sábado

Europa tem de pôr as políticas onde estão os valores - por António Vitorino -

Nota prévia: Vale  sempre a pena ler e reflectir nas palavras avisadas de António Vitorino acerca desta velha Europa que carece de orientação e uma visão mais humanista para os países do velho continente.

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Continua a ser uma das vozes mais influentes no debate europeu que se trava em Portugal e em Bruxelas. Não esconde os revezes e as dificuldades. No dia em que a Europa está em Roma para festejar os 60 anos do tratado que a fundou, o antigo comissário europeu, que presidiu ao think-tank Notre Europe, sublinha a importância de reafirmar os valores europeus e refazer a confiança perdida nas sucessivas crises.
A Europa vive há quase dez anos uma crise que é a maior da sua história. Pela primeira vez, está em cima da mesa o cenário do seu fim. Acredita que, em Roma, possa haver um rebate de consciências, ou já estamos muito para além disso?
O que espero de Roma é uma declaração sobre os valores da União Europeia, porque é particularmente importante que sejam reafirmados. E essa reafirmação é tanto mais importante num momento em que, no plano transatlântico, os Estados Unidos se afastam desses valores, mas também quando há uma responsabilidade acrescida para que os europeus ponham as suas políticas onde estão os valores. Mas não espero decisões surpreendentes, porque é preciso perceber que os temas de agenda condicionam a própria capacidade de decisão. Seria ingénuo ignorar as eleições francesas e alemãs ou o "Brexit". O importante é que saia uma declaração de vontade comum de revisitar as políticas em função dos valores.
Fugindo um pouco à sua responsabilidade.Tem acompanhado as negociações em torno da declaração. Não tem sido fácil encontrar um terreno comumentre os 27. Era impossível ir mais longe?
Não é a primeira vez em que os europeus estão profundamente divididos. O que é, talvez, uma novidade preocupante é que não há ainda um centro político que permita estabilizar a superação dessas divisões. A Comissão deu o seu contributo com o Livro Branco…
Mas colocando os Estados-membros perante as suas próprias responsabilidades. E isso não é de somenos importância hoje…
Acredita que os governos dos grandes países vão olhar para estes cenários, aceitando que têm de se posicionar perante eles?
Se a resposta for a rejeição dos cenários de retrocesso e a vontade de explorar os cenários que permitem aprofundar a integração, creio que já é um passo em frente. Mas isso passa por estabelecer prioridade, e é isso que, em Roma, provavelmente ainda não se vai fazer.
Depois das eleições alemãs, acha possível recriar esse centro político e essa capacidade de definir prioridades que sejam unificadoras?
Da possibilidade não sei, mas da necessidade sei. E, por paradoxal que pareça, o "Brexit" é um incentivo. Temos de compreender que há uma necessidade de redefinir o sentido comum do projecto de integração europeia. Já não pode ser apenas a paz ou a reconciliação franco-alemã. Tem de ser sobre o papel que a Europa tem de desempenhar no mundo. Não num sentido egoísta, mas sobre a importância dos valores que personifica e que ficam cada vez mais evidentes. Estamos preparados para viver num mundo onde o multilateralismo, o respeito pelo Estado de direito e pelos direitos fundamentais, a tolerância religiosa não figurem como eixos centrais da ordem internacional? Acho que a resposta que todos os europeus dão é que não querem esse mundo. E, portanto, têm de assumir as suas responsabilidades nas políticas internas e na política internacional.
Crê que o cenário da fragmentação, mesmo que lenta, já está afastado?
O "Brexit" quebrou um tabu que era a ideia de que a Europa estava sempre a acrescentar e não a diminuir. Nesse sentido, a perspectiva da desintegração, mesmo que progressiva, não pode ser totalmente afastada. Mas também é importante sublinhar que a reacção das opiniões públicas dos outros países foi o aumento do apoio ao projecto europeu. Em nenhum país europeu houve um alinhamento com o "Brexit" – o que não significa que não haja políticos que estejam alinhados com ele, como Geert Wilders, por exemplo, ou a senhora Le Pen. Mas a verdade é que dos 35% de apoio ao projecto europeu que se verificavam há dois anos, passámos para níveis da ordem dos 50% a 55%, distantes ainda dos 65% a 70% de antes da crise, mas, apesar de tudo, invertemos a tendência. Se alguma leitura positiva pode ser feita, é que ainda há um capital de esperança entre os europeus sobre a capacidade da Europa de assumir um protagonismo no mundo, em vez de fechar fronteiras…
Apesar do que temos visto sobre os refugiados?
A questão da imigração é um problema sério que vai persistir, porque, mesmo que não haja uma nova vaga de refugiados, a pressão migratória vai manter-se e é preciso ter a consciência de que nenhum país, isoladamente, consegue fazer face a esta realidade, como, aliás, a Alemanha demonstrou.


Olhando para as múltiplas crises que se encadeiam – "Brexit", Trump, Rússia, refugiados, terrorismo, euro etc. –, é possível antecipar o que pode vir a ser a Europa depois desta crise?
Sim. Acho que há três blocos fundamentais. O primeiro é o papel da Europa no mundo, que levanta questões de segurança e defesa, que têm de ser cada vez mais assumidas como uma responsabilidade europeia. O segundo bloco é reformar a união económica e monetária (UEM). Estamos a viver em tempos emprestados pelo Banco Central Europeu, mas os fundamentos da UEM permanecem frágeis. O grande desafio da sustentabilidade do euro, mais do que condicionar os mercados financeiros, é permitir retomar a senda da convergência económica dentro da zona euro e, por outro lado, responder àquilo que é a maior chaga social que enfrentamos hoje: o desemprego jovem. E, depois, há um terceiro bloco que é a necessidade de acrescentar uma dimensão social às políticas europeias. Não se pode resumir tudo a casas decimais do défice e da dívida. Tem de haver uma dimensão em que a Europa seja capaz de proteger, sem ser proteccionista. Proteger os cidadãos sem se transformar numa potência proteccionista. Estes três blocos são aqueles que vejo como fundamentais
Essa reforma da UEM, fundamental para os países mais afectados pela crise e pela falta de crescimento, é compatível com o discurso alemão: que já há regras e que se trata de cumpri-las, afastando qualquer futura partilha de riscos?
Na reforma da UEM, o que está em causa é a partilha do risco e a partilha da soberania. Esse equilíbrio não está alcançado e, por isso, a união monetária está incompleta. Também é justo reconhecer que, desde que começou a crise financeira, o país que mais evoluiu nas suas posições sobre a UEM foi a Alemanha..
Um bocadinho a custo…
Muitas vezes tardiamente e pressionada pelos acontecimentos. Mas foi. Não perco a esperança de que a Alemanha venha a compreender que completar a UEM não é apenas imprescindível para a sustentabilidade do euro, mas também para o seu próprio interesse nacional, que está indissoluvelmente ligado ao euro.
É legítimo dizer que há a Alemanha de Merkel e a Alemanha de Schäuble?
Basta pensar no episódio do "Grexit", no início da crise, para perceber que nessa altura não havia coincidência de opiniões entre a chanceler e o ministro das Finanças. E a chanceler prevaleceu.
E agora?
Creio que o debate alemão é condicionado pela recusa de que a UEM se transforme numa “união de transferências”. Ora, a questão é que esse modelo não é o único possível para a UEM. Pode haver um modelo win-win sem que isso passe forçosamente por um modelo de transferências permanentes.
Como?
Através da transformação do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) num fundo monetário europeu que garanta a estabilidade da UEM e que faça frente a choques assimétricos. Também através da criação de mecanismos de solidariedade financeira, em que há quem contribua e há quem receba em função dos ciclos económicos, o que significa que não há contribuintes permanentes nem recebedores permanentes. Finalmente, através de um fundo de investimentos estratégicos, ampliando o que é hoje o “fundo Juncker”. Se recordarmos o que foram os fundos estruturais na época de Jacques Delors, há soluções que beneficiam os recebedores, mas também beneficiam os agentes económicos dos países contribuintes. Basta pensar na Auto-Europa, que foi muito benéfica para Portugal, mas também para uma empresa de referência fundamental na Alemanha.


