sábado

Reciclagem

Reciclagem, CMP
Ao contrário do que normalmente se pensa, a reciclagem é um processo vulgarmente utilizado. A incorporação de matérias recicláveis no fabrico de novos objectos e de novas embalagens é uma situação recorrente nos diferentes materiais: plástico, metal, papel, vidro ou madeira.
Todos os dias chegam às nossas mãos embalagens e outros objectos que foram produzidos graças à reciclagem das embalagens usadas que separamos em casa e colocamos nos ecopontos.
As vantagens da utilização de matérias recicladas em detrimento das matérias-primas virgens são várias e contribuem para uma melhor qualidade de vida das populações. A reciclagem permite poupar matérias virgens, protegendo os recursos naturais. A reciclagem do plástico, por exemplo, contribui para uma diminuição do consumo de petróleo, um recurso precioso. Já a valorização das embalagens de metal através da reciclagem permite poupar minérios. As sílicas, ou areias, removidas directamente dos leitos dos rios são a base para a produção do vidro. Utilizar vidro reciclado na produção de novas embalagens de vidro contribui assim para a preservação do ambiente. Já no caso do papel, a utilização de pasta de papel reciclado na produção de novos objectos e novas embalagens, evita o abate de milhares de árvores. A mesma vantagem ambiental acontece com as embalagens de madeira, cuja reciclagem evita o recurso a matérias-primas virgens.
Separar as embalagens usadas e colocá-las no ecoponto em vez de misturar tudo no mesmo saco e colocá-lo no lixo comum marca ainda uma diferença fundamental na quantidade de espaço ocupado nos aterros sanitários, prolongando o tempo de vida útil destes equipamentos.
Obs: Divulgue-se

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quarta-feira

Pinturas rupestres descobertas em Alegrete, Portalegre

"Do ponto de vista patrimonial (igreja, gruta e pinturas rupestres) é de uma importância extrema este achado", disse esta sexta-feira à agência Lusa Jorge Oliveira, professor responsável pelos trabalhos de arqueologia da UE.sic
"Este achado é importante porque traz consigo uma memória de cinco mil anos de história e de devoção naquele espaço", sublinhou.
O acesso à gruta, onde foram descobertas as pinturas rupestres esquemáticas de cor avermelhada, faz-se através de uma pequena porta oculta sob o altar da Ermida de Nossa Senhora da Lapa, espaço de culto erguido nos campos circundantes à vila de Alegrete.
De acordo com Jorge Oliveira, as pinturas rupestres, com mais de cinco mil anos, pertencem ao período do "Neolítico e Calcolítico".
Ainda que parcialmente cobertas por cal, estas pinturas revelam, segundo os especialistas, uma continuada sacralização do espaço, ao qual está associada uma antiquíssima lenda relacionada com um cavaleiro medieval.
"As pessoas visitam aquele espaço todos os anos, principalmente quando se realiza a romaria em honra de Nossa Senhora da Lapa, mas a comunidade não sabia bem o que ia visitar, nem tinha conhecimento daquelas pinturas", relatou.
Jorge Oliveira, que considera aquela ermida construída entre os séculos XVI e XVII de "elevado interesse religioso", apelidou também de "elevado interesse etnográfico" o culto desenvolvido pelos populares em redor de uma lenda relacionada com um cavaleiro medieval.
A equipa da Licenciatura e do Mestrado de Arqueologia da UE vai iniciar, na segunda feira, os primeiros trabalhos de estudo daquele sítio histórico, no âmbito de um protocolo estabelecido entre a Junta de Freguesia de Alegrete e a EU.
Numa primeira fase, além da elaboração do levantamento topográfico do local proceder-se-á à fotografia e decalque das pinturas já visíveis e a prospeções arqueológicas na área envolvente da ermida.
A continuação dos trabalhos está prevista para o próximo verão, prevendo-se a limpeza da cal que cobre grande parte das pinturas.
"Vai ser complicado trabalhar naquele espaço pela ausência de luz e a cal que cobre algumas das pinturas também não vai facilitar o nosso trabalho", disse.
A equipa de trabalho da UE está ainda a equacionar a possibilidade de sondagens arqueológicas no interior da gruta.
Os trabalhos arqueológicos foram recentemente aprovados pelo Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) e autorizados pela Diocese de Portalegre e Castelo Branco, que tutela aquela ermida.
"A gruta tem um potencial arqueológico interessante que nos vai possibilitar uma escavação que nos poderá levar à identificação de que tipo de vivencias ou depósitos arqueológicos é que estão no chão desta gruta", concluiu.
Lusa
Obs: Aqui está mais um achado histórico de enorme valia cultural e arquitectónica que pode - e deve - ser potenciado no âmbito das estratégias de afirmação do turismo cultural e religioso em Portugal, e no Alentejo em particular.

