sábado

A Democracia e o Futuro

O problema da democracia é a... Giordano Cimadon
Foram tantos e tamanhas as conquistas trazidas com o 25A, desde a Descolonização, a Democracia (representativa e pluralista) e o Desenvolvimento, ainda o 3º vector do tripé mais questionado, que nem valerá a pena duvidar das suas vantagens quando comparadas com o ancien regime.. 
-  Quando hoje vemos e ouvimos os discursos dos titulares dos órgãos de soberania, alguns bem feitos, somos forçados a pensar que aquilo está bem dito, mas a convicção mais profunda que fica no penar colectivo, salvo melhor opinião, é que são os homens comuns que asseguram o trabalho, a riqueza e a prosperidade da nação, e não aqueles discursos de circunstância emanados dos lugares do poder. 
- Há, contudo, um conjunto de aspectos essenciais ligados à vida democrática que se projecta no futuro que não têm sido devidamente acautelados pelos agentes do poder. Reporto-me às questões relacionadas com a chamada justiça intergeracional e às discriminações ligadas à idade ou à condição geracional. 
- Na sua maioria, tratam-se de decisões políticas que se tomam no presente e que produzem efeitos nas gerações futuras. Os problemas relacionados com a segurança social (e sua sustentabilidade!!), a saúde, as pensões, os desequilíbrios demográficos (que geram aqueles défices de sustentabilidade, além da precariedade no mercado de trabalho), os subsídios de desemprego, a deficiente (e cara) justiça. Todas estas questões exigem um tratamento e um enquadramento temporal a longo prazo que nunca se fez no Portugal pós-25A.
- Nestes aspectos é legítimo questionar o poder político se será moralmente aceitável transmitir às gerações futuras um ambiente degradado, um Estado hiper-endividado (vide os contratos feitos com as concessionárias de auto-estradas que, deliberadamente, esbulham o Estado, ou seja, o contribuinte de forma dolosa sem que o Leviatão reclame a revogação daqueles pseudo-contratos feitos dolosamente para penalizar o erário público e enriquecer alguns empresários que viram aí uma forma de se locupletarem de forma oportunista e em conúbio com alguns desses agentes do poder.
- Nestes aspectos, a democracia nascida com Abril/74 foi capturada por interesses empresariais e corporativos que visam engordar à custa dos impostos dos contribuintes e com um considerável grau de corrupção de alguma classe política e de parte do escol dirigente, sobretudo daquele que emanou do chamado "arco da governação" e do "bloco central dos interesses" (PS+PSD+CDS). 
- Foi na prevenção deste tipo de desvios que Abril falhou, e que hoje o sistema político exige um novo contrato social que consiga entrelaçar os múltiplos e legítimos interesses duma sociedade mais complexa e dinâmica - que também já não é a mesma de 1974, naturalmente. 
- A questão da responsabilidade perante as gerações futuras devia estar no centro dessa ética de futuro, e não em mais e mais discursos rotinados sobre o 25A a que boa parte da população hoje já nem liga. Tal pressupõe uma justiça entre gerações, que envolve um entrelaçamento geracional que exige uma responsabilidade perante a outra geração. Isto é difícil de conseguir, já que a antecipação de medidas que tenham em mente os seres vindouros é complexa. 
O Futuro Absoluto « Associação Rumos- Mas a forma como Portugal, através dos sucessivos governos nos últimos 30 anos, foi desleixando as reformas na Saúde, na Justiça, na Segurança Social, na Demografia espelha bem o fracasso do planeamento político e dos cenários que deveriam ter sido equacionados no apoio à tomada de decisão - e que teriam alargados apoios europeus - e não o foram. O que ajuda a explicar a razão pela qual Portugal ainda é um dos países da Velha Europa que mais diverge dos indicadores de desenvolvimento da UE. 

- Numa palavra: Abril foi importante, mas os seus actores políticos, os partidários e os mais institucionais, sem enquadramento partidário, foram todos incapazes de configurar o futuro no âmbito daquelas reformas, e gorvernar à bolina, com recurso primário ao expediente intensivo das "cativações" - revela falta de imaginação política e muitos constrangimentos e bloqueios políticos que ajudam a explicar o beco em que caímos. 
- Sem Abril ainda estaríamos debaixo da ponte, mas gozar da Liberdade para não saber tomar as decisões certas para a posteridade espelha, igualmente, uma grande impreparação da nossa classe política, pois até o bom uso dessa liberdade de escolha das gerações vindouras exige (hoje) de nós a tomada de muitas decisões que nunca soubemos tomar. 
- Em suma: devemos (saber) tomar agora determinadas decisões para que mais tarde as novas gerações tenham liberdade de escolha. E também teria sido útil que as gerações que nos precederam pudessem ter sabido fazer o mesmo em ordem a que hoje não estivéssemos a recuperar dum passado de quase meio século de ditadura, e de outro tanto de democracia que ainda não soube recuperar o porvir. 

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terça-feira

As mentiras são mais fascinantes do que a verdade - por Umberto Eco -


Nota prévia: As entrevistas a Umberto Eco são sempre um viveiro de ideias, pelo que há que lê-lo com calma, com alma. E, acima de tudo, com muito proveito e reconhecimento pelo saber que partilhou.