Tem chamado a atenção para o facto de não ser possível eternizar uma Europa de vencedores e de vencidos. Quando o presidente do Eurogrupo diz que os países do Sul gastam tudo em “copos e mulheres”, verificamos que esta divisão não é só económica.
A crise deixou estigmas profundos que levarão tempo a ultrapassar. A frase que citou é de alguém que não está muito sóbrio, de certeza. Reconstruir a confiança entre os Estados-membros é a primeira prioridade. E essa confiança foi seriamente abalada. Por isso, creio que a primeira das prioridades é restabelecer um sólido entendimento entre a França e a Alemanha. Tenho a esperança fundada de que os resultados das eleições nos dois países permitirão criar, na França e na Alemanha, um novo quadro político de relançamento do entendimento franco-alemão.
Está a dizer que os novos protagonistas são Macron e Schulz?
Não estou a querer ir tão longe. O que posso dizer claramente é que a senhora Le Pen não ganhará as eleições francesas, mas também estou a dar-lhe a entender que, na minha opinião, haverá uma nova relação de forças na Alemanha, mesmo que não se traduza numa mudança de chanceler, que também é positiva.
Regressou a ideia das várias velocidades da integração, que foi, em tempos, uma ideia francesa e alemã. Volta a ser, embora a Declaração de Roma tenha dissolvido um pouco os termos em que deve ser feita. É um risco ou é uma necessidade?
Em primeiro lugar, é uma realidade. Acho que devemos colocar as coisas em perspectiva. Elas já existem, com o euro ou com Schengen. Estão previstas nos tratados, com as “cooperações reforçadas” e a “cooperação estruturada” na defesa. Não estamos a falar de inventar a roda. Em segundo lugar, as boas ideias precisam normalmente de ser testadas nos detalhes, porque é aí que estão os problemas. Acho que há princípios que têm de ser respeitados. Primeiro, o princípio da igualdade entre os Estados, neste caso, o princípio da porta aberta. A participação é voluntária e quem quer participa. Em segundo lugar, essas velocidades desenvolvem-se dentro do quadro institucional da União Europeia. É fundamental que o ritmo de evolução dessas “cooperações reforçadas” seja supervisionado pelas instituições europeias, de forma a que o grupo da frente não adquira uma velocidade e uma autonomia que tornem praticamente impossível a recuperação.
Até agora, o Reino Unido e a relação com os Estados Unidos criavam um equilíbrio de poder na União Europeia que não permitia que uma potência continental se afirmasse acima de todos os outros. Esta amputação “atlântica” vai ter impacte na Europa que aí vem?Que terá impacto, seguramente. Do ponto de vista da relação transatlântica, ela vai sofrer bastante. Mas isso não é razão para não continuarmos a entender que os valores históricos comuns à Europa e aos Estados Unidos não devem ser preservados. Do ponto de vista da relação de forças na Europa, a saída do Reino Unido é uma derrota política muito séria e que terá efeitos na Europa, porque vai colocar a França e a Alemanha frente a frente sozinhas, sem aquilo que tem sido um vector euro-atlântico moderador. [Esta situação nova] tem riscos, porque cria uma Europa muito mais centrada no continente, que perde a dimensão atlântica. Para Portugal é negativo. Mas também estou convencido que a vocação europeia da Alemanha não será de querer afirmar-se como potência hegemónica isolada, mas de procurar encontrar novos equilíbrios. E, para isso, todos os países-membros são importantes e têm a obrigação de contribuir e participar.
É necessária também uma mudança em França, para reconstruir esse eixo fundamental?
Que continua a ser fundamental. Apesar de tudo, há razões para sermos optimistas. Em França, a principal alternativa a uma impensável deriva autoritária que representaria a vitória da senhora Le Pen, é uma candidatura muito pró-europeia e muito comprometida com o projecto europeu e com a necessidade de haver um sólido entendimento entre a França e a Alemanha.
A defesa está hoje entre as prioridades dos dois países. Estamos numa nova situação em que o efeito Trump e o efeito Putin levaram a Alemanha a uma mudança na forma como vê o seu próprio poder. No novo contexto europeu sem o Reino Unido, esta mudança não criará também alguns anticorpos?
A Alemanha tem sido, sobretudo, uma potência geoeconómica. Está, agora, a fazer a sua transição para uma potência geopolítica. E isso, na minha opinião, é positivo. Mas não é isento de dificuldades, dentro da Alemanha e no conjunto dos países europeus. Os responsáveis políticos têm de iniciar um diálogo muito sério com os cidadãos sobre o custo da segurança e da defesa. As pessoas têm todo o direito de pedir segurança, contra o terrorismo, contra as ameaças externas, contra a instabilidade nas regiões limítrofes, com as ondas de refugiados que chegam à Europa ou com a ameaça expansionista da Rússia na Ucrânia. O que é preciso é que os responsáveis políticos tenham a coragem de explicar que isso custa dinheiro. E também que podemos contar menos com a relação transatlântica para nos proteger e que cada vez mais teremos de contar com as nossas próprias forças. Isso exige compromissos.


