domingo

Quando as democracias colidem - por Volker Perthes

Presidente executivo e director do Instituto Alemão para os Assuntos Internacionais e de Segurança


A natureza multipolar do sistema internacional actual estará novamente exposta na próxima cimeira do G-20 em Los Cabos, México. Os problemas globais já não são resolvidos, as crises já não são geridas, nem as regras globais definidas, muito menos implementadas, da maneira tradicional, por um punhado de potências principalmente ocidentais. Grandes e médias potências incipientes, como a Índia, o Brasil, a Indonésia, a Coreia do Sul, a Turquia e a África de Sul, também exigem que a sua voz seja ouvida.
Algumas destas potências são ainda economias emergentes. Politicamente, no entanto, a maior parte já ultrapassou o limiar que durante muito tempo limitou o seu acesso à cozinha da tomada de decisões internacionais. Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (os “P-5”) ainda defendem o seu direito a vetar resoluções, e o seu poderio militar não tem par. Mas já não dispõem de suficientes recursos, competência e legitimidade para enfrentar sozinhos os desafios ou crises globais.

A bipolaridade pertence ao passado, e é improvável que volte a aparecer num novo “G-2” sino-americano. É igualmente improvável no futuro previsível que qualquer clube de países, como o G-7 ou o G-9, assuma novamente uma posição de quase hegemonia. Até mesmo o G-20, na sua composição actual, pode não representar com rigor as forças que podem mudar e mudarão a forma do vigésimo primeiro século.

Para os Estados Unidos, a União Europeia, o Japão e outros membros do “Velho Ocidente”, as boas notícias são que a maior parte das potências emergentes que se estão a posicionar para um papel global mais activo são também democracias. No seio do G-20, só dois estados – a China e a Arábia Saudita – explicitamente não querem ser democracias liberais, enquanto um terceiro, a Rússia, desenvolveu uma autocracia com uma fachada democrática.

As notícias menos boas são que estas novas potências democráticas não partilham necessariamente a agenda política do Velho Ocidente. Por exemplo, diferem nas políticas climáticas, vendo nelas uma ameaça ao desenvolvimento. Similarmente, enquanto novas médias e grandes potências nem sempre concordam, são geralmente mais cépticas quanto a sanções internacionais e intervenções militares.

Além disso, alguns dos mais importantes destes estados divergem substancialmente dos EUA, e muitas vezes também da UE, sobre a melhor abordagem relativamente a conflitos regionais, especialmente no Médio Oriente. Assim, em 2010, os EUA entraram numa disputa diplomática séria com a Turquia e o Brasil sobre o modo de resolver o conflito com o Irão acerca do seu programa nuclear. Sem admiti-lo directamente, os EUA ficaram claramente desgostosos que estes dois estados tivessem tentado desempenhar na disputa um papel diplomático próprio.

As diferenças são também visíveis nos casos em que as novas médias ou grandes potências democráticas participaram na formação de novos grupos ou clubes, como o BRICS, juntamente com potências não-democráticas. A Índia, o Brasil e a África do Sul estão a usar tais formatos para perseguir os seus interesses, ou simplesmente para demonstrar o seu peso internacional acrescido. Há pouco acordo entre eles e a Rússia ou a China – ambas membros do P-5 – no que respeita a valores políticos ou a questões fundamentais de ordem internacional.

Juntamente com muitos outros estados no Sul global, contudo, a Rússia e a China tendem a defender o princípio da não-ingerência, e mostram geralmente relutância em apoiar quaisquer tentativas dos EUA ou da Europa para projectar a democracia ou para defender os direitos humanos noutros países.

Não poucos legisladores nos EUA e na Europa reagiram com espanto, ou até desagrado, a estas tentativas das potências democráticas emergentes de perseguir as suas próprias agendas na cena mundial. Essas reacções reflectem parcialmente o pensamento antigo enraizado na Guerra Fria, quando os países democráticos podiam diferir nos detalhes, mas concordavam nas questões principais da política internacional. Aqueles que perseguiam uma agenda diferente em assuntos substantivos ou não faziam parte do “campo democrático” ou não eram actores internacionais importantes.

Pelo contrário, uma característica central do actual mundo globalizado e multipolar é que os valores democráticos partilhados não garantem acordo sobre questões substantivas de política internacional. Quando mais democracias existem, mais provável é que apareçam conflitos de interesses e diferenças entre países democráticos.Há poucos motivos para reagir com raiva quando estados como a Turquia, o Brasil ou a África do Sul definem prioridades diferentes das da Europa ou dos EUA, ou têm visões diferentes de como lidar com o conflito israelo-árabe, com o Irão, com a ajuda para o desenvolvimento, com a promoção da democracia, ou com a protecção ambiental. O exemplo dos EUA mostra claramente que as grandes potências democráticas seguem muitas vezes os seus interesses com pouca consideração por um bem global comum definido por outros.

Por outras palavras, a ordem internacional está a tornar-se mais plural. A tarefa para as democracias ocidentais estabelecidas é aceitar e lidar com essas “diferenças democráticas” ao nível internacional, e procurar coligações multilaterais para gerir ou resolver problemas.

Em princípio, a UE está melhor posicionada que os EUA (e certamente que a China) para empreender esta tarefa. Os europeus têm bastante prática em lidar com diferenças e criar consensos entre estados que pensam de modo maioritariamente similar. Dito isso, a Europa precisa de aprender a ser mais clara e mais transparente sobre os interesses subjacentes às suas próprias políticas, em vez de sugerir que as suas posições num assunto específico representam a única implementação racional das normas e valores democráticos.

Traduzido do inglês por António Chagas/Project Syndicate


Obs: Agradecemos ao autor recordar-nos que já não existe um sistema bipolar, entrámos num sistema multipolar, e que o mesmo já tem, pelo menos, duas décadas. Tudo verdades desde a queda do Muro de Berlim - que caiu para os dois lados...Quanto à Europa, e ao invés do último parágrafo do autor, ela hoje representa um saco de gatos a várias velocidades. 

