sexta-feira

Negócios que embaraçam toda a gente -por Sandro Mendonça -

Negócios que embaraçam toda a gente, Link

 | Expresso 

O controlo do contexto


Comecemos por falar da obra das jornalistas Maria João Babo e Maria João Gago, 
"O Último Banqueiro " (191 páginas). Este é um livro rápido pertinente, publicado no calor de
um instável Verão pela Lua de Papel depois de um oportuno desafio lançado pelo editor, 
José Prata.
Entre os livros de que aqui damos nota, este é o mais recente. Dado à estampa apenas no 
mês passado (Julho) exibe já (em Agosto), contudo, as marcas do tempo. Mas isso não é 
demérito da obra, mas antes sinal da extrema mutabilidade do objecto de análise. É curioso
notarmos que ainda no início de Julho o cenário era que Ricardo Salgado deixasse a liderança
do seu banco a 31 desse mês. Pouco antes ainda tinha revelado disponibilidade para ser 
reeleito quando o seu então mandato terminasse, em finais de 2015, argumentando "Esta crise
é uma crise que requer experiência." (pg. 31).
Este livro dá uma importância decisiva à noção de "clã" (p. 21). Os mecanismos de 
acumulação de poder funcionavam por laços de sangue e nas veias das hierarquias 
tradicionais, práticas aliás pouco consonantes com noções abstractas como "sociedade 
aberta" ou "economia de mercado" que tantos comentadores dizem convencionais promovem
mas que olham embevecidos para este mundo de aparências. Os Espírito Santo tinham uma
presença central nos negócios de todo o grupo sobretudo através do seu máximo e colegial
órgão, o "conselho superior da família" (p. 24). Mesmo esse aparentemente distraído Crédit
Agricole tinha um papel na gestão, isto é, não seria um "sleeping partner"(p. 26).
O livro dá ainda conta também que a gestão foi ficando cada vez mais concentrada na figura
de Ricardo Salgado, nascido e criado para ser banqueiro no coração de um resistente 
"capitalismo de família". Um investidor próximo confessa: "com ele a influência executiva 
ganhou supremacia à influência accionista" (p. 117). E com isto Salgado confundia-se com a
família, e o banco com o grupo. Salgado tornou-se referência para todo o sector, o primeiro
entre os pares. Diz alguém profissionalmente próximo: "Quando está o presidente da APB
[Associação Portuguesa de Bancos], Ricardo Salgado é o segundo a falar depois do líder da
associação. Quando não está o presidente da APB, é o primeiro a falar" (p. 114).
Mais do que a antiguidade de nome icónico ou de Ricardo Salgado como o decano dos
banqueiros, é a "qualidade dos contactos" (p. 114) e o "controlo do contexto" (p. 116) que se 
destacou como o fulcro da alavanca do poder. O universo Espírito Santo não tinha apenas uma
organizada vertebração interna. Sem dúvida o seu exosqueleto era igualmente importante:
príncipes, reis e condes pela Europa figuram na lista de contactos, mas também 
administradores de instituições internacionais e grandes financeiros internacionais. Como
admitiram vários membros do "clã", aqui estava "um nome capaz de abrir portas no 
estrangeiro" e fazer "lobbying internacional" (p. 23). Mas, e isto é preciso reter, este era um
poder capaz também de tentar fechar portas. O livro recorda o episódio em que, em 2005 
e por um ano e meio, Ricardo Salgado cortou todo o investimento publicitário do GES nos 
títulos da Impresa e que depois terá tentado por meio da Ongoing, entre 2009 e 2014, 
destabilizar o grupo de Francisco Balsemão (pp. 49-50).

