quinta-feira

As derivas - por Baptista Bastos -

Teve, por escasso tempo, um estribilho: "Partido Socialista / Partido Marxista", o punho esquerdo cerrado, e a afirmação de que se destinava a construir uma sociedade fraterna e, naturalmente, sem classes. A referência a um qualquer bem comum e o desiderato de modificar o mundo para alterar a vida "correspondiam ao ar do tempo", como futilmente "esclareceu" um dos fundadores, para justificar as flutuações do partido. Enfim: as coisas são como são, e até o PPD, actual PSD, afinou pelo mesmo diapasão, chegando, mesmo, os seus militantes a tratar-se, amorosamente, por "camaradas."
Esta crise no PS, outra das muitas, resulta dessa ambiguidade ideológica, a que os prosélitos mais conhecidos dissimulam com a retórica da "pluralidade". Afinal, que é ser "socialista"?, num universo dominado pelas leis do "mercado" e por um capitalismo desregularizado (como se o capitalismo alguma vez se deixou ou deixasse "regularizar"). A resposta só pode ser dúbia, porque a própria característica das sociedades se tornou confusa. Mas chegar-se ao ponto em que o étimo "socialismo" foi deliberadamente confrontado com as incertezas trabalhadas pelo adversário, aí, tudo muda de figura. É verdade que não foi o pobre Seguro o único responsável por tal mixurafada. Mas foi ele, acaso por ignorância, acaso por tola ambição, quem transformou o PS num decalque do PSD, sem ninguém saber, realmente, o que é, hoje, o PSD, se alguma vez se soube. A balbúrdia é geral.
É este imbróglio doutrinário, político e ideológico que tem determinado a fadiga dos eleitores e a desconfiança ampliada do povo nos políticos. Seguro foi vítima deste enredo, que ele próprio animou. E Costa, emergindo dos prudentes silêncios, põe em causa a circulação do poder, assumindo o papel de salvador em uma situação que me parece não ter salvação possível. A grande questão reside no sistema (capitalista, bem entendido), e na inversão de uma política predadora que se tornou endémica, previsão de Marx e, calcule-se!, de Aron no ensaio Marxismes Imaginaires, Idées / Galimard (possuo a edição de Fevereiro de 1970).
Há uma remodelação a fazer-se como um todo. É uma tarefa aparentemente impossível, por abalar as estruturas centenárias e cristalizadas, até agora inabaláveis. Até agora não quer dizer para sempre. E pure si muove.
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Obs: Apreciei esta citação de Raymond Aron feita pelo articulista, ainda que a propósito desta "mixurafada". 
Felicite-se BB pela lúcida análise. 

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