quinta-feira

Poder, Prazer e Lucro - por David Wootton -

   Nota prévia: Tudo quanto diga respeito ao pensamento do florentino, Nicolau Maquiavel, fundador da Ciência Política, porque isolou a Política das questões ético-morais, é um marco na evolução do pensamento e da formulação das ideias que fazem avançar ou regredir as sociedades. 
Poder, Prazer e Lucro  David Wooton é um historiador com um pensamento original e procura, naquelas quase 500 págs., fazer uma incursão ao Iluminismo até aterrar no mundo contemporâneo, estudando cerca de 400 anos de história no contexto do pensamento ocidental. Já o excepcional Sir Bertrand Russel, matemático, filósofo e também um eminente historiador das ideias da Renascença, Época Moderna e Idade contemporânea deu um contributo inestimável para estudo do conceito de Poder e concluiu que a Democracia pouco significado tem sem uma igualdade económica entre os homens e sem um sistema educativo que tenda a promover a tolerância na sociedade. 
  Contudo, a história tem constatado que as tiranias acabam sempre por cair, pelo que não há qualquer razão para supor que um ditador terá  maior permanência no poder do que um seu sucessor. 
  Ainda assim, nunca temos a certeza de que a democracia está protegida ou imune aos regimes degenerados, e, a qualquer momento, por excesso de nacionalismos, xenofobia ou qualquer outro processo social desviante relacionado com as migrações em massa, como hoje se verifica no Norte de África, Médio e Próximo Oriente em direcção à Europa (em que as populações buscam melhores condições de vida, ou apenas sobreviver fugindo aos conflitos civis nos seus países), o pior pode ocorrer e comprometer os sistemas democráticos. A democracia está, assim, flanqueada e permanentemente ameaçada por aqueles comportamentos degenerados. 
  Não deixa de ser curioso como este historiador e professor catedrático da U. de York escolheu os três conceitos mais poderosos da dinâmica social e económica - Poder, Prazer e Lucro - para, em torno deles, (re)desenhar a história do pensamento político de Maquiavel ao presente. 
Resultado de imagem para Maquiavel, Hobbes e Adam Smith   A essa luz, e nos últimos anos, foram poucos os que de modo consistente conseguiram não ceder ao gratuito e ao disparate e enquadrar a história das ideias num mundo em turbulência, de mentira institucionalizada e global conferindo, ao mesmo tempo, um grande poder às ideias e à sua dinâmica. Quer para melhorar o sentido de evolução das sociedades, quer para registar um retrocesso no processo de mudança social. 
  Poder, Prazer e Lucro é, de facto, uma obra que está na intersecção da Ciência Política, da Filosofia política e da Economia política, e é essa interdisciplinaridade que interessa à ambivalência dos tempos, pois sem o concurso dessas lentes graduadas no estudo e avaliação da realidade o resultado afigura-se diminuto em sem grande interesse intelectual na explicação do mundo contemporâneo. 
Resultado de imagem para adam smith, lucro  Em suma: o historiador britânico conseguiu por em diálogo três dos maiores pensadores dos últimos 500 anos: Nicolau Maquiavel, T. Hobbes e A. Smith. Uma tarefa que só está reservada a alguns. 






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Resultado de imagem para david wootton«Wootton apresenta a viragem conceptual que conduziu ao modo de vida atual num livro que é ambicioso e abrangente no seu alcance [...]. Uma história apaixonante da forma como as ideias podem mudar o mundo.
John Gray, New Statesman



Poder, Prazer e Lucro
David Wootton, nascido em Winchester em 1952, é professor catedrático e Anniversary Professor de História da Universidade de York (Reino Unido). Entre as suas obras encontram-se Paolo Scarpi(1983), Bad Medicine (2006), Galileo (2010) e A Invenção da Ciência: Nova História da Revolução Científica, publicado pela Temas e Debates em 2017















SINOPSE


«O título do meu livro é Poder, Prazer e Lucro, por essa ordem, porque o poder foi conceptualizado primeiro, no século XVI, por Nicolau Maquiavel e os seus seguidores; no século XVII, Hobbes reviu radicalmente os conceitos de prazer e felicidade; e o modo como o lucro funciona na economia foi bem teorizado pela primeira vez, no século XVIII, por Adam Smith.»


Procuramos incessantemente poder, prazer e lucro.
Nesta procura sem limites recorremos a um raciocínio instrumental - ou análise custo-benefício - para os alcançarmos. Julgamo-nos a nós próprios e aos outros pelo grau do nosso sucesso. É um modo de vida e de pensamento que parece natural, inevitável e inescapável. Porém, David Wootton mostra que isso não é verdade. 