O carrocel das influências


 O segundo livro que queremos sugerir como excelente recurso para uma leitura calma e atenta
é "Jogos de Poder", assinado pelo várias vezes premiado jornalista Paulo Pena. O título é 
publicado pela Esfera dos Livros em Abril último, e é de notar que resulta também de um
desafio lançado pela sua atenta editora Sofia Santos Monteiro.
Trata-se aqui de um trabalho que vai para além dos intuitos descritivos e mergulha com
coragem nos domínios da explicação (o que está por trás do poder da finança?) e da 
comparação (como contrasta Portugal com a Islândia, a Grécia, Hungria, e outros países
atingidos pela crise?). É ainda um livro que junta rigor de pesquisa a qualidades literárias, um
atributo importante num tema tão árido; apresenta com vivacidade um colorido naipe de
personagens e pinta com habilidade os momentos em que os seus percursos se cruzam.
O autor tem a capacidade de fornecer continuamente dados concretos, de inserir casas 
decimais nos números, dizer as horas de dias em que certos eventos tomaram lugar, de
providenciar sempre abundante informação que permite reconstituir as suas fontes (163 notas
de fim capítulo, quase 70 referências específicas na bibliografia). Paulo Pena navega com
facilidade por entre conceitos como "imparidade", "alavancagem" e "securitização", por entre
acrónimos tóxicos como "CDO" e práticas intoxicantes como "OTC" (ou as caseiras PPP), por
neologismos como "banca-sombra" ou "bancocracia", pela etimologia de palavras como
"dívida" ou de expressões como "paraísos fiscais". O autor aperta com firmeza o cinto de
segurança ao leitor quando descola para paragens longínquas como as Ilhas Caimão ou nos
faz travar o cabriolet num dos condomínios mais discretos e exclusivos de Portugal (como a
nós de uma trama - a trama que tramou os portugueses.
O autor atribui a origem da crise à finança e não ao despesismo do Estado ou à
irresponsabilidade da população; mas não o faz como se fosse um "lugar-comum", 
documenta-o. Recorda a "crise do subprime" norte-americana e também como a banca do 
centro da Europa acaba por apertar o crédito às economias do sul. E aqui a finança 
portuguesa é uma pequenina mas útil roda numa engrenagem global, mas é também uma roda
que dá a sua dentadinha na zona de influência que lhe está consignada: a crise em Portugal
apanha os bancos portugueses entre um poder financeiro internacional a querer ressarcir-se
das consequências do seu excessivo incentivo para a especulação e um sistema económico
português que tinha sido propositadamente esvaziado da sua dimensão produtiva.
O livro aborda vários casos determinantes. Um deles é o do BCP, de onde "saem todos os
elos que explicam a crise bancária portuguesa" (p. 29). É curioso ver reflectido como aqui há
sinais de uma dinâmica geracional entre os velhos decisores (Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal)
e jovens insurgentes (em especial os promotores do movimento " Compromisso Portuga l", de
é o do BPN, que o autor mostra ser um filho da nova engenharia político-económica do Portugal
"democrático" e "de mercado". É interessante como até aqui Paulo Pena consegue resgatar
ao esquecimento iluminadoras declarações como as de Luís Filipe Menezes quando este em
Abril de 2008 se demite de líder do PSD alegando ameaças feitas por "alguns ex-ministros
que não queriam que avançasse a fiscalização à supervisão bancária." (p. 120) Outro caso é o
do BES que o autor dá premonitoriamente como mais um potencial exemplo de que "tudo o 
que julgamos sólido se pode dissolver, num ápice": fala da turbulência interna num clima em 
que as suspeitas se avolumavam em torno da ocultação de contas no exterior e de tráfico de influências (p. 193).

O triunfo dos mandantes


O terceiro livro que aqui referimos como instrutiva leitura é da autoria de três homens 
conhecidos colectivamente pela sua participação política (no Bloco de Esquerda), mas que
são individualmente destacados nos seus ofícios como economista (Francisco Louçã ),
sociólogo ( João Teixeira Lope s) e documentarista ( Jorge Costa ). É um livro que tem 
objectivos de denúncia de um capitalismo de extracção e abuso, mas esse propósito é claro
desde a primeira linha da obra e o leitor pode aplicar o seu sentido crítico. A não neutralidade
não é falta objectividade, e este trabalho demonstra que tal posição (honesta) é possível.
Este é o livro com maior fôlego (tem mais páginas que os dois acima referidos juntos), uma
extensíssima bibliografia (referências e citações contantes ao longo do texto) e um site auxiliar
onde curiosos e estudiosos podem ter acesso aos dados para tirar as suas próprias
conclusões. Não é possível dar conta aqui do imenso trabalho que foi investido nesta
investigação (forense) aos processos de acumulação de poder por parte das estruturas de
topo da economia portuguesa.
A sua tese central é talvez esta: o sucesso de negócios altamente tributários do Estado 
(mas tão mal-agradecidos) é a principal força-motriz do poder económico (oligopolista)
de um pequeno número de indivíduos e de famílias de apelido conhecido (que, esses sim,
vivem em cima das capacidades de carga dos outros).

