segunda-feira

O meu tempo

  • O MEU TEMPO. O FUTURO-PASSADO-PRESENTE. AS OUTRAS DIMENSÕES.
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  • A modernidade e a Oliveira. O Futuro do tempo.
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Os relógios sempre exerceram em mim tremendo fascínio. Em puto, depois das bicicletas, do peão e dos berlindes - os relógios ocupavam o meu imaginário. A melhor prenda que me podiam dar era um relógio, mesmo avariado. Embora o meu pai fosse incapaz disso. Sempre tive imensos relógios. Hoje, na fronteira dos 40 anos, recordo esse tempo de fascínio por essas máquinas incríveis que, por vezes, tudo cumprem: fascínios, gostos, estatutos sociais - e até dão mal as horas. O relógio representava um esconderijo, um mistério. Por vezes, pensava que por detrás daquela caixa de metal havia um mundo por descobrir. Depois tentava perceber esse mundo. Sacava de um canivete e abria a caixa forte do relógio. Porventura, esquecia-me que não era relojoeiro e lá escavacava mais um relógio. Infelizmente, isto não era a excepção, era a regra. Daí o dispêndio que os meus pais tinham comigo só para me manterem um relógio estável no pulso. Num ano, a armar às mecânicas, era capaz de escavacar meia dúzia de relógios. Depois guardava-os, como quem ía a um funeral, e ficava triste, angustiado - até que o novo relógio rolasse no meu pulso, à espera da morte súbita.. O ciclo repetia-se nas malhas do tempo.
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Mais do que guardadores do tempo, e de um templo que sempre me fascinou, os relógios eram - são - para mim um mistério. Um cheiro de futuro que nunca consigo captar. Mas quando vejo um relógio vejo-me menino de novo. Posso esquecer o peão, o bilas e até a bicicleta onde partia os dentes e os queixos semanalmente - mas não esqueço os relógios. Image Hosted by ImageShack.us Em particular, um velho Cauny Prima - swiss made - com um ponteiro de segundos vermelho que era um verdadeiro brilhante a perturbar-me os neurónios. Era redondo, parecido com o de cima. Foi comprado pelo meu Pai para oferecer ao meu avô na década de 50 do séc. XX. Eu nasci a meio da década seguinte. Acho que o meu avó ainda agradeceu o gesto ao meu pai. E andou com ele até morrer, na década de 70. O relógio passou para o pulso da minha avó - que o usou até falecer - em 2000 - na dobra do milénio. Ano em que o meu pai - aos 60 anos - também partira. Foi injusto. Uma nota de tempo muito injusta. Eu não queria ficar com o relógio tão cedo, apesar de os apreciar sobremaneira. Mas teve de ser. O tempo quis, o tempo mandou. E eu lá fiquei com a máquina, o velho Cauny Prima - com aquele ponteiro vermelho sempre a dar-me cabo da cabeça. Nunca pára. Muitas pessoas já me disseram que o dito ponteiro é afrodisíaco, não sei!!!
