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A falta de sucesso da Grécia: notas filosóficas

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O sucesso materialista duma sociedade pode, paradoxalmente, integrar o palco para o seu eventual fracasso. Quando os gregos da Antiguidade entraram na chamada Idade do Ouro, os dramaturgos de então tentaram alertá-los para os perigos ocultos que os esperavam pela frente. Não obstante a ideia comum de que corremos mais riscos quando estamos mais vulneráveis, os gregos chegaram à conclusão de que, contraditoriamente, somos mais fracos quando nos sentimos fortes. Aliás, na sua filosofia, os gregos identificaram uma relação causal entre quatro conceitos: olbos (prosperidade), hybris (presunção), ate (loucura), e nemesis (vingança divina).

Nesta cadeia, a prosperidade conduz à presunção, a presunção inspira a loucura e a loucura convida à vingança divina. 

Representado no palco, o modelo era personificado por uma figura poderosa, (o herói trágico) como sistematiza - que, cego pela sua invencibilidade imaginária, faz despoletar certas forças que acabam por causar grande sofrimento a si e àqueles que ama. Porque, quando um homem ousa agir como um deus - sem prestar contas a ninguém salvo a si mesmo - os deuses invejosos (e os gregos tinham esta crença!!) mostram-nos quem na verdade somos, lembrando-nos pelo sofrimento as nossas limitações humanas. 

Aparte considerações de política interna e europeia que aqui se poderiam tecer sobre o estado a que chegou a Grécia, é útil notar que os gregos sempre possuíram um forte sentido de ironia, viam o homem como um ser seduzido e traído pela sua própria sede de grandeza. O homem, na ânsia de satisfazer as suas potencialidades, era destruído pelos seus próprios desejos mais profundos. 

Mesmo o sucesso, sublinhavam os gregos, em lugar de ser uma ocasião para se festejar com franca isenção, era na realidade um momento repleto de riscos. 

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