Ouvi-o dizer várias vezes que a crise europeia era também a crise das suas democracias. Parece que tinha razão. Ficámos felizes porque Wilders não ganhou as eleições, mas obrigou Mark Rutte a colar-se à sua linguagem, nomeadamente em matéria de imigração.
Isso aconteceu no ponto da imigração, mas não no ponto da Europa. O que é inaceitável é dizer que, porque Rutte se colou a Wilders no domínio da imigração, a vitória dele não pode ser considerada uma vitória pró-europeia. Na questão europeia foi uma ruptura frontal. Não é justo querer meter tudo no mesmo saco.
Mas as forças nacionalistas ganharam muito peso no debate europeu.
Há três razões fundamentais. Em primeiro lugar, o impacte da globalização que se traduziu na pressão sobre as classes médias e que gera insegurança e incerteza. Em segundo lugar, a enormíssima revolução tecnológica que estamos a viver e que altera muito as formas consagradas de vida. E, em terceiro lugar, porque a Europa é vista como um instrumento da globalização desregulada e não, como diz o meu amigo Pascal Lamy, como uma plataforma de civilização da globalização. O que é preciso é que a Europa leve a sério a sua função de civilizar a globalização. Não é fechar-se, não é ceder ao populismo, odiar o estrangeiro, rejeitar o imigrante. É ser capaz de ter um protagonismo que regula, que civiliza, a globalização. E isso tem de ter uma implicação nas políticas sociais, para dar conforto aos sectores sociais que se consideram, uns com razão, outros sem ela, os perdedores da globalização.
Não é fácil fazer isso.
Passa pelas democracias nacionais e pelo diálogo em torno do contrato social de cada país. E, a partir daí, ver o que se pode fazer a nível europeu.
Entretanto, a nova Administração americana tem um forte pendor proteccionista. Como é que a Europa consegue contrariar esta vaga?
A resposta não é fechar-se, é manter-se fiel aos valores da abertura. Em segundo lugar, é confiar na força das cadeias de produção multinacionais que são hoje dominantes na economia global. A incorporação americana nos IPad é de 55% e a da China é apenas de 15. Uma taxa de 45% seria mais danosa para os americanos do que para a China. Em terceiro lugar, temos de estar preparados para adoptar medidas retaliatórias, se elas visarem os europeus.
Não é só a Europa que pode ser visada. A China, o Japão… Comporta também uma dimensão geopolítica.
Claro. A Europa terá responsabilidades acrescidas em relação à China, Japão e outras economias emergentes, que manifestamente não estarão interessados numa onda proteccionista. Os Estados Unidos estão mais isolados do que supõem. Quando Xi Jinping vai a Davos e faz um discurso a favor do livre comércio, isto obviamente não pode ser ignorado pelos europeus.
Na Alemanha, o combate eleitoral é entre dois partidos europeístas ou três, incluindo os Verdes…
Estamos a falar de 70% dos eleitores.
Mas não será imprudente começarmos já a anunciar o fim destes movimentos populistas?
O populismo alimenta-se e também alimenta a polarização das sociedades. E vivemos hoje em sociedades muito mais polarizadas. Cito sempre [o anterior primeiro-ministro francês] Manuel Valls: “Os populistas colocam as verdadeiras questões, mas a todas elas dão a resposta errada. É preciso dar as respostas certas às questões certas."

Em França, os dois principais partidos da V República estão desfeitos. E é um outsider sem partido que as pode ganhar.
O que hoje marca as democracias, como se viu nos EUA e agora na França, é uma grande vontade de mudança. Mudança é hoje a palavra-chave. Mais do que com a imigração ou o proteccionismo, Trump ganhou porque representava a mudança. Em França, o paradoxo é que a mudança parte do centro. A França nunca construiu um centro político. Mas, pela primeira vez, há um centro e isso vai levar a uma recomposição das forças partidárias. Já viu como há vários responsáveis, quer do PS, quer dos Republicanos, que já declararam o seu apoio a Macron?
Como é que Portugal se pode ver neste contexto?
Devemos manter a linha consistente que definimos desde a adesão: estarmos presentes nos núcleos centrais de aprofundamento da integração. Não o devemos fazer de ânimo leve, no sentido em que é preciso avaliar com rigor os custos e os benefícios e isso exige um debate que tem de ser feito na sociedade portuguesa. De alguma forma, esse debate surgiu enviesado por causa da crise do euro. Cada vez mais é preciso fazer um debate razoável sobre o que é necessário para criar as condições de base que garantam a nossa permanência do euro, que eu defendo absolutamente. Esse debate está prejudicado pelo que foi a receita da austeridade que, digamos, encobriu o debate de fundo, que exigiria a construção de um consenso alargado. O problema é que hoje as condições políticas não o favorecem.
A Europa seria diferente com uma dupla Schulz-Macron?
Nunca faço repousar as grandes transformações em pessoas. As pessoas são importantes, fazem a diferença, mas a política que a Alemanha seguiu em relação à UEM teve um apoio muito alargado entre os alemães. Também não posso ignorar que, enquanto presidente do PE, Martin Schulz tomou posições diferentes e é um dos subscritores do relatório dos cinco presidentes que está na gaveta: o mínimo que se exige é que o possível chanceler Schulz o tire da gaveta. De resto, não faço antecipações sobre as eleições nos dois países. Também dissemos que a eleição de Hollande ia fazer a diferença e não fez.
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segunda-feira

O Diabo veste Passos Coelho: um PSD sem pilhas no comando



A semana passada foi uma semana negra para Passos Coelho e para o seu PSD, que teima em não saber fazer oposição nem querer pensar numa estratégia para repensar as suas ideias e projectos para Portugal. Nem sequer, como deveria, equaciona fazer um congresso (extraordinário) para fazer emergir as suas elites de modo a gerar a necessária concorrência interna a fim de fomentar a competição saudável entre ideias e agentes da mudança que possam fazer o virar de página. Sim, virar de página - porquanto Passos Coelho está demasiado conotado com os 4 anos de austeridade imposta aos portugueses (2011-15), a qual se traduziu em impostos sobre impostos e mais impostos, provocando mais um milhão de pobres e meio milhão de quadros qualificados que foram convidados a emigrar ocultando, assim, as estatísticas acerca do desemprego em Portugal. 

Mas vamos por partes para avaliar em que termos a semana passada queimou ainda mais o já desconsiderado Passos coelho. Ao tempo da troika, Passos tinha a Europa de Schaubel a seu favor, pois quem não se lembra do sinistro ministro alemão das Finanças organizar pequenas conferências para passear a sua novel caniche: Mª Luís Albuquerque - que ainda acreditava na chamada "saída limpa", ainda que para isso tivesse de varrer para baixo do tapete o problemático caso Banif, que teve de ser resolvido pelo Governo da geringonça uns meses depois daquele cair em desgraça pela nova maioria (parlamentar) aritmética, que então se formara para destituir o delegado da troika em Lisboa: Passos coelho/Vitor gaspar/Mª L. Albuquerque. Cavaco teve de ceder, Portas percebeu que o seu fim na coligação tinha chegado e resolveu ir fazer dinheiro para a privada à custa dos contactos granjeados na esfera política - que passou a alocar ao serviço da Mota Engil, tamanha a sua ética e moral. 

Por outro lado, quem não se lembra de ver passos humilhar o comentador Marcelo, a quem chamou de "cata-vento". Passos fez até um congresso para definir o perfil político do candidato a ser apoiado pelo PSD para Belém, e nesse perfil não encaixava, naturalmente, o prof. Marcelo. Contudo, este conseguiu impor-se ao país sem o apoio de qualquer máquina partidária, e assim saiu o tiro pela culatra ao pobre Passos que caíra em desgraça, já que veria emergir na área do seu próprio partido uma personalidade que teria perfil vencedor e que não precisaria nem do PSD nem do seu presidente para ser eleito. Eis a prova provada de que Passos começara a sucumbir em todas as frentes da política nacional e comunitária.

