terça-feira

Morreu Gary Becker, o pai da Economia freak


Morreu Gary Becker, o pai da Economia freak


Becker foi o primeiro a usar a economia para estudar questões aparentemente estranhas à disciplina, como o crime ou a fertilidade. Professor em Chicago e Nobel em 1992, morreu este fim-de-semana aos 83 anos
Gary Becker foi Nobel da Economia em 1992
Gary Becker foi Nobel da Economia em 1992 / Getty Images

Quando os livros de economia light como "Freakonomics" de Steven Levitt, o "Economista
Disfarçado" de Tim Harford ou "O Economista Natural" de Robert Frank surpreenderam o
Mundo e se tornaram best-sellers, houve pelo menos uma pessoa em Chicago que não ficou
assim tão surpreendida. Gary Becker, que morreu no último fim-de-semana, foi pioneiro na
utilização da Economia em temas diferentes e iniciou-se nestas práticas com praticamente
meio século de avanço.
Licenciado em Matemática, com distinção, na universidade de Princeton, rumou depois à
Universidade de Chicago  para estudar Economia onde, entre outros, foi contemporâneo de
Milton Friedman. Costumava dizer que era convencional nas coisas banais, como a roupa que
vestia, mas que no que tocava às ideias "punha a cabeça de fora".
E punha mesmo. A sua abordagem heterodoxa à Economia começou logo nos anos 50, no seu
doutoramento, ao defender uma tese sobre economia da discriminação. Esse trabalho,
publicado em livro pouco tempo depois, é ainda hoje uma das suas obras mais famosas.
E isto foi só o início. Ao longo dos anos estendeu as malhas dos instrumentos da 
Microeconomia a áreas aparentemente desligadas destas questões como o crime, 
a fertilidade, a relação das pessoas com o tempo, doações de órgãos ou mercado negro de
drogas ou outros produtos.
A abordagem tinha uma raiz comum e apelava à racionalidade como força motriz da decisão
dos agentes económicos. Por exemplo, um condutor deve comparar a pena de prisão ou multa
esperada (que dependem da probabilidade de ser apanhado) com o ganho que vai obter
(o produto do roubo, por hipótese) para decidir se vale a pena cometer um crime. Ou um casal
quando decide ter um filho deve ponderar antes os benefícios (em termos de mão de obra
futura para trabalhar em certas sociedades mais subdesenvolvidas)  com os custos de o
sustentar antes de começar a produzir.
Como é fácil de perceber, esta abordagem tem muito pouco de politicamente correto e
mereceu fortes críticas. Mas isso não impediu Gary Becker de abrir uma autoestrada na teoria
económica que ainda hoje continua a dar frutos. Não foi por acaso que, em 1992, foi distinguido
com o prémio em Ciências Económicas do Banco da Suécia (o chamado Nobel da Economia).
Na altura, foi justificado pelo facto de "ter extendido o domínio da análise microeconómica
a um vasto leque de comportamentos e interações humanas, incluindo comportamentos fora
de mercado".
É também sua a autoria do conceito - e da expressão - capital humano que é hoje linguagem 
corrente em todo o mundo. Foi, aliás, um tema que o interessou logo desde a década de 60.
Aos 83 mantinha-se bastante ativo e, contam alguns dos seus colegas da universidade, 
que continuava curioso e capaz de intervir a qualquer momento sobre o tema em que estes
estavam a trabalhar. Entre outras coisas mantinha um blog com Richard Posner onde
comentava temas de atualidade.
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Obs: Morreu um homem excepcional. 

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