Macro de grande, skopein de observar: observar o infinitamente grande e complexo. Tentar perceber por que razão a ave vive fascinada pela serpente que a paralisa e, afinal, faz dela a sua presa.
sexta-feira
Negócios que embaraçam toda a gente -por Sandro Mendonça -
Convindo que umas eleições europeias não têm análoga importância histórica e que o destino da humanidade não está suspenso das convulsões internas do Partido Socialista haverá, contudo, que ter uma certa cautela na abordagem da questão em causa. Na verdade, só os incautos continuam a privilegiar os factos em detrimento das interpretações.
A propósito de um conflito de interpretações acerca do resultado eleitoral verificado abriu-se uma grave crise política no interior do Partido Socialista. Essa crise não deve ser colocada nem no plano da moralidade nem no domínio da legitimidade. Pelo contrário, ela só poderá ter sentido se devidamente tratada no campo da confrontação política, estratégica e, se for caso disso, doutrinária.
É claro que aqueles que despudoradamente fazem comparações indevidas entre o resultado agora obtido e outros verificados em contextos históricos e eleitorais completamente distintos não concorrem para uma discussão séria sobre aquilo que verdadeiramente importa: o futuro do Partido Socialista em vários aspectos determinantes. Quando, por exemplo, se estabelece uma comparação entre o resultado agora alcançado e o resultado obtido há dez anos atrás, não apenas se está a cometer um erro analítico como se está a incorrer numa verdadeira desonestidade intelectual. Isto para já não falar das comparações que algumas mentes mais ligeiras se têm atrevido a fazer com resultados verificados em eleições de natureza completamente distinta. Só que não é isso o mais importante, já que estou absolutamente certo que o que move António Costa é algo de mais profundo e mais respeitável: a convicção de que pode alargar a influência política do Partido Socialista, reforçar a sua capacidade oposicionista e potenciar a sua expansão eleitoral.
Nessa perspectiva, haverá três questões que devem ser equacionadas com absoluto rigor quer por uma quer por outra candidatura. São elas as seguintes: que tipo de oposição deve o Partido Socialista prosseguir? Que estratégia deve ser valorizada no âmbito do relacionamento com as outras forças partidárias? Qual o posicionamento que deve ser privilegiado no plano da política europeia? Comecemos por responder à questão da definição do estilo de oposição a desenvolver. Deve o Partido Socialista optar por um modelo de oposição permanente e subsidiária da acção fiscalizadora empreendida pelo Tribunal Constitucional ou, pelo contrário, deve privilegiar um outro estilo onde a firmeza nas questões essenciais não exclua a disponibilidade para algum diálogo com o Governo, desde que sejam tidas em consideração legítimas preocupações socialistas que suscitam, aliás, ampla adesão nacional? Esta questão não é de menor importância. Quando há três anos atrás fui o primeiro a propor a opção pela abstenção, aquando da discussão do Orçamento de Estado apresentado pelo Governo, fi-lo por razões pertinentes, já que estava em causa a afirmação de uma linha de conduta que poderia e deveria ter marcado toda a presente legislatura. Essa opção, a ter sido plenamente prosseguida, teria reforçado a identificação do PS com um elevado sentido de responsabilidade nacional, sem prejudicar a sua capacidade de enunciação concreta de um programa político alternativo. Teria, além disso, permitido a resolução de um problema que se viria a revelar crucial: o do relacionamento com o nosso próprio passado governativo. Só um partido suficientemente forte para assumir o sentido do compromisso teria estado em condições de sustentar, com sucesso, uma explicação sobre as origens da crise distinta daquela que a direita procurou apresentar. O problema volta a colocar-se agora. Por muito que isso desagrade, e até possa ser percebido como um verdadeiro sacrilégio nalguns sectores do Partido Socialista, os portugueses sabem que a austeridade começou connosco. Por isso mesmo, são levados a não acreditar em radicalismos retóricos que parecem relevar mais de um impulso mágico do que de uma criteriosa avaliação da situação real do país.
