domingo

Putin quer ser o czar do novo tempo. Procura vencer militarmente o que perdeu pela vontade popular


Putin Crowning Himself as Czar


Nov 23, 2007 by 
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Riber Hansson, Svenska Dagbladet, Sweden
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Este cartoon espelha eficientemente o desejo de Putin em se sagrar o czar do novo tempo. Alguém cuja missão é manter o "império" (imaginário, do Atlântico aos Urais), nem que seja com recurso à força militar e violando a soberania, a independência e a integridade territorial de outro Estado: a Ucrânia - que decididamente entendeu querer alinhar-se preferencialmente com a União Europeia e o Ocidente. Decisão que desagrada à Rússia de Putin que pretende contrariar essa orientação por todos os meios, incluindo o militar, como se vê pela deslocação de forças russas para a Crimeia onde, de resto, tem forças navais estacionados por inúmeros portos e baías que caracterizam a península da Crimeia. 

Putin pretende, doravante, ser uma espécie de novo Nicolau - que no séc. XVIII fez da Polónia uma província russa e instaurou um governo absolutista. Contudo, Putin sabe que não tem consigo a força da razão, por isso vai jogando com a razão da força e potencia os movimentos nacionalistas como forma de enfraquecer o núcleo do poder ucraniano e, desse modo, facilitar o controlo russo sobre o país que quer ser verdadeiramente soberano e independente da Rússia. 

Putin já não pode fazer com a Ucrânia no séc. XXI o que o antigo imperador Nicolau fez com a Polónia no séc. XVIII, que aniquilou os insurrectos e anexou a Polónia. 

Putin parece nada ter aprendido com a história, ou finge nada ter aprendido para continuar a desenvolver o expansionismo russo dentro da sua área tradicional de influência. 

Por volta de 2005 - com as chamadas revoluções coloridas que inquietaram o oligarca corrupto - Putin receou que aquelas revoluções questionassem as suas ambições regionais como também porque temia que os exemplos da Geórgia e agora da Ucrânia pudesse ser seguidos na própria Rússia. Desta feita, Putin foi convencido pelos colegas mais conservadores que era urgente controlar, restringir e até em certos casos encerrar certas actividades de ONGs internacionais. 

As inquietações de Putin podiam parecer absurdas, mas não era deslocadas. Sucede que na era pós-Guerra Fria, um liberalismo triunfante visava expandir o seu troféu estabelecendo como princípio internacional o direito da comunidade internacional intervir contra estados soberanos que violam os direitos dos seus povos. À luz de Putin as ONGs internacionais interferem em políticas domésticas, como tal teriam que ser interditadas. Com efeito, organizações como a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) que monitorizam e formulam juízos no âmbito de processos eleitorais; peritos legais internacionais falam em alterar o direito internacional no sentido de integrar conceitos emergentes como a "responsabilidade de proteger" ou renúncia voluntária à soberania. 

Estas organizações e inovações eram completamente rejeitadas pela matriz de pensamento de Putin. Na prática, elas só se aplicam verdadeiramente aos países genuinamente democráticos - que passam a dispor do direito de intervirem nos assuntos internos dos países não democráticos. 

Lamentavelmente para os russos (e também para os chineses) e outras autocracias, esta é uma área onde estão de acordo, como se ainda se vivesse o regime da Guerra Fria, houvesse zonas de influência, estados satélites, zonas tampão, bipolarização do mundo, etc...

Putin, em rigor, já deu provas de manipular a Constituição para se perpetuar no poder. É um ex-KGB perigoso que não civilizou o regime político russo, antes pelo contrário. É hoje um homem acossado por ter perdido alguns dos seus troféus que outrora integravam o império e por já não dispor do Pacto de Varsóvia e da rede de aliados que ele proporcionou durante quase meio século de existência e em que o mundo, por diversas vezes, esteve à  beira de um conflito nuclear. 

Putin tem que compreender que a Ucrânia não é uma versão reeditada da Primavera de Praga, e que as suas imprudências devem ser severamente castigadas neste 1º quartel do séc. XXI pela Comunidade internacional. 

Putin, por fim, tem também a dinâmica da história contra si. Mesmo que ganhe uma batalha, essa vitória não deixará de ser de Pirro..


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