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A UNESCO é agora a panaceia dos problemas de desenvolvimento de Portugal: o Património Cultural Imaterial



É sob o guarda-chuva tutelar da UNESCO que Portugal pensa que vai resolver boa parte dos seus problemas de desenvolvimento (lato sensu): investimento (que não há), desertificação (crescente), emigração (galopante) e aumento geral da pobreza - reconhecendo a incapacidade de a Administração central chegar a esse interior do Portugal mais desertificado e de nele intervir.

Primeiro, foi o Fado, depois a Dieta mediterrânica, seguida do Cante, dos Chocalhos e, agora, a vila de Óbitos - classificada como cidade criativa da UNESCO na área da literatura e Idanha-a-Nova, na área da música. Com isso se pretende promover a cooperação entre cidades que identificaram a criatividade como factor estratégico para o desenvolvimento urbano sustentável. Tudo palavras bonitas que afagam o ego e lavam a honra dum país afundado e sem auto-estima e falido. Desse modo, potencia-se um conjunto de temas e de sub-temas como a arte, a literatura, o cinema, a música, o artesanato (que não apenas o das Caldas), o design e, claro, a gastronomia. Promove-se tudo, como se tudo fosse original e de interesse, singular e único no mundo e estivesse à beira da extinção, como os dinossaurus... 


Por um lado, estas iniciativas revelam a capacidade e a energia de as forças vivas da sociedade civil, enquadradas pelas autarquias e outras estruturas e movimentos, apresentarem projectos e propostas para aumentar a cadeia de valor cultural e, assim, valorizarem e promoverem as suas vilas, cidades e regiões a um público crescentemente diversificado. 

Por outro lado, estas iniciativas revelam também o desespero de quem reconhece a incapacidade para atrair Investimento Directo Estrangeiro gerador de emprego, riqueza e bem-estar às populações assente no padrão de desenvolvimento industrial e agrícola clássicos. A UNESCO passou a ser um pouco a tábua de salvação das vilas e cidades portuguesas mais desertificadas que, à sombra de umas quantas tradições (materiais e imateriais), procuram, desesperadamente, sobreviver à desertificação, à falta de recursos, ao abandono do Estado (central) cuja condição é agravada pela pobreza endógena dessas vilas, cidades e regiões, e cuja escapatória tem sido, historicamente, a emigração.  

Neste contexto de desesperado trilho para o desenvolvimento sustentável, há que valorizar essas iniciativas, pois elas são factores de promoção e desenvolvimento dessas regiões a curto, médio e a longo prazos. Todavia, quero crer, pela cadência com que Portugal está a usar e abusar do chamado recurso ao reconhecimento do Património Cultural Imaterial (PCI) - que essa "galinha dos ovos de ouro" não é uma boa estratégia, porque apesar de ser reconhecida no plano internacional, o que atrairá mais visitantes e  turistas a essas localidades, esses reconhecimentos, de per se, não são garante de um desenvolvimento sustentável para as comunidades e as populações envolventes. Apenas meia dúzia de PMEs, ligadas ao mercado local, conseguem aguentar-se e beneficiar desse core business ligado ao PCI.

De que valerá a Óbidos ficar na lista da UNESCO ao lado de outras cidades literárias como Barcelona (Esp.), Cracóvia (Polón.), Melbourne (Austr.), Heidelberg (Alem.), Praga (Rep. Checa) se, depois, não consegue manter níveis de desenvolvimento sustentáveis nos domínios industrial e agrícola, e revela-se incapaz de ter uma rede de serviços de educação, de saúde, de ciência e de um conjunto de serviços públicos de qualidade que fazem dessas vilas, cidades e regiões zonas verdadeiramente atractivas para fixar populações que aí possam planear os seus projectos de vida e gerar futuro. 

Inequivocamente, estes reconhecimentos por parte da UNESCO, com a chancela do PCI, são um estímulo à capacidade empreendedora dessas cidades para se promoverem e venderem no mercado interno, e é uma forma de não deixar morrer as tradições que, doutro modo, seriam esquecidas ou desvalorizadas; contudo, se essas estratégias de desenvolvimento não forem consubstanciadas por projectos de desenvolvimento mais sólidos, capazes de incorporar outros serviços e planos de desenvolvimento integrado - pelo Estado (central) e pelos Governos locais (autarquias) - esses reconhecimentos da UNESCO, a prazo, não passarão de puro modismo internacional que não terão um grande futuro pela frente. 

Ainda que nos massage o ego e engrandeça a honra e a alma..

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