quarta-feira

Outro mundo é necessário - por Boaventura Sousa Santos -

Outro mundo é necessário

O Fórum Social Mundial tem vindo ?a demonstrar que, mesmo se alguns duvidam de que um outro mundo é possível, um outro mundo é urgentemente necessário




A riqueza da sua diversidade cultural é impressionante, e está presente tanto na arte e na política como na sociedade e no quotidiano. Aqui se amalgamaram ao longo de séculos a cultura cartaginesa (povos berberes e fenícios), romana, cristã, árabe-muçulmana (do Médio Oriente e da Península Ibérica), otomana, francesa. Aqui nasceu e escreveu um dos fundadores das ciências sociais modernas, Ibn Khaldun (1332-1406). Dez séculos antes, bem perto daqui, na Hipona romana (hoje a cidade de Annaba, na Argélia) nascera Santo Agostinho, para além de tudo o mais um precursor do modernismo utópico e da crítica anticolonial. Hoje, e talvez para surpresa de muitos, na Tunísia as mulheres são 31% dos deputados e, segundo os observadores mais atentos, são quem tem defendido melhor a transição democrática no país.

Tal como no primeiro encontro do FSM aqui realizado, em 2013, o tema central foi a dignidade, um conceito amplo e de vocação intercultural, onde cabem os Direitos Humanos de raiz ocidental e as conceções de respeito pelo ser humano, suas comunidades e a própria natureza concebida como um ser vivo e fonte de vida próprias das cosmovisões indígenas e camponesas, bem como do Islão corânico. 


Dentro deste tema geral couberam os mais diversos debates sobre as três fontes principais da dominação e da opressão no nosso tempo - capitalismo, colonialismo (racismo, xenofobia e islamofobia) e patriarcado -, debates que ora se centraram na denúncia ora na proposta de alternativas. Ao longo dos 15 anos do FSM, alguns temas foram ganhando mais centralidade: o avanço aparentemente irresistível da versão mais antissocial do capitalismo (o neoliberalismo assente no capital financeiro), atingindo agora a Europa, que se julgava protegida; a escandalosa concentração de riqueza - segundo dados da respeitada Oxfam, as 85 pessoas mais ricas do mundo têm tanta riqueza quanto a metade mais pobre da Humanidade (3,5 mil milhões de pessoas); a destruição ambiental devido à exploração sem precedentes dos recursos naturais; a expulsão de camponeses das suas terras ancestrais para dar lugar à agricultura industrial e ao açambarcamento de terra em larga escala que ela envolve; a crescente invasão de sementes transgénicas e de produtos geneticamente modificados (da fruta ao eucalipto), que retira aos agricultores o controlo das sementes, destrói a biodiversidade, mata as abelhas e causa danos à saúde humana; o crescimento da violência política e a necessidade de denunciar tanto o terrorismo como o terrorismo de Estado, que sempre tem recorrido a extremistas para prosseguir os seus fins; o trágico agravamento das condições de vida dos palestinianos sujeitos à forma mais violenta e selvagem de colonialismo por parte de Israel; a luta heroica do povo saharaui pela sua independência e libertação do colonialismo marroquino.


Quinze anos depois do primeiro encontro do FSM, é tempo de fazer um balanço. O Fórum permitiu aos movimentos sociais de todo o mundo conhecerem-se melhor e articularem as suas lutas, de que são bons exemplos a Via Campesina e a Marcha Mundial das Mulheres. Mas a verdade é que o mundo está hoje mais violento, mais injusto e mais desigual, e muitos (eu próprio incluído) pensam que o FSM se devia ter renovado ao longo destes anos e tornado mais interventivo na formulação de propostas e de políticas. Uma coisa é certa, o Fórum tem vindo a demonstrar que, mesmo se alguns duvidam de que um outro mundo é possível, um outro mundo é urgentemente necessário.


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Obs: Medite-se na importância e força dos Movimentos Sociais Transnacionais contemporâneos para a transformação das condições de vida de milhões de pessoas, em todos os quadrantes do mundo.  

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