Neste livro, revisita a revolução intelectual e cultural que substituiu os antigos sistemas da ética aristotélica e da moralidade cristã pela jaula de ferro do raciocínio instrumental que agora dá forma e propósito às nossas vidas.



críticas de imprensa


Wootton esclarece de que modo o pensamento europeu abandonou as virtudes tradicionais e aceitou o “sistema egoísta” do utilitarismo […] explica teorias sociais e políticas complexas com uma clareza admirável.»

Jeffrey Collins, Wall Street Journal



«Mais relevante nas circunstâncias políticas e culturais atuais do que qualquer outro livro que li nos últimos quatro anos.»
Lewis Lapham, The World in Time



«Wootton apresenta a viragem conceptual que conduziu ao modo de vida atual num livro que é ambicioso e abrangente no seu alcance […] Uma história apaixonante da forma como as ideias podem mudar o mundo.»
John Gray, New Statesman

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terça-feira

António Costa já encomendou a alma a meia dúzia...


1. António Costa começou por ser derrotado nas últimas eleições legislativas de 4 de Outubro, mas depois conseguiu fazer a quadratura do círculo e vencer. E venceu porque conseguiu chamar a si - e ao PS - 40 anos de afastamento com o PCP e fazer uma entente cordiale com o BE, um partido em crescimento pela mão de Catarina Martins, uma líder que se tem revelado excepcional. Com isso, A.Costa viabilizou uma maioria absoluta com incidência parlamentar necessária à governação, obrigando Cavaco a aceitar a indigitação do seu nome para S.Bento.

2. Como esta sua vitória foi tão sui generis quanto estrondosa ele conseguiu enterrar politicamente Sócrates e o socratismo, absorvendo alguns dos seus colaboradores mais eficientes, como João Galamba e neutralizar outros. No caso da Justiça que envolve o ex-PM não se meteu, ganhou até muita distância com essa frieza, o que lhe deu espaço político para dizer ao país que ele é uma coisa e Sócrates, inocente ou condenado, é outra.  

3. Mas antes de enterrar politicamente Sócrates, que viu a justiça cair-lhe encima, sem ainda se saber ao certo em que consistirá a acusação (cujos prazos o MP já deixou expirar, numa grosseira violação formal do exercício tramitacional da justiça) A.Costa sepultou António José Seguro, e fê-lo com alguns requintes de malvadez, revelando que em política a vingança é um prato que se serve tanto a frio como a quente, desde que se sirva. Quem ainda se lembra das imagens de Seguro a sair da sede do PS, no Largo do Rato, e a entrar no seu carro, percebe o que aqui se escreve. A política também é drama.

4. Após despachar Sócrates e Seguro, os pequenos obstáculos internos ou domésticos no PS, eis que começam a sentir-se os efeitos colaterais fora do PS, ou seja, na área do CDS e PSD, partidos oportunisticamente coligados apenas para manterem o poder, custe o que custar e com grosseiro sacrifício para Portugal e os portugueses. O Banif é, talvez, o caso mais estrondoso para o impacto nas finanças públicas do que foi a vergonha, a impreparação, a incompetência e a mentira sistemática institucionalizada pela dupla de meliantes Pedro & Paulo - a que A.Costa - com a sua ascensão a PM veio fazer implodir. Paulinho das feiras, essa virgem velha e ofendida (rameira política de sempre), já foi obrigado a demitir-se, e essa é também mais uma consequência da elevação de A.Costa ao cadeirão de S. Bento. E vão três.

5. Todavia, os estragos que António Costa fez na política pura e dura em Portugal não se ficam por aqui, ou seja, Pedro Passos Coelho, o tal que se esquecera de pagar as suas contribuições/prestações obrigatórias à segurança social durante 5 anos a fio, alegando esquecimento e desconhecimento da lei (justificações idiotas e não procedentes ao nível do direito) está também na calha para implodir. É certo que passos está na liderança do PSD há cinco anos, mas a forma anti-social e tributeira como governou, seguindo a cartilha da extrema-direita neoliberal, abrindo fissuras na sociedade que já não têm remendo, além de que entre ele e o Portugal profundo há hoje uma distância que vai de Massamá à Muralha da China. Daqui decorre que no PSD há já quem peça a sua cabeça, como Rui Rio (e outros), pois já se gerou a convicção interna no PSD de que com aquele velho e ferido líder o PSD jamais conseguirá alcançar o poder a médio prazo. 

