sábado

Produzimos tudo, excepto TEMPO. Corremos contra ele na banalidade da existência

CORREMOS CONTRA O TEMPO, O MAIOR DE TODOS OS DITADORES, ÚNICO BEM IMPRODUTÍVEL
Quando vejo um político elogiar-se em demasia sublinhando o valor da obra que na realidade não fez, penso que está louco; quando vejo um académico ensimesmar-se narcisicamente com o seu insuflado ego rogo a Deus que lhe dê tino para que ele perceba o verdadeiro valor da sua importância relativa na sociedade; quando vemos um banqueiro arrotar postas de pescada com ("C-Vi-émes" pelo caminho!!!)- todos sabemos que mais ano menos ano ele será enterrado ou queimado, consoante os votos próprios e da família; quando vemos um teólogo pensar que pode ser papa - lembro-me da desgraça que é este papa bento nº 16, que avalia a importância relativa dos pais de crianças objecto do crime de pedofilia consoante a pressão mediática, política e financeira que entra pela porta do cavalo do Vaticano. Tudo isto espelha bem a miséria do homem moderno.
Tudo pequenos casos que nos fazem supôr que nós, todos nós, mais uns do que outros (certamente!!!), não passamos de uns refinados patifes, para evocar as palavras daquele que melhor conheceu a conduta humana, na sua grandeza e miséria, W. Shakespeare.
Mas são estas pequenas "filhas da putice", como se diz em bom português, que fazem de nós os patifes que não conseguimos deixar de ser, ainda que com promessas de véspera de que tudo será mais azul, limpo, bondoso como uma toalha de rendada a linho feita pela nossa avózinha. Numa palavra: vivemos todos alienados, hiper-concentrados no nosso umbigo, status, carros, casas, conexões, privilégios, reformas, férias, viagens e o mais.
E para isso produzimos tudo o que há a produzir: os objectos comerciais necessários a todas e cada uma dessas contemplações. Porém, há uma coisa que jamais conseguiremos produzir: TEMPO. E é aqui que tudo se desmorona e escava como um castelo de areia.
Temos assim o concurso de vários tempos para produzir tudo isso: casas, carros, férias, livros, alimentos, vestuário, música e até esperança... Gastamos também uma porção de tempo para dormir, para fazer amor, desamor e tudo regressar ao ciclo do costume: trabalhar, xi-xi, có-có, férias, Primavera, Verão, Natal, passagem do Ano neste ciclo infernal desta nossa breve existência.
Produzimos e consumimos todos esses tempos - que são os espaços onde tudo isso acontece e depois é arquivado na nossa memória - individual e colectiva. Com sorte ainda registamos aquele abração do Socas ao barroso por ocasião do Tratado de Lisboa, com aquele a dizer ao maoista que hoje paralisa a Europa: Porreiro pá!!! - que já integra o nosso ADN identitário.
Produzimos livros, cds, filmes, depois papamos toda essa mestela consoladora perante desgostos, luto - gastando outra porção de tempo - pensando que daí iremos fazer bom uso de toda essa ordem hiper-capitalista. Como se isso gerasse em nós a ilusão de que não poderemos morrer, por vezes num ápice. E é este desconhecimento, ou evitamento, que conduz muitos de nós a esse vórtice do abismo em que muitos vivem: ensimesmados, transloucados, perseguidos, enfim, julgando-se o centro do mundo porque deram uma entrevista num jornal, partilharam umas banalidades numa estação de tv, o respectivo blog conheceu umas centenas de visitas (fora os envergonhados que ainda mantém o contador oculto...), enfim, toda uma tralha de melodias mais ou menos ridículas - que também consomem tempo. Um tempo fútil e estéril.
Mas mais do que o dinheiro, e até os diamantes, é o TEMPO a realidade mais rara do mundo. Porque a única que não é possível produzir, como quem produz Cds, livros, relatórios, pareceres, alimentos, roupas, carros, casas, pontes, etc. Talvez não seja por acaso que as obras d' arte tendam a centrar-se cada vez mais na temática do tempo como forma de o perspectivar e personificar de modo diverso.
E ninguém o podendo produzir, também ninguém o pode vender e comprar. O ideal seria é que um dia as pessoas, em lugar de irem à Fnac compar a "merdinha" do Iphone por 100cts, comprassem 2 anos de tempo por esse valor. Essa é que seria a grande revolução do séc. XXI.
Um séc. dominado pela produção das energias renováveis e nucleares, mas ninguém consegue ainda equacionar a produção do TEMPO: em pó, líquido, em estado gasoso, o que fôr.
Naturalmente, que já se fala numa esperança de vida na casa dos 120 anos, com uma carga horária de trabalho de 20h. por semana, mas isso ainda leva algum tempo. Até lá ainda teremos de dormir e comer muito, nascer e morrer muito, amar muito, odiar muito e o mais...
Mas a questão do TEMPO coloca-se sempre: ainda não conseguimos nascer naturalmente de 7 ou de 5 meses; ainda não conseguimos fazer tudo aquilo que habitualmente fazemos por metade do tempo, excepto algumas relações sexuais que, segundo queixas de algumas mulheres em inquéritos da especialidade - afirmam que é tudo tão rápido.
Afinal, somos como somos, esses refinados patifes, porque não pensamos no TEMPO, porque se pensássemos teríamos um pouco mais de consideração por nós próprios e pelos outros, poupando nesse trabalho a ilusão que nos aliena e nos faz pensar que o mundo gira, de facto, em torno da nossa aparição da tv, do nosso parecer, da nossa casinha, do nosso bloguinho, enfim, dos caprichos estúpidos e das manifestações, por vezes, mais abjectas que informam o miserável interior da nossa breve existência.
Quando percebermos estas banalidades, já não temos TEMPO para nada... Com a agravante de que o TEMPO ainda é a única coisa que o homem não consegue produzir.