As minhas impressões acerca do Abecedário Simbiótico de José Adelino Maltez.
A primeira impressão da capa deste livro é que havia sido utilizado uma imagem cuja capa revelava alguém que lia através do toque e, assim, descodificava o mundo como se de um cego se tratasse. Depois o conceito "simbiótico" - sugere a ideia de convivência mais ou menos íntima entre dois (ou mais) organismos diferentes em que, por exemplo, o homem vive com a mulher e nasce algo mais dessa relação frutuosa. Trata-se duma relação de cooperação entre pessoas diferentes, grupos e outros agregados que, somando forças, valem mais do que actuando de per se. O conhecido exemplo do mundo animal, de que o pássaro vive em simbiose com o hipopótamo, também é ilustração de cooperação em que todos ganham. Enfim, o mundo interpessoal, o mundo empresarial e até o mundo político está repleto desse tipo de relações simbióticas, embora nuns casos sejam mais de parasitismo do que de mutualismo. Mas isso já é uma degradação do modelo de relação ideal.
Por outro lado, aquela capa e aquele título da autoria de José Adelino Maltez, talvez o único catedrático na especialidade de Ciência Política em Portugal, sugere-me uma outra associação. Desta vez a colagem ao filósofo e teólogo calvinista alemão, Johannes Althusius (1577-1638), que se tornou conhecido pela sua obra - Politica methodice digesta et exemplis sacris et profanis illustrata - (A política metodicamente concebida e ilustrada com exemplos sagrados e profanos).
Talvez o mais interessante dessa obra é que esses exemplos de J. Althusius, que agora me parece José Adelino irá actualizar num método expositivo semelhante aquela matriz do séc. XVII, integram um corpo de conceitos e de ideias, símbolos e ideais que serviram de base a uma refundação da ideia de federalismo, hoje tão questionada na actual Europa pelo directório franco-alemão, e que depois alicerçou a moderna teoria da soberania popular. Quer isto dizer que J. Althusius não só advogou a soberania limitada pelo monarca, como defendeu que o soberano (iluminado por Deus) transferisse para a comunidade uma parte desse direito que, na prática, consistia em o Estado se passar a preocupar com a conservação da vida, da boa ordem e boa legislação e com todas as acções que ajudassem a garantir o bem estar de todos, ou seja, do povo. Até porque Althusius tinha a perfeita noção de que a ajuda alheia faria perigar a ordem interna e o fundamento do reino, daí ter sido um dos primeiros filósofos políticos a teorizar o poder em novas bases que ele entendia dever ser submetido ao direito. Já despojado dos vínculos da lei natural e divina. Surgia assim, no seu corpo de ideias, um eixo fundamental: a soberania popular inalienável. A esta luz, J. Althusius surge-nos como um autor precocemente democrata e federalista, o que nos deixa a pensar nesta importante e delicada fase da nossa velha e decadente Europa prestes a ruir através da implosão do euro e da falta de confiança política entre os Estados-membros que integram essa mesma união política, económica e monetária.
Presumo, pois, que a obra de José Adelino esteja eivada de conceitos, símbolos, ideias, imagens, figurações e definições que nos ajudem a actualizar algumas daquelas preocupações políticas, filosóficas e teológicas que prepararam a Idade das Luzes - até para contrastar com uma certa idade das trevas que hoje, aqui e agora, todos nós vivemos neste 1º quartel do séc. XXI, quinhentos anos volvidos desde aquela data em que Portugal, sendo uma pequena potência peninsular, se conseguiu afirmar como uma grande potência político-diplomática que contava no então concerto das nações e no balance of power na Europa - plataforma do Euromundo - hoje em profunda agonia.
Os Painéis de São Vicente de Fora, de Nuno Gonçalves, do séc. XV, e pintor da corte de Afonso V, também me parece ter alguma relação funcional, imagética ou "simbiótica", se quisermos, com o Abecedário Simbiótico de José Adelino Maltez. Não apenas por atravessar toda a sociedade portuguesa de então, em que todas as classes da sociedade alí estão representadas (nobreza, clero e povo), mas também pela imensa capacidade imagética e simbólica que o autor teve para, num quadro, que se presumo ser um auto-retrato, inscrever uma nação inteira com os seus ideais. Nos painéis de Nuno Gonçalves, marcadamente realista, nada está a mais, nada está a menos; tudo nos fala.. com certeza.
Até porque só pela física se chega à metafísica. E a melhor maneira de acreditarmos no que vemos é, também, acreditarmos no invisível. Portugal, esse pequeno e pobre rectângulo de quinhentos, acreditou e, pelo mar, conseguiu a proeza que hoje conhecemos e que Luís Vaz de Camões narrou em Os Lusíadas, esse tratado político que nos imortalizou a todos.
Ora, tomando por adquirido que esta Obra de José Adelino apresenta um modelo de explicação que articula o conceito teológico com a realidade sociopolítica que lhe corresponde, a comparação com os Painéis de S. Vicente de Fora, fará todo o sentido. Especialmente, porque a história (e a ciência que corre nela) não é só feita de factos conhecidos, documentados e comprovados. Também integra factos desconhecidos, propositadamente ocultos e outros ainda veladamente transmitidos aos iniciados e aos investigadores mais teimosos e obstinados. É também por aí que a ciência se recupera e floresce.
