiridos do sexo feminino, 36% da região Norte, 18% do Centro, 31% de Lisboa, 8% do Alentejo e 7% do Algarve. Todos os resultados obtidos foram depois ponderados de acordo com a distribuição de eleitores residentes no Continente por sexo, escalões etários, região e habitat na base dos dados do recenseamento eleitoral e do Censos 2011. A taxa de resposta foi de 66%*. A margem de erro máximo associado a uma amostra aleatória de 1064 inquiridos é de 3%, com um nível de confiança de 95%.

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Obs: Mais uma má notícia para o PSD/CDS e para Seguro; mais uma boa notícia para Portugal e para os portugueses.
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domingo

Francisco Seixas da Costa explica por que não vota em Seguro


  • NOTA PRÉVIA:
  • O Embaixador Francisco Seixas da Costa explica aqui, neste seu texto, consistente, franco e com ideias claras e arrumadas, a razão pela qual não vota em António José Seguro. Trata-se, pois, de um grande "estalo de luva branca" no ainda SG do PS que, em rigor, recebeu do partido aquilo que nele foi cultivando. Em política não há gratidão, muito menos quando ela também nunca foi cultivada no seu seio. 
  • Vale a pena ler o texto do embaixador, pois ele é esclarecedor a muitos títulos e, acima de tudo, é uma peça de verdade que não estamos habituados a ler em política. 
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Escrevo-lhe no dia das eleições primárias do PS.

Recordo bem as conversas que fomos tendo ao longo de meses, o estímulo que dei para o seu esforço em construir uma oposição, simultaneamente eficaz e responsável, à triste governação que nos saiu em rifa. Tenho presente a confiança que em mim colocou, ao ter-me formulado honrosos convites, que nunca pude aceitar, com exceção da pontual colaboração na dimensão europeia do "Novo Rumo", uma iniciativa em que tive uma grande honra em participar e de cujo resultado me orgulho. Pela razão que sempre lhe disse: estou, em definitivo, indisponível para qualquer atividade política ativa. E esse é também o motivo pelo qual, com total liberdade, posso hoje dizer abertamente o que penso.
Desde logo, quero deixar claro que a sua tarefa, ao longo destes mais de três anos, foi sempre muito difícil. Você fez opções corajosas, com o objetivo de credibilizar a imagem internacional do PS, ao não obstaculizar o orçamento de 2012 e ao votar favoravelmente o Tratado Orçamental. Nenhum líder socialista responsável teria procedido de forma diferente, tenho absoluta certeza. E foi você, na solidão do lugar onde se encontrava, que teve de tomar a decisão. E fê-lo da forma certa, por muito que agora, com a comodidade da distância, alguns achem que isso não deveria ter sido feito. 
O seu espaço de manobra, ao longo de todo esse tempo, com um presidente da República que agora se revela em pleno, foi sempre muito reduzido: caminhar entre um "memorando" que o país político tinha aceite maioritariamente a contragosto, sob um estado de necessidade, e um governo que, dia após dia, surgia incensado por Merkel & quejandos, numa espiral de elogios que parecia diretamente proporcional ao desastre que ia provocando no país. Dir-se-á que, aqui ou ali, poderia ter procedido de forma diferente: talvez, mas você não era um líder populista, lesto a cavalgar "a rua", e tinha a estrita obrigação de cuidar a imagem histórica de responsabilidade do partido que o escolheu. E isso de se dizer que você comprou cedo a "narrativa" do governo sobre a crise é muito fácil de afirmar agora, num tempo em que as pessoas parece já terem esquecido o ambiente político-mediático, cá dentro e lá fora, sob o qual Portugal vivia. A memória é curta, meu caro.  
Mas nem só fora do PS estiveram as suas dificuldades. Estavam também no seio do grupo parlamentar socialista, onde você nunca pôde contar com um núcleo importante de deputados, que sempre o combateram. Por três razões: alguns porque nunca aceitaram a sua vitória e não se subordinaram democraticamente à sua liderança, outros porque você não se soube mostrar solidário com muitos aspetos positivos da governação socialista anterior (um importante erro seu!) e, finalmente, com outros que você decidiu não cooptar para a ação política de primeira linha (e fez mal!). Hoje, toda essa gente está com António Costa, alguns deles, há que dizê-lo, por terem entretanto percebido que você lhes não renovaria o mandato em 2015. Houve, de facto, muito sectarismo dentro do PS, mas você, meu caro António José Seguro, também não está isento de culpas nesse domínio. 
O PS, consigo, ganhou duas eleições? É verdade. Mas, sejamos francos, nas recentes europeias, o resultado conseguido ficou muito aquém daquilo que seria expectável que o principal partido da oposição pudesse ter conseguido, perante um descalabro da (antiga) maioria e um sentimento de revolta e desânimo que atravessa o país. A distância virtual entre o resultado obtido pelo PS e aquele que se pode computar ao PSD no seio da coligação é quase de 10 pontos? Também é verdade. Só que 72% dos eleitores mostraram o seu desagrado com a ação do governo e, dentre esses, o PS só conseguiu representar 32%. Isto é, 40% do país revoltado escapou-lhe de mão. E isto é um facto, mesmo com a atenuante da especificidade das europeias (mas, se formos por esse caminho, também o resultado das autárquicas pode ser lido como uma opção personalizada pelos candidatos e não uma ação virtuosa do PS central).
Como eu, com toda a franqueza, lhe referi logo após as eleições, muitos socialistas (e muita gente que vota PS) não se reviram no seu deslocado discurso da noite eleitoral. Foi um mau resultado e, como também então lhe disse, esse resultado e a forma como você o interpretou abriram o caminho natural à candidatura de António Costa. Não tem qualquer sentido você insistir em dizer que foi uma deslealdade o surgimento desse desafio: foi a resposta polarizadora de um sentimento que atravessava muita gente. Gente muito diversa, desde aqueles que, dentro e fora do PS, nunca acreditaram politicamente em si e a quem o seu estilo de liderança nunca convenceu, até outros que, mantendo por si simpatia e respeito - pela sua seriedade, pelo seu empenhamento, pela sua dedicação - chegaram à conclusão que não podiam arriscar-se a ver o destino do PS, numas futuras eleições legislativas, colado à escassez das vitórias que você lhes prometia. E que, com todo o direito, entenderam apoiar um outro candidato, que consideraram poder vir a protagonizar uma oposição mais eficaz à maioria cessante. 
Nessa altura, colocava-se um problema formal e você resolveu-o com inesperada maestria. Não prescindindo - e fez bem! - da legitimidade que os estatutos lhe conferiam (isto é, não se demitindo e convocando congresso e eleições diretas), tomou a decisão sábia de "resolver" o desafio pelo recurso a estas eleições primárias. Provou assim que não fugia à disputa e, mesmo para além disso, abriu-a para além do "aparelho", que o acusavam de ter "na mão".