6. Depois de ter despachado Sócrates, Seguro e Portas, e estando Passos Coelho na calha para a implosão política, outro dos sacrificados é, seguramente, Carlos Costa, Governador do BdP, ainda que aqui a competência de demissão não seja do Executivo mas do Banco Central Europeu. Contudo, a "bernarda" do Banif, que veio por a nu a incompetência pessoal e funcional do governador e a sua incapacidade para regular e detectar as imparidades no balanço do banco, faz com que Carlos Costa, o velho guardador de tacos de golfe do engº João de Deus Pinheiro, seja mais um óbito político a prazo da subida ao poder de A.Costa. Já não é Carlos Costa quem está no BdP, mas uma sombra desmaiada e turva que já ninguém reconhece. Pelo que Carlos Costa já é mais um fantasma de si próprio do que o técnico respeitado de véspera.

7. Cavaco será o óbito futuro para engrossar a meia dúzia de políticos reduzidos a cinzas na sequência da ascensão de António Costa ao poder, com a ajuda do BE e do PCP. A tal ponto de o PM, por ocasião do encontro de Natal entre ele e o ainda PR, se ter dirigido a Cavaco dizendo-lhe que quando Vª exª estiver em plena "liberdade" - poderá gozar mais e melhor a vida, desde que não risque mais politicamente nos destinos de Portugal e dos portugueses. 

Depois de ter despachado meia dúzia para "o Cemitério dos Prazeres da política à portuguesa", importa perguntar a A.Costa se vai alí aos pastéis de Belém comer mais meia dúzia de cada vez..., ou se já começou a fazer dieta por causa do Banif. 

Quero (antes) dizer, pôr os portugueses a fazer dieta, já que são estes, os mesmos de sempre, a responder e a pagar a conta pela desbunda grosseira e criminosa dos gestores e banqueiros do costume. 

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Leviatã - por Andrey Zvyagintsev


ComAleksey SerebryakovElena LyadovaVladimir Vdovitchenkovmais
GêneroDrama
Nacionalidade

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Obs: Corrupção, Poder, Poder local, Coacção, Chantagem, Posse, Burocracia, Polícia, Afectos e ligações cruzadas. Um retrato da Rússia contemporânea que encontra paralelos noutros azimutes. 

A Religião - sempre a temperar o Poder: nuns casos para o refrear, noutros para o acicatar. 

Uma sucessão de catástrofes até à catástrofe final, prenunciando que o homem não se consegue reformar, porque encerra em si a raiz do mal: ele é o portador da corrupção que se perpétua nesse animal brutal que é o homem. 

E Vodka, muita VODKA (que mais poderia ser...)

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sábado

João Galamba dá "tareia política" na Miss Swaps

Perguntas Deputado João Galamba e respostas Ministra das Finanças 





Vale a pena ouvir os argumentos de um e outro lado para aferir que a única tarefa da tarefeira instalada no Terreiro do Paço é, de facto, aumentar os impostos. Assim, até os anões governam. 

