quinta-feira

Jacques Le Goff - pequena evocação -



O medievalista francês mais reputado foi duma imaginação sociológica sem limites. Criou conceitos novos e tão elaborados quanto intuitivos, descobriu novas pistas de investigação, agitou e melhorou o ambiente passivo que as ciências sociais e humanas viviam à época. 

Ao fazer história tinha que andar para trás nos ponteiros do tempo, circunstância que o obrigou a compreender a transição do chamado tempo medieval para o tempo moderno. Aquele estava umbilicalmente ligado à igreja, matizado por uma economia agrária, imprecisa mas ritmado pelas horas e pelos interesses e ideais canónicos. Era nitidamente o tempo da Igreja. Mas esse tempo acabou por ceder o espaço ao tempo moderno - intimamente ligado ao tempo dos mercadores, dos comerciantes, da construção das grandes cidades ribeirinhas que, com a precisão do aparecimento do relógio mecânico, originou um grande tempo urbano, pré-capitalista e depois verdadeiramente capitalista, o qual passou a ser escravo daquele tempo imposto pelo relógio mecânico (que tão hilariantemente nos foi deixado por Charlie Chaplin na crítica ao capitalismo através dos tempos modernos).

O tempo que outrora só pertencia a Deus, que era utilizado (e manipulado) pela Igreja, passou a ser troféu do homem, e nesse passo se desenvolveu um conflito teo-cultural entre o tempo da Igreja e o tempo laico: da política, da sociedade, da economia, dos negócios, das pessoas, das empresas e das organizações em geral. 

Um desses males nasceu desse grande "ladrão medieval do tempo", i.é, o usurário que talhou o tempo em fatias para o vender sob a forma de juros ilegais e imorais. 

Aqui chegados, com a ajuda inestimável dos inúmeros contributos deste grande historiador agora desaparecido, percebe-se que Le Goff trabalhou no sentido de autonomizar o tempo moderno, secularizado do tempo medieval, impreciso, irracional e também dangereuse

Um tempo, mutatis mutandis, em que hoje nos encontramos: numa Europa decadente e anti-solidarista, guiada e hegemonizada por uma Alemanha egoísta e nacionalista, altamente superavitária nas suas relações comerciais e trocas económicas com os demais países, que marca o ritmo do tempo em que os outros devem fazer as reformas, define as taxas de juro que devemos pagar pelos empréstimos usurários da troika, e são todos esses aspectos,no seu conjunto, que nos empobrecem e nos miserabilizam.   

Se calhar, tomando por base comparativa estes rápidos paralelos, concluímos que, afinal, é a Europa-Alemã, a troika e alguns capatazes que estão ao seu serviço, que hoje escravizam todos e cada um de nós. 

Provavelmente, esta é uma conclusão tão apressada quanto abusadora para evocar o excepcional historiador Jacques Le Goff, que me reporta aos belos tempos de liceu, quando o tempo brilhava e o céu era azul, mas é a conclusão que se me impõe quando constatamos como funcionam os novos mercadores do dinheiro, os seus agentes políticos internacionais, alguns até são candidatos (escondidos) às próximas eleições presidenciais, e de como Portugal e os portugueses deixaram de convergir com o tempo, a economia e a civilização europeia, sobretudo no melhor que ela comporta e pode oferecer ao mundo. 

O tempo passa, mas os trabalhos de Jacques Le Goff e o seu imenso legado ficam. 



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