quinta-feira

A dimensão trágica das eleições presidenciais de 2016

  • Imagem picada no rizoma



Portugal está hoje confrontado com a maior inflação de candidatos presidenciais nas últimas décadas que se oferecem a pataco no espaço público nacional. Esse espaço público, ou mercado político - onde se transacionam candidaturas (reais e virtuais) - acaba por ser a vitrine através da qual cada candidato se promove pessoalmente, mais do que o projecto de candidatura para Belém. A República, prostituída como está, já se sente alheia a tanta oferta no mercado político das presidenciais. 

São conhecidos os candidatos e o seu perfil: académicos, comentadores, sindicalistas, empresários... Nem vale a pena nomeá-los. Aparentemente, este excesso de oferta de candidatos até seria positivo para o país se cada candidatura representasse um verdadeiro projecto de modernização e desenvolvimento para Portugal, com base numa leitura inovadora e criativa do que deveria ser a Constituição, os poderes do PR e em que medida e circunstância a relação entre o PR e o Executivo se deveria desenvolver em períodos ou conjunturas altamente recessivas como a que vivemos. Importa ir além do conluio vigente..., em que PR e Executivo, por razões ideológicas e pessoais, se juntaram para destruir Portugal e empobrecer os portugueses. De resto, todos os indicadores socioeconómicos o confirmam. 

Ora, na prática, o que estamos a assistir é à apresentação do projecto de vida que cada candidato teve nos últimos anos e de que forma esse trajecto pessoal/profissional merece ser devidamente compensado com a cenoura do passeio alegre para Belém. E é isto que se passa: um sindicalista por ter sido sindicalista toda a vida, agora na reforma, entende que tem o perfil ajustado ao lugar; um académico (e ex-autarca) por teorizar a problemática da corrupção em Portugal, entende ser portador do perfil adequado para o desempenho das funções presidenciais; e assim por diante, com maior ou menor fundamento, no que diz respeito aos demais candidatos presidenciais conhecidos neste mercado político sedutor.

Há, contudo, uma questão de base que importa fazer e que ajuda(rá) a explicar esta inflação de candidatos, mais até do que de candidaturas credíveis. E essa razão prende-se com a forma como nestes últimos 10 anos cavaco silva tem desprestigiado a Presidência da República e os poderes presidenciais que estão plasmados na Constituição da República Portuguesa/CRP e que o (ainda) locatário do Palácio Rosa faz letra morta, em grosseira violação com o seu juramento aquando da sua investidura diante os portugueses. 

Ou seja, cavaco tem apoucado a CRP quando se demite de intervir políticamente, mesmo quando essa intervenção era urgente e necessária, leia-se aquando da violação - por três anos consecutivos - por parte do XIX Governo (in)Constitucional aos Orçamentos de Estado na AR e em claro desrespeito dos acórdãos do Tribunal Constitucional. 

Na prática, o Executivo forçou a aprovação desses orçamentos - com base no abuso de poder da sua maioria parlamentar - mas em grosseira violação de normais, direitos, liberdades e garantias constitucionais previstas na CRP. O Governo, na prática, tudo tem feito e aprovado com a cumplicidade criminosa de cavaco silva, que acabou por seu co-autor do esbulho aos salários e pensões dos portugueses, assim como da destruição do Estado social e do criminoso processo de privatizações que está em curso na economia portuguesa, desde logo à TAP... Uma decisão que será revertida caso o PS seja Governo, conforme já anunciado. 

O que é estranho, sobretudo para alguém que, como o sr. silva, se queixava da sua própria reforma... 

No domínio cultural, cavaco é aquilo que sempre foi: uma nulidade, uma aberração da natureza sem nenhuma ideia sobre o que deve ser a cultura portuguesa e de que modo ela deve ser apoiada de molde a projectar a maneira de ser e estar do que é ser português no mundo. 

No domínio das intervenções sociais, cavaco tem-se notabilizado pelos seus medíocres roteiros, uma espécie de guias turísticos que percorrem o país para cumprimentar os agricultores (que estão sem apoios à produção e pagam os factores de produção mais caros da Europa), fazer caridade com a desgraça alheia, ou enaltecer o turismo do Algarve - entre bacalhaus e discursos parolos, bem ao estilo d´alguém que, afinal, nunca deixou de ser de Boliqueime. Nada de concreto, nenhuma factor acrescenta ao que está, apenas estoura o orçamento de Belém com a sua entourage presidencial passeando pelo país que é, aliás, das mais perdulárias da Europa. Ultrapassando até os gastos de funcionamento da monarquia espanhola...

Nem nunca o país viu ou assistiu sair daquela testa uma ideia na esfera da economia, da sociedade, do ambiente ou das finanças públicas que pudesse ajudar o Executivo a governar mais e melhor em prol do bem comum dos portugueses. Cavaco é, assim, um zero à esquerda em toda a linha, apenas tem para oferecer uma coisa: a gravitas presidencial, qual falso ar solene. Uma gravitas que até já o tem traído mandando-o literalmente ao chão por causa das suas reacções vagais, o que leva à convicção generalizada que o sujeito há anos se encontra doente, e como doente que está dificilmente teria condições para se manter ou perpetuar no cargo - como, abusivamente, tem feito - contra os legítimos interesses e expectativas dos portugueses. 

Foi precisamente por causa deste receio, passe a analogia, que o co-piloto alemão, Andreas Lubitz, fez o que fez com o avião A320 da GermanWings, lamentavelmente!!!

Em suma: cavaco, como nenhum outro PR antes dele, descredibilizou totalmente a instituição PR, subverteu os seus poderes e entrou numa espécie de swing político com o Executivo a fim de garantir duas condições, nessa relação simbiótica e doentia entre Governo-PR: a primeira condição ditou que o sr. silva desse todo o apoio político a S. Bento, de modo a que este se mantivesse no poder, mesmo cometendo erros diários, pois cavaco estaria lá para o cobrir políticamente e, assim, dar balões diários de oxigénio ao Governo mais impreparado e incompetente do pós-25 de Abril; a segunda condição era a contrapartida da primeira, i.é., o PR receberia do Governo todo o apoio político necessário conducente ao termo do mandato presidencial de molde a que cavaco conseguisse concluir o seu mandato com alguma dignidade institucional. 

Apoiam-se, portanto, um ao outro, como dois irmãos siameses que só teriam condições de sobreviver após o parto se se mantivessem unidos na sua própria desgraça. Foi o que aconteceu nestes últimos anos.

E foi esta destruição política, cultural e funcional avassaladora que cavaco impôs à própria instituição da PR e dos seus poderes - ideologicamente alinhados com os do Governo - que fez com que, hoje, qualquer "gato sapato" se sinta verdadeiramente digno e empossado da qualidade pessoal, moral e política para concorrer ao mais elevado cargo da nação. Isso explica, em larga medida, a razão de tanta oferta neste mercado político.

__________


Etiquetas:

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home