terça-feira

Governo e Liderança: algumas ideias básicas

A crise aberta na liderança do PSD implica algo mais do que a mera escolha de mais um líder, é um problema mais complexo e no qual importa meditar. Embora as coisas nesse partido se passem com um índice de violência e de melodrama que não ocorre noutros partidos. No PS por exemplo - dada a composição, história e cultura do partido do Largo Rato, as ideias acerca da própria liderança não podem ser dissociadas de uma certa ideia para o País bem como da nossa cultura e história.
Ou seja, em qualquer parte do mundo a exigência de organização na comunidade implica sempre um líder - ou uma liderança (mais ou menos individualizada). E esse líder é originalmente aquele que goza simultaneamente da autoridade, do prestígio, da influência e da força. Cavaco, por exemplo, conquistou a sua autoridade como ministro das Finanças e só depois granjeou as outras componentes na estruturação do poder - razão pela qual, e porque modernizou e desenvolveu Portugal - esteve no poder uma década. E hoje em Belém, como PR, ainda é confundido por alguns portugueses que se interrogam se ele não estaria melhor em S. Bento!? Mas como Sócrates é muito parecido - no estilo e no método - as pessoas não conseguem fazer a distinção...
Seja como for, o líder é sempre aquele "animal político" (ou politikon zoon) que mete ordem na selva, ele é o chefe do "reino animal" de um País. E alguns merecem mais ou menos devoção em função do seu estilo e imagem. Seria aqui uma injustiça comparar Cavaco a MMendes ou mesmo a Santana Lopes.
O problema aumenta quando são as próprias sociedades a gerar os maus líderes (Santana e Meneses representam esse paradima negativo recente), pois sempre que isto ocorre o sistema nem sempre encontra a adequada válvula de escape para sair do perigo em que incorreu, ou quando o faz é só ao fim de algum tempo. Sendo certo que as pessoas que delegaram nesse político o seu poder ficaram profundamente frustradas por se sentirem mal representadas ou por as decisões que aqueles representantes tomaram se revelarem um erro.
Então, se as pessoas - os eleitorados - (entenda-se) não têm a capacidade concreta de escolher entre a proposta A, B e C - se desconhecem os fundamentos teóricos, programáticos e os objectivos estratégicos que animam essas candidaturas - mais uma vez elas incorrem no mesmo erro: escolher pessoas que têm, evidentemente, sérias limitações. Em particular, o sr. Meneses não deveria ter só dado um mês aos seus adversários internos para irem às directas, pois isso não dá tempo para os candidatos se preparem, discutir as suas propostas e, assim, esclarecer a opinião pública e convencer os respectivos eleitorados. Logo, também aqui a compressão do tempo é uma armadilha (de Meneses) e joga contra a construção de uma liderança que se quer credível.
Por outro lado, a liderança é algo de colegial, de grupo, um trabalho em equipa cada vez mais necessário. Até o próprio presidente dos EUA, o homem mais poderoso do mundo em termos de capacidade de decisão depende, dadas as complexidades crescentes da governação, dessa estrutura colegial que gravita à sua volta e o aconselha o melhor possível, embora nem sempre da forma mais realista. Ou seja, a liderança é, hoje, uma função demasiado pesada para um só homem, apesar de o cargo de PM ou de PR ser, de facto, bastante individualizado e unipessoal.
Todavia, podemos romper com a cultura política tradicional por causa da natureza das novas tecnologias e até das nossas próprias motivações e interesses, que mudam - por extensão - à velocidade em que a tecnologia o faz. Tudo factores que alteram algumas condições em que a liderança política é exercida. Podemos hoje ter um sistema de voto instantâneo acerca de um problema comum, as sondagens também são mecanismos que alteraram as regras do jogo, a net veio, por outro lado, "despir" ainda mais a lógica do poder. Meneses, creio, tinha até um blog onde escrevia textos que não eram de sua autoria e não citava a fonte, como devia. Alguém notou essa incorreção e a denunciou no ciberespaço. Como resultado o autor mandou encerrar o blog. Eis apenas um exemplo comesinho em como estas novas tecnologias ora promovem uma pessoa ora a deitam a baixo - neste jogo ambivalente em que se traduz fazer política hoje.
Através de sofisticadas técnicas estatísticas apoiadas e manipuladas informáticamente com apenas um pequeno número de eleitores, e diminuídas as margens de erro que o método implica - pode-se representar os desejos de todas as pessoas de uma comunidade. Ora, isto revela um perigo tremendo para a Democracia e a Liberdade pelo efeito de sugestão de erros que tais estudos podem induzir na mente colectiva das pessoas.
Viver em regime permanente de sondajocracia - i.é, com a mania e a obsessão pelas sondagens gera duas tendências perigosas à construção de qualquer liderança: 1) abrir mão de propostas populistas e demagógicas (que foi precisamente o que "matou" politicamente Meneses"); 2) e procurar governar ao ritmo em que os media fabricam as notícias para consumo mediático. Estas duas derivas articuladas representam hoje, além da incompetência natural de alguns players no espaço político, um dos maiores perigos ao exercício da Democracia, da Liberdade e da identificação de Lideranças credíveis que possam apresentar projectos de sociedade credíveis.
Mesmo a escolha do processo das directas que este PSD de Gaia encontrou para crucificar os seus inimigos internos - revela mais um erro estratégico na condução e estruturação da liderança do PSD. A via do Congresso, pela natureza reflexiva das coisas, seria mais adequada ao momento de apresentação e debate das diferentes moções que fossem a jogo no congresso, esclarecendo melhor as táticas e as estratégias que ambos pretendem para o País a partir do novel PSD. As directas, mais uma vez, apenas servem duas coisas: 1) a vingançasinha intestina de Meneses para com os seus inimigos internos que durante um semestre o fustigaram; 2) e a ausência de debate político sério que diferencie as diversas propostas que dentro do PSD iram a jogo.
Isto significa que até no esquema processual Meneses (e santana) estão a sacrificar a vida do partido em nome de interesses pessoais tendo em vista ficar, novamente, com o partido nas mãos pela escolha do método e da via burocrática seguida para identificar a liderança emergente. Razão por que as directas deveriam ser eliminadas deste contexto.
Além de que a escolha das directas nunca é "um falar verdade" para a sociedade, para fora do partido. Ora, a escolha de uma liderança é simultaneamente duas coisas: encontrar um líder forte que "arrume a casa" e seja, ao mesmo tempo, alguém com visão e rasgo que consiga convencer uma comunidade de que uma sociedade alternativa é possível (no Estado, nas empresas e junto das pessoas).
Quando os portugueses olham para o que se está a passar no seio do PSD e comparam aquilo que Sócrates tem feito (ainda que com alguns erros e algumas promessas que esperemos possam ser cumpridas até ao termo da legislatura) tiram uma conclusão tão óbvia quanto linear: a alternativa a Sócrates é o próprio Sócrates.
Se alguém tiver dúvidas faça em privado a mesma pergunta a Meneses e a Santana...
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IMPRESSIONANTE:

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