quinta-feira

Cavaco vai fabular. Autopsicografia do desastre e o adiamento do futuro de Portugal




Um discurso imaginário de Cavaco por ele próprio. Qualquer semelhança com a realidade decorre da distância entre o pensado e o não assumido, em mais um momento de denegação da realidade e porque as aparências, em política, são para manter até ao fim nesta República das bananas. 
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Cavaco Silva:

- "Portugueses - como sabem a 4 de Outubro houve eleições para a Assembleia da República, para eleger o PM, e o presidente do PSD foi o líder do partido mais votado. Por essa razão, e atendendo à nossa tradição juridico-constitucional já longa e que conta com 40 anos de costume, devo dar posse ao Dr. Pedro Passos Coelho para formar Governo no prazo legalmente previsto. 

- Sei, contudo,  que estou a perder tempo e a adiar o futuro de Portugal e dos portugueses, porquanto o seu Governo irá ser chumbado pela nova composição da Assembleia da República entretanto gerada, mas como sou profundamente anti-comunista e também não me agradam as ideias trotskistas do BE, devo priorizar as minhas preferências, gostos e simpatias pessoais em detrimento do interesse nacional cuja maioria democrática repousa agora à esquerda e é liderada pelo Dr. António Costa, personagem de quem não gosto. 

- Neste sentido, Portugal e os portugueses podem esperar, eu não, já que estou de partida, e antes que isso ocorra deverei deixar bem instalados no poder aqueles que durante décadas me apoiaram politicamente e sempre me elegeram para os cargos de PM, primeiro, e de PR, depois. 

- É a esta luz que deverei empossar o centro-direita na coligação Paf, pois eles são a verdadeira garantia de que a troika não sairá de Portugal e, claro, a austeridade também não. É preciso conter os salários, pagar as dívidas aos exterior, equilibrar as finanças públicas e tudo isso não se faz com políticas públicas expansionistas, orientadas para o crescimento e emprego, como quer António Costa, isso faz-se, sim, mantendo o garrote nos funcionários públicos, continuar a esbulhar as reformas aos pensionistas, desmantelar o Estado social, privatizar tudo (até o oxigénio que respiramos!!) e a dar livre trânsito à alta finança, aos bancos e aos investimentos de cariz mais especulativo. Pois são esses que aportam capitais ao país, mesmo que não gerem emprego, riqueza nem prosperidade. Vide o caso da privatização da EDP aos chineses, com essa operação os consumidores portugueses conseguem pagar a energia mais cara na Europa, e os chineses, pelo seu lado, conseguem extrair elevados rendimentos dessa participação na empresa. 

- Por força do costume constitucional e porque seria  indesejável ver os comunistas a integrar um Governo em Portugal, membro da NATO e da UE, é que reitero a minha confiança em Pedro Passos Coelho e no seu apêndice, o CDs, que aproveitando-se desse mesmo costume (ou prática consuetudinária) está a fazer uma "magnífica utilização" do aparelho de Estado ao nomear uma catrafada de boys do CDS para lugares-chaves da alta administração pública, a fim de garantir as condições de vida de um inverno rigoroso que se avizinha. 

- De resto, e para concluir, nada do que aqui digo surpreende - ou deverá surpreender - os portugueses, pois eles sabem que comigo nunca houve falta de apoio ou respaldo constitucional ao Governo do dr. Coelho, quer quando o dr. Portas se demitiu, naquela que foi a "demissão irrevogável" mais cara da República, quer, dias antes, na demissão do ministro das Finanças, Vitor Gaspar. Como sabem, estávamos em Julho de 2013, e o "normal funcionamento das instituições" foi colocado em causa, mas eu como sou um PR engagé do PSD sempre fui coerente com os meus princípios, interesses e carreira política, razão pela qual nunca deixar de amparar o Governo de Passos Coelho e nunca dissolvi a AR, como devia no plano constitucional. Um Governo a que agora voltarei a dar posse, mesmo que Portugal fique a arder em lume brando por mais umas semanas ou meses, e com os custos reputacionais que isso implica e as dificuldades orçamentais que daí decorrem para as pessoas, as famílias e as empresas.

- Portanto, sou igual a mim próprio: parcial, tendencioso, sectário e muito, muito ideológico e preconceituoso. Comigo os portugueses não contam para permitir que comunistas e bloquistas ascendam ao Governo de Portugal, só essa grande coligação paf, por acaso formada depois das eleições de 2011, e que desgraçou os portugueses nos sectores da saúde, da educação, da justiça, dos impostos, enfim, em todas as áreas e sectores da governação - será chamada a formar governo, porque Portugal precisa desesperadamente de continuar a viver o momento austeritário, que implica a redução de rendimentos e de consumo dos portugueses, porque essa é ainda a única forma de impedir que vivam acima das sua possibilidades". 

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Autopsicografia

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente. 

E os que lêem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm. 

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão, 
Esse comboio de corda 
Que se chama coração. 
Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro' 
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