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quinta-feira

Evocação de Eça de Queiroz e a Regulação nos media


Evocação de Eça de Queiroz 



Palma "Cavalão"

Proprietário e redator do jornal "A Corneta do Diabo", Palma Cavalão surge em Os Maias, de Eça de Queirós, como um jornalista corrupto, facilmente "agitado com o tinir do dinheiro". O nome de "Cavalão" fora atribuído ao Palma para o "distinguir de outro benemérito chamado Palma Cavalinho."

Sem carácter, publica artigos injuriosos ou retira-os desde que para isso lhe paguem. Como reconhece Ega, sobre um artigo do Dâmaso a denunciar as relações de Carlos e Maria Eduarda, "o artigo fora-lhe, simplesmente, encomendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro."

Baixo e gordo, como se depreende das palavras de Alencar que o define como "canalha", "vil bolinha de matéria pútrida!..." e "chouricinho de pus!", Palma Cavalão é o símbolo do jornalismo de escândalo, feito por jornalistas imorais e corruptos.

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quarta-feira

Dedicada aos maus reguladores...

... que são aqueles que se portam mal em democracia pluralista, porque minam os fundamentos do Estado de direito, espezinham a democracia, cospem na necessidade da transparência e, cada vez mais, mandam a accountability para o caixote do lixo da história. 

E porquê? É simples: a manutenção no poder, mormente em certos cargos de nomeação política, depende sempre da confiança do titular da pasta respectiva, e como vivemos num regime em que os interesses pessoais se sobrepõem - de longe - ao chamado bem comum que falava Aristóteles - estas facadas na democracia - por força de se replicarem à velocidade da luz na sociedade portuguesa, são mais um sinal degradante naquilo em que o Portugal político se tem vindo a transformar. 

E é pena, pois podíamos ser um pouco mais sérios ou, pelo menos, menos desonestos. 

Talvez seja porque, afinal, tudo esteja na mesma que Portugal continua um sítio mal frequentado, um lugar que cheira mal...

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O regulador e o regulado. E os públicos que já não são idiotas

Não interessa saber se o interesse do regulador se ajustou ao interesse de sobrevivência do regulado de modo a que entre ambos não houvesse uma distância dangereuse que mataria politicamente o regulado;

- Interessa, apenas, e para que tudo fique na mesma, que regulador e regulado jogue o mesmo jogo, no mesmo tabuleiro de xadrez político, em que as peças são movimentadas concertadamente de molde a evitar xeque-mate. Desse modo, só os peões saem de cena, porque já não são de cena;

- Mas mais importante do que essas jogatanas de xadrez concertado nos bastidores do jogo político, é compreender como, do lado da recepção dos públicos, estas jogadas são lidas e digeridas. Ou seja, saber como aqueles milhares de indivíduos que votam e ouvem rádio e se deixam alienar pelas imagens da tv, apesar de não terem elevada cultura política, mas são verdadeiramente a base de legitimidade democrática mediante sufrágio universal, reagem no cálculo político que vão fazendo da acção política de todos e de cada um dos governantes que temos.

- Isto pode significar que o zé povinho que vê tv, ouve rádio e lê alguns jornais reage negativamente a esses acontecimentos pouco transparentes, pela sua manifesta carga de parcialidade que fronteira o abismo da relação de confiança política entre governantes e governados, que se quebra cada vez mais.

- Bem ou mal, é o mesmo zé povinho que está na base do sistema democrático, que passa a estar implicado nessa jogatana de xadrez ultra-viciado.

- Daqui decorre uma sub-questão de não menor relevância para a sustentabilidade do próprio sistema democrático: se o cidadão é suficientemente maduro e inteligente para não cair no "conto vigário", proveniente de entidades sem qualquer utilidade prática, representatividade e transparência, como é essa coisa vaga que dá pelo nome de ERC, que apenas regula interesses pessoais e não os verdadeiros interesses nacionais da República e da gestão efectiva dos problemas da polis, então, mutatis mutandis, esse mesmo cidadão também é plenamente inteligente e capacitado para separar o trigo do joio, e distinguir arranjos e interesses pessoais, ligados à carreira, ao status, ao poder social, etc - dos verdadeiros interesses nacionais.

- Também aqui os cidadãos têm de dispor da arte e a intuição de separarem as mensagens e os mensageiros da verdadeira comunicação, esta, sim, ligada ao sufrágio universal e, consequentemente, à democracia que hoje falta às toneladas em Portugal.

- Este tipo de exemplos são importantes porque permitem pensar e relacionar as relações dos agentes políticos com alguns jornalistas, que nunca se percebe quando fazem política de baixa-densidade (também conhecida como tratar de vidinha).

Cada vez mais é necessário a capacidade crítica do público, e em tempo real, onde delibera ao nível das redes sociais, recordando que a comunicação tem uma dimensão universal que não se esgota em meras jogadas de bastidores - assente na política da cenoura e do chicote das "províncias" que tecem este miserável Portugal.

- Mas tenhamos Esperança. Há mais vida para lá destas (des)regulações...

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segunda-feira

O exemplo de Boaventura Sousa Santos ao mundo

Boaventura de Sousa Santos tem, de facto, um vasto cv, com muitas dimensões, teórica e prática, e é inovador em inúmeros campos do saber, liderando também equipas de investigação, além da sua crescente e penetrante influência social e política. É, pois, alguém que não trabalha para o seu umbigo, nem vive ensimesmado com as suas considerações virtuais, suscitando pebliscitos nas redes sociais de cinco em cinco minutos.Infelizmente, nestas deambulações há sempre  um batalhão de alienados que não sabem pensar pela sua própria cabeça, por isso precisam de guias. E alguns são turísticos...

Dispenso-me aqui de apresentar a sua obra, embora os seus interesses de investigação se situem na área do Direito, da da Justiça, da Cidadania, da Democracia (participativa, da Globalização, da Cidadania global, da Reinvenção da emancipação social. É, pois, um verdadeiro criador de conceitos, procura integrá-los nas CSH a fim de lhes conceder uma maior autonomia e, através disso, interferir com a realidade socio-política, mormente naquelas latitudes do mundo onde os índices de pobreza e ausência de democracia, justiça, liberdade e igualdade são efectivamente baixas. 

Infelizmente, Portugal também se encontra nesse "corredor da morte" em matéria de indicadores de desenvolvimento, onde ainda domina uma elevada taxa de corrupção aliada a desigualdades sociais e económicas brutais, que, aliás, se têm agravado neste último ano de governação de Centro-direita.