Passos levou a sua estratégia diabólica a um tal limite que não hesitou em formar governo sem a maioria parlamentar na AR, já que negligenciou a capacidade de entendimento das esquerdas (depois corporizada na famosa geringonça); e mais, foi ao ponto de invocar a ideia de um segundo resgate a Portugal como método para forçar uma crise política, já que seria nela que veria a sua oportunidade de ouro para antecipar eleições e, desse modo, obter a tão desejada maioria absoluta que o salvaria do abismo político em que acabara por cair. Apostou tudo nessa diabólica estratégia mas, mais uma vez, e apesar de formar aquele governo ridículo (empossado pelo igualmente ridículo locatário de Belém/sr. silva), a votação parlamentar da geringonça acabou por matar o sonho da dupla de pantomineiros - Passos & Portas (e cavaco) - que durante quatro anos apenas impuseram a austeridade a Portugal e aos portugueses sem, com isso, conseguir eliminar a pobreza, o desemprego, as falências, a emigração em massa e o mais...

No desespero do desespero, e já na oposição e de face perdida, a "ética" de Passos ainda abre mão das sanções da Europa contra Portugal (como método para a sua salvação política!!). Mais uma vez, o diabólico Passos teve azar: não só o orçamento da geringonça se aprovou (como tem um segundo em vias de ser aprovado); na frente económica, o INE dá conta do crescimento do PIB e da saída da economia nacional do chamado procedimento por défice excessivo - o qual nos imporia as tais multas e promessas de congelamento de fundos, os quais seriam catastróficos para a nossa sustentabilidade. Ora, foi tudo isso que o governo da geringonça ultrapassou, e essa circunstância ajudou ainda mais a soterrar politicamente o pobre Passos Coelho, que hoje mais parece um leão velho e sem pelo a vaguear sem norte por um território que ele já não patrulha.

Nem a capital parece já interessar ao PSD, já que se afigura o apoio a Assunção Cristas/cds para candidata a Lisboa nas próximas eleições autárquicas. Ora, se isto não é o grau ZERO da política do PSD e de Passos Coelho em concreto - não sei o que representará essa falta de planeamento político por parte do maior partido nacional. 

Em suma: mesmo com a novela mexicana da CGD, Passos Coelho parece viver exilado no seu próprio país. E mesmo com a subida dos impostos dos combustíveis contrabalançada com a devolução de rendimentos aos fp´s e pensionistas - a despesa do Estado manteve-se, e tem sido essa sustentabilidade (precária!!) que tem permitido ao Governo da geringonça receber notas sofríveis da agências de notação financeiras e, ao mesmo tempo, obter luz verde da Europa para a continuação dos fundos à economia nacional, agora sob um velho-novo qualificativo de que somos, afinal, o melhor aluno da Europa.

No fundo, parece que a estória se repete, para mal dos nossos pecados. E apesar do alívio momentâneo na economia e nas finanças públicas, tudo o mais arde em lume brando nas divisões mais recônditas da casa dos portugueses.

Uma casa à portuguesa e em que o ex-PM e actual liderzinho da oposição não hesitou em vestir a pele do diabo para se tentar salvar do afundamento a que os portugueses há muito já o votaram. 

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sexta-feira

Marcelo e os convites sensíveis e inteligentes







Marcelo tem marcado a agenda política nacional com os convites que tem feito para formar o seu gabinete em Belém e chamar a si assessores para as mais diversas áreas, da diplomacia à cultura.
Agora, na frente externa, voltou a surpreender pela positiva ao convidar para o seu 1º Conselho de Estado o Sr. Europa, Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE) de que dependem os vários governadores dos bancos centrais dos países da UE. Para o efeito, Marcelo, "raposa velha", convidou também o próprio Governador do BdP, Carlos Costa que tem estado debaixo de fogo pela forma laxista, retardada e incompetente como tem "procurado resolver os problemas de regulação" do sector em bancário (inexistente em Portugal, dado que o BdP não se modernizou nem acompanhou as modalidades emergentes de corrupção de colarinho branco) e que se tem saldado num verdadeiro desastre literalmente pago pelo desgraçado do contribuinte. Os casos BES e Banif são os mais conhecidos e gritantes, mas há mais pelos quais o sr. C.Costa deveria responder, quer no Parlamento, quer em sede de Tribunal... 
Ora, Marcelo conhecendo a delicadeza da situação porá em confronto o "patrão" e o "empregado" para daí extrair a orientação futura a tomar, dado que o Governo também não pode - no âmbito das suas competências e atribuições - demitir o Governador (como desejaria A.Costa), posto que o Governador, apesar das inúmeras solicitações nesse sentido, também não se demite. Além de incompetente, C.Costa é obstinado e está agarrado ao poder no BdP. 
O tema da reunião do CE presidido por MRS são dois documentos essenciais que o Governo terá de entregar em Bruxelas: o programa de estabilidade e o programa nacional de reformas. Ora, como Portugal saiu de um resgate, nas condições e com os sacrifícios para a economia portuguesa e os portugueses que são conhecidos, justifica-se a presença do homem cujo cargo europeu tem mais poder e influência na actual Europa. No fundo, Mário Draghi representa o dinheiro da Europa (ou a Europa do dinheiro), daí o significado especial do convite de MRS ao presidente do BCE. 
Com este convite Marcelo Rebelo de Sousa, habituado que está a criar factos políticos, assegura o impacto mediático a nível europeu do seu primeiro Conselho de Estado, sensibiliza as instituições europeias para os problemas e fragilidades da débil economia portuguesa e, com sorte, ainda consegue fazer com que seja Mário Draghi a demitir Carlos Costa, que é hoje mais a fonte do problema do que a solução da regulação financeira em Portugal. Por outro lado, MRS secundariza completamente o papel e o espaço de manobra do Governo português na questão da regulação (e da insustentabilidade do Governador à frente do BdP), além do facto de ser o próprio PR, MRS, quem irá, na 2ª semana de Abril, a Estrasburgo falar ao Parlamento Europeu. 
Com esta iniciativa MRS marca o arranque da sua presidência: coloca na agenda europeia a questão da regulação; ajuda o Governo português a gerar consensos em torno das questões financeiras e económicas, de que depende o crescimento e desenvolvimento de Portugal; e procura fazer com Mário Draghi aquilo que Cavaco, há 1/4 de século fez com Jacques Delors, um amigo poderoso duma economia pequena, frágil e profundamente dependente das exportações. 
Numa fase em que o €uro vive momentos de grande incerteza e risco conseguir fazer de Mário Draghi um amigo de Portugal, é um facto de extrema relevância do papel que Portugal irá assumir na Europa, e, ao mesmo tempo, o PR irá obrigar o PM, A. Costa, a negociar com as esquerdas (PCP + BE) os acordos necessários para consensualizar aqueles dois documentos que são da maior importância para o futuro de Portugal e dos portugueses. 
Marcelo, de facto, está a sair melhor do que a encomenda e tem revelado uma excepcional capacidade de iniciativa política. Qualquer comparação com o PR cessante é fatal para o sr. Silva, que aqui pode aprender a fazer política, dado que MRS já fez mais por Portugal em 15 dias do que Cavaco numa década, que foi um tempo verdadeiramente perdido para Portugal e um lamentável erro de casting na política portuguesa, especialmente a partir do farol de Belém
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terça-feira

As mentiras são mais fascinantes do que a verdade - por Umberto Eco -


Nota prévia: As entrevistas a Umberto Eco são sempre um viveiro de ideias, pelo que há que lê-lo com calma, com alma. E, acima de tudo, com muito proveito e reconhecimento pelo saber que partilhou.


