terça-feira

Camões e parte do seu legado político. Tudo muda para que tudo fique na mesma


Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades



Tudo muda para, afinal, tudo regressar ao ponto de partida desse eterno retorno. Se no plano existencial e metafísico essa é uma lei natural inelutável à qual não podemos escapar, na esfera política não a podemos aceitar, de forma fatalista, até pelos efeitos nefastos que gera nas sociedades e nas populações em concreto.

Mas tudo muda, como diria Camões, ainda que no quadro duma permanência de hábitos e costumes esmagadores: as relações de força entre as pessoas, os países e as empresas, a repartição das riquezas, o quadro de mentalidades e também a política, ou seja, a luta constante pela conquista e pela conservação do poder, o modo de usar o poder, as razões que o fundamentam e até mudam os motivos de abandono do poder, variáveis com o tempo e as lideranças. 

Mas enquanto constatamos estas subtilezas mais ou menos óbvias, notamos todos que estamos cansados de mentiras: ainda por cima mentiras tão torpes quanto idiotas, a espelhar bem a cultura e a preparação  técnica dos seus autores. Pois até na arte da mentira, uma arte antiga e de que sempre se usou e abusou, há que saber montá-las, e é também nessa arte que aferimos pela "qualidade" dos seus autores. 

Agrade ou não à hipocrisia dos homens, a verdade é que os combates políticos sempre se estruturaram em torno de valores e de princípios éticos que estiveram em conflito. O que ontem era verdade continua a sê-lo hoje, qualquer que seja o regime. Nos regimes tirânicos e depois totalitários, todos os meios eram bons para garantir a dominação, então fundada no império do medo. E nesse império se burilavam mentiras, violações de vária ordem, massacres.

Com as ditaduras modernas, de Lenine a Mao, passando por Il Duce, Estaline (talvez o mais criminoso no séc. XX), Adolfo, Saddam, entre outros, podendo incluir aqui todas as ditaduras do velho e esfarrapado continente africano, as coisas não eram muito diferentes. 

Os meios modernos, "envernizados" com a propaganda, alterou o método da domesticação dos povos, sempre com o fito de os reduzir à sua condição passiva, que os privava das liberdades cívicas que os impedia de contestarem eficazmente os poderes públicos que os tiranizavam.

Com isto pretendo sublinhar o facto de serem as liberdades que, de facto, emprestam sentido à democracia, e o político, ao invés do passado, já não guia a sua acção com a preocupação de amedrontar os povos que lidera, mas procura governá-los por recurso à simpatia, ao agrado fácil e abrangente, à sedução permanente em que se converteu a arte de governar. No fundo, saber agradar a gregos e a troinanos.. Por vezes, em vão.

Daí a celebração da democracia em todo o mundo, potenciada pela utilidade que concede aos povos, afastando os métodos do poder não convergentes com ela. Mas este utilitarismo da democracia não bastou, de facto, para acabar com a velha contradição de valores, hipocrisia e mentiras - com que hoje se governa - e se engana as pessoas. Ao ponto de, tal como quem conta uma mentira, ter de encadear mais uma centena de mentiras para suportar a mentira inicial, de modo a que o engano e a ilusão tenham eficácia junto dos destinatários.

É nisto, em rigor, que se tem convertido a governação em inúmeras democracias contemporâneas, mormente em Portugal, neste rectângulo na Europa; e é por ser assim que devemos perguntar, afinal, qual a diferença entre democracia e ditadura, já que parece ser o mesmo, como ensina o florentino, Nicolau: a conquista e a conservação do poder, quaisquer que sejam os meios que tenham de ser envolvidos para atingir determinados fins. 

Todavia, o recurso à mentira coloca uma questão que atravessa ao mesmo tempo a democracia e a ditadura, unindo ambas pelo mesmo fio fatal, ou seja, a mentira revela-se ainda mais eficaz em democracia porque permite captar votos e manipular vontades do maior número de pessoas de forma doce e suave, enquanto que a utilização da mentira em ditadura impõe-se pela força, logo com mais resistência por parte das populações. 

Até nisto, as democracias ficaram mais expostas ao risco, à simulação e à dissimulação na manipulação das vontades do que as ditaduras - que dominam as populações pela força, não tendo, por isso, o trabalho de as convencer pela via argumentativa. 

O que se verifica hoje em Portugal? 

- O programa do Gov é um, mas a práxis política é outra; onde seria suposto encontrar valores, seriedade, competência e qualidade nos titulares de cargos públicos, encontramos aquilo que cada um de nós conhece mais ou menos bem desses mesmos titulares; o agenda-setting é o "arquitecto" das políticas públicas, e não o planeamento racionalizado dessas políticas; onde seria suposto identificar um desígnio nacional e um rumo para Portugal, encontramos a crónica submissão de Portugal à Alemanha de Merker e, mais grave, um deserto de ideias que não concede a Portugal nenhum papel na Europa e no mundo, apesar da nossa história e tradição cosmopolita. 

Não há, hoje, em Portugal uma única circunstância que dignifique as pessoas e o país. País que pede às pessoas que emigrem, solicitação que nem em ditadura António de Oliveira Salazar se arrogou comunicar aos seus concidadãos. 

Hoje Portugal precisa de heróis e só encontra uma cultura enraizada de chico-espertismo traduzida em turbo-licenciaturas que, provavelmente, serão apenas a ponto do iceberg que esconde muito mais do que aquilo que os portugueses julgam existir. 

Mas é o que temos. Sendo certo que a programação irá seguir dentro de momentos...

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