Tinha 84 anos e deixou-nos esta sexta-feira. Falámos com ele não há muito, em abril de 2015. A entrevista era sobre livros, sobretudo o dele que estava para sair, e aconteceu num tempo em que esta crise de refugiados que nos entrou pelas notícias já existia mas sem o impacto destes dias - transformados pela imagem do naufrágio da humanidade simbolizado num menino morto numa praia. A entrevista era pois sobre livros, mas Umberto Eco falou sobre mais - incluindo este tema que o preocupava há muito, o da migração e dos refugiados. É uma reflexão dura: “A Europa irá mudar de cor. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue”. Mas também com fé no outros homens - nos que estão e nos que vêm: “A migração produz a cor da Europa”

O branco é a cor fundamental deste apartamento onde os livros tomaram conta de qualquer superfície capaz de os sustentar. Na sala que lhe serve de escritório, uma música difusa desprende-se de um lap-top plantado sobre a secretária. "Encontrei uma rádio virtual que emite 24h por dia música dos anos 40", explica il professore, e desde então é essa a sua banda sonora. Um olhar em volta mostra Joyce, Dante, todo o Aristóteles possível? e, a um canto, o prazer proibido: adivinhação, astrologia, alquimia, magia, demonologia, iconologia, bíblias, o Talmud, a cabala, o Alcorão. Coisas que um visitante distraído acreditaria pertencerem a Dan Brown - mas, diz, este não passa de uma personagem sua.
O encontro aconteceu às 11h da manhã de um magnífico dia de sol em Milão. Umberto Eco atendeu o intercomunicador e abriu ele próprio a porta de casa. Alto, cordial, de eterno cigarro apagado entre os dedos - desistiu de fumar mas não se desfez do gesto -, ofereceu café e sentou-se na sua poltrona de cabedal. Por vezes, substituiria o cigarro por uma boquilha, único elemento que, além da tendência para gesticular e do riso fácil, se alteraria ao longo de duas horas de conversa. Falámos da infância, da escrita, da Europa, de jornalismo - central em "Número Zero", o novo romance que sai em maio em Portugal. Generosamente, chegaria ao fim quase sem voz. Porque o professor, semiólogo, medievalista, escritor, ensaísta, tradutor, colecionador e cronista de 83 anos não é dos que deixam perguntas sem resposta. Sendo que a sua é a visão distendida e abrangente de quem analisa o presente à luz dos processos históricos e tende por isso a dizer, face ao incerto dos dias: "Estamos a viver numa era interessante."
Rodeia-o a sua biblioteca. Está toda aqui?
Sobretudo aqui - perto de 30 mil volumes - mas também na minha casa de campo. E no meu escritório na universidade e num pequeno apartamento em Paris... Todos juntos devem ser à volta de 50 mil. Recebo tantos livros que todos os meses encho duas ou três caixas e mando-as para a universidade, para os estudantes. É impossível guardá-los ?todos.
Os livros que guarda formam um retrato, o seu. Uma biblioteca é uma autobiografia do seu dono?
Só a 70%. Os restantes 30% são acidentais e não uma escolha. Mas há por aí muita gente estúpida que quando entra no meu apartamento exclama: "Oh, tantos livros! Leu-os todos?".
O que responde?
Há três respostas. A primeira é: "Li muitos mais". A segunda é: "Não li nenhum, senão porque os guardaria?". E a terceira é: "Não, mas tenho de os ler na próxima semana". Uma biblioteca não é um repositório dos livros que já lemos. É também o lugar onde guardamos os livros que iremos ler.
Então, tem a ver com o futuro?
Tem a ver com o futuro. Uma biblioteca é um mistério. Há livros que nunca tínhamos lido e um dia dizemos: "Deveria lê-lo". E quando o abrimos percebemos que sabemos tudo sobre ele. O que aconteceu? Existe uma explicação mágica segundo a qual, ao tocarmos um livro, o espírito de todos os livros viaja para a nossa mente. Outra explicação é: pensávamos que não o tínhamos lido, mas ao longo de 30 anos fomo-lo abrindo e lendo partes dele. Existe ainda outra: pelo meio, acabámos por ler imensos livros que falam desse livro. É uma das surpresas que a biblioteca pode reservar. No meu caso, tenho muito boa memória. Sei onde está cada livro, mas se alguém da família encontrar um que deixei num determinado sítio e o mudar de lugar é uma tragédia. Perco-o para sempre.
Há gradações numa biblioteca? Um leitor sabe que, no fim, são poucos os livros que contam.
Sim, veja a minha coleção de livros raros. Cada um foi cuidadosamente escolhido e, neste sentido, é um retrato meu. Mas acontece que inclui apenas livros nos quais não acredito. Sou um ateu que coleciona bíblias e livros religiosos. Olhando para esta parte da minha biblioteca poderia até pensar-se que sou Dan Brown. Mas sou o oposto!
Porque é que alguém pensaria isso?
Dan Brown é uma pessoa que leu toda aquela tralha ocultista e acredita nela. Uma vez disse que inventei Dan Brown: ele é uma personagem de "O Pêndulo de Foucault".
Porque tem tantos livros sobre ocultismo?
Sou fascinado por eles, mais do que por livros 'sérios'. Peguemos num autor como Athanasius Kircher, um jesuíta do século XVII que escreveu imensos livros sobre todos os assuntos. À exceção do primeiro, muito difícil de encontrar, tenho-os todos. São livros maravilhosamente ilustrados, porque falam de coisas que o autor nunca viu e teve de inventar. As mentiras são mais fascinantes do que a verdade. A "Ilíada" é mais atraente do que uma reportagem no Iraque. Não é por acaso que me dediquei à semiótica, a teoria e filosofia dos signos. O que torna os signos interessantes não é servirem para dizer a verdade, mas poderem ser usados para mentir ou falar de coisas que nunca vimos. Uma linguagem revela a sua importância quando é usada para referir coisas que não estão lá. Na minha coleção não vai encontrar Galileu, mas sim Ptolomeu, porque estava errado.
Ao olhar para trás, o que vê? O que a sua prodigiosa memória selecionou?
Ter tão boa memória faz com que me lembre de coisas que os outros esquecem. Por vezes passam filmes na TV que a minha mulher diz que deveríamos ver e eu digo-lhe: "Vimos isto há 30 anos". E, com a idade, a memória enriquece-se. Por exemplo, em criança nunca falei o dialeto da minha terra [Alessandria], porque ainda que os meus pais o falassem entre eles, comigo falavam italiano. Percebia-o perfeitamente, mas era incapaz de o falar. Agora, de repente, sou capaz.
Como é que isso aconteceu?
Veio-me das entranhas. Não sei porquê. Provavelmente, no momento da minha morte, vou lembrar-me de tudo, mas será tarde para o contar.
Em que família nasceu?