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José Régio: um homem plural e actual. O triplo movimento psicológico, cultural e sociológico

Minha consciência cada vez maior da

terrível e religiosa missão que todo

o homem de génio recebe de Deus

com o seu génio.

Fernando Pessoa

Ventura Porfírio, Poeta de Deus e do Diabo, 1958Óleo sobre tela, 138,5 x 108 cmCâmara Municipal de Portalegre, Casa-Museu José Régio

José Régio

«Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira. Nasceu em Vila do Conde, em 1901. Licenciou-se em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos, no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista Presença e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, é como poeta que primeiramente se impôs.

Com o livro de estreia - poemas de Deus e do Diabo (1925) - apresentou José Régio quase todoos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos dentre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano; o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante si mesmo. Em Biografia (1929), os vários aspectos desses temas surgem cristalizados em sonetos (alguns deles modelares) e ordenados num esforço de poemas cíclicos em suspenso. Mas, com as Encruzadilhas de Deus (1936) José Régio atinge os momentos mais altos da sua poesia torrencial e reflexiva, ao mesmo tempo lírica e dramática. Depois, intenta dissociar esses dois pólos da sua inspiração, canalizando doravante o ímpeto dramático para uma específica criação teatral e reservando então para a obra poética, em verso, os recursos de um Herismo pouco evoluído, ora moralístico, sentencioso, ora sentimentalmente estremecido, mais preso à lição dos grandes líricos do século passado do que vinculado a qualquer experiência da modernidade. E, se ainda é cedo para avaliarmos o que significou, para a evolução do teatro português, peças como Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a virgem Mãe (1947), El Rei Sebastião (1949); A Salvação do Mundo (1953) ou As Três em Acto (1957) - é, todavia, desde já possível assegurar que a poesia de José Régio, reduzida ao lirismo, muito perdeu de força primitiva, em livros como o Fado (1941), Mas Deus é Grande (1945) e A Chaga de Lodo (1954). Estes três livros não deixaram no entanto, de evidenciar um progressivo virtuosismo métrico e particularmente o primeiro é o último - notáveis qualidades de coragem na sátira social.».*

* in Dicionário de Literatura, campanha Editores do Minho - Barcelos, 2º volume, 1971.

Notas MACRO:

Com efeito, a problemática literária, cultural e metafísica em José Régio é tão actual ao tempo em que viveu e escreveu como na contemporaneidade, já na dobra de outro século e d' outro milénio. Contudo, nessa trajectória as sociedades evoluíram, o mundo redefiniu-se, as tecnologias sofisticaram-se, o quadro de mentalidades também já não é o mesmo.

Toda a natureza da técnica e da tecnologia (humana) recriou novos mundos, novos desafios e novas crises, a política passou a viver de "pseudo-factos" (os factóides) dinamizados em múltiplas narrativas de imagens sobre imagens; a economia passou a ser uma ciência ainda mais contigente, mas, lá está (!!!), a problemática na obra de Régio continua actual e suscita interessante reflexão sociológica, indo, pois, para além das balizas da literatura que produziu:

  • 1) A relação do Homem com Deus permanece actual, ou até acentuando-se dada a crise da fé, das ideologias e da própria crise económica e cultural que a civilização nos impõe;
  • 2) A relação do indivíduo com a sociedade atomizou-se por força da implosão da instituição da família, da emergência de novas relações de género (casamentos gay, por exe.,);
  • 3) E apesar d' hoje termos todas as tecnologias de massa que nos conferem faculdades que, sendo crentes, só imputamos a Deus (como a ubiquidade, a omnipotência, a omnipresença e a omnisciência) - o conceito de "solidão" em Régio mantém actualidade, e até nos remete para aquela outra ideia, talvez mais elaborada no plano sociológico, de multidão solitária de David Riesman - que nos diz que a reforma das estruturas sociais pode (ou não) reconciliar os indivíduos consigo próprios. Por isso, podemos andar integrados em multidões ou em tribos e sentirmo-nos sózinhos, desarticulados com o "outro", incompatibilizados com a sociedade e até em conflito com o Estado - que também acaba por reproduzir os mecanismos sociais (de violência latente) que agravam ainda mais essa atomização do indivíduo na Idade Global em que vivemos. Daí a extrema actualidade da problemática da obra de José Régio, embora matizada com outras nuances e integrando outras variáveis não previstas na década de 20 do séc. XX findo.