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segunda-feira

Incógnito...







Ainda que mal pergunte: alguém viu por aí o alegado PM?!

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sexta-feira

Abriu-se uma grave crise política no interior do Partido Socialista - por Francisco Assis

OPINIÃO

Abriu-se uma grave crise política no interior do Partido Socialista


Convindo que umas eleições europeias não têm análoga importância histórica e que o destino da humanidade não está suspenso das convulsões internas do Partido Socialista haverá, contudo, que ter uma certa cautela na abordagem da questão em causa. Na verdade, só os incautos continuam a privilegiar os factos em detrimento das interpretações.
A propósito de um conflito de interpretações acerca do resultado eleitoral verificado abriu-se uma grave crise política no interior do Partido Socialista. Essa crise não deve ser colocada nem no plano da moralidade nem no domínio da legitimidade. Pelo contrário, ela só poderá ter sentido se devidamente tratada no campo da confrontação política, estratégica e, se for caso disso, doutrinária.
É claro que aqueles que despudoradamente fazem comparações indevidas entre o resultado agora obtido e outros verificados em contextos históricos e eleitorais completamente distintos não concorrem para uma discussão séria sobre aquilo que verdadeiramente importa: o futuro do Partido Socialista em vários aspectos determinantes. Quando, por exemplo, se estabelece uma comparação entre o resultado agora alcançado e o resultado obtido há dez anos atrás, não apenas se está a cometer um erro analítico como se está a incorrer numa verdadeira desonestidade intelectual. Isto para já não falar das comparações que algumas mentes mais ligeiras se têm atrevido a fazer com resultados verificados em eleições de natureza completamente distinta. Só que não é isso o mais importante, já que estou absolutamente certo que o que move António Costa é algo de mais profundo e mais  respeitável: a convicção de que pode alargar a influência política do Partido Socialista, reforçar a sua capacidade oposicionista e potenciar a sua expansão eleitoral.
Nessa perspectiva, haverá três questões que devem ser equacionadas com absoluto rigor quer por uma quer por outra candidatura. São elas as seguintes: que tipo de oposição deve o Partido Socialista prosseguir? Que estratégia deve ser valorizada no âmbito do relacionamento com as outras forças partidárias? Qual o posicionamento que deve ser privilegiado no plano da política europeia? Comecemos por responder à questão da definição do estilo de oposição a desenvolver. Deve o Partido Socialista optar por um modelo de oposição permanente e subsidiária da acção fiscalizadora empreendida pelo Tribunal Constitucional ou, pelo contrário, deve privilegiar um outro estilo onde a firmeza nas questões essenciais não exclua a disponibilidade para algum diálogo com o Governo, desde que sejam tidas em consideração legítimas preocupações socialistas que suscitam, aliás, ampla adesão nacional? Esta questão não é de menor importância. Quando há três anos atrás fui o primeiro a propor a opção pela abstenção, aquando da discussão do Orçamento de Estado apresentado pelo Governo, fi-lo por razões pertinentes, já que estava em causa a afirmação de uma linha de conduta que poderia e deveria ter marcado toda a presente legislatura. Essa opção, a ter sido plenamente prosseguida, teria reforçado a identificação do PS com um elevado sentido de responsabilidade nacional, sem prejudicar a sua capacidade de enunciação concreta de um programa político alternativo. Teria, além disso, permitido a resolução de um problema que se viria a revelar crucial: o do relacionamento com o nosso próprio passado governativo. Só um partido suficientemente forte para assumir o sentido do compromisso teria estado em condições de sustentar, com sucesso, uma explicação sobre as origens da crise distinta daquela que a direita procurou apresentar. O problema volta a colocar-se agora. Por muito que isso desagrade, e até possa ser percebido como um verdadeiro sacrilégio nalguns sectores do Partido Socialista, os portugueses sabem que a austeridade começou connosco. Por isso mesmo, são levados a não acreditar em radicalismos retóricos que parecem relevar mais de um impulso mágico do que de uma criteriosa avaliação da situação real do país.
A segunda questão, a que concerne ao relacionamento com as outras forças políticas, é também extraordinariamente importante. Nos últimos tempos temos assistido a uma incompreensível tentativa de estigmatização pública de todos quantos se não opõem à simples possibilidade teórica da celebração de entendimentos futuros com partidos situados à nossa direita. Compreendo humanamente o impulso juvenil de uns quantos, suscita-me profunda perplexidade o serôdio sectarismo de muitos outros. Porque estranha razão haveria o Partido Socialista de privilegiar entendimentos com partidos com quem nunca até hoje se entendeu devido a divergências doutrinárias profundas e haveria de excluir em absoluto acordos com partidos que, malgrado as profundas discordâncias presentes, não se situam em temas tão importantes como o tema europeu numa posição absolutamente oposta àquela que preconizamos? Aproveito, aliás, para saudar a este propósito a coragem evidenciada há dois dias por Miranda Calha numa interessante entrevista concedida ao jornal I.
Por último, convém saber o que pensam as candidaturas em confronto acerca da política europeia. É bom que se perceba o que pretendem de facto para além das banalidades retóricas próprias deste tipo de confronto. Qual o posicionamento em relação ao tema central da criação de mecanismos que permitam a salvaguarda da moeda única, como perspectivam institucionalmente o futuro do projecto europeu e o que pensam quanto à questão do designado Tratado Orçamental europeu. Estas questões, como é óbvio, estão profundamente articuladas entre si. É importante que o país compreenda o que António José Seguro e António Costa pensam sobre cada um destes assuntos. Se assim suceder, como espero que aconteça, ambos prestarão um inestimável serviço ao PS e a Portugal.
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Obs: Medite-se nesta importante reflexão de Francisco Assis. Uma reflexão feita com inteligência, conhecimento e elevação que importa valorizar. 
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sábado