Nasci na pequena burguesia. De pai contabilista, nem pobre nem rico - o que hoje chamamos classe-média. Tanto ele como a minha mãe foram bons leitores na juventude, mas depois passaram a ler sobretudo jornais e revistas. A minha avó materna, que tinha apenas cinco anos de escolaridade, era uma leitora voraz. Trazia sempre livros da biblioteca, que lia e me dava a ler. Não era seletiva, devorava Balzac e a seguir uma novela popular. Por isso, aos 12 anos, também eu lia Balzac e novelas de cinco cêntimos, o que me deu o gosto pela leitura. O meu avô paterno morreu quando eu tinha seis anos e era tipógrafo, mas na reforma ganhava dinheiro a encadernar livros. E na sua casa havia livros por toda a parte. Lembro-me de ficar embasbacado com a ilustração de Leloir de "Os Três Mosqueteiros". Há poucos anos, encontrei essa edição num antiquário e comprei-a. Ao morrer o meu avô, todos aqueles livros por encadernar não reclamados pelos seus donos foram postos numa caixa que acabou no meu sótão. E um dia encontrei a caixa, que me deu material de leitura por muitos anos. Estavam lá os fascículos da enciclopédia "Giornale Illustrato dei Viaggi e delle Avventure di Terra e di Mare", do início do século, cheios de histórias, que de tanto ler e reler quase se desintegraram. Passei anos à procura deles nos antiquários.
Tentava reconstruir essa parte da infância?
Sim, da mesma forma que me esforcei por encontrar os meus cadernos da escola básica, da era fascista, que perdera de vista nas mudanças de apartamento. Sabe, recordo com ternura até as estadas no bunker, durante os bombardeamentos. Eram momentos terríveis, mas nós brincávamos, para nós isso era a infância.
Era uma criança durante a II Guerra Mundial, integrou a Juventude Fascista... Quando se deu conta do que estava a acontecer?
A guerra foi declarada em 1940, tinha eu oito anos. Educado como jovem fascista, seguia os discursos de Mussolini com a maior atenção. No meu livro "A Misteriosa Chama da Rainha Loana" há um episódio autobiográfico, em que a personagem principal descobre um texto do 5º ano da escola, no qual ainda se celebra o fascismo e a guerra. Em 1943, quando eu tinha 11 anos, o fascismo cai. E, no dia seguinte, apareceram cinco, seis, sete novos jornais - o comunista, o democrata-cristão... Percebi que aqueles partidos existiam algures. Foi um choque maravilhoso. A passagem da ditadura para a democracia aconteceu para mim do dia para a noite, só de olhar para a banca dos jornais. Naquela altura, para escaparmos às bombas, vivíamos fora da cidade. Ali não havia bombas, havia guerra civil, partisani contra alemães e fascistas. Entre meados de 1943 e finais de 1945 vivi no meio da guerra. E era bastante natural.
Não teve medo?
Não, aprendem-se técnicas de sobrevivência. É curioso, porque a minha mulher é alemã e três anos mais nova do que eu. Para uma jovem alemã, a guerra foi bastante terrível. Em 1968 calhou estarmos em Praga no exato dia em que os russos invadiram a cidade, com mais dois amigos que eram uns anos mais novos do que nós e não tinham memórias da guerra. A dada altura ouvimos um tiroteio. Os nossos amigos correram para o centro da praça, enquanto eu e a minha mulher, sem sequer falarmos, ficámos numa esquina. Tínhamos aprendido, na infância, que numa esquina há sempre duas vias para fugir.
Quando descobriu em si o impulso narrativo, a vontade de contar?
Escrevi a primeira novela aos 15 anos. E passei a adolescência a escrever novelas, que começava e não acabava porque ?era tão meticuloso que queria que parecessem impressas. Fiz também alguma banda desenhada e escrevi poesia, mas isso não conta porque a poesia entre os 16 e os 20 anos é como a masturbação. De facto, tive sempre este impulso narrativo, e quando apresentei a minha tese de doutoramento - sobre a Estética de São Tomás de Aquino -, um dos meus professores disse que havia nela algo de curioso: quando alguém faz uma pesquisa, chega a certas conclusões e fixa-as no papel. Eu, pelo contrário, estava a contar a história da minha pesquisa como se fosse uma história de detetives. Para ele isto era uma falha, para mim é uma virtude. Todos os meus ensaios tinham esta estrutura narrativa e, num sentido, estava a escrever romances sem o saber. Provavelmente comecei a escrever romances porque os meus filhos cresceram e já não podia contar-lhes histórias. Arranjei outra maneira.
Só aos 48 anos publicou "O Nome da Rosa".
Adiei o momento de contar histórias porque tinha outras coisas para fazer. Só depois de ter feito tudo o que queria - o meu lugar na universidade, os ensaios publicados, dois filhos - perguntei-me: "O que vou fazer agora?". Vou contar histórias.
Uma vez, parafraseando Wittgenstein, disse que "o que não se pode teorizar, deve? narrar-se". Vê a literatura como extensão da vida teórica?
É uma pergunta interessante. No caso de um ensaio, faz-se uma pesquisa e publicam-se as conclusões. Num romance, pode haver contradições, o escritor não é responsável pelas opiniões da sua personagem. Na América há uma coleção importante intitulada "The Library of Living Philosophers", que começou há 60 ou 70 anos com John Dewey. Como não tinham nada melhor para fazer, decidiram escrever um livro sobre mim, pedindo textos a diferentes investigadores. Um deles, escrito por um dos meus antigos alunos e agora jovem professor, demonstra que existe uma interação entre o meu trabalho teórico e o narrativo. E diz que sempre que me foi impossível completar uma teoria? eu escrevi um romance. Claro que não foi propositado. No início, escrever um romance era como ir de férias. Agora percebo que foi algo complementar.
Já afirmou que os livros falam sempre de outros livros e que qualquer história conta uma história já contada.
Desde sempre. Homero não inventou nada. Toda a história da literatura é uma espécie de passagem de testemunho, como nos Jogos Olímpicos, quando a tocha passa de mão em mão.
Mas algo de novo aconteceu com "O Nome da Rosa", um livro erudito que se tornou popular. Você próprio afirmou que quis construir o leitor de que o livro precisa - que só quem ultrapassa a penitência das primeiras 100 páginas é capaz de ler o livro até ao fim.
