segunda-feira

Portugal vive o seu síndrome político de Estocolmo no séc. XXI

Desde 2011 que os portugueses estão submetidos ao regime de terror fiscal por parte do governo de coligação PSD-CDS, na sequência da derrota de Sócrates naquele já longínquo Verão. Desde então, o governo de Passos e Portas empreendeu um regime absoluto de austeridade, que nem sequer estava previsto no Memo de entendimento da Troika, mas que foi imediatamente aproveitado por aquele governo ultra-liberal para desmantelar o Estado social e, assim, subtrair às populações a educação, a saúde, a segurança social e, com a agravante, de esbulhar os salários e pensões aos reformados e fps para equilibrar as finanças públicas. 
Este foi o programa ideológico de Passos, assente numa austeridade sem nome, feita à base de privatizações a eito, e de cortes cegos na ciência e na investigação, destruindo as condições de se fazer justiça em Portugal, por via da eliminação crescente de tribunais no interior do país, desertificando-o ainda mais.

Estranho aqui, senão mesmo paradoxal, foi constatar que depois de sequestrar a população portuguesa esta, na 1ª oportunidade de voto, entendeu conceder a sua confiança precisamente ao sequestrador, ou seja, a população portuguesa depois de esbulhada no seus rendimentos e no seu património, acabou, no dia 4 de Outubro de 2015, de se juntar aos seus próprios sequestradores. Na prática, os eleitores portugueses, ou alguns deles, acabaram por se tornar cúmplices do assalto realizado pelo Governo ultra-liberal de Passos e Portas, sem resolver nenhum dos problemas das finanças públicas, da segurança social, do défice, etc.

Dadas as similitudes com o assalto com o mesmo nome, no famoso assalto de Norrmalmstorg, em Estocolmo, que durou cinco dias, em Agosto de 1973, as vítimas continuavam a defender os seus raptores, à semelhança das agressões familiares em que a vítima agredida pelo cônjuge (por regra, o marido) continua - estranhamente - a amá-lo e a defendê-lo, como se as agressões fossem normais e até desejáveis. 

O resultados eleitorais da coligação Pàf, mutatis mutandis, revelam um comportamento reticente, pelo apoio dado, apesar da perda da maioria absoluta, dos eleitores ao PSD e CDS. Parece, pois, que alguns portugueses, vítimas das políticas públicas criminosas daquela coligação e impostas sob pretexto da austeridade da troika, que aquelas vítimas passaram a identificar-se emocional, ideológica e programaticamente com os sequestradores políticos da coligação. 

Mesmo que se admita que essa estranha relação e dúbio complexo de afectividade e ódio simultâneo, entre os eleitores portugueses, ou alguns deles, e os seus agressores - se deva a uma estratégia de sobrevivência por  parte das vítimas, essa cegueira deixa de ser compreensível neste acto eleitoral que deu uma nova oportunidade aos eleitores (ou às vítimas!!!) para se libertarem dos sequestradores. Podendo fazê-lo, preferiram continuar a ser agredidas. 


Ora, a futura composição do parlamento será determinado por uma maioria relativa do PSD e CDS, que submerge perante uma maioria de partidos de esquerda representados na AR, ainda que estes não se tenham apresentado conjuntamente a eleições, e será essa pequena nuance que fará a diferença e permitirá ao PR empossar um novo governo de direita. O qual poderá cair a qualquer momento, por manifesta falta de apoio e de legitimidade política dos partidos com representação parlamentar. 

Será esta atomização política, dentro e fora do parlamento, gerador dum erratismo perigoso, que gerará uma grande dose de instabilidade, intimidação e até chantagem na vida pública nacional - a qual só agravará a depressão nacional, especialmente numa sociedade que já se afastou dos indicadores de desenvolvimento europeus e que em nome da austeridade nenhum resultado conseguiu obter. 

Portanto, é a esse processo de intimidação política e de prolongamento da instabilidade fiscal e da imprevisibilidade económica imposta pelas insustentáveis políticas públicas do governo sobre os portugueses, e perigoso na vida das pessoas, das famílias e das empresas, que fará desta relação do eleitorado do centro-direita com os seus próprios sequestradores - um verdadeiro síndrome político de Estocolmo à portuguesa. 

É como se a coligação Páf fechasse na sua garagem ideológica o conjunto dos portugueses vítimas das suas agressões, mas que, ainda assim, continuam a dar-lhes apoio. Razão por que é lícito pensar que Portugal, ou boa parte dele, está profundamente doente. 



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