domingo

DA DIGNIDADE DO ESTADO - por Luís Meneses leitão -

Há uma coisa que há muito se perdeu em Portugal que é o sentido da dignidade do Estado. Mesmo antes do memorando, quando Sócrates foi chamado a despacho a Berlim por Angela Merkel devido à subida dos juros da dívida portuguesa, fui de opinião que um primeiro-ministro de Portugal não se deveria sujeitar a esse tipo de tratamento. E muito menos me pareceu aceitável que quando Sócrates foi derrubado — a meu ver já tarde porque Passos Coelho insistia obstinadamente em mantê-lo no cargo — a chanceler alemã tivesse o descaramento de ir criticar a decisão do parlamento português no parlamento alemão. Estou por isso muito à vontade para achar inaceitável que, entre duas reuniões do Eurogrupo, a Ministra das Finanças vá prestar vassalagem a Berlim, aceitando que o país seja exibido carinhosamente por Schäuble como exemplo a seguir. O governo pode naturalmente tomar as decisões que entender nas reuniões do Eurogrupo, contra ou a favor da Grécia. Mas já não me parece que o Ministro das Finanças de um Estado soberano deva contribuir para uma clara operação de spin do Ministro das Finanças alemão, na altura em que ele é contestado no seu próprio governo, precisamente pela sua instransigência em relação à Grécia.

Portugal segue com absoluto fanatismo uma estratégia que está completamente errada e que só pode trazer o desastre. O Syriza é um partido radical de esquerda, que em caso algum deveria estar à frente de um governo europeu. Se o está, é precisamente devido às constantes humilhações a que foram sujeitos os gregos pela troika, humilhações igualmente praticadas em Portugal, como agora Juncker veio reconhecer, para desgosto dos fanáticos que acham que ainda nos submetemos o suficiente. E nesse aspecto, se esta deriva não for invertida, a situação só pode ficar muito pior. As pessoas que hoje festejam a "hollandização" de Tsipras, devem pensar que a seguir a Hollande virá inevitavelmente Marine Le Pen, assim como um falhanço do Syriza na Grécia atirará o país para as mãos do Aurora Dourada. Numa altura em que a Rússia adopta uma nova atitude expansionista, que ameaça redesenhar o mapa da Europa, continuo a achar que os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo.
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Obs: O Direito Internacional Público recebe aqui um novo "contributo" para o reforço da figura do Estado-vassalo na contemporaneidade.
É lamentável, para não dizer abjecto. 
Mas são episódios deste teor que revelam a correlação de forças nas relações internacionais.  A força sobrepõe-se sempre ao direito, e este raramente tem a ver com a justiça dos povos, sobretudo dos mais espoliados, como tem sido o povo português, facto reconhecido por J.C. Juncker recentemente. 
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