O seu protagonismo nos Fóruns sociais mundiais é conhecido, especialmente no Brasil e no mundo sul-americano em geral, revelando-se sempre uma voz autorizada, fazendo carreira os seus conhecimentos e intervenções, em que procura sempre reconstruir o discurso das CSH, falando em novas sociologias - que são - ou devem ser - os "guias" que norteiam novas acções sociais, retocam a configuração dos velhos contratos sociais no interior das nações, o que obriga o patronato, o Estado e os sindicatos a novos reposicionamentos no quadro das negociações, etc. Além de abrir espaço de intervenção aos agentes da dita sociedade civil, fraca em Portugal pela tradicional subsídiodependência dum Estado que sempre foi forte e centralizador, desde o tempo do Marquês de Pombal. 


Enfim, o legado do sociólogo português mais cosmopolita, e com plena justiça, é imenso e não tem par em Portugal. E é pena. BSS parece, assim, uma "alma penada" portuguesa, a única a defender um conjunto de valores universais que mexem com aqueles direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores e dos cidadãos em geral.


Um país com 10 milhões de habitantes, BSS é o único a defender essa causa que alia muitas valências num homem só.E até chamando à Sociologia o papel progressivo de nova rainha das CSH.

O próprio BE quase lhe deve a existência conceptual e doutrinária, e muitos de outros manifestos que pugnam por mais liberdades no interior das nações são, ou devem ser, creditados ao labor intelectual deste sociólogo que, por vezes, opera mais como filósofo das CSH, dado que está sempre a criar e a recriar novos discursos e a elaborar novas críticas sociais desta nossa modernidade. 


A esta luz, os Novos Movimentos Sociais devem-lhe muito, em Portugal e no mundo, onde tem sido um inspirador constante, desafiando novas pessoas à prática da cidadania activa (global) com vista a pressionar os governos a uma melhor e mais justa governança. 

Eis BSS, um caso verdadeiramente único em Portugal. Enfim, uma reflexão que o actual locatário da Saúde deveria ler. E a  vários títulos, desde logo pela forma, ritmo e intensidade com que tem fustigado os portugueses no acesso aos cuidados de saúde. 
Único português na conferência defende uma mudança radical dos modos de vida
Mudar radicalmente de vida para cumprir um desenvolvimento sustentável é a proposta do único português convidado para um participal num fórum da cimeira.

O sociólogo Boaventura Sousa Santos é o único português a participar nas dez mesas redondas que estão a elaborar 30 recomendações para os líderes políticos que chegam ao à cimeira Rio +20 na quarta-feira (dia 20). 

O português interveio no painel sobre erradicação da pobreza, donde devem sair três recomendações. Boaventura Sousa Santos escolheu reduzir o essencial a duas. 


“Se levarmos a sério o acesso universal à saúde e as condições que criam uma sociedade saudável, temos de ter uma reforma do Estado e do sistema político. Uma redistribuição da riqueza e um outro sistema de tributação, e, isso sim, pode criar um mundo mais justo. Por isso, em meu entender estas duas recomendações são as únicas que podem trazer uma transformação da economia política do mundo, que também necessitamos para poder atingir os nossos objectivos”, defendeu. 

Os líderes políticos vão discutir como pode ser construída essa estrada, que permite que a tecnologia seja conduzida dos países ricos para os pobres. Mas o sociólogo considera que é o Sul que tem a ensinar ao Norte. 



“Venho de um continente a empobrecer – a Europa – a precisar de soluções do mundo, que obviamente não está preparada para poder receber. Séculos de colonianismo impediram a Europa de aprender com a experiência do mundo”, considerou. 

A erradicação da pobreza foi anunciada como um “conceito problemático” para debate. 



“Será isto uma armadilha para não travarmos a verdadeira luta que seria necessário travar contra a concentração da renda, a enorme concentração de riqueza no mundo que está abrindo um abismo cada vez maior entre os ricos e os pobres?. E a concentração da renda é de tal maneira forte que está a contaminar e a destruir as nossas democracias. A corrupção, as transformações de leis em diversos países sob pressão de ‘lobbies’ de multinacionais que operam em diferentes países não são capazes sequer de nos trazer a mensagem de 1992”, afirmou. 

Mudar radicalmente de vida para cumprir um desenvolvimento sustentável é a proposta do único português convidado para um forum que começou na Internet e continua na conferência, mas sem políticos ou agências da ONU envolvidas.















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Um PM mal preparado


Isto explica bem aquela asserção que diz que Portugal não tem um PM, tem, sim, uma espécie de "conselho de gerência" duma empresa em regime de pré-insolvência, ou nem isso. Isto, no mínimo, é vergonhoso para Portugal e os portugueses.

O PS, certamente por algum zigue-zaguear nas suas posições e ausência de carisma na liderança, e porque está refém do memorando que assinou, mas cujos termos e condições o Gov em funções já ultrapassou e subverteu, nunca sobe nas intenções de voto, deixando esses créditos para a "esquerda da esquerda", i.é, BE e PCP. 

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domingo

Grécia: entre o afundanço total e parcial



A Grécia é hoje de novo chamada a tentar evitar o mal maior, entre o afundamento total e o afundamento parcial. Entre o voto de protesto à imposição da troika (esquerda radical) e a inevitabilidade desse controlo financeiro a partir do exterior (conservadores); a Grécia encontra-se, de facto, entre as duas bossas do camelo que exercem a sua função de tenaz.
 
O berço da civilização não merecia isto..., até pelo inestimável tributo prestado à História.

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sexta-feira

The master of suspense. Hitchcock


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O dilema da intervenção - por Joseph Nye



O dilema da intervenção

Por Joseph Nye
  • Quando é que os estados devem intervir militarmente para impedirem atrocidades nos outros países? A questão é antiga e bem viajada. Na verdade, está agora a visitar a Síria.
Em 1904, o presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, argumentava que “há crimes ocasionais cometidos em tão grande escala e de tal horror peculiar” que devemos intervir pela força das armas. Um século antes, em 1821, enquanto os europeus e os norte-americanos debatiam a altura certa para intervir na luta pela independência da Grécia, o presidente John Quincy Adams advertiu os seus compatriotas norte-americanos sobre o facto de se “ir para o estrangeiro em busca de monstros para destruir”.