A segunda questão, a que concerne ao relacionamento com as outras forças políticas, é também extraordinariamente importante. Nos últimos tempos temos assistido a uma incompreensível tentativa de estigmatização pública de todos quantos se não opõem à simples possibilidade teórica da celebração de entendimentos futuros com partidos situados à nossa direita. Compreendo humanamente o impulso juvenil de uns quantos, suscita-me profunda perplexidade o serôdio sectarismo de muitos outros. Porque estranha razão haveria o Partido Socialista de privilegiar entendimentos com partidos com quem nunca até hoje se entendeu devido a divergências doutrinárias profundas e haveria de excluir em absoluto acordos com partidos que, malgrado as profundas discordâncias presentes, não se situam em temas tão importantes como o tema europeu numa posição absolutamente oposta àquela que preconizamos? Aproveito, aliás, para saudar a este propósito a coragem evidenciada há dois dias por Miranda Calha numa interessante entrevista concedida ao jornal I.
Por último, convém saber o que pensam as candidaturas em confronto acerca da política europeia. É bom que se perceba o que pretendem de facto para além das banalidades retóricas próprias deste tipo de confronto. Qual o posicionamento em relação ao tema central da criação de mecanismos que permitam a salvaguarda da moeda única, como perspectivam institucionalmente o futuro do projecto europeu e o que pensam quanto à questão do designado Tratado Orçamental europeu. Estas questões, como é óbvio, estão profundamente articuladas entre si. É importante que o país compreenda o que António José Seguro e António Costa pensam sobre cada um destes assuntos. Se assim suceder, como espero que aconteça, ambos prestarão um inestimável serviço ao PS e a Portugal.
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Obs: Medite-se nesta importante reflexão de Francisco Assis. Uma reflexão feita com inteligência, conhecimento e elevação que importa valorizar.
Presidente do conselho de administração do Soros Fund Management e do Open Society Institute.
As medidas introduzidas pelo Banco Central Europeu em Dezembro, nomeadamente a operação de refinanciamento de longo prazo (LTRO, na sigla em inglês), aliviaram os problemas de liquidez dos bancos europeus, mas não acabaram com a desvantagem dos Estados-membros altamente endividados. Uma vez que os elevados prémios de risco sobre os títulos soberanos ameaçam os rácios de capitais dos bancos, uma solução pela metade não basta.
Na verdade, a suposta solução relega metade da zona euro para o estatuto de países do Terceiro Mundo, que passaram a estar fortemente endividados numa moeda estrangeira. Em vez do Fundo Monetário Internacional, é a Alemanha que está a actuar como o capataz, impondo uma disciplina orçamental inflexível sobre esses países. Isto irá gerar tensões políticas e económicas que podem destruir a União Europeia.
Propus um plano que iria permitir à Itália e à Espanha refinanciar a sua dívida através da emissão de Bilhetes do Tesouro com juros de 1%. Dei-lhe um nome em homenagem ao meu amigo Tomasso Padoa-Schioppa, que, enquanto presidente do banco central de Itália nos anos 90, ajudou a estabilizar as finanças públicas do país.
O plano é um tanto ou quanto complicado, mas é sólido em termos legais e técnicos. Descrevi-o em detalhe no meu novo livro Financial Turmoil in Europe and the United States [Turbilhão Financeiro na Europa e nos Estados Unidos].
As autoridades europeias rejeitaram o meu plano em detrimento da LTRO. A diferença entre as duas soluções é que a minha iria permitir um alívio instantâneo para a Itália e a Espanha. Pelo contrário, a LTRO permite que os bancos italianos e espanhóis se dediquem a uma arbitragem bastante lucrativa e praticamente isenta de risco, mas mantém a dívida dos Estados a oscilar à beira de um precipício – apesar de os últimos dias terem trazido algum alívio.
A minha proposta é usar o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (MEEF) para conferir ao Banco Central Europeu um seguro contra o risco de solvência associado a quaisquer novos Bilhetes do Tesouro italianos ou espanhóis que venha a comprar aos bancos comerciais. Isto iria permitir à Autoridade Bancária Europeia reconhecer estes vários títulos de dívida como equivalentes a dinheiro, visto que poderiam ser vendidos ao BCE a qualquer altura.