Novo ano, a mesma crise - por George Soros -

  • Presidente do conselho de administração do Soros Fund Management e do Open Society Institute.
    As medidas introduzidas pelo Banco Central Europeu em Dezembro, nomeadamente a operação de refinanciamento de longo prazo (LTRO, na sigla em inglês), aliviaram os problemas de liquidez dos bancos europeus, mas não acabaram com a desvantagem dos Estados-membros altamente endividados. Uma vez que os elevados prémios de risco sobre os títulos soberanos ameaçam os rácios de capitais dos bancos, uma solução pela metade não basta.
Na verdade, a suposta solução relega metade da zona euro para o estatuto de países do Terceiro Mundo, que passaram a estar fortemente endividados numa moeda estrangeira. Em vez do Fundo Monetário Internacional, é a Alemanha que está a actuar como o capataz, impondo uma disciplina orçamental inflexível sobre esses países. Isto irá gerar tensões políticas e económicas que podem destruir a União Europeia.
Propus um plano que iria permitir à Itália e à Espanha refinanciar a sua dívida através da emissão de Bilhetes do Tesouro com juros de 1%. Dei-lhe um nome em homenagem ao meu amigo Tomasso Padoa-Schioppa, que, enquanto presidente do banco central de Itália nos anos 90, ajudou a estabilizar as finanças públicas do país.
O plano é um tanto ou quanto complicado, mas é sólido em termos legais e técnicos. Descrevi-o em detalhe no meu novo livro Financial Turmoil in Europe and the United States [Turbilhão Financeiro na Europa e nos Estados Unidos].
As autoridades europeias rejeitaram o meu plano em detrimento da LTRO. A diferença entre as duas soluções é que a minha iria permitir um alívio instantâneo para a Itália e a Espanha. Pelo contrário, a LTRO permite que os bancos italianos e espanhóis se dediquem a uma arbitragem bastante lucrativa e praticamente isenta de risco, mas mantém a dívida dos Estados a oscilar à beira de um precipício – apesar de os últimos dias terem trazido algum alívio.
A minha proposta é usar o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (MEEF) para conferir ao Banco Central Europeu um seguro contra o risco de solvência associado a quaisquer novos Bilhetes do Tesouro italianos ou espanhóis que venha a comprar aos bancos comerciais. Isto iria permitir à Autoridade Bancária Europeia reconhecer estes vários títulos de dívida como equivalentes a dinheiro, visto que poderiam ser vendidos ao BCE a qualquer altura.
Deste modo, os bancos teriam vantagem em canalizar o seu excedente de liquidez para estes Bilhetes do Tesouro, desde que estes títulos rendessem mais juros do que os depósitos junto do BCE. A Itália e a Espanha seriam assim capazes de refinanciar a sua dívida a taxas de juro próximas das dos depósitos do BCE, que estão actualmente em 1% para as reservas obrigatórias e em 25 pontos-base [0,25%] para os depósitos acima dessas reservas.