Tudo estaria mais ou menos bem se o debate, a partir daí desencadeado, se tivesse processado com elevação. E aqui, meu caro António José Seguro, quero dizer-lhe que você esteve muito longe daquilo que eu esperaria de si. E, confesso, desiludiu-me muito. Foi você o primeiro a abrir as hostilidades com acusações de caráter ao seu adversário (como que esquecendo que ele era, antes de tudo, um seu camarada), a espalhar insinuações populistas sem rosto e a desenvolver uma campanha "ad hominem". E isso manchou, em definitivo, a sua imagem. Espero que hoje tenha plena consciência disso. 

Reconheço sem dificuldade que, do outro lado da barricada, alguns agitados prosélitos de António Costa - nos blogues, no facebook, no twitter, nos jornais e nas televisões - colocaram-se, desde cedo, ao mesmo nível a que você fez cair a campanha. Lamentei muito não ver a voz de António Costa a tentar travar essa deriva, mas há que reconhecer que, neste particular, nas intervenções que ele próprio fez, esteve bastante melhor que você. Se acaso ele ganhar, cedo vai perceber que, se quer que um PS sob a sua liderança seja tomado a sério, terá de se afastar de muita dessa "ganga" de "talibãs" de conversa económica radical - uma espécie de émulos, do outro lado do espelho, da "rapaziada" neoliberal que hoje enxameia os corredores do poder. Uma campanha pode ser conduzida assim, o Estado não.
Nos debates televisivos, devo dizer que não encontrei o António José Seguro que eu conhecia, o homem sereno, equilibrado, com sentido de defesa dos interesses do seu partido, colocando as ideias - e você construiu um "banco" de ideias que são património de "qualquer" PS - à frente da chicana. Posso estar enganado, mas quem vi por ali foi um homem ferido, amargo, com uma agressividade deslocada e não construtiva. Alguém que teimou em "deitar sal" sobre as feridas, como se, com essa atitude, quisesse consagrar uma vingança pessoal. Não gostei nada do que vi. E, por isso, meu caro António José Seguro, com toda a consideração pessoal que sabe que mantenho por si, lamento ter de dizer-lhe que, hoje, não vai poder contar com o meu voto.  
Com um abraço amigo do
Francisco Seixas da Costa