Não raro ficamos satisfeitos com uma noção linear, racional e histórica dos factos que nos serviram na Escola e não pensamos mais na possibilidade de uma história alternativa que aqueles factos poderiam ter percorrido na sua essência. Se assim é, vivemos uma história repleta de hiatos, de lacunas e de elementos mais ou menos desconexos entre si, daí a extrema utilidade em utilizarmos a chamada imaginação sociológica, como diria C. W. Mills, para imaginar e intuir de forma diferente todas aquelas correlações e conexões entre os factos que, não raro, percorreram caminhos aleatórios, até chegarmos a conclusões sólidas acerca do que verdadeiramente sucedeu a Portugal desde que fizémos a gesta dos Descobrimentos e fomos os pioneiros na 1ª vaga de globalização no mundo.
Será esta recherche du temps perdu que Nuno Gonçalves nos deu através da sua magnífica pintura.
Doravante, presumo que José Adelino Maltez possa actualizar conceitos teo-políticos com base noutra matriz explicativa - como que recuperando o legado do filósofo do séc. XVII, J. Althusius.
Uma consideração final relativamente aos símbolos e ao peso que assumem na condução das nossas vidas em sociedade, ainda que eles passem por nós de forma tão invisível quanto inconsciente. Na maior parte dos casos nós não vemos as "coisas" em primeiro lugar, nós, primeiro definimos essas coisas, e só depois as vemos e compreendemos. É assim na confusão do mundo ruidoso e brilhante em que apanhamos o que a nossa cultura já definiu para nós, e tendemos a perceber aquilo que captamos na forma estereotipada que nos é servida na bandeja da nossa cultura, sem discussão e de forma acrítica. É óbvio que esta forma de compreender as coisas padece de hábitos de precisão e distinção, quase despreza a consistência ou a estabilidade de significados, e isso culmina em má ciência, e más políticas públicas e, no fim da linha, também numa baixa condição ou qualidade de vida das populações, que são, afinal, os destinatárias daqueles enviezamentos.
Daí a importância que nós, portugueses, dentro e fora da academia (que pouco ou nada tem feito para promover esta área do conhecimento "teo-político", daí a ignorância simbólica que todos hoje padecemos), temos em cultivar o transcendental, em cultivar os símbolos que organizam as ideias e que, por seu turno, servem de mapas de acção para os líderes sociais e políticos conduzirem as sociedades ao melhor porto. Daqui (também) depende o desenvolvimento e a prosperidade duma nação, não é da Europa do directório franco-alemão que, na hora "H", trai e exclui todos aqueles povos que não aguentam a passada de economias maiores, mais desenvolvidas e mais velozes. Do totem à bandeira nacional, do ídolo de Deus à produtividade, à competitividade e ao consumismo medido pela riqueza das nações, do invisível Rei aos medíocres agentes políticos que hoje reinam por essa Europa decadente... Só quando os símbolos tiverem feito o seu trabalho haverá uma pista que os povos poderão seguir. O que se vislumbra hoje na Europa, senão a imposição política e financeira do eixo franco-alemão!?
O papel dos símbolos, e espero que o Abecedário Simbiótico esteja repleto de significados que nos ajudem a sair do abismo que fomos cavando em Portugal nos últimos 20 anos entre Belém e S. Bento, entre os directórios partidários e algum conúbio com o empresariado mais subsídiodependente, agora esfrangalhado pelos mercados e esmagados pelas agências de rating, que certificam quais são as economias com garantia de qualidade ou colocam o selo de lixo não reciclável. Este foi o mundo privado de símbolos que tivémos, o Portugal sem cimento e com muita areia. Daí a urgência em regressar aos grandes símbolos que tomam conta das crenças, das devoções, duma certa ideia de teologia política (conferindo-lhe mais exigência e qualidade), a fim de repensarmos a nossa identidade, a nossa nacionalidade e que destino colectivo desejamos para o futuro.
De contrário, ou seja, quanto menos simbologia comportar o debate público, mais casual e errática serão as suas políticas públicas e mais se fulaniza a política em Portugal, o que é péssimo para todos nós - destinatários constantes de erros, mentiras mitigadas com contabilidades criativas para ganhar eleições, corrupção e uma fraca qualidade do escol dirigente que deveria liderar os destinos de Portugal. O símbolo, ou o regresso a eles, poderá ser assim um caminho eficaz de ver neles um instrumento através do qual uns poucos podem modificar o destino de muitos.
Desconheço, em rigor, se é deste tipo de preocupações e temáticas para que o referido Abecedário Simbiótico nos remete, mas tomando por referência a obra de Althusius (que a deve inspirar), a sua capa e título, arriscamos aqui esta reflexão que nos ajuda a recuperar o tempo perdido que diz:
Se não te respondem, procura.
Se não encontrares, inventa.
Vais ver que descobres...
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