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terça-feira

O alargamento do Espaço público e a (des)Informação em Portugal

A democracia trouxe a liberdade de expressão, associação, opinião mais uma catrafada de outras liberdades a que hoje não sabemos dar a melhor utilização. Mas esse facto, por si só, representou uma emancipação da liberdade individual de cada um de nós, o que permite a expressão de múltiplas opiniões em tempo real, seja por parte de agentes políticos, sociais, empresariais, judiciais, culturais, religiosos, etc. Todos hoje falam com todos em tempo real.
À partida essa circunstância deveria implicar mais e melhor democracia, mais e melhor entendimento e compreensão dos fluxos de informação debitados pelos media, mas, ao invés, parece que o espaço público, ou por burrice dos destinatários ou por incapacidade dos media, não conseguiu converter aqueles bits em conhecimento aproveitável pela sociedade, melhorando a qualidade da democracia, da sociedade e do Estado.
Primeiro aparece-nos a imprensa de opinião, em segundo a imprensa comercial, em terceiro implantam-se os media audiovisuais e, por fim, aparece o modelo das relações públicas generalizadas que atingem todas as esferas da sociedade e do Estado, incluindo as empresas, as associações, as corporações, nada escapa à influência dos media, mas nem por isso nos sentimos hoje melhor informados do que no passado recente. Daí o conhecimento inútil das toneladas de informação que hoje flui no espaço público.
Então, é lícito admitir que ao excesso de informação não corresponde a verdade, ou melhor informação, melhor democracia e melhor Estado. Assim sendo, o Estado, as oposições, no fundo, a classe dirigente também não está apta a produzir melhores decisões para a sociedade.
O caso da putativa compra da TVI pela PT – via Estado – que envolve o PM nessa alegada interferência do poder com o mundo empresarial para daí extrair um ganho político por via da libertação dum meio de comunicação social hostil, que, por acaso praticava mau jornalismo pela mão do casal Moniz/Guedes, revela como ainda vivemos numa sociedade de massas, acéfala e acrítica, passiva e objecto da comercialização das notícias, da Pub., e dum conjunto de comportamentos e de reacções automáticos decorrentes do tal comportamento passivo que Jürgen Habermas criticou no seu espaço público e na sua Esfera pública.
Vemos hoje um Portugal suspenso – através de duas Comissões - de inquérito e de ética da AR – para aferir da verdade de um agente político e, em função disso, marcar (ou não) eleições antecipadas, com os custos sociais, económicos e financeiros que tudo isso implicaria. Para, no final, supremo paradoxo, ser o PS e Sócrates a capturar o poder e, eventualmente, voltar a governar com uma maioria ainda mais folgada do que a que tem hoje.
Por outro lado, não devemos ser ingénuos a ponto de crer que os agentes do poder não tentam condicionar os media, influir no trabalho dos jornalistas, condicionar e/ou orientar a opinião a seu favor e virá-la contra os seus adversários políticos. Isto sempre se faz, faz-se e irá continuar a ser uma prática, porque é essa a natureza humana. Mas procurar deixar um país suspenso por uma questão que envolve mais suposições do que certezas, e é a moeda corrente da vida política e empresarial em qualquer paíse democrático, é abusivo.
Quantas vezes o empresário Belmiro de Azevedo já tentou condicionar o poder político a tomar a decisão A, B ou C? Quantas vezes Ricardo Salgado Espírito Santo já tentou (e)levar a ministro da Economia administradores do seu grupo económico? Quantas vezes o “velho leão” – compulsivamente reformado com uma ajudinha inteligente do Comendador Joe Berardo – o engº Jorge Jardim Gonçalves tentou meter Secretários de Estado das finanças e do Orçamento no Governo aquando da sua formação?
Estas tentativas e práticas são naturais e recorrentes em democracia e denuncia a relação dos banqueiros com os políticos. A virtude está em saber-lhes resistir escolhendo sempre os melhores, e que depois sejam os melhores a governar em prol do interesse geral, em busca do bem comum.
Ora, aquelas Comissões da AR representam mau teatro, são sessões deprimentes que ainda deprimem mais os portugueses, é um jogo mistificador, ainda que disfarçado de virtudes democráticas mui republicanas. Pois mesmo que se apure que o PM teve o ensejo de se libertar da TVI via PT o negócio, verdadeiramente, não se fez, e as pressões são naturais em democracia. Mas, de caminho, o país libertou-se daquele câncer jornalístico, e se hoje, a TVI produz melhor informação, a essa alegada pressão se deve. Por aqui se deduz um efeito não previsto (positivo) resultante da tomada de decisão dos espanhóis da Prisa junto da direcção de Informação da TVI que a oposição imputa ao PM.
Até posso presumir que o PM tentou fazer esse lance, ou alguém por ele para lhe agradar e facilitar a governação, mas os filtros e os mecanismos da sociedade impediram-no, o que prova a vitalidade da sociedade civil, a robustez da democracia mediática e, acima de tudo, que os seus adversários internos, estão vivos, vigilantes e actuantes.
Mas mais grave do que imputar uma manipulação ao PM é constatar a manipulação política e cognitiva que o PSD e BE tentam engendrar com o fito de manipular o raciocínio dos portugueses, através daquela galeria de convidados para fazer depoimentos, e que fazem as suas declarações em função dos seus ódios de estimação quer ao PM quer ao PS. E o mesmo se passando com os convidados do PS, que também convida os players que sabe antecipadamente têm declarações desfavoráveis aos partidos da oposição que são, no fundo, os proponentes desta mega-fantochada no Portugal dos pequeninos.
Por isso hoje Portugal é um país refém de si próprio, um país em que o objectivo é converter o falso em verdadeiro, e o seu inverso, deformando tantas vezes a realidade até que ela se encaixe na perfeição dos seus fautores. E o mais grave é que a esta amálgama cognitiva soma-se uma amálgama emotiva, valendo tudo para formatar o sentido interpretativo que os portugueses têm e devem dar aos materiais políticos que aquelas Comissões servem aos tugas.
Enquanto esta novela mexicana enche os chouriços mediáticos das nossas tvs, rádios e jornais, e o Mário crespo vai à AR dizer que dorme com uma T-shirt bem à medida do seu “mérito” profissional, Portugal dorme, lá fora, povoado de problemas sociais relacionados com o desemprego, a pobreza e as desigualdades sociais entre os portugueses, cuja economia pouco ou nada cresce, nem se moderniza nem desenvolve.
Circunstância macro-económica que só nos deprime mais, sobretudo se pensarmos que estamos cada vez mais distantes dos índices de desenvolvimento dos países que lideram o pelotão da frente desta nossa rica Europa comunitária. Tudo em nome da desinformação...
Nota: Há, contudo, uma grande vantagem no desenvolvimento destas comissões de inquérito e de ética na AR, que não passa duma "caça às bruxas" disfarçada de virtude democrática, apesar do verniz ser de 5ª categoria. E essa vantagem reside na possibilidade de as deputadas estagiárias terem a sua participação e o seu momento de glória mediática na fantochada que alguma Nação alimenta, o que doutro modo jamais aconteceria, ou seja, passariam verdadeiramente anónimas em toda uma legislatura. A vantagem é delas, e não da democracia nem da república, ou seja, do interesse geral.