Tinha 84 anos e deixou-nos esta sexta-feira. Falámos com ele não há muito, em abril de 2015. A entrevista era sobre livros, sobretudo o dele que estava para sair, e aconteceu num tempo em que esta crise de refugiados que nos entrou pelas notícias já existia mas sem o impacto destes dias - transformados pela imagem do naufrágio da humanidade simbolizado num menino morto numa praia. A entrevista era pois sobre livros, mas Umberto Eco falou sobre mais - incluindo este tema que o preocupava há muito, o da migração e dos refugiados. É uma reflexão dura: “A Europa irá mudar de cor. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue”. Mas também com fé no outros homens - nos que estão e nos que vêm: “A migração produz a cor da Europa”

O branco é a cor fundamental deste apartamento onde os livros tomaram conta de qualquer superfície capaz de os sustentar. Na sala que lhe serve de escritório, uma música difusa desprende-se de um lap-top plantado sobre a secretária. "Encontrei uma rádio virtual que emite 24h por dia música dos anos 40", explica il professore, e desde então é essa a sua banda sonora. Um olhar em volta mostra Joyce, Dante, todo o Aristóteles possível? e, a um canto, o prazer proibido: adivinhação, astrologia, alquimia, magia, demonologia, iconologia, bíblias, o Talmud, a cabala, o Alcorão. Coisas que um visitante distraído acreditaria pertencerem a Dan Brown - mas, diz, este não passa de uma personagem sua.
O encontro aconteceu às 11h da manhã de um magnífico dia de sol em Milão. Umberto Eco atendeu o intercomunicador e abriu ele próprio a porta de casa. Alto, cordial, de eterno cigarro apagado entre os dedos - desistiu de fumar mas não se desfez do gesto -, ofereceu café e sentou-se na sua poltrona de cabedal. Por vezes, substituiria o cigarro por uma boquilha, único elemento que, além da tendência para gesticular e do riso fácil, se alteraria ao longo de duas horas de conversa. Falámos da infância, da escrita, da Europa, de jornalismo - central em "Número Zero", o novo romance que sai em maio em Portugal. Generosamente, chegaria ao fim quase sem voz. Porque o professor, semiólogo, medievalista, escritor, ensaísta, tradutor, colecionador e cronista de 83 anos não é dos que deixam perguntas sem resposta. Sendo que a sua é a visão distendida e abrangente de quem analisa o presente à luz dos processos históricos e tende por isso a dizer, face ao incerto dos dias: "Estamos a viver numa era interessante."
Rodeia-o a sua biblioteca. Está toda aqui?
Sobretudo aqui - perto de 30 mil volumes - mas também na minha casa de campo. E no meu escritório na universidade e num pequeno apartamento em Paris... Todos juntos devem ser à volta de 50 mil. Recebo tantos livros que todos os meses encho duas ou três caixas e mando-as para a universidade, para os estudantes. É impossível guardá-los ?todos.
Os livros que guarda formam um retrato, o seu. Uma biblioteca é uma autobiografia do seu dono?
Só a 70%. Os restantes 30% são acidentais e não uma escolha. Mas há por aí muita gente estúpida que quando entra no meu apartamento exclama: "Oh, tantos livros! Leu-os todos?".
O que responde?
Há três respostas. A primeira é: "Li muitos mais". A segunda é: "Não li nenhum, senão porque os guardaria?". E a terceira é: "Não, mas tenho de os ler na próxima semana". Uma biblioteca não é um repositório dos livros que já lemos. É também o lugar onde guardamos os livros que iremos ler.
Então, tem a ver com o futuro?
Tem a ver com o futuro. Uma biblioteca é um mistério. Há livros que nunca tínhamos lido e um dia dizemos: "Deveria lê-lo". E quando o abrimos percebemos que sabemos tudo sobre ele. O que aconteceu? Existe uma explicação mágica segundo a qual, ao tocarmos um livro, o espírito de todos os livros viaja para a nossa mente. Outra explicação é: pensávamos que não o tínhamos lido, mas ao longo de 30 anos fomo-lo abrindo e lendo partes dele. Existe ainda outra: pelo meio, acabámos por ler imensos livros que falam desse livro. É uma das surpresas que a biblioteca pode reservar. No meu caso, tenho muito boa memória. Sei onde está cada livro, mas se alguém da família encontrar um que deixei num determinado sítio e o mudar de lugar é uma tragédia. Perco-o para sempre.
Há gradações numa biblioteca? Um leitor sabe que, no fim, são poucos os livros que contam.
Sim, veja a minha coleção de livros raros. Cada um foi cuidadosamente escolhido e, neste sentido, é um retrato meu. Mas acontece que inclui apenas livros nos quais não acredito. Sou um ateu que coleciona bíblias e livros religiosos. Olhando para esta parte da minha biblioteca poderia até pensar-se que sou Dan Brown. Mas sou o oposto!
Porque é que alguém pensaria isso?
Dan Brown é uma pessoa que leu toda aquela tralha ocultista e acredita nela. Uma vez disse que inventei Dan Brown: ele é uma personagem de "O Pêndulo de Foucault".
Porque tem tantos livros sobre ocultismo?
Sou fascinado por eles, mais do que por livros 'sérios'. Peguemos num autor como Athanasius Kircher, um jesuíta do século XVII que escreveu imensos livros sobre todos os assuntos. À exceção do primeiro, muito difícil de encontrar, tenho-os todos. São livros maravilhosamente ilustrados, porque falam de coisas que o autor nunca viu e teve de inventar. As mentiras são mais fascinantes do que a verdade. A "Ilíada" é mais atraente do que uma reportagem no Iraque. Não é por acaso que me dediquei à semiótica, a teoria e filosofia dos signos. O que torna os signos interessantes não é servirem para dizer a verdade, mas poderem ser usados para mentir ou falar de coisas que nunca vimos. Uma linguagem revela a sua importância quando é usada para referir coisas que não estão lá. Na minha coleção não vai encontrar Galileu, mas sim Ptolomeu, porque estava errado.
Ao olhar para trás, o que vê? O que a sua prodigiosa memória selecionou?
Ter tão boa memória faz com que me lembre de coisas que os outros esquecem. Por vezes passam filmes na TV que a minha mulher diz que deveríamos ver e eu digo-lhe: "Vimos isto há 30 anos". E, com a idade, a memória enriquece-se. Por exemplo, em criança nunca falei o dialeto da minha terra [Alessandria], porque ainda que os meus pais o falassem entre eles, comigo falavam italiano. Percebia-o perfeitamente, mas era incapaz de o falar. Agora, de repente, sou capaz.
Como é que isso aconteceu?
Veio-me das entranhas. Não sei porquê. Provavelmente, no momento da minha morte, vou lembrar-me de tudo, mas será tarde para o contar.
Em que família nasceu?
