quinta-feira

A debacle da esquerda europeia - por Emir Sader -

por Emir Sader 




A maior virada política e ideológica operada na Europa foi exatamente na França, que passou de núcleo mais progressista a bastião mais conservador do continente.
 
Perry Anderson analisou de maneira magistral essa triste virada no seu artigo “O pensamento insosso” (La pensée tiède, na versão francesa, Ed. Seuil; Degringolade e Union sucreé, na versão original, London Review of Books, 2 e 23/9/2004).

As ultimas eleições francesas confirmam aquilo a que fomos tristemente nos acostumando: os trabalhadores franceses tem na Frente Nacional seu partido majoritário. Um partido que prega não apenas a saída do euro – posição defensável para a esquerda também -, mas a proibição de entrada de imigrantes, a pena de morte, entre outras de suas posições de extrema direita.

Antes a classe operária francesa era ou socialista ou comunista, invariavelmente. Agora, instrumentalizada pelo chovinismo contra os imigrantes, se passou para a extrema direita. Na virada à direita de todo o continente europeu e no enfraquecimento geral da esquerda, este é o seu aspecto mais dramático.

Desde que a crise econômica mais prolongada e profunda do capitalismo desde 1929 eclodiu, tendo a Europa como epicentro, durando já mais de 7 anos, a maior derrota da esquerda é a inexistência de grandes mobilizações populares contra a politica generalizada de austeridade – aplicada tanto pela direita, como pela social democracia – e, como corolário, o fortalecimento ainda maior da extrema direita na crise e não da esquerda.

Alguns fatores foram determinantes nesses retrocessos, entre eles o fim da URSS e o enfraquecimento dos partidos comunistas, assim como a adesão da social democracia ao neoliberalismo. Mas na crise atual surgiram movimentos de jovens na Espanha, na Inglaterra, que porem não tiveram nem continuidade, nem repercussão na massa trabalhadora dos seus países. 

A derrota de governos social-democratas – como nos casos da Espanha, de Portugal – arrasta consigo também a extrema esquerda, que se recupera lentamente depois, mas sem capacidade de se tornar força hegemônica. A substituição de governos conservadores – como no caso desses dois países ou da Inglaterra ou da Alemanha – fica dependendo do que ocorra com os partidos social democratas e sua aliança ou não com setores mais à sua esquerda.

A esquerda europeia, berço da esquerda do século XX, ja não existe como tal. Nem os PCs, nem os partidos socialistas, tampouco a extrema esquerda – trotskistas ou outras variantes – tem demonstrado força para recompor a esquerda europeia. A construção da União Europeia, por sua vez, ao se centrar na unificação monetária, constituiu-se numa armadilha, de que a esquerda não sabe como sair e que a extrema direita explora, como única corrente que prega contra o euro.

As eleições europeias de maio deste ano devem confirmar o fortalecimento da extrema direita, um altíssimo nível de abstenção e o enfraquecimento das outras correntes políticas.

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Obs: Medite-se seriamente na crise da esquerda europeia e, acima de tudo, na falta de opções políticas para sairmos do lodo em que entrámos e a incapacidade de burilarmos ideologias emergentes que rompam com uma tradição de violência, xenofobia e radicalismo. 




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