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Trata-se de uma máquina que passou de mão em mão: do meu pai para o meu avô, deste para a minha avó e depois para mim. Viajou desde o post Guerra (II) até ao presente. DE caminho, só pedira umas braceletes que entretanto se substituíram. Foi sempre uma boa máquina a dominar o tempo, mas nunca impediu que os seus antigos donos morressem. O próximo a zarpar já sei eu quem é: o seu actual dono. Mas como não há filhos, tenho pena de deixar uma máquina destas órfã de pai, que já foi de avós na lonjura do tempo que passou. Cresci com ele na memória. Ainda a minha avó fazia croché - no campo - naquelas tardes solarengas, quando as pessoas se cumprimentavam pelo nome próprio, já eu a "namorava" para lhe sacar a máquina... Ainda bem que ela nunca me o passou para as mãos, doutro modo era mais um para o estaleiro, com ponteiros desavindos. Sempre fui rápido a desmontar, depois sobravam peças. Ou seja, mais do que um utilizador de relógios - escavacava-os com prazer. Mas, na realidade, nunca os queria partir, pois adorava-os demais para isso. Queria, apenas, entrar neles... Entrar no tempo. Viajar no maquinismo. E aos 7/8 anos pensava que o poderia fazer, desmontando-os... Hoje, volvidos todos esses anos, acho que o impulso que me movia para os abrir era, precisamente, essa angústia que tinha em ver como funcionava a roda cósmica do tempo. E uma vez certo disso, familizarizado com esse maquinismo, pensava também que passaria a integrar a máquina do futuro e, de algum modo, teria a faculdade de o dominar. Pura ilusão. ILusão e mais um relógio escavacado. Depois vinha a depressão por o ter partido e a pedinchice para que o Pai natal me desse outro. Enfim, gostava tanto tanto de relógiuos que passara boa parte da minha vida amargurado com eles. Hoje, o sentimento também não é muito diferente... Mas a angústia é menor. Até porque já vivi metade do tempo que, em média, poderei viver. Aliás, já ultrapassei a estatística... Mas com a gripe das aves, nunca se sabe... Lá terei de meter o meu Cauny.. Image Hosted by ImageShack.us Hoje, quando olho para o Cauny vejo quase tudo o que fui. Um traquinas ao volante da bicicleta. Sempre disponível para desmontar uma boa máquina. Acho que não queria o relógio, queria era o tempo que ele contava ou media. Era, creio, essa ideia de progresso continuado, essa idade da razão, esse reforço da memória que eu queria quando me metia à bruta a abrir um relógio. Talvez pensasse que a engenharia da minha alma se acertasse com engenharia do tempo marcado por aquele relógio. Só que foram muitos. Muitos... Houve muita despesa com isso... Hoje acho que dava para comprar uma relojo.... inteira. Hoje, quando vejo um relógio, aparte as questões estéticas e de qualidade da máquina, lembro-me dessa acumulação de relações contraditórias. Lá vem a árvore genealógica da família atrás, com uma carrada de funerais pelo a ensombrar o meu tempo. Um tempo contado por muitos outros relógios que não tive. E, por isso, não os escavaquei. Sorte para esses outros relógios que não me chegaram às mãos.. O velho Cauny Prima - com o ponteiro vermelho a deslizar suavemente na circular do mostrador, representa essa vida, no plural. Com muitas memórias que o tempo não apaga. Por vezes julgo mesmo que aquele mostrador é a minha vida. Em agregação e desagregação temporal. Numa espécie de anúncio automático de um tempo que por vezes tem a mania que é autoritário e que quer mandar em nós, que somos os donos deles: as máquinas do tempo. Já não sei se diga - : malditos relógios, maldito tempo ou maldita memória... Por vezes gostava de ser muitos - só para ter a possibilidade de poder usar vários relógios ao mesmo tempo. Mas isso não seria normal nem prático. Depois, também passaria a andar mais controlado pelo tempo de cada um deles, sabendo como sei que eles nunca estão certos, ou melhor, andam sempre desencontrados entre si. Entre si e o tempo que era suposto guardarem. Mas o tempo é areia que perpassa por entre os dedos.. Quando pego nesse velho Cauny Prima que teima em não querer envelhecer - rindo-se porque tudo à sua volta ou morre ou vai definhando - vejo tudo: a singularidade histórica do meu tempo, a história da minha família com up & downs, vejo o futuro através das lentes do passado, só mudando as cores da bracelete. O referencial é sempre o tempo, esse grande ditador que jamais podemos manobrar, e que é a característica central de dominação europeia no mundo, que depois passou para outros pontos do globo, que passaram a marcar o tempo que os outros têm de obedecer.