Ora, sendo eu um fraco conhecedor da obra do poeta em questão, pergunto-me onde reside hoje o valor destes homens de cultura!? A resposta, para mim, é simples: a importância destes homens mede-se pela sua capacidade de resistir à ditadura e à malha do tempo, às modas, às correntes culturais que passam - e desactualizam (ou não) a obra d'uns, e valorizam a obra d' outros autores que entre nós estão um pouco esquecidos.

Sobretudo num tempo de intensa comunicação, pautado pelo avanço tecnológico, alguns dos questionamentos de José Régio também servirão para nos perguntarmos se, de facto, o dito progresso tecnológico, aliado às novas formas de comunicação, contribuem realmente para a aproximação das pessoas (sociedades, povos e culturas, mormente num mundo multicultural e global em que vivemos) e, assim, dissolver alguns dos seus questionamentos e/ou equações metafísicas?

E se sim, em que termos, já que uma das derivas reflexivas da obra de Régio integra a problemática da sinceridade e do logro perante os outros, perante a sociedade.

Vejo também aqui uma especial capacidade antecipatória e prospectiva para que o poeta, o dramaturgo, o ensaísta e o romancista conseguisse prever o esprit du temp, ou seja, antecipar a lógica interna à dinâmica daquilo que veio depois a pautar as relações sociais - nas suas dimensões micro e macrosocietárias - que hoje, consabidamente, se alimentam de elevadas doses de cinismo e de hipocrisia - valores esses contraditórios com essa busca incessante em Régio quando visava o valor da "sinceridade".

No fundo, é assim, como leigo da sua obra, que vejo Régio: um certo esforço de racionalização da cultura e da literatura como formas de compatibilizar e harmonizar o homem com Deus, com a sociedade e consigo mesmo.

É, portanto, neste triplo movimento cultural e psico-sociológico que interpreto a vida e obra de Régio nos nossos dias. Alguém que compreendeu os desejos e as pulsões humanas (Freud), mas também compreendeu que a civilização é sobretudo uma forma de censura e de repressão, tendo em linha de conta a sua problemática, como acima sublinhei a verde.

Por último, importa referir que Régio nos falou muito da "angústia e da consciência da frustração", sentimentos também apreendidos em Freud ao considerar a civilização, mas a morte desses males ("angústia, sofrimento, frustração") só poderá, dentro e fora da obra do romancista José Régio, dissolver-se ou atenuar-se mediante a "tal" reconciliação do homem consigo mesmo (e com Deus), e isso só se consegue pela reforma das estruturas sociais e económicas do nosso tempo, compatibilizando, nessa trajectória, Freud com Marx.

Creio que Régio, se hoje estivesse entre nós, se bateria por fazer da literatutra e das artes em geral - uma arma social - no melhor sentido, i.é, visando o bem comum das comunidades. Aliás, muitas das suas inquietações poderiam até ser hoje retomadas por muitos de nós: indivíduos, movimentos sociais, associações cívicas, ONGs, igreja, enfim, sociedade civil no seu tecido conjuntivo.

Desse modo, será mais fácil operar a mudança de valores que hoje se impõe em vista à construção duma sociedade mais perfeita. Até porque os homens de cultura não são alheios aos progressos do seu tempo, e devem, consoante as conjunturas, coadjuvar o Poder quando a trajectória social segue no bom sentido, ou criticá-lo quando os indicadores socioeconómicos são uma lástima entre nós (e na Europa e no mundo).

Por isso, veria com alguma facilidade (caso o poeta fosse vivo) - Régio estar hoje profundamente ligado ao teatro de intervenção, fazendo e refazendo as suas peças, talvez com menos drama e mais tragédia, possibilitando a inúmeras companhias de teatro do nosso país representar muitos - À espera de Godot - do nosso tempo.

Embora o núcleo de preocupação e reflexividade em Régio fosse saber como harmonizar antinomias difíceis, que são eternas e, por isso, não se resolvem por decreto ou com uma simples mudança geracional ou de evolução do quadro de mentalidades. Uma tarefa difícil no nosso tempo.

Até que essa harmonização de sentimentos, desejos e interesses - profundamente contraditórios - se acomode no espírito humano e na sociedade, resta-nos repensar a obra de José Régio à luz da contemporaneidade, como alguns intelectuais e escolas fazem entre nós, e bem, e, ao mesmo tempo, reequacionar as lições culturais e sociológicas que dele podemos extrair para compatibilizar todas aquelas antinomias que Régio nos deixou.

E não foram em vão... Se não formos por aí!!!

A grande questão está, no plano social, cultural e político, em determinarmos, com precisão, o que significa esse "aí".

PS: Dedicamos estas simples notas a todos os amantes e cultores da obra de José Régio, que viveu e trabalhou em Portalegre, boa terra.

João Villaret :: Cântico Negro :: José Régio

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