Deste modo, os bancos teriam vantagem em canalizar o seu excedente de liquidez para estes Bilhetes do Tesouro, desde que estes títulos rendessem mais juros do que os depósitos junto do BCE. A Itália e a Espanha seriam assim capazes de refinanciar a sua dívida a taxas de juro próximas das dos depósitos do BCE, que estão actualmente em 1% para as reservas obrigatórias e em 25 pontos-base [0,25%] para os depósitos acima dessas reservas.
Isto iria melhorar bastante a sustentabilidade da dívida destes países. A Itália, por exemplo, iria ver o seu custo médio de financiamento descer dos actuais 4,3%. A confiança iria gradualmente regressar, as taxas de juro sobre a dívida já emitida iriam baixar, os bancos deixariam de ser penalizados por deter dívida italiana, e a Itália iria, a pouco e pouco, recuperar o acesso ao mercado a taxas de juro mais razoáveis.
Uma objecção óbvia a esta estratégia é que iria reduzir a maturidade média da dívida italiana e espanhola. Contudo, acredito que isso seria uma vantagem nas actuais e excepcionais circunstâncias, porque iria manter os Governos italiano e espanhol com trela curta. Nenhum país poderia dar-se ao luxo de perder a ajuda do BCE.
No caso da Itália, esta trela curta iria dissuadir o antigo primeiro-ministro Silvio Berlusconi de tentar derrubar o novo Governo de Mario Monti (que tem uma maioria frágil), porque, se Berlusconi precipitasse uma eleição, o eleitorado iria puni-lo. Isso iria ajudar a restabelecer a estabilidade política e acelerar o regresso de Itália aos mercados.
A minha proposta segue tanto o conteúdo como o espírito do Artigo 123 do Tratado de Lisboa. A tarefa do BCE seria fornecer liquidez aos bancos, enquanto o FEEF e o MEEF seriam concebidos para absorver o risco de solvência. O BCE não estaria a fornecer financiamento adicional aos países-membros, mas apenas a permitir-lhes refinanciar a sua dívida a um custo mais baixo.
Juntos, o BCE e o FEEF poderiam fazer o que o BCE não pode fazer sozinho. Até que os países-membros concebessem uma solução mais permanente, isto permitiria um alívio temporário decorrente de uma imperfeição fatal no projecto do euro.Deste modo, o FEEF teria uma capacidade praticamente ilimitada de garantir os Bilhetes de Tesouro da zona euro, porque nenhum país poderia entrar em default[incumprimento] enquanto este esquema estivesse em vigor. Nenhum país poderia, também, abusar do privilégio, caso contrário este ser-lhe-ia retirado, o que levaria os custos do financiamento a subir imediatamente.
Pela primeira vez nesta crise, as autoridades europeias iriam levar a cabo uma operação para a qual têm recursos mais do que suficientes. Constituindo uma surpresa positiva para os mercados, iria reverter o seu estado de espírito. Afinal de contas, os mercados têm estados de espírito e é isso que as autoridades têm de aprender para lidar com as crises financeiras.
Contrariamente ao discurso actual, a solução de longo prazo deve fornecer um estímulo para tirar a Europa de um ciclo vicioso de deflação – e as reformas estruturais, por si só, não bastam. O estímulo tem de vir da União Europeia, já que os países vão estar sob apertada disciplina orçamental. Esse estímulo terá de ser garantido de forma conjunta e solidária – e isso significa eurobonds [emissão conjunta de dívida europeia] de uma forma ou de outra.
Tradução Project Syndicate
Obs: É interessante registar que Soros se converteu num grande filantropo depois de ter sido um grande especulador.
Recuperar Miguel de Cervantes e Oliveira Martins. O mundo está perigoso
O que talvez mais impressiona o observador da realidade nacional é a vulnerabilidade e dependência crescentes da nossa economia, das nossas finanças públicas, da nossa classe média, no nosso tecido produtivo (industrial e, mormente, o agrícola, já para não falar da nossa marinha mercante), enfim, da reconhecida incapacidade em o nosso escol dirigente encontrar propostas e soluções que nos permitam sair rapidamente desta situação de dependência e de empobrecimento galopante relativamente aos nossos parceiros europeus.