Mais recentemente, depois do genocídio que custou cerca de 800 mil vidas no Ruanda, em 1994, e da matança de homens e de rapazes bósnios em Srebrenica, em 1995, muitas pessoas juraram que nunca mais deveria ser permitido acontecer tais atrocidades. Quando Slobodan Milosevic se ocupou da limpeza étnica em grande escala no Kosovo, em 1999, o Conselho das Nações Unidas aprovou uma resolução, reconhecendo a catástrofe humanitária, mas não conseguiu chegar a acordo sobre uma segunda resolução para intervir, dada a ameaça de um veto russo. Em vez disso, os países da NATO bombardearam a Sérvia, num esforço que muitos observadores consideraram legítimo, mas não legal.



Como resultado, o então secretário-geral Kofi Annan criou uma comissão internacional para recomendar formas de garantir que a intervenção humanitária poderia ser conciliada com o artigo 2.7 da Carta das Nações Unidas, em que assenta a jurisdição interna dos Estados-membros. A comissão concluiu que os estados têm a responsabilidade de protegerem os seus cidadãos e devem ser ajudados a fazê-lo através de meios pacíficos, mas caso um estado ignore essa responsabilidade, ao atacar os seus próprios cidadãos, a comunidade internacional pode considerar uma intervenção armada.



A ideia de existir um princípio “responsabilidade de proteger” (R2P), foi aprovada por unanimidade na Cimeira Mundial da ONU em 2005, mas os acontecimentos posteriores demonstraram que nem todos os Estados-membros interpretaram a resolução da mesma maneira. A Rússia sempre defendeu que só as resoluções do Conselho de Segurança, e não as resoluções da Assembleia Geral, são normas vinculativas de direito internacional. Entretanto, a Rússia vetou uma resolução do Conselho de Segurança sobre a Síria, e, com alguma ironia, Annan foi chamado de volta e alistou-se num esforço fútil, até agora, para acabar com a carnificina na Síria.



Até ao ano passado, muitos observadores consideraram o R2P, na melhor das hipóteses, uma esperança vã ou um fracasso nobre. Mas em 2011, enquanto o coronel Muammar Khadafi se preparava para exterminar os seus opositores em Benghazi, o Conselho de Segurança invocou o princípio R2P como a base para uma resolução que autoriza a NATO a utilizar a força armada na Líbia. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama teve o cuidado de esperar por resoluções da Liga Árabe e do Conselho de Segurança, evitando assim os custos ao poder suave norte-americano que a administração George W. Bush sofreu quando interveio no Iraque em 2003. Mas a Rússia, a China e outros países sentiram que a NATO explorou a resolução para engendrar a mudança de regime e não simplesmente para proteger os cidadãos na Líbia.



Na verdade, o R2P é mais sobre lutas em torno da legitimidade política e do poder suave, do que sobre direito internacional rígido. Alguns advogados ocidentais argumentam que o R2P implica a responsabilidade de combater o genocídio, os crimes contra a humanidade e os crimes de guerra, sob as diversas convenções de direito internacional humanitário. Mas Rússia, China e outros estão relutantes em fornecer uma base jurídica ou política para acções semelhantes à que ocorreu na Líbia.



Existem outras razões pelas quais o R2P não tenha sido um sucesso no caso da Síria. Extraído da teoria tradicional “guerra justa”, o R2P não se fundamenta apenas nas intenções correctas, mas também sobre a existência de uma perspectiva razoável de sucesso. Muitos observadores destacam as importantes diferenças físicas e militares entre a Líbia e a Síria que fariam das zonas sírias de interdição aérea ou interditas à condução, zonas problemáticas. Alguns sírios que se opõem ao regime do presidente Bashar al-Assad, indicando para Bagdad em 2005, argumentam que a única coisa pior a um ditador cruel é uma guerra civil sectária.Tais factores são sintomáticos de problemas maiores com intervenções humanitárias. Para começar, os motivos são muitas vezes confundidos (Roosevelt, afinal de contas, referia-se a Cuba). Além disso, vivemos num mundo com diversas culturas e sabemos muito pouco sobre engenharia social e sobre como construir nações. Quando não podemos ter a certeza de como melhorar o mundo, a prudência torna-se uma virtude importante e as visões arrogantes podem representar um grave perigo. A política externa, tal como a medicina, deve ser orientada pelo princípio: “Em primeiro lugar, não causar danos”.



A prudência não significa que nada possa ser feito na Síria. Outros governos podem continuar a tentar convencer a Rússia de que os seus interesses são melhor servidos se se livrarem do actual regime, em vez de permitirem a radicalização continuada dos seus opositores. Sanções mais duras podem continuar a deslegitimar o regime e a Turquia pode ser persuadida a tomar medidas mais fortes contra o seu vizinho.



Além disso, a prudência não significa que as intervenções humanitárias irão sempre falhar. Em alguns casos, mesmo que os motivos sejam confundidos, as perspectivas de êxito são razoáveis e a miséria de uma população pode ser aliviada com custos moderados. As intervenções militares na Serra Leoa, na Libéria, em Timor-Leste e na Bósnia não resolveram todos os problemas, mas melhoraram a vida dos seus habitantes. Outras intervenções – por exemplo, na Somália – não conseguiram fazê-lo.



As recentes intervenções em larga escala no Iraque e no Afeganistão, embora não sejam essencialmente humanitárias, corroeram o apoio público para uma acção militar. Mas devemos lembrar a história de Mark Twain sobre o seu gato. Depois de se sentar num fogão quente, o gato nunca mais se sentaria num fogão quente, mas também não se sentaria num frio.



As intervenções continuarão a ocorrer, propensas a serem mais curtas, a envolverem forças em menor escala e a contarem com tecnologias que permitem acção a uma maior distância. Numa época de guerra cibernética e drones, o fim do R2P ou da intervenção humanitária é difícil de predizer.


