sexta-feira

França, o terrorismo de inspiração jihadista e a revolução francesa



Fez-se a Revolução Francesa para eliminar os privilégios duma monarquia e duma aristocracia doente e déspota, mas, é bom lembrar, a república democrática que a substituiu ainda se tornou mais radical e militarista. Dentro e fora de portas, o que levou a um nacionalismo exacerbado que facilitou a ascensão do pequeno Napoleão Bonaparte cuja acção - política e militar - deixou a Europa em sangue, e Portugal - e os portugueses - que o digam... 

Foi um iluminismo para uns, destruição e submissão para outros. E foi e é assim, entre a paz e a guerra - que se tece a história das relações internacionais no Mundo moderno e contemporâneo.

Eis a nota, por ironia do destino, que me evocou o legado imediato da Revolução Francesa(1789-99)- e dos valores-guia que ela acalentou(liberdade, fraternidade e igualdade). É por eles que hoje a França, mas também a Europa e o mundo, se batem!!!



A liberdade, a fraternidade e a igualdade que animou a Revolução Francesa em 1789 deu origem a muitos excessos que hoje se reflectem no quotidiano da República Francesa, um país anticlerical que alberga no seu seio cerca de 5 milhões de pessoas oriundas das suas antigas colónias (aqui relativas só ao continente africano): Marrocos, Tunísia, Líbia, Senegal, Niger, Chade, Mauritânia, Argélia, etc..

De súbito, no ano de 2014, os jihadistas do alegado Estado Islâmico/EI (uma organização terrorista que utiliza métodos selvagens para chocar a opinião pública e amedrontar o Ocidente europeu, além de pretender conquistar o Iraque e criar o Califado) começam a cortar cabeças a jornalistas anglo-saxónicos para o mundo ver em directo, para consternação de todos. Foi o método mais eficaz de publicidade de terror em prol da sua causa. 

Foram estes episódios bárbaros que acordaram as consciências dos líderes políticos da Europa e dos EUA para o perigo que, durante décadas, ajudaram a criar na relação com os Estados do Médio e Extremo Oriente. Estados cujos cidadãos emigraram para a ex-potência colonial - a França - desde a década de 60 do séc. XX - e que hoje tornou a França num barril de pólvora de cidadãos oriundos das ex-colónias e que muitos deles receberam treino e estão dispostos a por em prática crimes bárbaros em nome da causa jihadista que tem vindo a ser planeada, em larga escala, pelo EI no Iraque, na Síria e que agora tem reflexos na Europa.  

De súbito, a Europa acordou para o problema de ter no seu seio o inimigo interno, extremistas que se querem vingar das políticas desenvolvidas nos seus países de origem. Na Líbia, por exemplo, a França utilizou bombardeiros para aplacar uma situação de guerra civil, o que deixou uma sede de vingança sobre a França. Ora, a França está repleta de líbios, muitos dos quais querem vingar aqueles bombardeamentos que lhes mataram familiares e amigos. Sucede que o mais curioso desta nova relação entre ex-colónias e antiga metrópole (França) - é que os jihadistas já não são importados do Afeganistão, da Síria, do Yemen, do Iraque - mas irrompem do seio da França, onde já nasceram, cresceram e se formaram. Sendo que muitos deles regressaram àquelas ex-colónias para receber treino militar e conhecimentos que lhes permite fazer o que fizeram em Paris, matando 12 pessoas nas instalações do jornal satírico Charlie Hebdo.

Ou seja, já não se trata de elementos oriundos de células da Al Qaeda treinadas no santuário do terrorismo global, o Afeganistão, mas cidadãos franceses, alguns dos quais perfeitamente inseridos na sociedade e com família constituída, já toda nascida em França. Ou seja, muitos desses operacionais já não são filhos de emigrantes muçulmanos de 2ª geração, mas simples cristãos que rapidamente se converteram ao islamismo e, dentro desta religião de paz, enveredaram depois por métodos violentos de intervenção social em nome duma causa que, para eles será de libertação do Profeta Maomé; mas, para a sociedade em geral, alvo dos seus ataques, trata-se, simplesmente, de ataques terroristas. 

Em suma: estes jihadistas, de inspiração islamita radical e fanática (que nada tem a ver com o texto fundacional do Alcorão - aqui alterado e corrompido para servir fins de violência terrorista e de criação do Califado), receberam treino militar, dispõem de comunicações e de armas de guerra, utilizam a religião para um falso pretexto libertador, recrutam on line na Net, especialmente entre comunidades emigradas e junto de pessoas sem projecto de vida que estão desempregadas e/ou descontentes com as condições em que vivem e actuam em rede - primeiro de modo informal, depois de forma mais formal e obedecendo a uma hierarquia de comando que funciona como centro director. 

São estes os operacionais que, a qualquer momento e em qualquer parte da Europa e do mundo, recebem ordens de ataque para assassinar alvos selectivos, em regra pessoas (políticos, jornalistas, empresários, intelectuais), e destruir alvos considerados previamente pelos terroristas fanáticos de inspiração islamita. 

Há uma década, é bom recordar, que G.W.Bush promoveu - politica e militarmente - a destruição do Iraque (com a ajuda do desertor Durão Barroso, que também ficcionou a existência de armas químicas no Iraque de Saddam, armas que nunca existiram, mas que justificou o ataque norte-americano); hoje entregue a bandos criminosos que se degladiam entre si; e a destruição mais recente dos Estados sírio e líbio - promovido pelas relações franco-americanas  - fazem da França e dos EUA alvos preferenciais daqueles operacionais jihadistas treinados numa daqueles ex-colónias francesas. 

Eis o emergente terrorismo globalitário que, de súbito, entrou pelas portas da Europa, atingiu mortalmente França - deixando-a completamente paralisada, e nada nos garante que, amanhã, acção idêntica não seja cometida em Espanha (onde já existem tendências nacionalistas a querer a independência de Madrid...) ou noutro qualquer ponto da Europa que, directa ou indirectamente, alimentou este monstro do jihadismo islâmico que cresceu e se nutriu no seio das próprias sociedades europeias que acolheram estes extremismos  que mata, paralisa a economia e disfunciona a sociedade e a política - enchendo o mundo de medo e de terror. 

Em suma: o terrorismo de base fundamentalista deixando-nos paralisados ante o terror da imprevisibilidade assassina e destruidora.

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