Nasci na pequena burguesia. De pai contabilista, nem pobre nem rico - o que hoje chamamos classe-média. Tanto ele como a minha mãe foram bons leitores na juventude, mas depois passaram a ler sobretudo jornais e revistas. A minha avó materna, que tinha apenas cinco anos de escolaridade, era uma leitora voraz. Trazia sempre livros da biblioteca, que lia e me dava a ler. Não era seletiva, devorava Balzac e a seguir uma novela popular. Por isso, aos 12 anos, também eu lia Balzac e novelas de cinco cêntimos, o que me deu o gosto pela leitura. O meu avô paterno morreu quando eu tinha seis anos e era tipógrafo, mas na reforma ganhava dinheiro a encadernar livros. E na sua casa havia livros por toda a parte. Lembro-me de ficar embasbacado com a ilustração de Leloir de "Os Três Mosqueteiros". Há poucos anos, encontrei essa edição num antiquário e comprei-a. Ao morrer o meu avô, todos aqueles livros por encadernar não reclamados pelos seus donos foram postos numa caixa que acabou no meu sótão. E um dia encontrei a caixa, que me deu material de leitura por muitos anos. Estavam lá os fascículos da enciclopédia "Giornale Illustrato dei Viaggi e delle Avventure di Terra e di Mare", do início do século, cheios de histórias, que de tanto ler e reler quase se desintegraram. Passei anos à procura deles nos antiquários.
Tentava reconstruir essa parte da infância?
Sim, da mesma forma que me esforcei por encontrar os meus cadernos da escola básica, da era fascista, que perdera de vista nas mudanças de apartamento. Sabe, recordo com ternura até as estadas no bunker, durante os bombardeamentos. Eram momentos terríveis, mas nós brincávamos, para nós isso era a infância.
Era uma criança durante a II Guerra Mundial, integrou a Juventude Fascista... Quando se deu conta do que estava a acontecer?
A guerra foi declarada em 1940, tinha eu oito anos. Educado como jovem fascista, seguia os discursos de Mussolini com a maior atenção. No meu livro "A Misteriosa Chama da Rainha Loana" há um episódio autobiográfico, em que a personagem principal descobre um texto do 5º ano da escola, no qual ainda se celebra o fascismo e a guerra. Em 1943, quando eu tinha 11 anos, o fascismo cai. E, no dia seguinte, apareceram cinco, seis, sete novos jornais - o comunista, o democrata-cristão... Percebi que aqueles partidos existiam algures. Foi um choque maravilhoso. A passagem da ditadura para a democracia aconteceu para mim do dia para a noite, só de olhar para a banca dos jornais. Naquela altura, para escaparmos às bombas, vivíamos fora da cidade. Ali não havia bombas, havia guerra civil, partisani contra alemães e fascistas. Entre meados de 1943 e finais de 1945 vivi no meio da guerra. E era bastante natural.
Não teve medo?
Não, aprendem-se técnicas de sobrevivência. É curioso, porque a minha mulher é alemã e três anos mais nova do que eu. Para uma jovem alemã, a guerra foi bastante terrível. Em 1968 calhou estarmos em Praga no exato dia em que os russos invadiram a cidade, com mais dois amigos que eram uns anos mais novos do que nós e não tinham memórias da guerra. A dada altura ouvimos um tiroteio. Os nossos amigos correram para o centro da praça, enquanto eu e a minha mulher, sem sequer falarmos, ficámos numa esquina. Tínhamos aprendido, na infância, que numa esquina há sempre duas vias para fugir.
Quando descobriu em si o impulso narrativo, a vontade de contar?
Escrevi a primeira novela aos 15 anos. E passei a adolescência a escrever novelas, que começava e não acabava porque ?era tão meticuloso que queria que parecessem impressas. Fiz também alguma banda desenhada e escrevi poesia, mas isso não conta porque a poesia entre os 16 e os 20 anos é como a masturbação. De facto, tive sempre este impulso narrativo, e quando apresentei a minha tese de doutoramento - sobre a Estética de São Tomás de Aquino -, um dos meus professores disse que havia nela algo de curioso: quando alguém faz uma pesquisa, chega a certas conclusões e fixa-as no papel. Eu, pelo contrário, estava a contar a história da minha pesquisa como se fosse uma história de detetives. Para ele isto era uma falha, para mim é uma virtude. Todos os meus ensaios tinham esta estrutura narrativa e, num sentido, estava a escrever romances sem o saber. Provavelmente comecei a escrever romances porque os meus filhos cresceram e já não podia contar-lhes histórias. Arranjei outra maneira.
Só aos 48 anos publicou "O Nome da Rosa".
Adiei o momento de contar histórias porque tinha outras coisas para fazer. Só depois de ter feito tudo o que queria - o meu lugar na universidade, os ensaios publicados, dois filhos - perguntei-me: "O que vou fazer agora?". Vou contar histórias.
Uma vez, parafraseando Wittgenstein, disse que "o que não se pode teorizar, deve? narrar-se". Vê a literatura como extensão da vida teórica?
É uma pergunta interessante. No caso de um ensaio, faz-se uma pesquisa e publicam-se as conclusões. Num romance, pode haver contradições, o escritor não é responsável pelas opiniões da sua personagem. Na América há uma coleção importante intitulada "The Library of Living Philosophers", que começou há 60 ou 70 anos com John Dewey. Como não tinham nada melhor para fazer, decidiram escrever um livro sobre mim, pedindo textos a diferentes investigadores. Um deles, escrito por um dos meus antigos alunos e agora jovem professor, demonstra que existe uma interação entre o meu trabalho teórico e o narrativo. E diz que sempre que me foi impossível completar uma teoria? eu escrevi um romance. Claro que não foi propositado. No início, escrever um romance era como ir de férias. Agora percebo que foi algo complementar.
Já afirmou que os livros falam sempre de outros livros e que qualquer história conta uma história já contada.
Desde sempre. Homero não inventou nada. Toda a história da literatura é uma espécie de passagem de testemunho, como nos Jogos Olímpicos, quando a tocha passa de mão em mão.
Mas algo de novo aconteceu com "O Nome da Rosa", um livro erudito que se tornou popular. Você próprio afirmou que quis construir o leitor de que o livro precisa - que só quem ultrapassa a penitência das primeiras 100 páginas é capaz de ler o livro até ao fim.