Tradução de Deolinda Esteves/Project Syndicate


Obs: Mais uma oportuna e eficiente reflexão de Joseph Nye, um verdadeiro maître à penser das questões geopolíticas recheadas de exemplos históricos destes últimos 200 anos. Com ou sem intervenção, havendo riscos para o sistema internacional numa e noutra situação, a guerra é, hoje, quase sempre "possível" e a pax improvável, contrariando um pouco a equação de Raymond Aron. E é possível pela nova natureza e alcance das tecnologias - civis e militares - que permitem fazer a guerra em moldes diferentes do pós-Guerra Fria. 

Seja como for, a decisão de intervir num país em guerra civil - especialmente para proteger os cidadãos e bens dos seus próprios dirigentes/carrascos - é sempre uma decisão política, e uns encaram-na como uma ameaça ao sistema internacional, como a Rússia e a China, e compreende-se porquê (manutenção do statu quo); outros países, aceitam-na como uma solução para depor regimes ditatoriais, democratizar esses regimes e multiplicar acções de peace-keeping e peace-building

Há sempre uma cara e uma coroa nessa relação de intervenção vs isolamento. Mas nenhuma grande potência, fundada nos valores da democracia e da liberdade, como os EUA, RU e muitos países do Velho Continente - podem assistir à chacina da Síria, pela simples loucura e obsessão pelo poder, sem procurar influenciar as propostas de cessar-fogo. Nada fazer é, nestes casos, ainda mais criminoso do que procurar actuar em ordem à estabilização e normalização da vida em sociedade nesses países em convulsão. 

Em todo o caso, a intervenção também comporta efeitos perversos, ou não desejados, já que uma intervenção militar, ainda que enquadrada pela ONU, que tem sempre posições divergentes no seio do seu órgão maquiavélico, o Conselho de Segurança - (que exige a regra da unanimidade para tornar vinculativas as decisões emanadas desse crucial órgão maquiavélico da ONU) - pode reequacionar todas as variáveis do poder no país intervencionado (por razões humanitárias), já que é o modelo do regime político que passa a estar em jogo, assim como o modelo económico e de sociedade, bem como a composição da classe política em formação. Tudo factores que ficam sob tutela das forças de intervenção, e que por elas são influenciadas (no plano dos valores), e é esta unanimidade que é impossível de obter do CS da ONU. Quando a Rússia deixar de apoiar a Síria, por ex., opera-se um milagre. E os milagres são, hoje, cada vez mais raros. 

É, de facto, uma grande reflexão de Nye que, sopesadas as vantagens e desvantagens da intervenção vs isolamento na óptica da "R2P" - creio que o prato da balança cai favoravelmente para o quadro da intervenção (por razões humanitárias). Sobretudo, conhecidos os exemplos regionais e mundiais acima referidos, sendo muito curioso Nye ter referido o caso de Timor, que, porventura, ainda hoje estaria sob tutela da Indonésia (como sua 27ª província) se não fossem as ideias que então fervilharam em prol da intervenção concertada dos países interessados, dentro e fora do quadro da ONU. Aqui a concertação entre A.Guterres, a Internacional Socialista e Bill Clinton, um dos melhores PR da América das últimas décadas, foi fundamental para isolar o regime indonésio que,  pressionado pela Comunidade internacional, também acabou por cair. 

Em suma: encaro este dilema diante a necessidade de praticarmos o "bem" para afastar o "mal", ainda que, por vezes, na ânsia de melhorarmos as coisas acabamos por as agravar. Mas, pelo menos, tentámos, e essa é uma obrigação moral e ética, antes de ser uma missão política. 

De resto, as possibilidades de uma intervenção R2P conseguirem depor o ditador que, por regra, está na origem das guerras infligidas aos seus próprios concidadãos, de que o exemplo Sírio é actualmente o mais candente e problemático (contrapondo os EUA à Rússia, gerando acusações perigosas que evocam os velhos tempos da Guerra fria), aumentam exponencialmente esse quadro de possibilidades. 

Razão bastante para que as potências ocidentais, mesmo com a oposição da Rússia (e alguma sobranceria da China) se concertem para intervir e erradicar a guerra civil na Síria instigada a partir das orientações de Assad.

Aliás, creio que a resposta à equação de Joseph Nye,muito simplesmente, se poderá responder perguntando o que cada um de nós faria se, a seu lado, testemunhasse um idoso e uma criança a levar pancada dum estranho em fúria?!

- Fingíamos que aquilo não era connosco; ou tentávamos proteger as vítimas?! 

Naturalmente, as consequências desse acto seriam de dois tipos: podíamos também ser agredidos (juntamente com o idoso e a criança), mas também podíamos ajudar a meter o agressor na cadeia e, directa e indirectamente, representaríamos o braço estendido da Lex do Estado - e chegar onde este não consegue chegar.

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quinta-feira

Persuasão Falsa - Joni Baltar



A Humanidade respeita-se
A Ganância não impera nas civilizações
Existe um interesse abismal pelo nosso semelhante
... A riqueza e ostentação perdem sempre com os afectos humanos

O egoísmo prodigaliza elogios à humildade
O altruísmo é a pedra angular do mundo
A partilha é omnipresente no quotidiano
É peculiar o cumprimento urbano

A natureza intoxica-nos com a sua paz
O consumismo apartou-se das nossas vontades
A solidariedade conquistou os corações
O oferecer sem intuito de receber

A sede do poder dissipou-se devido à bondade
A indulgência é a nossa melhor capacidade
A fome foi extinta para dar lugar à fartura
E o Amor é o sentimento com mais seguidores

O ódio foi completamente banido
Quando olhamos para o mundo suscita-nos alegria e felicidade
O materialismo deixou de ser uma prioridade
Ponderamos com afinco sobre esta persuasão falsa!

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quarta-feira

Fernando Pessoa: simpatia, intuição, inteligência, compreensão e o Anjo da Guarda...

MensagemFernando Pessoa
Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum
Nota Preliminar
O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.
A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.
A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.
A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.
A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.
A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.
Remake.

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terça-feira

Os novos mercenários da economia mundial

Leitura de verão: Jean Lartéguy

- O problema dos mercenários é duplo: além de não terem sonhos,apenas funcionam em obediência ao soldo que lhes paga, sendo totalmente indiferentes ao país de origem, à honra e à legalidade. 

A sua ambição limita-se a ganhar dinheiro, mas não de qualquer forma, ganhar dinheiro aqui comporta a possibilidade de destruição da economia da nações, empobrecimento de milhões de famílias, empresas e pessoas. 

