sexta-feira

Ideias de Vergílio Ferreira. Evocação do escritor-pensador do séc. XX

A diferença que separa a recordação da evocação é que a recordação não tem alma


in VF, Pensar


Notas breves sobre o escritor-pensador do séc. XX

Vergílio Ferreira despediu-se Para Sempre - Em Nome da Terra - quando tinha 80 anos, e fê-lo mediante uma linguagem pensada, reflectida, maturada, complexa, repleta de labirintos, como uma mata plena de cruzamentos e derivas: quais avenidas do desejo (ou do primeiro abraço) e da posse e do desastre, como se (se) tratasse duma estrada de Damasco, cheia de espinhos. 

Escreveu em profundidade sobre o Eu, o Tu, o Nós, a vida e a morte, e as alegrias breves frente ao mar. Meteu o Mundo na sua aldeia - que acabou por ser povoada de enredos, histórias e trajectos de vida. E como ficou grande a sua aldeia, Melo, concelho de Gouveia, Beira Alta. 

- Não raro, o escritor-pensador apelou ao silêncio sepulcral das palavras que encerram sempre a nossa dimensão de vida. Um mundo que é facilmente compreensível pelos mudos. Um mundo igualmente feito de palavras que depois são erigidas em arte - cuja forma foi emergindo nos seus romances, contos, ensaios. Relembro que em 2000, por ocasião da morte de meu Pai, joguei os meus parcos recursos a fazer um trabalho sobre a vida e obra de Eça de Queirós, e lá me deparei com Vergílio Ferreira e um excepcional trabalho que desconhecia sobre o escritor realista, que responde pelo título: Sobre o Humorismo de Eça de Queirós (então apresentado como Professor do Liceu de Faro), Coimbra, Fac. de Letras, 1943. Aliás, ainda hoje me deparo com títulos de VF que desconhecia, tamanha foi a sua obra e tão diversificada nos géneros literários, ainda que os temas nucleares nunca mudassem muito...

- Talvez poucos romancistas como VF, na 2ª metade do séc. XX tivessem reunido as facetas de pensador, escritor, ensaísta, professor, romancista, enfim, um extraordinário escritor-pensador que marcou o seu tempo, influenciou o debate de ideias de então, não apenas no domínio da literatura, e soube equacionar os grandes problemas do seu tempo, de sempre, para sempre, ressaltando a angústia de quem escreve (e de quem lê), mitigando isso com a vida breve, o sofrimento, o envelhecimento, enfim, as dores (activas e silenciosas) da existência. 

- Faleceu em Fontanelas, a 1 de Março de 1996, pela tarde. Caiu e ficou estendido no tapete, de costas, com a face virada para a janela, como se fosse buscar a aragem leve da vida que já não tinha, e que um dia alguém descreverá tudo isso como se tratando do destino de todos e de cada um de nós. 

- Num dos seus poemas, Pórtico, sim, VF também os fazia, embora fosse mais um prosador, rematava assim:

[...] Dêem-me apenas um livro,
pequeno, que não há tempo e tenho pressa,
essa matéria tão difícil de aprender:
E é quanto basta para se ser homem. 

in VF, Conta-Corrente 3, pp. 158-159.

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O que Une uma Mulher a um Homem

O que une uma mulher a um homem não passa por nada do que aparentemente vale. Passa por onde? Não, não: pode não ser por aí, embora seja fundamentalmente por aí. Porque mesmo aí outros poderiam cumprir melhor, com o acréscimo do resto. Há uma falha (uma falta) essencial na mulher que só um certo homem pode preencher. E não é necessariamente essa. O mais misterioso no domínio das relações é o que se situa nas relações amorosas. Ou seja no que há de mais íntimo, essencial, primeiro do ser humano. Um labregório qualquer, torto, bronco, cabeçudo, pode ser amado pela mulher mais divinal e inteligente e ilustrada e refinada de figura. Haverá, pois, para o homem dois mundos que não comunicam entre si e que se separam na porta do quarto. Poucos são os que a atravessam em glória — idos da rua ou para a rua. 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1' 

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Vive o Dia de Hoje!

Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora. Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro. 

Vergílio Ferreira, in "Escrever" 

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