Sim, do livro nasce um leitor. No início do "Nome da Rosa", um dos meus primeiros leitores foi o meu antigo editor Valentino Bompiani, que me disse duas coisas: que estava entusiasmado com o livro e que a introdução histórica era demasiado longa, tal como a descrição do incêndio da abadia. Uma vez que não sou sádico, cortei a introdução. Mas decidi que o leitor que eu quero para o livro tem de seguir o incêndio tal e qual o descrevi. É um diálogo com um leitor que não existe ainda, mas que existirá no final. Por outro lado, há também a questão do '?código duplo'?, teorizado pela literatura pós-modernista, segundo o qual um texto pode ser lido em dois níveis diferentes: o nível da história, acessível a qualquer um, e o nível filosófico. Esta duplicidade explica o funcionamento de "O Nome da Rosa", a tal ponto que foi feito um filme que assenta apenas no primeiro nível. Um livro pode ser muito complicado e ao mesmo tempo tocar dois ou três tipos de leitores. Mas este fenómeno existe desde sempre. Boccaccio contou que, certa vez, Dante Alighieri estava a andar pela rua e ouviu um ferreiro a recitar versos da "Divina Comédia", de uma forma errada. E então ficou furioso, entrou na loja e destruiu-lhe os instrumentos. Isso significa que mesmo um trabalhador comum conhecia e podia apreciar a "Divina Comédia", mesmo sem compreender a discussão teológica por trás dela.
O ferreiro vislumbrou o mundo contido nesse livro. Sempre disse que escrever um romance tem mais a ver com a criação de um mundo do que com as palavras.
Há uma frase de Cícero que diz: "Tem uma ideia clara do que queres demonstrar e encontrarás as palavras." Na poesia começamos com uma ideia linguística, com uma metáfora. Mas na narrativa começamos pela história. O que significa que as palavras virão depois? Não significa que não são essenciais, mas sim que eu sou um camaleão. Em "O Nome da Rosa", uma vez que falo do universo medieval, escolhi o estilo seco das crónicas medievais. Em "A Ilha do Dia Antes", passado na era barroca, a minha linguagem foi rica em metáforas. Portanto, o mundo que eu queria criar obrigou-me a elaborar um certo estilo. Quando as palavras aparecem antes da história, tem-se um "Finnegans Wake" [de James Joyce], que é um grande livro mas não é um romance. Pelo contrário, no "Ulisses", os 18 mundos dos 18 capítulos determinam 18 estilos linguísticos diferentes.
"A harmonia não está na extensão do fôlego, mas na regularidade com que se respira." Num texto o ritmo é essencial?
Respirar é essencial. Ler o texto, lê-lo em voz alta, muitas vezes, para controlar o ritmo. O ritmo muda de livro para livro. Os meus romances anteriores, de 500 páginas, são como sinfonias de Mahler, enquanto este último, "Número Zero", é como o jazz. Por vezes digo aos meus tradutores: "Estás a explicar demasiado e a perder o ritmo."
Neste novo livro retoma um velho tema seu, o das conspirações. Porquê?
Há livros que só falam de sexo. Outros, como os meus, falam de conspirações. Quando um autor escreve muito sobre um tema é porque sente falta disso na vida, ou seja, os que escrevem muito sobre sexo, não o praticam. Os que escrevem sobre conspirações, não conspiram nem são paranoicos. Em contrapartida, sou obcecado pelo mundo dos paranoicos. Basta surfar na internet para ver a quantidade de intrigas e de falsificações em que muita gente acredita. Sempre me escandalizou a credulidade das pessoas, que continuam a comprar produtos para fazer crescer o cabelo quando está cientificamente provado que isso é impossível.
As pessoas preferem a mentira à verdade?
Certamente! Acreditar permite-lhes recusar o facto de que são culpadas. A credulidade é uma forma de evitar o desespero, a desilusão - de evitar o medo da morte.
"Número Zero" é sobre os limites do jornalismo. O que o levou a abordar esta questão?
Desde os anos 60 que escrevo sobre os vícios do jornalismo. E a ideia de fazer um romance à volta disto é anterior a "Baudolino" (2000). Porquê retomá-la agora? Porque nos últimos anos tem vindo a crescer aquilo que em Itália chamamos "macchina del fango" [máquina de lama]. E provavelmente pelo facto de ter sido uma das suas vítimas. Uma vez, um jornal escreveu: "Ontem, Umberto Eco foi visto num restaurante chinês com um desconhecido."
É o que descreve no livro, o mecanismo da insinuação.
Que funciona dizendo algo aparentemente normal mas que lança uma sombra, uma suspeição. Em Milão ou em Roma há restaurantes chineses, mas nas pequenas vilas não, e as pessoas podem achar estranho que eu coma uma refeição com pauzinhos, ainda para mais com alguém desconhecido! É Le Carré, uma novela de espiões!
Parafraseando-o: a insinuação eficaz é a que usa os factos, a realidade.
Não é indispensável provar que alguém é perverso ou criminoso. Basta dizer que mexe o rabo de uma maneira estranha.
Mas há notícias inocentes? Mesmo a imprensa séria se debate com esta questão.
Em semiótica, 'narrativas neutrais' são histórias que nós contamos sobre o que nos acontece. Paradoxalmente, cada pedaço de narrativa neutral é já uma seleção, uma interpretação. Ninguém conta tudo o que viu, mas sim os aspetos mais proeminentes da história. Há uma diferença entre o que publica "The New York Times" e "The New York Post", mas devemos abandonar a ideia de que um jornal é um vidro transparente através do qual se olha para o mundo.
A personagem principal, no fim, experimenta "uma calma desconfiança no mundo" que o rodeia. É o que sente?
Ele chega a essa conclusão quando aceita o seu destino. E como nunca foi um criador nem um vencedor, rende-se. Eu não me estou a render: escrevi a história. É a minha forma de não me render.
Como vê a Europa hoje?
Desde a juventude que sou um apoiante da União Europeia. Acredito na unidade fundamental da cultura europeia, aquém das diferenças linguísticas. Percebemos que somos europeus quando estamos na América ou na China, vamos tomar um copo com os colegas e inconscientemente preferimos falar com o sueco do que com o norte-americano. Somos similares. Cultura não quer dizer economia, e só vamos sobreviver se desenvolvermos a ideia de uma unidade cultural.
Parece-lhe ser o caminho que se está a seguir?
Quando atravesso a fronteira sem mostrar o passaporte e sem ter de trocar dinheiro, sinto um grande orgulho. Durante dois mil anos, a Europa foi o cenário de massacres constantes. Agora, esperemos um bocado: mesmo que o mundo hoje seja mais veloz, não se pode fazer em 50 anos o que só fomos capazes de fazer em dois? mil. E mesmo indo nessa direção, não sei como os países europeus poderão sobreviver: estão a tornar-se menos importantes do que a Coreia do Sul, e não apenas do ponto de vista industrial. Culturalmente, está-se a traduzir mais livros lá do que em França.
A Europa já não está no centro.
Entidades nacionais como Portugal ou Itália tornar-se-ão irrelevantes se não fizerem parte de uma unidade maior. Mas nada disto se constrói em pouco tempo. O problema da Europa é estar a ser governada por burocratas. Uma vez, uma instituição europeia - não me recordo qual - decidiu criar uma comissão de pessoas sábias. Estava lá Gabriel García Márquez, Michel Serres e eu próprio. Os outros convidados eram burocratas europeus. Cada reunião servia para discutir a ordem de trabalhos da reunião seguinte. Aquilo era o retrato da Europa: pessoas a governarem uma máquina autorreferencial. Porém, é o que temos. É como a democracia segundo Winston Churchill: um sistema horrível, mas melhor do que os outros.