Hoje, ao invés do passado, os mercenários assumiram uma nova condição, utilizam uma nova linguagem, desempenham um novo papel na sociedade transnacional onde operam, até porque muitos desses novos mercenários actuam respaldados pela grande banca mundial - cujos interesses vai posicionando os seus "peões de brega" em pólos-chave do núcleo da decisão pública em cada um dos países. 

Tudo razões que nos estimulam a uma nova leitura do que são os novos mercenários neste 1º quartel do séc. XXI, ainda que partindo de realidades de guerra antigas, hoje revestidas de uma natureza económica e financeira. Mas a filosofia de base é sempre a mesma..., dado que estão sempre a soldo de quem paga mais...




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As falácias do dr. António Borges desmontadas por António Vitorino

Sobre os rumos da Europa, do euro, do investimento, da economia (doméstica e europeia), sobre a mudança de rumo na Europa pós-Sarkosy, sobre a qualidade do investimento (público e privado), sobre os salários, ah, os salários (!!), sobre a ideologia que subjaz a todas essas opções, foi muito interessante, para não dizer algo mutante, ver o raciocínio e o discurso do sr. "Goldman Sachs" deslizar conforme a direcção das asserções sistematizadas pela segurança e experiência de António Vitorino, que apresentou uma visão estruturada, com coesão social e sustentável do que poderá (ou deverá) ser a nova Europa:

- Borges, afinal, deseja salários mais elevados para os portugueses, ele até nem defende a desvalorização dos mesmos em 30%, como o Nobel P. Krugman, que deu um jeitaço citar; só por isso já valeu a pena Krugman ter vindo a Portugal..aliviar as "bernardas" do sr. Borges;

- Borges, afinal concordou com António Vitorino quando este quis por no prato da balança qual dos dois investimentos era mais nocivo à economia: o público ou o privado. Borges teve medo, até porque a dívida privada é superior;

- Afinal, a questão já não é ideológica, é, tão somente, pragmática. Se calhar, foi por isso que Borges defendeu a venda pelo preço da "uva mijona" da Cimpor, e fê-lo no Parlamento como se fosse um verdadeiro ministro da Economia, relegando o Álvaro para as questões do aprovisionamento da internacionalização dos pastéis de nata;

- Afinal, Borges reconheceu que Portugal é o país que sofre das maiores injustiças sociais, apesar de aforrar mais hoje do que no passado. Borges percebeu que após ter dito umas asneiras teria que se penitenciar afirmando coisas de bom senso, que o apaziguassem com a opinião pública portuguesa. Coelho pediu-lhe essa tarefa, Borges cumpriu. Foi, pois, um bom aluno;

- Afinal, não há divergências nenhumas, o que há são pequenas divergências geradas pelas escassa clareza das palavras e dos conceitos que, por vezes, mistificam mais do que clarificam.

- Aliás, António Vitorino até sublinhou a ideia de que Borges é sempre muito claro, nem que, para o efeito, tenha que dizer uma coisa numa semana e defender o seu exacto contrário na semana seguinte, porque o império da opinião pública está à "coca", e não permite mais deslizes de natureza anti-social. Borges sabia que não poderia falhar na RTP, pois se o fizesse contribuiria para agravar ainda mais os índices de popularidade do PM e do Governo (ou "conselho de gerência", como diz um amigo) no seu conjunto;

- Borges compreendeu bem a lição dos erros ditos em público, e aproveitou o Prós&Contras para se redimir das anormalidades que defendeu recentemente, e pelas quais foi também corrigido pelo próprio PR, que sendo da sua área político-ideológica dele discordou frontalmente, afirmando que a melhoria da qualidade de vida não se faz à custa de abaixamento de salários, que foi o modelo económico terceiro-mundista defendido pelo neoliberal Borges;

- Borges também não compreendeu o sentido da União Europeia, desconhecia que esta criação jurídica e política complexa, que não é uma federação à americana nem uma confederação clássica, se faz com liberdade de movimentos, coesão social, solidariedade entre países e regiões; Borges ficou parado no tempo, por momentos pensei que ficara preso a um dos pilares do Mosteiro dos Jerónimos que sobre ele desabou em 1986, quando Soares assinou o Tratado de adesão à CEE, pois julgava que a UE tinha apenas uma dimensão de mercado e de estabilização financeira conducente ao euro; o que revela que este economista não conhece a história da evolução da construção europeia, cujos grandes líderes, como Delors, ele nunca soube citar;

- De facto, vivemos tempos difíceis, tão difíceis que até o sentido e alcance das palavras ganha uma amplitude dual, qual novilíngua, sendo que a síntese é sempre aquela  revelada pelo espírito e o sentir convergente com o gosto e o desejo das massas no momento, não vão elas, em fúria, rebelar-se contra um Governo moribundo que teve, tem e terá em Borges um porta-voz (não oficial) de luxo, que, no final, mais parecia um socialista com sinceras preocupações comunitárias, desenvolvimentistas e justicialistas - relegando para segundo plano aquilo que geneticamente sempre foi: um neoliberal puro e duro que, se mandasse por um dia na economia portuguesa, até o O2 que respiramos privatizaria;

- Afinal, Borges já quer salários mais elevados para os portugueses, o modelo económico (também já) pode não fundar-se apenas na austeridade...

- Numa palavra, as posições de Borges são perigosas porque o aggiornamento do seu duplipensar revela bem a duplicidade dos seus pensamentos sobre política económica que condiciona, em última instância, a vida de todos nós. Sobretudo, quando temos um PM que é altamente influenciado por este tipo de economistas estrangeirados que, lá fora, nenhum crédito têm nos planos intelectual e técnico, e até são despedidos, mas em Portugal agigantam-se dado o nosso crónico provincianismo cultural, intelectual e político. O Eça explicou bem este fenómeno que, pelos vistos, não mudou entre nós;

- Mais 15 minutos de programa e seria fácil ver Borges defender a manutenção da RTP sob tutela pública; para, dias depois, numa futura conferência de empresários interessados na eventual privatização da estação, defender a sua imediata privatização com a justificação da valorização dos activos e até como forma de desonerar o Estado desse fardo;

- Mas quando António Vitorino "lhe perguntou" pelo que tem sido feito pela atracção de IDE, o sr. Borges jogou os olhos para a mesa, enrolou a língua e..., voltou a ser aquele neoliberal cujos resultados para a economia nacional são exactamente iguais aos sucessos do ministro relvas na reorganização e reforma das "províncias" (e doutros serviços) em Portugal. 