Sim, do livro nasce um leitor. No início do "Nome da Rosa", um dos meus primeiros leitores foi o meu antigo editor Valentino Bompiani, que me disse duas coisas: que estava entusiasmado com o livro e que a introdução histórica era demasiado longa, tal como a descrição do incêndio da abadia. Uma vez que não sou sádico, cortei a introdução. Mas decidi que o leitor que eu quero para o livro tem de seguir o incêndio tal e qual o descrevi. É um diálogo com um leitor que não existe ainda, mas que existirá no final. Por outro lado, há também a questão do '?código duplo'?, teorizado pela literatura pós-modernista, segundo o qual um texto pode ser lido em dois níveis diferentes: o nível da história, acessível a qualquer um, e o nível filosófico. Esta duplicidade explica o funcionamento de "O Nome da Rosa", a tal ponto que foi feito um filme que assenta apenas no primeiro nível. Um livro pode ser muito complicado e ao mesmo tempo tocar dois ou três tipos de leitores. Mas este fenómeno existe desde sempre. Boccaccio contou que, certa vez, Dante Alighieri estava a andar pela rua e ouviu um ferreiro a recitar versos da "Divina Comédia", de uma forma errada. E então ficou furioso, entrou na loja e destruiu-lhe os instrumentos. Isso significa que mesmo um trabalhador comum conhecia e podia apreciar a "Divina Comédia", mesmo sem compreender a discussão teológica por trás dela.
O ferreiro vislumbrou o mundo contido nesse livro. Sempre disse que escrever um romance tem mais a ver com a criação de um mundo do que com as palavras.
Há uma frase de Cícero que diz: "Tem uma ideia clara do que queres demonstrar e encontrarás as palavras." Na poesia começamos com uma ideia linguística, com uma metáfora. Mas na narrativa começamos pela história. O que significa que as palavras virão depois? Não significa que não são essenciais, mas sim que eu sou um camaleão. Em "O Nome da Rosa", uma vez que falo do universo medieval, escolhi o estilo seco das crónicas medievais. Em "A Ilha do Dia Antes", passado na era barroca, a minha linguagem foi rica em metáforas. Portanto, o mundo que eu queria criar obrigou-me a elaborar um certo estilo. Quando as palavras aparecem antes da história, tem-se um "Finnegans Wake" [de James Joyce], que é um grande livro mas não é um romance. Pelo contrário, no "Ulisses", os 18 mundos dos 18 capítulos determinam 18 estilos linguísticos diferentes.
"A harmonia não está na extensão do fôlego, mas na regularidade com que se respira." Num texto o ritmo é essencial?
Respirar é essencial. Ler o texto, lê-lo em voz alta, muitas vezes, para controlar o ritmo. O ritmo muda de livro para livro. Os meus romances anteriores, de 500 páginas, são como sinfonias de Mahler, enquanto este último, "Número Zero", é como o jazz. Por vezes digo aos meus tradutores: "Estás a explicar demasiado e a perder o ritmo."
Neste novo livro retoma um velho tema seu, o das conspirações. Porquê?
Há livros que só falam de sexo. Outros, como os meus, falam de conspirações. Quando um autor escreve muito sobre um tema é porque sente falta disso na vida, ou seja, os que escrevem muito sobre sexo, não o praticam. Os que escrevem sobre conspirações, não conspiram nem são paranoicos. Em contrapartida, sou obcecado pelo mundo dos paranoicos. Basta surfar na internet para ver a quantidade de intrigas e de falsificações em que muita gente acredita. Sempre me escandalizou a credulidade das pessoas, que continuam a comprar produtos para fazer crescer o cabelo quando está cientificamente provado que isso é impossível.
As pessoas preferem a mentira à verdade?
Certamente! Acreditar permite-lhes recusar o facto de que são culpadas. A credulidade é uma forma de evitar o desespero, a desilusão - de evitar o medo da morte.
"Número Zero" é sobre os limites do jornalismo. O que o levou a abordar esta questão?
Desde os anos 60 que escrevo sobre os vícios do jornalismo. E a ideia de fazer um romance à volta disto é anterior a "Baudolino" (2000). Porquê retomá-la agora? Porque nos últimos anos tem vindo a crescer aquilo que em Itália chamamos "macchina del fango" [máquina de lama]. E provavelmente pelo facto de ter sido uma das suas vítimas. Uma vez, um jornal escreveu: "Ontem, Umberto Eco foi visto num restaurante chinês com um desconhecido."
É o que descreve no livro, o mecanismo da insinuação.
Que funciona dizendo algo aparentemente normal mas que lança uma sombra, uma suspeição. Em Milão ou em Roma há restaurantes chineses, mas nas pequenas vilas não, e as pessoas podem achar estranho que eu coma uma refeição com pauzinhos, ainda para mais com alguém desconhecido! É Le Carré, uma novela de espiões!
Parafraseando-o: a insinuação eficaz é a que usa os factos, a realidade.
Não é indispensável provar que alguém é perverso ou criminoso. Basta dizer que mexe o rabo de uma maneira estranha.
Mas há notícias inocentes? Mesmo a imprensa séria se debate com esta questão.
Em semiótica, 'narrativas neutrais' são histórias que nós contamos sobre o que nos acontece. Paradoxalmente, cada pedaço de narrativa neutral é já uma seleção, uma interpretação. Ninguém conta tudo o que viu, mas sim os aspetos mais proeminentes da história. Há uma diferença entre o que publica "The New York Times" e "The New York Post", mas devemos abandonar a ideia de que um jornal é um vidro transparente através do qual se olha para o mundo.
A personagem principal, no fim, experimenta "uma calma desconfiança no mundo" que o rodeia. É o que sente?
Ele chega a essa conclusão quando aceita o seu destino. E como nunca foi um criador nem um vencedor, rende-se. Eu não me estou a render: escrevi a história. É a minha forma de não me render.
Como vê a Europa hoje?
Desde a juventude que sou um apoiante da União Europeia. Acredito na unidade fundamental da cultura europeia, aquém das diferenças linguísticas. Percebemos que somos europeus quando estamos na América ou na China, vamos tomar um copo com os colegas e inconscientemente preferimos falar com o sueco do que com o norte-americano. Somos similares. Cultura não quer dizer economia, e só vamos sobreviver se desenvolvermos a ideia de uma unidade cultural.
Parece-lhe ser o caminho que se está a seguir?
Quando atravesso a fronteira sem mostrar o passaporte e sem ter de trocar dinheiro, sinto um grande orgulho. Durante dois mil anos, a Europa foi o cenário de massacres constantes. Agora, esperemos um bocado: mesmo que o mundo hoje seja mais veloz, não se pode fazer em 50 anos o que só fomos capazes de fazer em dois? mil. E mesmo indo nessa direção, não sei como os países europeus poderão sobreviver: estão a tornar-se menos importantes do que a Coreia do Sul, e não apenas do ponto de vista industrial. Culturalmente, está-se a traduzir mais livros lá do que em França.
A Europa já não está no centro.
Entidades nacionais como Portugal ou Itália tornar-se-ão irrelevantes se não fizerem parte de uma unidade maior. Mas nada disto se constrói em pouco tempo. O problema da Europa é estar a ser governada por burocratas. Uma vez, uma instituição europeia - não me recordo qual - decidiu criar uma comissão de pessoas sábias. Estava lá Gabriel García Márquez, Michel Serres e eu próprio. Os outros convidados eram burocratas europeus. Cada reunião servia para discutir a ordem de trabalhos da reunião seguinte. Aquilo era o retrato da Europa: pessoas a governarem uma máquina autorreferencial. Porém, é o que temos. É como a democracia segundo Winston Churchill: um sistema horrível, mas melhor do que os outros.
