sexta-feira

Alexandre O´Neill - um escritor de agora, para sempre

Nota prévia: Alexandre O´Neill - um escritor de agora e para sempre. Um rebelde à solta que nunca se vergou aos ditames duma sociedade neofeudal que saiu da transição do salazarismo para uma democracia que veio a revelar-se impreparada, corrupta, deslumbrada, oportunista e que não soube preservar e potenciar os ideais do 25A de 1974. Hoje é o aniversário da sua morte, por isso aqui o evocamos - relembrando a importância do seu imenso legado: enquanto escritor, criativo/publicitário, poeta, homem público e o mais. 


  1. Nascimento: 19 de dezembro de 1924, Lisboa
  2. Falecimento: 21 de agosto de 1986, Lisboa

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca' 
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Evocação de Alexandre O´Neill. Amigo e Motete



[1924-1986] - 
Faria hoje 90 anos se fosse vivo este grande autodidacta. Mas não precisa, pois já se imortalizou. 

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A água da fonte
canta e brilha
a sonhar-se redonda
na tua bilha.

E já no copo, a brilhar,
pressente a simples beleza
de estar assim sobre a mesa,
familiar.

Mas bebe-a, bebe-a também,
com o seu peso e o seu brilho,
e sentir-se-á como o filho
na doçura da mãe.

1964. Fac-simile in Relâmpago. Rev. Poesia, nº. 13, Out. 2003.


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Amigo
Mal nos conhecemos 
Inaugurámos a palavra «amigo». 

«Amigo» é um sorriso 
De boca em boca, 
Um olhar bem limpo, 
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece, 
Um coração pronto a pulsar 
Na nossa mão! 

«Amigo» (recordam-se, vocês aí, 
Escrupulosos detritos?) 
«Amigo» é o contrário de inimigo! 

«Amigo» é o erro corrigido, 
Não o erro perseguido, explorado, 
É a verdade partilhada, praticada. 

«Amigo» é a solidão derrotada! 

«Amigo» é uma grande tarefa, 
Um trabalho sem fim, 
Um espaço útil, um tempo fértil, 
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa! 

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca' 


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Motete

Toma a mota. Monta. Arranca. Aí vais traquejando. Que tara. Que ponta. Que taraponta. Estás na montra mas na partas a tonta. Rápido é pá derrapa. Acelera já. Olha o tarado trava. Levanta-te. Está na hora. Paga.

in DL, 1971.


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segunda-feira

Evocação de Alexandre O´Neill e Mário Henrique Leiria

A alegria de ser eleito
a alegria de ser notado
a alegria de se perfeito
a alegria de ser devorado

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in Espólio de M. Henrique Leiria (Bibl. Nacional de Lx), cit. por T. Martuscelli in Alexandre O´Neill, Cadernos do Centro de Estudos do Surrealismo, Fundação Cupertino de Miranda, VNF, 2002, pág. 13. 


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Obs: Circunstâncias há na vida das nações em que são os poetas quem melhor define a situação política do país, a condição de boa parte da sua classe e das suas elites e da miséria que encerra a própria natureza e condição humanas. 

Assim como os assuntos de guerra não deviam ser apenas entregues a militares, também a frágil situação em que nos encontramos, designadamente com os escândalos financeiros e políticos relacionados com dos vistos GOLD e a mega-fraude dos GES/BES, a que se soma a detenção do ex-pm - não deve ficar apenas nas mãos de uma republicazinha de dois ou três juízes e procuradores do MP. 

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