Isto iria melhorar bastante a sustentabilidade da dívida destes países. A Itália, por exemplo, iria ver o seu custo médio de financiamento descer dos actuais 4,3%. A confiança iria gradualmente regressar, as taxas de juro sobre a dívida já emitida iriam baixar, os bancos deixariam de ser penalizados por deter dívida italiana, e a Itália iria, a pouco e pouco, recuperar o acesso ao mercado a taxas de juro mais razoáveis.
Uma objecção óbvia a esta estratégia é que iria reduzir a maturidade média da dívida italiana e espanhola. Contudo, acredito que isso seria uma vantagem nas actuais e excepcionais circunstâncias, porque iria manter os Governos italiano e espanhol com trela curta. Nenhum país poderia dar-se ao luxo de perder a ajuda do BCE.
No caso da Itália, esta trela curta iria dissuadir o antigo primeiro-ministro Silvio Berlusconi de tentar derrubar o novo Governo de Mario Monti (que tem uma maioria frágil), porque, se Berlusconi precipitasse uma eleição, o eleitorado iria puni-lo. Isso iria ajudar a restabelecer a estabilidade política e acelerar o regresso de Itália aos mercados.
A minha proposta segue tanto o conteúdo como o espírito do Artigo 123 do Tratado de Lisboa. A tarefa do BCE seria fornecer liquidez aos bancos, enquanto o FEEF e o MEEF seriam concebidos para absorver o risco de solvência. O BCE não estaria a fornecer financiamento adicional aos países-membros, mas apenas a permitir-lhes refinanciar a sua dívida a um custo mais baixo.
Juntos, o BCE e o FEEF poderiam fazer o que o BCE não pode fazer sozinho. Até que os países-membros concebessem uma solução mais permanente, isto permitiria um alívio temporário decorrente de uma imperfeição fatal no projecto do euro.Deste modo, o FEEF teria uma capacidade praticamente ilimitada de garantir os Bilhetes de Tesouro da zona euro, porque nenhum país poderia entrar em default[incumprimento] enquanto este esquema estivesse em vigor. Nenhum país poderia, também, abusar do privilégio, caso contrário este ser-lhe-ia retirado, o que levaria os custos do financiamento a subir imediatamente.
Pela primeira vez nesta crise, as autoridades europeias iriam levar a cabo uma operação para a qual têm recursos mais do que suficientes. Constituindo uma surpresa positiva para os mercados, iria reverter o seu estado de espírito. Afinal de contas, os mercados têm estados de espírito e é isso que as autoridades têm de aprender para lidar com as crises financeiras.
Contrariamente ao discurso actual, a solução de longo prazo deve fornecer um estímulo para tirar a Europa de um ciclo vicioso de deflação – e as reformas estruturais, por si só, não bastam. O estímulo tem de vir da União Europeia, já que os países vão estar sob apertada disciplina orçamental. Esse estímulo terá de ser garantido de forma conjunta e solidária – e isso significa eurobonds [emissão conjunta de dívida europeia] de uma forma ou de outra.
Tradução Project Syndicate
Obs: É interessante registar que Soros se converteu num grande filantropo depois de ter sido um grande especulador.