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O Cauny é um sacana. O Cauny Prima ri-se para mim todas as manhãs. Há dias que nem lhe toco, mas vejo-o sempre. E só muito pontualmente o levo a passear no meu pulso. Um pulso que já perpassou as mãos do meu pai-avô-avó numa escala de quase 60 anos. Já é um tempo considerável para um relógio, e um tempo social enorme para qualquer qualquer. Mas quando não o uso, parece que ele me quer dizer algo, quer comunicar comigo. Por vezes com um traço afectivo, ouras vezes com o ponteiro um pouco crispado. E quando ele me vem a jeito julgo que me quer mostrar as outras dimensões do tempo que nunca conseguira aprender em criança, quando os escavacava. Recentemente, descobri que o velho Cauny Prima, que ainda guarda os odores de todos quantos tocou, e marcou o tempo e um tempo, fala. O sacana do Cauny tem cérebro e pensa, mesmo quando o castigo e não lhe dou corda. Já o tentei avariar, mas não consigo. Pois eu sempre gostei de relógios, e alguém assim não se importa de ter relógios avariados. É o meu caso. Tenho já um cemitério de relógios. Uma espécie de Lisnave de ponteiros e de mostradores... Só que agora evito parti-los, também sou eu que os compro, e também já estou mais crescidinho. Logo, menos afoito à desmontagem, quase sempre um exercício homicida para aquelas belas máquinas. Naquele tempo.. Um tempo que já não volta.. Mas a lição maior do velho Cauny, penso até para me humilhar, ainda estava para vir. É que ele sabia que eu não passava da cêpa torta na avaliação das dimensões temporais: passado-presente e futuro. E o tempo tinha horas, minutos e segundos. Mas a semana passada, um dia antes do velho-novo Cavaco dizer à nação que o mundo é redondo e Portugal fica na Europa, mesmo atrás da Eslovénia, e que há muita água nos oceanos e muita areia nos desertos, e que os tugas são uma cambada de tolos (doutro modo já teriam gerado novas elites) - o Cauny sentou-me à mesa e disse-me o seguinte: Image Hosted by ImageShack.us
"o tempo já não é o que tu pensas. Tu, e os teus avós e o teu pai que me comprou.... O tempo tem novas cronologias, novas referenciações sociais, em especial a evolução histórica dos acontecimentos, e da vida dos homens que vivem em sociedade. O tempo tem, doravante, uma outra dimensão: comprimento, largura, altura e o próprio tempo cronológico. São essas novas dimensões temporais, e sociais, que localizam o ser de cada homem no seu espaço e no seu tempo social, e lhe dá o campo de possibilidades que ele aproveita ou não. Consoante a habilidade que tiver em aproveitar esse tempo. Um tempo que é mais, muito mais, do que a velha troika de dimensões temporais povoada de passado-presente-futuro. O tempo hoje é misto, e quando nos aparece pela frente, como um autocarro de longo curso, é um misto de passado-presente, e um misto de passado-futuro.
Eu lá tive de concordar, pois o Cauny andou estas décadas todas com estas palavras engasgadas no maquinismo para me dizer. Talvez quando o coloque no pulso sinta já que o tempo não tem a velha estrutura tripolar que nos habituámos a aceitar. Quando viajo com o Cauny Prima - lembro-me sempre de muita gente, e aquele ponteiro vermelho funciona como o coordenador de um processo de modernização através da globalização competitiva que acelera - ou retarda - os nossos comportamentos no nosso tempo. Por vezes metemos a história no bolso, dominando-a; outras vezes, o tempo ultrapassa-nos, subjoga-nos, revela-nos a nossa perenidade. E quando não acompanhamos esse tempo os ponteiros marcam o ressentimento no mostrador. O tempo é essa sistemática repetição da distância entre o anunciado e o realizado, que se torna cumulativo. Há muito - na relação com esta máquina-animal - que percebi que deixei de ser o observador. Esse papel agora é do Cauny. Ele é o director do tempo, o administrador do seu conselho de administração, e eu um modesto quadro médio que acato ordens. Ele é, por outro lado, uma espécie de "desregulador regulador" que nos leva a viajar por um tempo perdido. E, por vezes, roubando-nos o futuro. Por isso, o velho Cauny aparece ali ladeado pelo rei dos relógios, com incursões siderais - só para mostrar ao mundo que o Ómega é muito viajado e já gravitou. Mas continua a ser o Cauny Prima que convoca a modernização ou denuncia a marginalição do meu tempo. Image Hosted by ImageShack.us Desconfio que este relógio ainda irá, de pé, a muitos funerais, somados aos muitos que ele já tem no seu palmarés de maquinismo. Desconfio mesmo que já não vou a tempo para lhe mudar a bracelete... O Cauny é um relógio. O Cauny Prima é um grande sacana. E é-o porque nunca tem tempo, não obstante ter todo o tempo do mundo..., mas que já não nos pertence. Image Hosted by ImageShack.us
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