Se olharmos para dentro de nós, e com excepções raras do nosso meio empresarial, das Letras e da nossa C&T - facilmente concluímos, na linha de Miguel de Cervantes, que pertencemos a esta nação mais infeliz que prudente, e sobre a qual caiu, nestes últimos tempos, uma chuva de infortúnios. No tempo de Oliveira Martins, e do seu Portugal Contemporâneo, a Inglaterra ainda nos aguentava, protegendo-nos duma Espanha em desordem, expansionista e gulosa.
Hoje, ao invés, ninguém nos defende. Nem a Europa que integramos.
Internamente, estamos cercados de incompetência, erros e omissões, além do esbanjamento dum Estado gordo e adiposo que dificilmente se mexe; de fora conhecemos as opções do FMI, o que torna o enxovalho ainda maior ao orgulho nacional, além das privações serem mais humilhantes e já sem as promessas de eficácia de 1983, v.q., o Estado já não pode manipular os instrumentos de política cambial e desvalorização de moeda a fim de coadjuvar a economia nacional. A globalização comeu todos esses expedientes político-administrativos que outrora faziam do Estado um estratego.
Hoje, esse mesmo Estado não tem alma, não tem força, não tem influência até para mandar calar um Comissário ignorante que nem o inglês básico consegue falar e pronunciar, por isso fala aos zigues-zagues...
Isto empurra-nos para um outro drama: o do sentido da nossa História. Somos uma nação quase milenar, temos uma língua que ligou continentes, povos e mercadorias nessa 1ª leva de globalização feita da Gesta das Navegações, mas nem por isso escapamos aos ditames bruxelenses. Tudo por causa da desordem das nossas finanças públicas, razão que também levou António de Oliveira Salazar, o velho "Botas", a pegar no país em 1926 para o largar 40 anos depois.
É triste compreender isto: é lastimável perceber que já fomos grandes, hoje apenas uma sombra do que fomos. A conclusão a que posso chegar é que somos hoje uma nação doente, sem ideias, sem projectos, sem elites, com alguns mitos, mas com escassos objectivos que nos revelem o paraíso. Tornámo-nos, portanto, numa sociedade acéfala, com uma classe política venal, com elites anquilosadas e burocratizadas. Razões de sobra que nos tornam presa fácil de especuladores, agências de rating, do FMI e o mais.
Somos hoje uma presa fácil do sistema internacional, qualquer perturbação doméstica justifica a presença e o controleirismo da OIs. E assim quem quererá pegar nesta nave de loucos que oscila num mar de tempestade!?
Eis a imagem que me assaltou o espírito quando vi os líderes dos dois principais sindicatos nacionais, a CGTP (carvalho da Silva) e a UGT (João Proença) a mendigar uma reunião na Praça de Londres.
Porra, há limites para tudo!!!
Tive ainda a sensação que a "carpideira de serviço", seguramente conhecida dos últimos andares do edifício mandado construir por Gonçalves Proença, esteve à beira de esbofetear os dois sindicalistas. Dantes, ao tempo de Oliveira Martins, e do seu Portugal Contemporâneo (1895), que será um livro a reler, ainda se podia dizer que a nossa independência ou salvação repousava na existência das colónias ultramarinas e no seu valor económico para a metrópole, a fim de melhorar as condições nacionais, ainda que à custa das populações indígenas, que escassa consciência tinham do seu valor social. Nem a civilização estava ainda preparada para as libertar das grilhetas em que viviam. Hoje temos a Europa do Comissário Olli Rehn a soletrar aquele inglês trauliteiro e de doca e o "cherne" Barroso, que foi um dos piores primeiro-ministros de Portugal, depois de santana Lopes, a dizer à nação portuguesa o que ela deve fazer e que ele, barroso, foi incapaz de cumprir. Não tem, por isso, moral para abrir a bocarra, além de conduzir a Europa para o declínio, o que dá ainda pior fama a Portugal na Europa.
O mundo está, de facto, perigoso!! ____________________________________________________
Dire Straits - Money For Nothing (Live) Feat. Sting & Co.
Kate Bush & David Gilmour - Running up that Hill - Live SPB