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terça-feira

Recuperar Miguel de Cervantes e Oliveira Martins. O mundo está perigoso

O que talvez mais impressiona o observador da realidade nacional é a vulnerabilidade e dependência crescentes da nossa economia, das nossas finanças públicas, da nossa classe média, no nosso tecido produtivo (industrial e, mormente, o agrícola, já para não falar da nossa marinha mercante), enfim, da reconhecida incapacidade em o nosso escol dirigente encontrar propostas e soluções que nos permitam sair rapidamente desta situação de dependência e de empobrecimento galopante relativamente aos nossos parceiros europeus.
Se olharmos para dentro de nós, e com excepções raras do nosso meio empresarial, das Letras e da nossa C&T - facilmente concluímos, na linha de Miguel de Cervantes, que pertencemos a esta nação mais infeliz que prudente, e sobre a qual caiu, nestes últimos tempos, uma chuva de infortúnios. No tempo de Oliveira Martins, e do seu Portugal Contemporâneo, a Inglaterra ainda nos aguentava, protegendo-nos duma Espanha em desordem, expansionista e gulosa.
Hoje, ao invés, ninguém nos defende. Nem a Europa que integramos.
Internamente, estamos cercados de incompetência, erros e omissões, além do esbanjamento dum Estado gordo e adiposo que dificilmente se mexe; de fora conhecemos as opções do FMI, o que torna o enxovalho ainda maior ao orgulho nacional, além das privações serem mais humilhantes e já sem as promessas de eficácia de 1983, v.q., o Estado já não pode manipular os instrumentos de política cambial e desvalorização de moeda a fim de coadjuvar a economia nacional. A globalização comeu todos esses expedientes político-administrativos que outrora faziam do Estado um estratego.
Hoje, esse mesmo Estado não tem alma, não tem força, não tem influência até para mandar calar um Comissário ignorante que nem o inglês básico consegue falar e pronunciar, por isso fala aos zigues-zagues...
Isto empurra-nos para um outro drama: o do sentido da nossa História. Somos uma nação quase milenar, temos uma língua que ligou continentes, povos e mercadorias nessa 1ª leva de globalização feita da Gesta das Navegações, mas nem por isso escapamos aos ditames bruxelenses. Tudo por causa da desordem das nossas finanças públicas, razão que também levou António de Oliveira Salazar, o velho "Botas", a pegar no país em 1926 para o largar 40 anos depois.
É triste compreender isto: é lastimável perceber que já fomos grandes, hoje apenas uma sombra do que fomos. A conclusão a que posso chegar é que somos hoje uma nação doente, sem ideias, sem projectos, sem elites, com alguns mitos, mas com escassos objectivos que nos revelem o paraíso. Tornámo-nos, portanto, numa sociedade acéfala, com uma classe política venal, com elites anquilosadas e burocratizadas. Razões de sobra que nos tornam presa fácil de especuladores, agências de rating, do FMI e o mais.
Somos hoje uma presa fácil do sistema internacional, qualquer perturbação doméstica justifica a presença e o controleirismo da OIs. E assim quem quererá pegar nesta nave de loucos que oscila num mar de tempestade!?
Eis a imagem que me assaltou o espírito quando vi os líderes dos dois principais sindicatos nacionais, a CGTP (carvalho da Silva) e a UGT (João Proença) a mendigar uma reunião na Praça de Londres.
Porra, há limites para tudo!!!
Tive ainda a sensação que a "carpideira de serviço", seguramente conhecida dos últimos andares do edifício mandado construir por Gonçalves Proença, esteve à beira de esbofetear os dois sindicalistas.
Dantes, ao tempo de Oliveira Martins, e do seu Portugal Contemporâneo (1895), que será um livro a reler, ainda se podia dizer que a nossa independência ou salvação repousava na existência das colónias ultramarinas e no seu valor económico para a metrópole, a fim de melhorar as condições nacionais, ainda que à custa das populações indígenas, que escassa consciência tinham do seu valor social. Nem a civilização estava ainda preparada para as libertar das grilhetas em que viviam.
Hoje temos a Europa do Comissário Olli Rehn a soletrar aquele inglês trauliteiro e de doca e o "cherne" Barroso, que foi um dos piores primeiro-ministros de Portugal, depois de santana Lopes, a dizer à nação portuguesa o que ela deve fazer e que ele, barroso, foi incapaz de cumprir. Não tem, por isso, moral para abrir a bocarra, além de conduzir a Europa para o declínio, o que dá ainda pior fama a Portugal na Europa.
O mundo está, de facto, perigoso!!
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Dire Straits - Money For Nothing (Live) Feat. Sting & Co.

Kate Bush & David Gilmour - Running up that Hill - Live SPB

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sábado

Imagens: os girassóis, a crise e o verão

O grito do pintor dentro do mar ou nos seios duma seara...
Podia ser o Verão por V.V.G., com orelha e muita visão A crise...
"O amor e a arte não abraçam o que é belo, mas o que justamente com esse abraço se torna belo."
Um abraço amigo ao AG.

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