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terça-feira

PSOE retirou o microfone a Seguro

PSOE retirou o microfone a Seguro


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Obs: Curiosamente, aquilo que deveria ter sido feito por Cavaco em Dili relativamente ao patife Obiang - retirando-lhe a possibilidade de integrar a CPLP - é o que o recém-entronizado líder do PSOE fez ao SG do PS em exercício em Portugal. 
Afinal, onde está a solidariedade partidária e político-ideológica entre partidos irmãos? Ou será que o fio extenso das dúvidas já atravessou a fronteira?
O mundo anda com os passos trocados e parece que ninguém beneficia com esse desacerto. 
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quinta-feira

Uma fraude - por Vasco Pulido Valente -




Seguro, é verdade, podia resolver o caso, saindo imediatamente de secretário-geral e convocando um congresso. Preferiu resistir palmo a palmo ao que ele considerava uma imerecida ofensa pessoal e inventou a absurda manobra das “primárias”, com a desculpa de que se fazia em França (a designação de Hollande para presidente foi o meritório resultado). Costa, sem maneira de se opor a este delírio, acabou por aceitar e hoje, entrincheirado em disputas processuais, vê a intervenção, que ele supunha salvífica, perder o seu peso e o seu sentido original. O cidadão comum, mesmo o cidadão interessado, não compreende esta história esotérica, que se passa ao lado da sua miséria e que tanto interessa os facciosos das duas partes, agora engolfados numa querela ociosa.

Pior ainda: as “primárias” são inconciliáveis com a política portuguesa, em que a “classe operária”, apesar do esforço do PC, não produziu uma cultura autónoma e as diferenças das três seitas do “arco governativo” mal se distinguem. Interrompendo as tradições políticas do século XIX, a Ditadura impediu que se formassem e consolidassem as grandes correntes que dominaram a sociedade moderna: o obreirismo, o sindicalismo, o socialismo, o anticlericalismo, o conservadorismo. Em 2014, há talvez um pequeno número de “famílias católicas”. Mas não há famílias socialistas, ou CDS ou PSD. O eleitorado, como geralmente se reconhece, flutua em grosso com os chefes de partido e o rendimento disponível. Costa e Seguro insistem que os participantes declarem a sua “concordância com a Declaração de Princípios” do PS. De que serve isto e que raio de confiança inspira, quando o próprio PS (como, de resto, o CDS e o PSD) é o primeiro a não os respeitar? Que nova fraude nos querem impingir?

Por Vasco Pulido Valente
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Obs: Medite-se nestas contradições expostas por VPV, as quais parecem ter fundamento histórico entre nós, especialmente se atentarmos no efeito báscula que se exerce entre PS e PSD nos momentos eleitorais. 

I.é, os eleitorados oscilam entre um e outro partido não em função do ideário ou do rasto ideológico de cada um, ou do seu programa eleitoral comunicado à sociedade, cujas promessas sabemos antecipadamente converterem-se em mentiras políticas institucionalizadas (vide o caso da mega-fraude eleitoral e o erro de casting que foi e é Passos Coelho!!!) - mas em função dos chefes que, a cada momento, aqueles partidos oferecem ao mercado político e eleitoral - tendo em atenção o carisma, a liderança e a empatia que os respectivos líderes partidários conseguem estabelecer com os eleitorados e a sociedade em geral. 

Numa palavra: mais importante do que os partidos, estão os líderes que consigam inspirar mais eficientemente as bases sociológicas de apoio e com elas estabelecer um laço psico-afectivo, antecâmara da criação de legitimidade política.

A esta luz, só me ocorre perguntar o seguinte: o que pensarão os agricultores, os pensionistas e reformados, muitos funcionários públicos e os portugueses em geral - do CDS de Paulinho Portas e do PSD de Coelho?!

Coisa boa não será, certamente!!!

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sexta-feira

Abriu-se uma grave crise política no interior do Partido Socialista - por Francisco Assis

