terça-feira

O sorriso de Sá Carneiro - por José Miguel Júdice -


Nota prévia: Vale a pena meditar nesta importante reflexão de José Miguel Júdice, pois além de escrever bem pensa ainda melhor a história e aquilo que poderá ser a evolução próxima do funcionamento do sistema político em Portugal, na expressão feliz de bipolarização perfeita, como, aliás, defende há décadas. Curioso, é esta reflexão vir, precisamente, de um intelectual de direita, que privou com Sá Carneiro e conhece bem as motivações da gentinha impreparada que sequestrou o poder em 2011. Se Sá Carneiro regressasse à terra e visse o modo como PSD foi radicalizado à extrema direita, por uma lógica neoliberal e selvátiva, com efeitos nocivos na economia, na sociedade e na cultura, ficaria chocado com o partido que fundara e interrogar-se-ia acerca do que teria levado aqueles jotinhas sem currículo a escavacarem o partido que, um dia, foi genuinamente social-democrata. 

O sorriso de Sá Carneiro


(José Miguel Júdice, in Expresso, 17/10/2015)
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1. Há quase 40 anos — mesmo antes de Sá Carneiro e Freitas do Amaral terem criado a AD — que defendo que o equilíbrio homeostático do sistema político é mais bem servido pela bipolarização ao centro, a qual pressupõe acordos do PS com a sua esquerda. Defendi-o também no tempo do Bloco Central.
2. Defendi, também e designadamente desde a vitória de António Costa nas primárias do PS, que ele não deveria optar por se aliar a partidos à sua direita, por razões político-sociológicas que neste espaço limitado não consigo pormenorizar. Tendo ele perdido as eleições, ainda menos razões existem para o fazer.
3. É certo que Costa cometeu quase todos os erros do catálogo e transformou uma vitória anunciada numa derrota que o fragilizou; mas se daí (lhe) resultam grandes dificuldades, não se altera o essencial do que há tanto tempo defendo.
4. A integração do PCP e do BE no espaço da “cultura política” (ou “arco da governação”) é menos perigosa em tempo de protetorado, como o que vivemos, do que em tempos propícios ao “fartar vilanagem”. E é essencial ao funcionamento equilibrado do sistema.
5. Se Costa não tentasse esse acordo à esquerda, seguindo o seu instinto, estaria perdido (e o DNA da política é a arte e a pulsão de sobrevivência); e passaria a mensagem errada para a própria sobrevivência do PS, num caminho daquilo a que se vem chamando a “pasokização”. Mas se não conseguir chegar a acordos (depois de compreensivelmente a coligação ter cortado as negociações) também provavelmente não se aguentará no PS. Está a negociar sem alternativas o que reforça infelizmente o poder da extrema-esquerda.
6. Em todo o caso ainda bem que acabou a tentativa de cedência quase total do PSD/CDS ao programa PS para dessa forma conseguir governar. O que parece ter sido a matriz do esforço da coligação para evitar a abertura à esquerda, seria em termos sistémicos bem mais grave para os equilíbrios que a Europa nos exige do que o governo de esquerda: a coligação comprometer-se-ia com soluções inviáveis e o sistema ficaria num plano inclinado incontrolável, com a esquerda (incluindo parte substancial do PS) a exigir sempre mais, sem necessidade de ponderar o choque da realidade.
7. Como sempre quando se quebram tabus existe um momento de descontrolo mais ou menos pueril. Os “amanhãs que cantam”, o romantismo lacrimejante, o próprio erotismo da epifania, podem conjurar-se para um caminho para a decadência e a irrelevância da esquerda, após a festa e as fantasias… se quem manda em nós deixasse. Esse o problema e a solução: o Bloco e o PCP devem copiar o Tsipras de setembro e não o de janeiro.
8. A jogada de António Costa tem algo de prestidigitação, o que confirma o seu sentido tático e político; mas não mascara que ele foi o principal derrotado nas eleições legislativas. Se o PS tivesse mais 20 deputados, a abertura à esquerda seria feita muito mais nos seus próprios termos. Mas, como disse alguém, as coisas são o que são. E em todo o caso, mesmo sendo mais pequeno, o PS continua a ser um urso a abraçar os pequenitos.
9. O primeiro efeito deste acordo parece ser que agora Marcelo Rebelo de Sousa tem uma autoestrada sem trânsito para Belém. O mais dotado político da minha geração e o mais dotado na geração seguinte vão ter de reinventar o sistema político novo que nascerá de um governo de bipolarização à esquerda.
10. Depois da teoria do “partido natural do Governo”, tentando ocupar todo(s) o(s) centro(s), e que Soares, Guterres e Sócrates cada um ao seu modo tentaram concretizar, com António Costa chega a bipolarização perfeita, que há quase 40 anos venho defendendo. Sá Carneiro, lá onde estiver, deve estar a sorrir.
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