segunda-feira

Multidões inteligentes vs multidões idiotas. A urgência da democracia deliberativa






Todos sabemos da importância que as redes sociais tiveram na organização do poder de participação dos cidadãos descontentes, dessa diáspora de insatisfeitos e de oprimidos um pouco do todo o Norte d´África: do Egipto à Tunísia passando pela Líbia de Kadafi. 

Contudo, falta ainda identificar, através das ditas redes sociais, os meios e as formas de criação de consensos capazes de garantir uma legitimidade duradoura  dos governos necessária para prover o bem comum de que falava Aristóteles e suportar a chamada boa sociedade, dotada de um potencial de igualdade de oportunidades para todos. 

Isto porque, até ver, ainda não se conseguiu inventar uma constituição no Facebook ou no Twitter, apesar de se tratar de dois meios para conjugar esforços que permitam que um conjunto de pessoas, em nome de uma determinada causa, possa actuar em concreto sobre a realidade.

Mas enquanto estes interfaces funcionam num sentido, constatamos que bloqueiam noutro, especialmente quando se trata de desenvolver processos de esclarecimento de questões complexas, de negociações ou de resolução de problemas que a sociedade e a economia estão recorrentemente a colocar aos decisores. 

E é nesta instância que se detecta a crise da governação que actualmente afecta as democracias contemporâneas. Um problema que se pode designar por falta de deliberação, já que ela é necessária para que a democracia produza decisões equilibradas e reflectidas, ou seja, contribua directamente para alavancar o espírito das multidões inteligentes - potenciadoras da participação e da informação dos cidadãos nos processos de decisão - contra as opiniões alienadas e desenquadradas que perpassam nas redes sociais que se podem designar por multidões idiotas.

Naturalmente, o objectivo de qualquer decisor responsável consiste em conseguir transformar as multidões idiotas em multidões inteligentes, sinal de desafio daquilo que se considera boa governação na era da democracia digital e das redes sociais.

No fundo, o propósito da democracia deliberativa em contexto de ciberespaço é o de reforçar a capacidade de os grupos de pessoas, de forma indistinta, poder reunir informação de modo a organizá-la, decompô-la e, de seguida, discutir propostas que representem os problemas sociais e obter para elas as soluções mais eficientes e eficazes. 

Creio que é urgente desenvolver e aprofundar este processo de democracia deliberativa em Portugal (cujo sistema está doente), de preferência fora do alcance da chamada "indústria da persuasão" que sequestra a lógica das eleições e dos seus recursos. 

Colocando a questão noutro prisma, pergunto-me o que Portugal já teria ganho caso já tivesse ligado as pessoas entre si a discutir o que verdadeiramente interessa à governação do país. Sobretudo, se pudesse discutir os problemas do país com mais e melhor democracia. 

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