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quinta-feira

Um presidente da República submetido aos media, aos juízes e à opinião. Mais vale partir uma perna...

Ao visionar ontem a entrevista do sr. PR fiquei convencido que ele sucumbiu definitivamente a essa santa trindade de poderes composta pelos juízes, pela mediacracia e, por extensão, pela opinião. Confesso que me preocupou ver tanto a-criticismo, tanta acefalia, tanta falta de capacidade de ver o lado escondido das coisas que hoje constrangem Portugal nos seus factores de modernidade e de desenvolvimento, e são, precisamente a falta de justiça, o excesso de vedetismo e uma incapacidade para crescermos relativamente aos parceiros europeus que constituem as raízes do nosso subdesenvolvimento. Ora, creio que os portugueses não esperam do seu PR alguém que diga que sim a tudo: aos juízes, aos media, e se submeta ao império da opinião pública, fugindo às questões menos simpáticas, só porque cavaco silva quer ser, também, o candidato do PS à Presidência da República em 2011. A hipocrisia e o cinismo em política têm (ou deveriam ter) limites...
São essas três dimensões - juízes, mediacracia e opinião pública (que é uma filha pródiga das sondagens) que hoje escavacam o Político, inibindo-o e sacrificando-o de vôos mais altos em prol do desenvolvimento do país. Cavaco sabe disso, por isso se metamorfoseou para se ajustar ao novel contexto pré-eleitoral e recuperar os pontinhos que perdeu pelo mau mandato que tem feito, sendo as escutas artificiais a Belém - que levou à demissão do seu super-assessor - o climax desse desaire psico-político.
Aliás, se fosse um E.T. e caísse de súbito em Portugal para ver aquela rara entrevista, repleta de lugares-comuns, diria que cavaco trabalha árduamente para ser o candidato de Sócrates e do PS nas presidenciais, "matando", assim o poeta Alegre e o homem da AMI, o médico sem fronteiras, o cosmopolita Fernando Nobre. Ir contra aquela santa trindade era desafiar a guilhotina política, mas Cavaco quer estar de bem com todos, daí os termos e o modo daquela entrevista.
Só que isso tem um efeito perverso, ou seja, Cavaco, mais uma vez, sacrificou a democracia, amputando-a pelo jogo sórdido que hoje juízes, mediacracia e opinião fazem, para se promover pessoalmente neste jogo democrático, pois bem sabemos como é cúmplice a relação entre juízes e media, e não é de ontem. De resto, os magistrados estão até cada vez mais parecidos com os novos jornalistas, eles tendem a entender-se porque sociológicamente são categorias intermutáveis, partilham dos mesmos valores e a sua aliança é indefectível, e ambos odeiam o político.
Ou seja, os juízes e os jornalistas alimentam-se mutuamente. O juíz precisa do jornalista para ser a sua caixa de ressonância na sociedade. Uma inculpação pública tem um valor de um julgamento, e o princípio da presunção da inocência é um valor-direito que desaparece automáticamente ante o veredicto do império da santa opinião dos comentadores de serviço. Mas, pelos vistos, cavaco não está preocupado com este tipo de direitos, apenas se quer acautelar com os seus interesses de imagem de modo a que não fiquem beliscados nesta próxima campanha eleitoral para Belém. Neste sentido, Cavaco revelou o mais puro cinismo político, digno duma avaliação de Diógenes...
Cavaco já não se importa que o segredo de justiça seja violado, que alguns media continuem na sua campanha difamatória a certos agentes políticos e a instituições e órgãos de soberania, que alguns sindicalistas ligados à corporação dos magistrados faça política de bastidores e se alinha com os partidos da oposição. Verdadeiramente, essa cumplicidade concupiscente não preocupa cavaco.
