domingo

Evocação de João Gaspar Simões (1903-1987). Esboço de retrato autobiográfico




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Um dia pediram ao primeiro biógrafo e editor da obra de Fernando Pessoa e também o mais consistente biógrafo de Eça de Queirós, cujo trabalho foi publicado em 1945 e designado Eça de Queirós: o homem e o artista, uma biografia que lhe valerá o Prémio "O Primeiro de Janeiro" - que alinhasse umas palavras sobre a terra onde nasceu, a Figueira da Foz.

Abaixo transcrevo o produto dessa reflexão de João Gaspar Simões sobre a qual valerá a pena meditar:

Eis um tema sobre o qual nunca meditei: a terra onde se nasce é, como o local onde se morre, um simples ponto de encontro entre duas realidades - uma realidade que subsiste e uma realidade que passa. Ter nascido aqui ou ali, pouca importância tem. A terra onde iniciámos na vida é que é a nossa verdadeira pátria. Em certo local da terra portuguesa nasci; aí iniciei a minha experiência do mundo. Perante mim estava o mar. Ao mar devo muito do que sou. [...]. Mas no mar vem morrer todos os dias o sol. O mistério da morte quotidiana do sol abre os olhos ao homem da beira-mar sobre o próprio mistério da vida [...]. Ter nascido à beira-mar é como ter nascido debruçado sobre a vida. [...]. Olhando a estabilidade indomável das águas imensas do mar me fui encontrando vivo. E,quando vivo, me vi, senti-me triste.O mar é austero, o mar é duro, o mar é severo como tudo que nos teme. Fazia-me falta a presença de outra realidade. Era a natureza dócil, a natureza vencida que me chamava. Chamavam-me as árvores. Não me resigno a ter nascido numa terra sem árvores. Eis porque não há nada mais belo para mim do que terra cheia de árvores e o mar fundo.

João Gaspar Simões - Figueira da Foz
in Notícias da Figueira. (1950 Agosto. 26), pág.3-4.





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