OPINIÃO

Abriu-se uma grave crise política no interior do Partido Socialista


Convindo que umas eleições europeias não têm análoga importância histórica e que o destino da humanidade não está suspenso das convulsões internas do Partido Socialista haverá, contudo, que ter uma certa cautela na abordagem da questão em causa. Na verdade, só os incautos continuam a privilegiar os factos em detrimento das interpretações.
A propósito de um conflito de interpretações acerca do resultado eleitoral verificado abriu-se uma grave crise política no interior do Partido Socialista. Essa crise não deve ser colocada nem no plano da moralidade nem no domínio da legitimidade. Pelo contrário, ela só poderá ter sentido se devidamente tratada no campo da confrontação política, estratégica e, se for caso disso, doutrinária.
É claro que aqueles que despudoradamente fazem comparações indevidas entre o resultado agora obtido e outros verificados em contextos históricos e eleitorais completamente distintos não concorrem para uma discussão séria sobre aquilo que verdadeiramente importa: o futuro do Partido Socialista em vários aspectos determinantes. Quando, por exemplo, se estabelece uma comparação entre o resultado agora alcançado e o resultado obtido há dez anos atrás, não apenas se está a cometer um erro analítico como se está a incorrer numa verdadeira desonestidade intelectual. Isto para já não falar das comparações que algumas mentes mais ligeiras se têm atrevido a fazer com resultados verificados em eleições de natureza completamente distinta. Só que não é isso o mais importante, já que estou absolutamente certo que o que move António Costa é algo de mais profundo e mais  respeitável: a convicção de que pode alargar a influência política do Partido Socialista, reforçar a sua capacidade oposicionista e potenciar a sua expansão eleitoral.
Nessa perspectiva, haverá três questões que devem ser equacionadas com absoluto rigor quer por uma quer por outra candidatura. São elas as seguintes: que tipo de oposição deve o Partido Socialista prosseguir? Que estratégia deve ser valorizada no âmbito do relacionamento com as outras forças partidárias? Qual o posicionamento que deve ser privilegiado no plano da política europeia? Comecemos por responder à questão da definição do estilo de oposição a desenvolver. Deve o Partido Socialista optar por um modelo de oposição permanente e subsidiária da acção fiscalizadora empreendida pelo Tribunal Constitucional ou, pelo contrário, deve privilegiar um outro estilo onde a firmeza nas questões essenciais não exclua a disponibilidade para algum diálogo com o Governo, desde que sejam tidas em consideração legítimas preocupações socialistas que suscitam, aliás, ampla adesão nacional? Esta questão não é de menor importância. Quando há três anos atrás fui o primeiro a propor a opção pela abstenção, aquando da discussão do Orçamento de Estado apresentado pelo Governo, fi-lo por razões pertinentes, já que estava em causa a afirmação de uma linha de conduta que poderia e deveria ter marcado toda a presente legislatura. Essa opção, a ter sido plenamente prosseguida, teria reforçado a identificação do PS com um elevado sentido de responsabilidade nacional, sem prejudicar a sua capacidade de enunciação concreta de um programa político alternativo. Teria, além disso, permitido a resolução de um problema que se viria a revelar crucial: o do relacionamento com o nosso próprio passado governativo. Só um partido suficientemente forte para assumir o sentido do compromisso teria estado em condições de sustentar, com sucesso, uma explicação sobre as origens da crise distinta daquela que a direita procurou apresentar. O problema volta a colocar-se agora. Por muito que isso desagrade, e até possa ser percebido como um verdadeiro sacrilégio nalguns sectores do Partido Socialista, os portugueses sabem que a austeridade começou connosco. Por isso mesmo, são levados a não acreditar em radicalismos retóricos que parecem relevar mais de um impulso mágico do que de uma criteriosa avaliação da situação real do país.
A segunda questão, a que concerne ao relacionamento com as outras forças políticas, é também extraordinariamente importante. Nos últimos tempos temos assistido a uma incompreensível tentativa de estigmatização pública de todos quantos se não opõem à simples possibilidade teórica da celebração de entendimentos futuros com partidos situados à nossa direita. Compreendo humanamente o impulso juvenil de uns quantos, suscita-me profunda perplexidade o serôdio sectarismo de muitos outros. Porque estranha razão haveria o Partido Socialista de privilegiar entendimentos com partidos com quem nunca até hoje se entendeu devido a divergências doutrinárias profundas e haveria de excluir em absoluto acordos com partidos que, malgrado as profundas discordâncias presentes, não se situam em temas tão importantes como o tema europeu numa posição absolutamente oposta àquela que preconizamos? Aproveito, aliás, para saudar a este propósito a coragem evidenciada há dois dias por Miranda Calha numa interessante entrevista concedida ao jornal I.
Por último, convém saber o que pensam as candidaturas em confronto acerca da política europeia. É bom que se perceba o que pretendem de facto para além das banalidades retóricas próprias deste tipo de confronto. Qual o posicionamento em relação ao tema central da criação de mecanismos que permitam a salvaguarda da moeda única, como perspectivam institucionalmente o futuro do projecto europeu e o que pensam quanto à questão do designado Tratado Orçamental europeu. Estas questões, como é óbvio, estão profundamente articuladas entre si. É importante que o país compreenda o que António José Seguro e António Costa pensam sobre cada um destes assuntos. Se assim suceder, como espero que aconteça, ambos prestarão um inestimável serviço ao PS e a Portugal.
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Obs: Medite-se nesta importante reflexão de Francisco Assis. Uma reflexão feita com inteligência, conhecimento e elevação que importa valorizar. 
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