- Em face do exposto, e como nota de pendor mais literário, apenas direi que se amanhã o 1984 de G.O. conhecer nova reedição, já sabemos quem seria a pessoa mais indicada para fazer o prefácio...



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segunda-feira

Ser alguém... Ainda o discurso de Sampaio da Nóvoa


Evoc. de Frank Sinatra.

Metafísica da tarde nesta nova semana:

- Meio mundo, comigo incluído, anda a comentar (e bem) o discurso de Sampaio da Nóvoa por ocasião do dia das Comunidades e de Luís Vaz de Camões (e da "raça", segundo outros). Um discurso simples e bem construído, mas que só se destacou pela mediocridade previsível dos demais.

- Foi, aliás, também assim que o actual Gov ganhou o poder ao Gov anterior. Ressalto uma das suas frases mais marcantes: "não conseguimos ser alguém no mundo se formos ninguém em nós..." O Pessoa pegava nisto e fazia uma omelete para uma companhia...

- Criou um belo efeito e, como diria Umberto Eco, foi uma nota que saiu "fora do molde", mas será que, um dia, chegaremos a saber quem verdadeiramente somos?!

- Como podemos ser nós mesmos, como deseja Nóvoa, se nós nem sequer sabemos quem somos!? Talvez esta equação seja mais complicada do que Nóvoa supõe.

- Excepto, claro, para aquelas sumidades mui provincianas que "nunca se enganam e raramente têm dúvidas"..

- Talvez o melhor seja fazer as coisas à Frank Sinatra, My Way...



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A inteligência e coerência de Sampaio da Nóvoa


Sampaio da Nóvoa, além de inteligente também é habilidoso e tem sentido de oportunidade, há anos que tenta mudar alguns aspectos da academia. Temas relacionados com a organização, a avaliação, o financiamento e a autonomia das universidades face à tutela. 

- Já no tempo do Gov anterior, Nóvoa sentiu dificuldade em convencer M. Gago para alguns desses aspectos. Com este Gov, sendo a insensibilidade e os constrangimentos financeiros maiores, essa dificuldade assume foros de cidade. Daí ter-se socorrido de alguém do séc. XIX, Alberto Sampaio, um intelectual que conviveu com os grandes do seu tempo, alguém que também marcou a vida académica, fez jornais, até viajou p/ os EUA com Antero de Quental, antes das célebres Conferências do Casino. Alberto Sampaio foi, pois, alguém que além de ter marcado o imaginário dos meios académicos de Coimbra, foi também alguém que se bateu pela renovação da Universidade em Portugal. 

- Foi, com efeito, essa a "boleia" histórica que Sampaio da Nóvoa apanhou para, no dia das Comunidades e de Camões (ou dia da "raça", segundo a cultura socio-antropológica de cavaco, quiça muito influenciado por Claude Levi-Strauss), deixar um traço indelével da sua marca, colando as preocupações da Universidade aos deserdados da vida, até porque Nóvoa sabe que entre os seus apoiantes para qualquer reforma, os mestres do passado são sempre mais activos do que os políticos do presente. 

- Estes, por regra, bloqueiam as reformas oriundas da academia, especialmente se essas reformas implicarem custos adicionais, os mestres do passado são sempre fonte inspiradora capaz de desencadear revoltas nas mentalidades e, por essa via, coadjuvar nas reformas pretendidas.

- Seja como for, e para ser coerente com o que disse, é desta que Sampaio da Nóvoa irá dar ordens aos serviços admin. da sua faculdade para cessar os condicionamentos à passagem de diplomas de licenciatura (e outros!!) sem que estes tenham sido pagos..

- Isto (também) permite aferir a coerência de Sampaio da Nóvoa..

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domingo

Sampaio da Nóvoa - o maior discurso que ouvi na minha vida



Sampaio da Nóvoa aqui a iluminar as consciências, a mostrar o caminho recuperando Roosevelt, Alberto Sampaio - e envergonhando os poderes públicos, mormente o Gov pela incapacidade congénita por não conseguir assegurar os bens básicos e as oportunidades às pessoas: segurança, emprego, igualdade, liberdade. No fundo, é disto que se trata, as coisas simples, que são, curiosamente, as coisas mais difíceis de alcançar. 

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O Império Acidental - por George Soros




O Império Acidental

 George Soros (via Público)
É agora evidente que a principal causa da crise do euro reside na renúncia do direito de emitir moeda por parte dos estados-membros, a favor do Banco Central Europeu. Os estados-membros não compreenderam tudo o que essa renúncia implicava – e as autoridades Europeias também não o compreenderam.
Quando o euro foi introduzido, os reguladores permitiram que os bancos comprassem quantidades ilimitadas de obrigações de dívida pública sem constituir quaisquer reservas de capitais próprios, e o BCE garantiu todas as obrigações de dívida pública da zona euro em condições equivalentes. Os bancos comerciais encontraram vantagens na acumulação de obrigações dos países mais fracos para auferir mais alguns pontos base, o que causou uma convergência de taxas de juro por toda a zona euro. A Alemanha, lutando com o fardo da reunificação, empreendeu reformas estruturais e tornou-se mais competitiva. Outros países aproveitaram fortes expansões na habitação e no consumo sustentadas por crédito barato, tornando-os menos competitivos.

Depois veio a crise de 2008. Os governos tiveram que resgatar os seus bancos. Alguns deles viram-se na posição de um país em desenvolvimento que se endividara pesadamente numa divisa que não controlava. Reflectindo a divergência no desempenho económico, a Europa tornou-se dividida entre países credores e devedores.

Quando os mercados financeiros descobriram que obrigações soberanas supostamente livres de risco poderiam ser forçadas a um incumprimento, aumentaram dramaticamente os prémios de risco. Isto tornou potencialmente insolventes os bancos comerciais, cujos balanços continham grandes quantidades de obrigações deste tipo, dando origem à simultânea crise Europeia da dívida soberana e da banca.