É um otimista.
Tenho uma mistura de otimismo e esperança. Sou um otimista voluntarioso.
Que leitura faz do islamismo radical que está a crescer dentro dos países europeus?
Estou muito preocupado, não por mim, mas pelos meus netos. Escrevi-o há 30 anos: o que se passa no mundo não é um fenómeno de imigração, mas de migração. Migração é quando os germânicos chegam e destroem o Império Romano, quando os mongóis invadem a Índia... A migração produz a cor da Europa. Quem aceitar esta ideia, muito bem. Quem não a aceitar, pode ir suicidar-se. A Europa irá mudar de cor, tal como os Estados Unidos. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue. A migração dos alemães bárbaros para o Império Romano, que produziu os novos países da Europa, levou vários séculos. Portanto, vai acontecer algo terrível antes de se encontrar um novo equilíbrio. Há um ditado chinês que diz: "Desejo-te que vivas numa era interessante". Nós estamos a viver numa era interessante.
Porque é que migração tem de significar derramamento de sangue?
Não deve perguntar-se porquê: é um facto. Vejamos a França. É o caso típico de um país que acreditou poder absorver a migração. Porém, por um lado, impôs logo aos migrantes a ética da república; e, por outro, arrumou-os nos bairros remotos. É muito raro encontrar um migrante a viver ao lado de Notre-Dame.
O termo 'integração' sempre foi dúbio no discurso europeu.
Porque é que um muçulmano em França se torna fundamentalista? Acha que isso aconteceria se vivesse num apartamento perto de Notre-Dame? A sua integração não foi completa nem poderia ser. De novo, é um facto. A migração a longo prazo pode produzir integração mas a curto prazo não, e a não-integração produz uma reação, que pode ser de ódio.
Disse que "o Estado Islâmico é o novo nazismo". Quer explicar?
Quando se quer matar todos os que não pertencem ao mesmo grupo ou à mesma religião, o que lhe podemos chamar? É um nazismo muçulmano, equivalente ao nazismo europeu, mas com uma diferença: os americanos sabiam quem eram os nazis, estavam frente a frente na confrontação. Agora não é assim. Temos o inimigo em casa. A guerra mudou: em Waterloo, Wellington e Napoleão marchavam um contra o outro. Mas, na Guerra do Golfo, os jornalistas europeus e americanos estavam em território inimigo a contar o que se passava. Já não estamos em Waterloo. Por isso, nenhuma guerra hoje pode ser ganha.
Mesmo difuso, precisamos de um inimigo para avaliar o nosso sistema de valores.
O inimigo é sempre inventado, construído. Precisamos dele para definir a nossa identidade. A extrema-direita italiana acredita que são os ciganos ou os migrantes pobres, ou o Islão em geral, ainda que o Islão possa assumir muitas formas. Ora, o Estado Islâmico não é o Islão, no sentido em que Hitler não era a cristandade.
O que pensa do regresso do antissemitismo?
Não o vejo como um regresso mas como uma questão permanente. Agora há um misto de antissemitismo com um 'anti-israelismo' ligado a Netanyahu, que me preocupa e é perigoso.
Quando ocorreu o ataque ao "Charlie Hebdo", um jornal satírico, não sentiu regressar o fantasma de "O Nome da Rosa"? Será que saímos da Idade Média?
O fundamentalista é desprovido de sentido de? humor, porque o humor é um instrumento crítico. Em "O Nome da Rosa", destrói-se um livro que fala sobre o riso e mata-se por ele. Presenciamos o mesmo fenómeno. Mas se me der um milhão de dólares eu demonstro-lhe a analogia entre a nossa era e o tempo dos neandertais. A Idade Média não existe, porque tem dez séculos. É uma construção artificial. De qualquer forma, vemos que é uma época de transição entre dois tipos de civilização. E provavelmente - falávamos de migração - estamos numa era de transição, que é sempre difícil. A questão é: houve alguma era que não fosse de transição? Resposta: não. Mas houve momentos em que cada um vivendo no seu país não se apercebia de que havia uma transição a acontecer no mundo.
Qual é o papel do intelectual hoje?
Não dar muitas entrevistas! [risos] Falando a sério, penso que é duplo. Primeiro, é dizer o que as outras pessoas não dizem. Não é dizer que há desemprego em Itália. Segundo, não é resolver os problemas imediatos, é olhar para a frente. Se um poeta está num teatro e há um incêndio, não se põe a recitar poemas: chama os bombeiros. Pode é escrever sobre incêndios futuros.
E o passado? Citando-o, "o passado chantageia-nos".
É impossível pensar o futuro se não nos lembrarmos do passado. Da mesma forma, é impossível saltar para a frente se não se der alguns passos para trás. Um dos problemas da atual civilização - da civilização da internet - é a perda do passado.
O que é paradoxal ao termos um acesso quase ilimitado a qualquer tipo de informação.
Isso equivale a zero, porque não sabemos selecionar. Uma orquestra organizada pode tocar uma sinfonia, mas dois mil instrumentos juntos só fazem barulho. O que temos agora é barulho generalizado, no meio do qual estamos a perder o conhecimento do passado, mesmo do passado próximo. Quando eu tinha dez anos, sabia o que acontecera 30 anos antes. Há um concurso aqui em Itália de perguntas sobre cultura geral. Uma vez perguntaram quando é que Hitler e Mussolini se encontraram pela primeira vez, e todos disseram 1945 - ninguém se lembrou que em 45 estavam ambos mortos. É uma geração incapaz de olhar para trás a não ser através da Wikipédia. Mas olhar para trás sem pensamento crítico não serve de nada: Jorge Luis Borges criou uma personagem, Funes, que se recordava de tudo e era um idiota.
Li que há um ensaio que ainda quer escrever, mas para o qual não encontrou as palavras. É sobre a comédia. Já conseguiu começar?
E disse que era tão difícil que provavelmente não o iria fazer, e que depois da minha morte alguém poderia tentar reconstruir este meu livro jamais escrito. Rir é próprio do homem, como mentir. O problema é tão complexo, há tantas razões pelas quais podemos rir... Rimos porque estamos felizes, os soldados japoneses riam-se de vergonha quando eram detidos pelos americanos, os homens riem-se durante um show de striptease para dominar a timidez. Rir tem a ver, de alguma forma, com o facto de sabermos que vamos morrer. É mais ou menos isto, e é imenso. Não, ainda não escrevi este livro.
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sábado