Pelo lado dos media que melhor cheque em branco poderá haver senão o apoio do aparelho judiciário... Uma inculpação representa para um jornalista um certificado de qualidade que o converte num herói, é como se ele recebesse o prémio Pulitzer. Os jornalistas, tipo Felícia Cabraita, tornaram-se hoje auxiliares de justiça, e esta agradece, até porque tem pouco meios para fazer eficientemente o seu trabalho.
E assim a verdade mediática se vai substituindo à verdade efectiva das coisas, como diria Nicolau Maquiavel. As emoções fazem o resto, com prejuízo para a razão. O sonho de Eduardo Moniz seria abater politicamente Sócrates. Nem que seja pelo prazer mórbido que esse acto daria à sua dama, autora do pior jornalismo de sarjeta feito em Portugal no pós-25 de Abril.
Por seu turno, a democracia representativa, ante aquele amén sistémico que Cavaco deu aos juízes e à mediacracia instalada, é literalmente cilindrada pela democracia de opinião, pelo peso dos inquéritos e das sondagens, que é um par infernal que hoje mina a democracia. Tal significa, que hoje vivemos emparedados pelos media e pela má justiça, são esses os dois vectores que hoje (mais) bloqueiam a sociedade e convertem aquilo que deveria ser a informação num espectáculo mediado por imagens, escândalos e zanga de comadres. Basta ver no que se transformou as comissões de Ética e de Inquérito na AR para constatar isso mesmo. E foi isso que me chocou na entrevista de cavaco, conivente com todas essas más práticas, cúmplice dessas facadas à democracia pluralista e ao rule of law, querendo agradar a tudo e a todos com prejuízo para todos os princípios de direito e valores que deveríamos todos subscrever.
Em nome de quê??? Belém.
Será isto aceitável?!
Será um actor político deste tipo que os portugueses querem para Belém para os próximos 4 anos?! Não creio...
Hoje sinto, como mero cidadão, que é a mediacracia quem tutela a nossa democracia. É como se alguns gestores de fluxos de informação tivessem o controlo dos botões dos órgãos de soberania, e depois os funcionários judiciários corruptos assumem o papel de passadores de informação para linchar publicamente A, B e C. Corruptos esses que vão enriquecendo pela venda aos jornais dessa informação confidencial que extraem aos processos que deveriam guardar, mas que acabam impunemente publicadas.
Cavaco pode ter evitado tocar nas feridas que hoje bloqueiam o país, pode ter agradado aos juízes, pode ter investido nos media e na sua imagem, mas enfraqueceu o Político - porque a sua acção tem sido fazer dela a sua vítima entalado que está nessa santa trindade de poderes altamente perniciosos em Portugal: a mediacracia, a opinião e as magistraturas - em cujos privilégios Sócrates tocou.
Cavaco deixará um legado negativo ao longo destes quatro anos. Pois em vez de dar alguma continuidade modernizadora e desenvolvimentista que conseguiu enquanto foi 10 anos PM do país, hoje, como locatário de Belém, apenas tem sido um semeador e instabilidade política, um ventilador de fugas de informação através dos seus assessores para uma certa imprensa amiga, um fautor de golpes de estado gorados de que Fernando lima foi apenas um bode expiatório. E é isso que ficará no seu registo histórico de Belém: alguém que fez com que o homem público hoje viva inquieto perante o juíz, angustiado perante os media e obcecado pelo império da opinião pública.
Quanto ao legado que cavaco deixará no cidadão comum é tão mau que nem valerá a pena descrevê-lo. Como cidadão, como português apenas me sinto não representado pelo actual PR, que representa hoje uma opressão à sensibilidade e à inteligência de cada um de nós que só por uma grande bebedeira é que me levaria a votar nele no próximo acto eleitoral.
E o mais grave é que também não estou a ver alternativa credível para o derrotar, por isso acho que vou partir uma perna (ou as duas) e ficar em casa, só para não ir votar.