É um otimista.
Tenho uma mistura de otimismo e esperança. Sou um otimista voluntarioso.
Que leitura faz do islamismo radical que está a crescer dentro dos países europeus?
Estou muito preocupado, não por mim, mas pelos meus netos. Escrevi-o há 30 anos: o que se passa no mundo não é um fenómeno de imigração, mas de migração. Migração é quando os germânicos chegam e destroem o Império Romano, quando os mongóis invadem a Índia... A migração produz a cor da Europa. Quem aceitar esta ideia, muito bem. Quem não a aceitar, pode ir suicidar-se. A Europa irá mudar de cor, tal como os Estados Unidos. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue. A migração dos alemães bárbaros para o Império Romano, que produziu os novos países da Europa, levou vários séculos. Portanto, vai acontecer algo terrível antes de se encontrar um novo equilíbrio. Há um ditado chinês que diz: "Desejo-te que vivas numa era interessante". Nós estamos a viver numa era interessante.
Porque é que migração tem de significar derramamento de sangue?
Não deve perguntar-se porquê: é um facto. Vejamos a França. É o caso típico de um país que acreditou poder absorver a migração. Porém, por um lado, impôs logo aos migrantes a ética da república; e, por outro, arrumou-os nos bairros remotos. É muito raro encontrar um migrante a viver ao lado de Notre-Dame.
O termo 'integração' sempre foi dúbio no discurso europeu.
Porque é que um muçulmano em França se torna fundamentalista? Acha que isso aconteceria se vivesse num apartamento perto de Notre-Dame? A sua integração não foi completa nem poderia ser. De novo, é um facto. A migração a longo prazo pode produzir integração mas a curto prazo não, e a não-integração produz uma reação, que pode ser de ódio.
Disse que "o Estado Islâmico é o novo nazismo". Quer explicar?
Quando se quer matar todos os que não pertencem ao mesmo grupo ou à mesma religião, o que lhe podemos chamar? É um nazismo muçulmano, equivalente ao nazismo europeu, mas com uma diferença: os americanos sabiam quem eram os nazis, estavam frente a frente na confrontação. Agora não é assim. Temos o inimigo em casa. A guerra mudou: em Waterloo, Wellington e Napoleão marchavam um contra o outro. Mas, na Guerra do Golfo, os jornalistas europeus e americanos estavam em território inimigo a contar o que se passava. Já não estamos em Waterloo. Por isso, nenhuma guerra hoje pode ser ganha.
Mesmo difuso, precisamos de um inimigo para avaliar o nosso sistema de valores.
O inimigo é sempre inventado, construído. Precisamos dele para definir a nossa identidade. A extrema-direita italiana acredita que são os ciganos ou os migrantes pobres, ou o Islão em geral, ainda que o Islão possa assumir muitas formas. Ora, o Estado Islâmico não é o Islão, no sentido em que Hitler não era a cristandade.
O que pensa do regresso do antissemitismo?
Não o vejo como um regresso mas como uma questão permanente. Agora há um misto de antissemitismo com um 'anti-israelismo' ligado a Netanyahu, que me preocupa e é perigoso.
Quando ocorreu o ataque ao "Charlie Hebdo", um jornal satírico, não sentiu regressar o fantasma de "O Nome da Rosa"? Será que saímos da Idade Média?
O fundamentalista é desprovido de sentido de? humor, porque o humor é um instrumento crítico. Em "O Nome da Rosa", destrói-se um livro que fala sobre o riso e mata-se por ele. Presenciamos o mesmo fenómeno. Mas se me der um milhão de dólares eu demonstro-lhe a analogia entre a nossa era e o tempo dos neandertais. A Idade Média não existe, porque tem dez séculos. É uma construção artificial. De qualquer forma, vemos que é uma época de transição entre dois tipos de civilização. E provavelmente - falávamos de migração - estamos numa era de transição, que é sempre difícil. A questão é: houve alguma era que não fosse de transição? Resposta: não. Mas houve momentos em que cada um vivendo no seu país não se apercebia de que havia uma transição a acontecer no mundo.
Qual é o papel do intelectual hoje?
Não dar muitas entrevistas! [risos] Falando a sério, penso que é duplo. Primeiro, é dizer o que as outras pessoas não dizem. Não é dizer que há desemprego em Itália. Segundo, não é resolver os problemas imediatos, é olhar para a frente. Se um poeta está num teatro e há um incêndio, não se põe a recitar poemas: chama os bombeiros. Pode é escrever sobre incêndios futuros.
E o passado? Citando-o, "o passado chantageia-nos".
É impossível pensar o futuro se não nos lembrarmos do passado. Da mesma forma, é impossível saltar para a frente se não se der alguns passos para trás. Um dos problemas da atual civilização - da civilização da internet - é a perda do passado.
O que é paradoxal ao termos um acesso quase ilimitado a qualquer tipo de informação.
Isso equivale a zero, porque não sabemos selecionar. Uma orquestra organizada pode tocar uma sinfonia, mas dois mil instrumentos juntos só fazem barulho. O que temos agora é barulho generalizado, no meio do qual estamos a perder o conhecimento do passado, mesmo do passado próximo. Quando eu tinha dez anos, sabia o que acontecera 30 anos antes. Há um concurso aqui em Itália de perguntas sobre cultura geral. Uma vez perguntaram quando é que Hitler e Mussolini se encontraram pela primeira vez, e todos disseram 1945 - ninguém se lembrou que em 45 estavam ambos mortos. É uma geração incapaz de olhar para trás a não ser através da Wikipédia. Mas olhar para trás sem pensamento crítico não serve de nada: Jorge Luis Borges criou uma personagem, Funes, que se recordava de tudo e era um idiota.
Li que há um ensaio que ainda quer escrever, mas para o qual não encontrou as palavras. É sobre a comédia. Já conseguiu começar?
E disse que era tão difícil que provavelmente não o iria fazer, e que depois da minha morte alguém poderia tentar reconstruir este meu livro jamais escrito. Rir é próprio do homem, como mentir. O problema é tão complexo, há tantas razões pelas quais podemos rir... Rimos porque estamos felizes, os soldados japoneses riam-se de vergonha quando eram detidos pelos americanos, os homens riem-se durante um show de striptease para dominar a timidez. Rir tem a ver, de alguma forma, com o facto de sabermos que vamos morrer. É mais ou menos isto, e é imenso. Não, ainda não escrevi este livro.
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