Cavaco fala como Presidente da República ou ex-primeiro ministro??





Cavaco entende que não é por cessar o programa de assistência financeira da troika a Portugal que terminam os nossos problemas económicos. Que grande novidade!! 

Parece, afinal, que todos os portugueses concordam com essa pacífica posição, por demais óbvia em função da pobreza estrutural em que o país se encontra, até pela draconiana carga fiscal que o XIX Governo (in)Constitucional tem imposto aos portugueses, sobretudo espoliando os rendimentos legítimos de funcionários públicos e pensionistas, os mais sacrificados.

Cavaco, hoje sem eleições para disputar, poderá dar-se ao luxo de ser cristalino e defender a ideia de que, se não houver um largo consenso político e um programa cautelar, a crise portuguesa prolongar-se-á por mais duas décadas. Grosso modo, é o que defende nos seus Roteiros VIII, que é uma espécie de sebenta que só é lida pelos seus assessores, os mesmos que a redigiram e asseguraram a sua revisão técnica. 

Se não houver esse consenso, obrigando o PS a "deitar-se" politicamente com a actual maioria que confisca o país, não estão garantidas as condições de regresso aos mercados, o que poderá deitar tudo a perder. Tudo...

Sucede, porém, que Cavaco tem aqui um pequeno (grande) lapso. 

Afinal, em que dígitos está o desemprego, a dívida e o défice?! 

Cavaco é omisso. E é omisso porque sabe que de 2011 até ao momento - todos os indicadores socieconómicos se degradaram sobremaneira, com excepção das exportações, mas que não é motivo bastante para inverter o desemprego, reestruturar o débil tecido económico nacional e pôr a economia a crescer de forma sustentável. 