A zona euro está agora a imitar o modo como o sistema financeiro global lidou com essas crises em 1982 e novamente em 1997. Em ambos os casos, as autoridades internacionais infligiram sofrimentos na periferia de modo a proteger o centro; agora a Alemanha está a desempenhar inadvertidamente o mesmo papel.

Os detalhes diferem, mas a ideia é a mesma: os credores estão a transferir o fardo inteiro do ajustamento aos devedores, enquanto o “centro” evita a sua própria responsabilidade pelos desequilíbrios. Interessantemente, os termos “centro” e “periferia” entraram em uso de um modo quase desapercebido. Contudo, na crise do euro, a responsabilidade do centro é ainda maior do que era em 1982 ou 1997: o centro desenhou um sistema monetário defeituoso e falhou na correcção dos defeitos. Nos anos 1980, a América Latina sofreu uma década perdida; um destino similar espera a Europa.

No início da crise, uma desagregação do euro era inconcebível: os activos e responsabilidades denominados numa moeda comum estavam tão interligados que uma desagregação teria levado a um colapso incontrolável. Mas, à medida que a crise progrediu, o sistema financeiro tem-se reordenado cada vez mais ao longo das linhas nacionais. Esta tendência ganhou ímpeto em meses recentes. A operação de refinanciamento de longo prazo do BCE permitiu aos bancos espanhóis e italianos comprar as obrigações dos seus próprios países e beneficiar do diferencial de taxas. Simultaneamente, os bancos preferiram eliminar activos fora das suas fronteiras nacionais, e os gestores de risco tentaram equilibrar activos e responsabilidades internamente, em vez de no seio da zona euro como um todo.

Se isto continuasse por alguns anos, uma desagregação do euro seria possível sem um colapso, mas deixaria os países credores com grandes direitos sobre os países devedores, que seriam difíceis de cobrar. Para além das transferências e garantias intergovernamentais, os direitos do Bundesbank sobre os bancos centrais dos países periféricos no âmbito do sistema de compensação Target2 totalizavam 644 mil milhões de euros (804 mil milhões de dólares) a 30 de Abril, e o montante está a crescer exponencialmente, devido à fuga de capitais.

Portanto, a crise continua a crescer. As tensões nos mercados financeiros atingiram novos máximos. Mais revelador é que o Reino Unido, que reteve o controlo da sua divisa, goza das remunerações de dívida mais baixas da sua história, enquanto o prémio de risco sobre as obrigações Espanholas está num novo máximo.A economia real da zona euro está a decair, enquanto a Alemanha está a florescer. Isto significa que a divergência está a aumentar. As dinâmicas políticas e sociais também estão a contribuir para a desintegração. A opinião pública, como ficou expresso em recentes resultados eleitorais, está cada vez mais oposta à austeridade, e é provável que esta tendência continue até que a política seja revertida. Algo terá que ceder.

Na minha opinião, as autoridades têm uma janela de três meses durante a qual ainda conseguirão corrigir os seus erros e reverter as tendências actuais. Isso requererá medidas políticas extraordinárias para levar as condições mais perto do normal, e que deverão respeitar os tratados existentes, que poderiam então ser revistos numa atmosfera mais calma para prevenir a recorrência de desequilíbrios.

É difícil, mas não impossível, identificar algumas medidas extraordinárias que cumprissem estes duros requisitos. Teriam que atacar os problemas da banca e da dívida soberana simultaneamente, sem negligenciar a redução das divergências de competitividade.

A zona euro precisa de uma união bancária: um esquema Europeu de seguros de depósitos para refrear a fuga de capitais, uma fonte Europeia para financiar a recapitalização bancária, e supervisão e regulação por toda a zona euro. Os países altamente endividados precisam de alívio dos seus custos de financiamento. Há vários modos de o fornecer, mas todos requerem o suporte activo da Alemanha.

É aí que está o bloqueio. As autoridades Alemãs estão a trabalhar febrilmente para encontrar um conjunto de propostas a tempo da cimeira da União Europeia no fim de Junho, mas todos os sinais sugerem que só oferecerão o mínimo em que todas as partes podem concordar – implicando, mais uma vez, apenas alívio temporário.

Mas estamos num ponto de inflexão. A crise Grega é susceptível de atingir um clímax no Outono, mesmo se a eleição produzir um governo que esteja disposto a respeitar o actual acordo entre a Grécia e os seus credores. Nessa altura, a economia Alemã também estará a enfraquecer, e a chanceler Angela Merkel achará ainda mais difícil que hoje persuadir o público alemão a aceitar responsabilidades europeias adicionais.

Excluindo um acidente como a bancarrota do Lehman Brothers, a Alemanha fará provavelmente o suficiente para manter o euro unido, mas a UE tornar-se-á algo de muito diferente da sociedade aberta que uma vez incendiou a imaginação do povo. A divisão entre países devedores e credores tornar-se-á permanente, com a Alemanha a dominar e a periferia a tornar-se uma região secundária e deprimida.

Isto aumentará inevitavelmente a suspeita sobre o papel da Alemanha na Europa – mas qualquer comparação com o passado da Alemanha é deveras inadequada. A situação actual é devida não a um plano deliberado, mas à falta de um plano. É uma tragédia de erros políticos. A Alemanha é uma democracia funcional com uma maioria esmagadora a favor de uma sociedade aberta. Quando o povo alemão se aperceber das consequências – espera-se que não tarde demais – quererá corrigir os defeitos no desenho do euro.

É evidente o que faz falta: uma autoridade fiscal europeia que seja capaz e esteja disposta a reduzir o fardo da dívida na periferia, bem como uma união bancária. O alívio da dívida pode tomar várias formas para além das eurobonds, e seria restrito aos devedores respeitadores do pacto orçamental. Retirar todo ou parte do alívio em caso de incumprimento seria uma protecção poderosa contra os riscos morais. Cabe à Alemanha assumir as responsabilidades de liderança que o seu próprio sucesso lhe acarretou.

Tradução de António Chagas/ Project Syndicate

Obs: Não deixa de ser curioso que é, doravante, aquele que melhor e mais especulou em operações em bolsa que vem dar conselhos úteis aos Estados e à forma como devem sair da crise, ajudando também o sector bancário a não replicar os erros do passado recente. 

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