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quarta-feira

Cavaco silva e a banalidade. A "tomazição" do discurso presidencial 3 décadas após a queda de Américo Tomás

Na entrevista à RTP1 Cavaco silva revela todo o seu esplendor de político profissional (ainda que o negue), pois extrai da democracia tudo aquilo que nem o Estado nem o mercado e o compromisso social já conseguem dar. Nessa medida, o papel do actual PR é mais o de parasitar Portugal do que dar-lhe um contributo liquído e uma visão para o futuro.
O sr. PR Cavaco Silva foi à RTP responder, ou melhor, não responder à entrevista da dona Judite de Sousa. Se na forma Cavaco já não apareceu a tremlicar, na substância foi mais uma entre-vista igual a tantas outras: sem pensamento, sem visão, sem projecto, enfim, um mar de banalidades mais ou menos previsível. Só faltou referir que os oceanos estão repletos de água e nos desertos abunda areia. Ilustremos cada um desses tópicos para corroborar o nosso enunciado:
1. Reconheceu que o Governo tem legitimidade para governar e que responde politicamente perante a AR e não perante o PR. Já sabíamos que o nosso regime é semipresidencialista, mas é sempre útil que alguém nos recorde, não vá termos um ataque de amnésia. E bem sabemos como o PR tem uma memória selectiva.
2. O desemprego preocupa muito o sr. PR, mas nenhuma ideia avançou que o governo ou a sociedade possa aproveitar para reduzir esse foco social nacional. Apenas retórica e compaixão social. Talvez renda politicamente...
3. Nas escutas, assobiou ao cochicho..., como diria Marcelo de sousa. Era previsível, pois se o fizesse ou entrasse no detalhe teria de dar "n" tiros nos pés e voltar a demitir o desgraçado Fernando lima, que foi o bode expiatório dessa grande armadilha que montaram a Belém, segundo a versão de Catroga, seu amigo e ex-ministro das Finanças de Cavaco.
4. Em matéria de Justiça reverenciou as magistraturas, e disse que só as critica em privado, em público só faz vénias. Parecia o Américo de Tomás. O Portugal do séc. XXI precisa dum PR que fale verdade aos portugueses e coloque o dedo na ferida, e não refira apenas que a justiça é lenta e que há imensos processos pendentes. Espera-se mais de um PR do que uma simples conversa de café. Mas cavaco insiste em não sair do café e das bolachas Maria.
5. Depois criticou a qualidade da legislação, chamando a atenção da necessidade do seu ajustamento, sem referir as matérias objecto dessas correcções; também reconheceu que não ficou incomodado que alguma imprensa lhe tenha reservado um papel de "avózinho" de pantufas caso o negócio da PT fosse para a frente na aquisição da Media capital; tem excelentes relações institucionais com Pinto Monteiro - PGR, com o Governo nas suas reuniões de trabalho às 5ªfeiras. Enfim, tudo como dantes quartel-geral em Abrantes. É curto para um PR, de quem os portugueses esperam ver e ouvir um discurso sustentado sobre a sociedade e o Estado virados para o séc. XXI. Cavaco, ao invés, falava como se Portugal vivesse cristalizado na década de 70. Se fosse vestido de branco, diria que Américo de Tomás teria ressusticado.
6. Ninguém está acima da lei, foi outro chavão proferido pelo sr. PR (desconheço se era alguma indirecta a Dias loureiro..alguém o viu por aí...!?), ainda pensei que a dona Judite fosse incisiva e recuperasse algumas questões acerca do BPN e das suas acções cotadas fora de bolsa. Mas não, Judite de sousa também não queria problemas, pelo que foi tudo by the book.
7. Perguntado se a justiça está politizada(?) - cavaco respondeu também by the book: pois está convencido que as magistraturas fazem o melhor que podem e sabem. Fugas ao segredo de justiça, lentidão da justiça, opacidade... sobre nada disto sua Exª tem um pensamento estruturado com medidas de ataque aos problemas. Mais conversa de café, com o devido respeito pela Presidência da República. Também aqui vimos um Cavaco com medo dessa corporação neomedieval que não quer perder as suas velhas regalias e mordomias, e como teve medo mais uma vez só disse banalidades escondendo ainda mais o sol com a peneira.