Em face destas contradições espelhadas nos seus Roteiros VIII - fará sentido perguntar ao locatário de Belém se os 20 anos de regressão socioeconómica para que remete os portugueses, caso não se verifiquem aquelas duas condições (consenso político alargado e o programa cautelar), não deverão ser imputados à década de ouro em que Cavaco foi primeiro ministro e nada mais fez pela economia nacional do que mandar construir estradas, escolas, hospitais (por mais importantes que sejam) e ainda o Centro Cultural de Belém - sem ter uma visão integrada do modelo de desenvolvimento do país

Daí concluir-se que Cavaco poderá estar a falar mais na sua condição de ex-primeiro ministro do que de corta-fitas de Belém. 


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quinta-feira

Integramos todos o mesmo problema, o mesmo planeta


O homem é o  único ser que sabe que há futuro e que sabe que vai morrer, mais tarde ou mais cedo. Mas ter essa noção não é condição suficiente para que o futuro passe a ser mais amistoso para com o homem. O futuro é, assim, algo que tem - e deve - ser imaginado antecipadamente a fim de diminuir a incerteza que, um dia, nos irá matar a todos, de forma sucessiva e mais ou menos espaçada no tempo. Mas pode não ser exactamente assim. O futuro está sempre em aberto, para o melhor e para o pior. 

Até aqui fazemos todos parte do problema, embora o ideal seria integrarmos todos a parte da solução. E aqui esbarramos com as divergências de políticas públicas, de estratégias e de medidas que os Estados equacionam para resolver os grandes problemas ambientais do nosso tempo. Aquilo que uns querem (diminuição das emissões de CO2 para atmosfera, por ex.) é rejeitado por outros. Por regra, quem rejeita tem o poder de o fazer, porque tem mais riqueza e mais poder à escala global. Os EUA, são o exemplo desse paradigma invertido que, em vez de dar o exemplo, comporta-se como um novo bárbaro nas conferências internacionais sobre Ambiente e sustentabilidade. 

Parece que alguns actores descuram o óbvio. E o óbvio, na actual relação do Homem com o Planeta, e nas consequentes mudanças climáticas que alteram substancialmente o nosso modo e qualidade de vida, é reconhecer que há minúsculas alterações que parecem insignificantes, mas podem estar  a transformar o nosso ambiente precisamente quando a nossa última tentativa de mudança está em vias de fracassar. 

Sabemos hoje que tudo está relacionado com tudo, mesmo quando não compreendemos as ligações que justificam esse carácter sistémico do mundo em que vivemos. E se é assim, é porque há um padrão emergente de possibilidades, i.é, somos verdadeiramente responsáveis pela criação do nosso futuro comum.

A este respeito, é útil integrar uma reflexão de M. Wheatley, quando afirma:

Nas nossas explorações do passado, era tradicional descobrir-se algo e em seguida formular esse algo em respostas e soluções que poderiam ser amplamente decalcadas. Mas agora iniciámos um percurso de exploração mútua e simultânea. Não podemos esperar respostas. As soluções, como nos ensina a realidade quântica, são eventos temporários, específicos de um contexto, desenvolvidos através da relação de pessoas e circunstâncias. Neste novo mundo, nós e vós vamo-nos realizando à medida que avançamos, não porque nos falte competência ou capacidades de planificação, mas porque é esta a natureza da realidade. A realidade muda de forma e significado devido à nossa actividade. E é constantemente nova. É-nos pedido que estejamos aqui e participemos activamente. Isto não pode acontecer sem nós e ninguém o pode fazer por nós.
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Refª:

Margaret Wheatley, Leadership and the New Science: Learning about Organization from a Disorderly Universe, San Francisco, Berrett-Koehker, 1994.


