domingo

Ligações e afectos: fortes, médias e fracas



Há quem defenda que existem três tipos de ligações amorosas: (1) as chamadas ligações fortes, (2) as ligações médias, (3) e as ligações fracas. 

As ligações fortes decorrem durante a infância entre filhos e pais, entre irmãos. São, pois, ligações exclusivas. Ninguém pode ocupar o lugar do pai ou da mãe, ou do filho. Elas resistem à mudança  de carácter, à erosão do tempo e ao aspecto físico das pessoas. Um filho continuará sempre a amar os seus pais, apesar destes envelhecerem, ou adoecerem e mudarem de aspecto. Por seu turno, a mãe ou o pai continuarão a amar os seus filhos mesmo que eles degenerem nuns drogados  ou nuns delinquentes nocivos à sociedade. 

A única força capaz de gerar uma ligação forte fora da infância e das relações familiares acima descritas, é o enamoramento, como sublinha Alberoni. Aqui, duas pessoas que nunca se tinham conhecido, pelo menos formalmente, enamorando-se, tornam-se indispensáveis uma para a outra como um filho para os pais. Isto confina com um fenómeno verdadeiramente desconcertante.

As ligações médias, decorrem entre amigos íntimos. Com aquele em quem confiamos, e com aqueles que gozam da nossa confiança. E aqui a amizade é livre e desinteressada, sem ciúmes  e invejas que, por vezes, encontramos entre irmãos, haja ou não partilhas. Contudo, se formos enganados por um amigo, algo se quebrará para sempre. Ainda que lhe perdoemos, jamais esqueceremos a traição, e nada será como dantes. Ao invés, se nos zangarmos com os nossos pais, essa ligação resistirá à prova do tempo e, com o tempo, essa mesma relação regressa à normalidade dos afectos. Não raro, podemos até preferir um amigo a um irmão, logo as relações entre estes é distinta da dos filhos entre os pais.

Em 3º lugar - as relações fracas são as que estabelecemos entre colegas de trabalho, de faculdade, de vizinhança, de redes sociais (há sempre excepções..), com alguns amigos de férias, etc. No entanto, essas ligações fracas não significam que as esqueçamos de vez, pelo contrário, podemos até recordá-las com prazer durante uma vida. Relações de cumplicidade, comunhão de pontos de vista, relações que ficaram a meio, teias de confidência que foram interrompidas pelos acasos da vida, etc. Muitas dessas situações podem ser no presente vistas com alguma nostálgia, pelo que poderiam ter nascido dali entre duas pessoas. 

Interessante será sublinhar uma ideia latente e que se explica do seguinte modo: não raro duas pessoas enamoram-se antes de terem tido experiências sexuais, desejam-se antes de se terem conhecido a fundo, procuram-se até quando não são correspondidas. Ou, pelo menos, existe alguma assimetria nessa busca.  

As relações de amor decorrem de estados emotivos emergentes, tão inesperados quanto inebriantes. Pois sente-se o máximo de intensidade de amor, de desejo, de paixão precisamente na proporção inversa da saciedade ou do desejo sexual. Ou estes, pelo menos, não esgotam aquelas emoções.

Ou seja, aquilo que Luís Vaz terá fixado como o Amor é fogo que arde sem ver..., pode ser uma experiência única e inconfundível, que consiste numa perturbação radical da sensibilidade, alterando as formas de pensar da mente e do coração que passa a unir numa só pessoa/entidade duas pessoas diferentes e afastadas.

Como hoje se comemora o dia de S.Valentino achei interessante dissertar sobre aquelas três fases, seguindo os ensinamentos de quem estudou e investigou a fundo estes temas, Alberoni, a fim de compreender a transfiguração do mundo e a experiência sublime sempre que duas pessoas sobem a escadaria do desejo, mesmo que haja uma floresta de permeio a separá-los. 

Afinal, o amor é também um elemento constitutivo da verdade, ainda que pareça uma loucura mitigada com algum esquecimento de si, mas não deixa nunca de nos interpelar acerca do nosso próprio destino.

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