Entretanto, o aparelho judicial continua a fazer das suas, com sindicatos altamente politizados (recebidos em Belém como se fossem os reis da Jordânia), replicando fugas de informação e multiplicando violações ao segredo de justiça (que é a nova modalidade de corrupção que serve para certos funcionários judiciais enriquecerem à custa da violação dos direitos dos cidadãos que seria suposto serem os primeiros guardiões) - para alimentar uma mediacracia cada vez mais inquisitória substituindo-se, na prática, aqueles que deveriam dar o exemplo de administrar eficientemente a justiça. Tamanha é a perversão do nosso sistema democrático. Ou seja, os papéis estão todos trocados e quem perde é a democracia, somos todos nós.. É isto que cavaco cala, consente, pensanso, assim, que é mais facilmente reeleito para o Palácio Rosa. Trocando, a Justiça, por um prato de lentilhas.
O que vimos e ouvimos foi um cavaco dobrado ao aparelho judicial julgando, assim, que granjeia o seu respeito e apoio na sua próxima candidatura presidencial.
8. Quanto às escutas (artificiais) a Belém foi igual a si próprio: mutação súbita de voz, alteração sanguínea e, com isso, procurou condicionar e intimidar a jornalista Judite a não prosseguir as sub-questões que estavam nesse flão. Judite agachou-se. Em seu lugar, Cavaco mandou os portugueses à internet, para a página da presidência da república para aí lerem aquilo que ele não soube explicar em directo. Surreal!!!
Mas não hesitou em perverter o sentido verdadeiro das palavras e ter a lata de falar de honra, de verdade e do carácter dos homens...talvez inspirado no seu amanuense, Fernando lima que em tempos ia conduzindo o DN à falência e se prestou à mais vil das tarefas golpistas. Enfim, uma vergonha. Quando foram, precisamente, esses os valores que ele, e homens da sua confiança pessoal, como o jornalista lima, trairam e violaram gritantemente na gorada tentativa de fazer um golpe de Estado constitucional.
Falhou, os seus proponentes foram descobertos e o país ficou a saber que George Orwell, mais uma vez, tinha razão quando inventou o conceito de novilíngua e o ministério da verdade onde esta significa, precisamente, mentira.
Fernando Catroga, amigo pessoal de Cavaco, foi mais benevolente e veio hoje a terreiro coadjuvar o PR para referir que tudo não passou duma "armadilha" que montaram a Cavaco. Foi simpático.
Seja como for, e com o devido respeito que as instituições republicanas da nossa democracia a todos nos merecem, foi um mar de abstracções e de banalidades que vimos em 50 minutos: um PR tentando agradar a gregos e a troianos, procurando gerir equilíbrios instáveis, ajustar constrangimentos insanáveis, reconhecendo-se em lógicas de poder com interesses nitidamente contraditórios.
Tudo isso representa o afundanço da democracia, uma contorção ao nosso rule of law. Uma total submissão à sacrossante democracia de opinião que tem escavacado a democracia representativa e assassinado o carácter cívico das instituições da nossa (já) mui débil sociedade civil.
Foi o homo economicus mais simples e primário que vi falando duma rede de solidariedades (e de cooperação estratégica) - nunca atacando os problemas de frente para não criar anti-corpos e recolher apoios inter-sectoriais para a sua reeleição - procurando, desse modo, levar os cidadãos a votar nele em 2011.
Perante um poeta Alegre - à esquerda, e um Fernando Nobre civilista (ainda mais à esquerda) - cavaco irá fazer o seu passseio triunfal na rua da Junqueira, talvez por isso passou a sua entrevista com Sócrates ao "colo" para assim amputar ou limitar o capital simbólico que o PS irá canalizar para o poeta Alegre - que não mobiliza ninguém, salvo os seus amigos pessoais e os leitores dos seus poemas.
Esta configuração política amorfa fará do próximo acto eleitoral para as presidenciais um acto trivial, recordando que os portugueses são, afinal, um povo mediano nem que, para o efeito, aquele que deveria ser o farol de alguma esperança e o referencial de modernidade e de desenvolvimento neste 1º quartel do séc. XXI - seja a reencarnação pura e dura daquele dejá-vu tantas vezes proferido por Américo Tomáz quando repetia, em contexto de inaugurações, que esta era a primeira desde a última vez que cá vinha...
E isto, salvo melhor opinião, representa o grau zero da política em Portugal. Facto que me deixa profundamente frustrado.
Razão tinha Camões quando dizia que um rei fraco faz fraca a forte gente...
Camões - cuja obra - o próprio cavaco desconhece. Nem de propósito. Safa!!!

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