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terça-feira

O Portugal idiota que produz mau futuro neste 2009 que finda

O Portugal idiota:
Parece uma nota de pessimismo puro e duro, mas é antes uma reflexão realista, dobrada pelo carrego dos factos. Vejamos alguns desses factos:
- Desde logo as relações PR-PM – têm sido tensas, gratuitas e conflituosas, em nada valorizando a economia nem acalmam os problemas sociais ou os mercados financeiros. O Governo, mesmo esforçado, não consegue inverter o sentido dos indicadores de crise, e o PR não burila nenhuma ideia que coadjuve o Governo a sair do buraco em que os portugueses mergulharam, apesar dos seus 10 anos de experiência governativa. De nada serve essa tal cooperação estratégica cujo significado só o "menino bíblico" de Belém conhece.
Então temos instituições, temos homens políticos a ocupar o vértice do aparelho de Estado, mas de pouco servem as reformas, os discursos, as vontades, as políticas públicas. O peso cruel dos factos tem subjugado a vontade dos políticos – que pouco conseguem fazer para congelar as falências das empresas, o desemprego galopante, a crise no tecido social em geral, que também é ética e moral.
- Em segundo lugar, temos uma crise da política e não crises políticas, ou seja, a crise é estrutural e não conjuntural, não se resolvem os problemas do Estado, da sociedade e da economia com meras reformas ou mudanças de governo, o que prova que a crise resulta duma falta de ideia de desenvolvimento global e sustentável para Portugal – hoje abafada pela injunções da UE, pela conflitualidade entre Cavaco e Sócrates, pela mediocridade da oposição e a frágil e crónica sociedade civil – sempre muito subsiodependente.
- Essa ideia de crise e de conflitualidade interinstitucional conduz-nos a uma terceira premissa perplexizante, que é a de saber se pode haver futuro sem progresso nem desenvolvimento!? Se assim é, como pensarmos o futuro desenquadrado do grande esquema do progresso da história, sem segurança, sem estabilidade, com elevado risco social, empresarial e familiar!? Valores esses que entram em contradição com os objectivos a curto prazo dos indivíduos consumidores que já não gozam dum quadro governativo estável nem dum quadro empresarial produtivo e competitivo, tudo hoje decorre do jogo das imagens e das sondagens pela estratégia da captura do poder pelo poder. Depois desconhece-se que finalidade lhe dar. E um homem, um grupo, uma sociedade, um Estado com poder sem finalidade é como um carro sem motor. De nada serve.
- Assim, a Democracia pode também não estar em condições de gerar uma consciência do futuro para evitar perigos no tempo, o regresso das ditaduras, mascaradas sob diversas formas, poderá criar um caldo de cultura que deponha a actual democracia – que também não apresenta resultados sociais e económicos.
- Na ideia geral de progresso fica-nos uma aceleração do vazio, como diria um dos grandes filósofos do presente, Peter Sloterdijk, que nos chama a atenção para a armadilha em que caímos: um espaço social instável e um campo psicológico neurótico e, já agora, comportamentos políticos esquizofrénicos.
Esta crise com a falta de expectativa do futuro obriga-nos a reaprender a viver no tempo presente, subvertendo também a própria ideia de razão, de progresso, de crescimento, de modernização e desenvolvimento. Nada que Max Weber já não tivesse pensado no início do séc. XX, embora noutros moldes de desencantamento do mundo.
- Numa palavra: o ano de 2009 em Portugal obriga-nos a repensar vários conceitos e esquemas de acção; a ideia de que os políticos hoje são meros fantoches nas mãos poderosas da economia global; que a sociedade está cada vez mais subordinada ao Estado; este, por seu turno, está profundamente dependente dos impostos que lança sobre os cidadãos; as promessas políticas nunca são cumpridas, enfim, a factura do progresso made in Portugal conduz os portugueses a um beco de Alfama: é arquitectonicamente bonito, tem valor histórico mas não oferece grandes condições de habitabilidade. Em caso de sismo são os primeiros a morrer soterrados. Ou seja, o futuro que produzimos hoje é esvaziado de sentido, privado da ideia de progresso, e isso obriga os portugueses a desertar ante a mediocridade instalada.
- Dito isto chegamos ao nosso título do "Portugal idiota", em parte uma metáfora feita pelo "grandioso" contributo dos nossos actores políticos, económicos e financeiros – que hoje merecem cada vez menos confiança por parte dos eleitores, dos consumidores e dos clientes (bancários), basta ver o que se passa no BPP e o comportamento geral de todos os intervenientes que já deveriam ter actuado para repor a legalidade e o superior interesse dos clientes – ante a omissão miserável do Estado, a hipocrisia do Banco de Portugal e do seu Governador, Vitor Constâncio, e demais entidades de supervisão monetárias.
Com uma democracia deste quilate, com uma economia e operadores económico-financeiros desta "qualidade", com banqueiros desta estirpe só podemos colher a indeterminação dum futuro crescentemente perigoso, antecipando cenários de desenvolvimento verdadeiramente miseráveis.
O Estado, como diria Maurice Duverger, terá de ser algo mais do que a mera história do imposto, e a banca terá de ser, por extensão, algo mais do que uma pessoa manhosa com instintos fraudulentos penalisando os aforradores mais desprotegidos.
Somando todos estes aspectos negativos da nossa economia atingimos aquele ponto crítico que tudo parece explicar, recorrendo ao sábio dos tempos, Guilherme Shakespeare quando no seu Macbeth – refere que uma história contada por um idiota, uma história cheia de ruído e furor mas vazia de significado – pode, hoje, entre nós, ter outro nome: o Portugal de 2009 que ora finda.
Alguém viu por aí este senhor que revelou a soberba do seu talento ao editar/apresentar o seu livro, com aquele "título sugestivo", em plena bronca fraudulenta lesando centenas de clientes que, em rigor, são pequenos aforradores. Parece até gozo com a desgraça alheia...
  • Nota: O que é triste reconhecer entre nós é que o Portugal salazarento não mudou muito do Portugal actual em matéria de evolução do quadro das mentalidades, atitudes e comportamentos, ou seja, bastaria que um desses "clientes entalados" do BPP viesse a terreiro declarar que era sobrinho do ministro das Finanças ou primo dum empresário de peso com negócios com o Estado - para que o Leviatão coagisse a administração fraudulenta do BBP de João Rendeiro & amigos - a restituir o capital aos seus clientes que confiaram as suas poupanças em gente duvidosa. Não aparecendo esta figura do "sobrinho" ou do "primo" o Estado só tem que penhorar os bens ao BPP, vendê-los em asta pública, e do resultado dessa venda proceder à restituição do capital em dívida aos seus clientes com juros à melhor taxa de mercado.
    Muitas pessoas/clientes do BPP já viram as suas vidas destruídas pela gula de gente que, se fosse nos EUA, já estaria a aguardar julgamento na cadeia.
    O Estado tem aqui uma via de salvação para um duplo efeito: revelar que é uma pessoa de bem e ajudar os pequenos aforradores que confiaram no banco de joão rendeiro, e prestigiar a banca nacional perante a possibilidade de futuros investimentos de banqueiros internacionais que demandam o nosso país para aqui fazerem os seus negócios.
    Errado e injusto, além de profundamente imoral, é o Estado assistir a tudo isto de forma tão cínica quanto hipócrita e relaxada desresponsabilizando-se de ser uma entidade reguladora com capacidade legal para actuar e repor a legalidade e restaurar a justiça entre os homens e as instituições de bem em Portugal.

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