sexta-feira

O pior do crato - por Carlos FIOLHAIS -

O pior do Crato


Nunca pensei vir a escrever este título. Sei bem que não é original, pois várias vozes têm vindo a chamar a atenção para erros, cada vez piores, de Nuno Crato na gestão do Ministério da Educação e Ciência. O filósofo José Gil, por exemplo, declarou há pouco: “Temos possivelmente, e vamos descobri-lo, um dos piores ministros da Educação, um homem por quem eu antes tinha uma certa simpatia, que está a continuar a obra de destruição do ensino.”
Também eu simpatizei com Nuno Crato e com a sua ideia de “implosão” do Ministério da Educação. Não tendo ele implodido o ministério, foi o ministério que o implodiu a ele. É hoje um ministro desacreditado de um governo desacreditado. Com a obsessão do crédito da troika perdeu todo o crédito que nele tínhamos depositado. De facto, entre os inúmeros professores e pais que o levaram aos ombros a ministro, a desilusão é enorme. E também entre os eleitores, em geral: o desatino em crescendo das suas políticas valeu-lhe a transição do topo para o fundo da lista dos ministros mais estimados.
Mas agora há pior. Na semana passada, Crato, não contente com os cortes drásticos que efectuou nas bolsas de ciência, obrigando numerosos jovens a emigrar, resolveu liquidar de vez a ciência em Portugal. De um universo de 322 unidades de investigação, condenou à morte a curto prazo 154, cerca de metade. Destas, 83 tiveram Bom, num processo de avaliação que, na parte em que não é obscuro, está empestado de erros e omissões, e têm a morte anunciada. Terão um financiamento ridículo e ficarão impossibilitadas de obter recursos humanos ou equipamentos. Bom, numa escala que contempla ainda Muito Bom, Excelente e Excepcional, é péssimo. E 71 tiveram Razoável ou Insuficiente, o que significa a execução imediata. Foi tudo a eito: Matemática, Física, Engenharia, Sociologia, Filosofia, etc. As outras unidades (168) aguardam o seu destino: estão num limbo e poderão também ser condenadas. O número de investigadores já sentenciados à morte é de 5187 num total de 15.444. Entre eles estão alguns dos melhores cientistas portugueses, nomeadamente Nuno Peres, do Centro de Física do Porto e Minho, e Mário Figueiredo, do Instituto de Telecomunicações, que acabam de ser distinguidos internacionalmente como as mentes mais brilhantes.
O ministro diz – quando diz alguma coisa, porque ficou embatucado quando uma jornalista lhe solicitou uma explicação – que não é nada com ele. Lava as mãos como Pilatos. E remete para os seus subalternos, em particular para a Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT. Esta já foi em tempos uma instituição em que os cientistas confiavam. Mas agora resolveu destruir um sistema de avaliação internacional, exigente e cuidadoso, que estava montado e tinha provas dadas, e experimentar outro, que se está a revelar frágil e tosco. Contratou, não se sabe como nem a que preço, a European Science Foundation – ESF, que está a desfazer a sua actividade em favor de uma nova organização, a Science Europe, e pediu-lhe uma avaliação à distância (isto é, sem ver nem falar com ninguém), com base apenas em papéis, entre os quais um estudo da produção científica. Os resultados são calamitosos para a reputação da ESF e, por salpico, para a FCT e para o ministro. Por um lado, há muitos erros grosseiros, que só por si deviam ser suficientes para denunciar o contrato. Mas, por outro, mesmo desculpando o indesculpável, em muitas disciplinas não bate a bota com a perdigota: por muito criticável que seja o método da folha Excel, esperar-se-ia alguma correlação entre a produtividade científica e a nota dada. Não há, porém, quase nenhuma. O ministro podia ter poupado o erário público se, em vez de contratar avaliadores da ESF, tivesse comprado uma roleta. Fui ver quem eram os avaliadores da minha área. Verifiquei com espanto que esta nem sequer existia. A Física estava amalgamada com a Química e com a Matemática, sendo todas elas avaliadas por um painel constituído por um engenheiro, três físicos, quatro químicos e três matemáticos (sem nenhuma mulher, isto é, sem ninguém pragmático). Este painel é muito pior do que os três, um por disciplina, da última avaliação, que envolveu 15 matemáticos, seis físicos e sete químicos. Um dos ramos maiores da Física – a Física da Matéria Condensada – foi agora praticamente encerrado em Portugal por um painel que só tinha um físico desse ramo. A matéria passou de condensada a condenada! Dantes os avaliadores eram conhecidos e respeitados, hoje são desconhecidos. O resultado só podia ser o desastre que está à vista.
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Obs: O douto Crato quando ainda não era poder participava num programa de rádio ou tv em que assumia o papel-falsete de divulgador científico; uma vez injectado à pressão no Poder pela quota do cds/pp - (o partido que violou todas a linhas vermelhas que se obrigou respeitar!!!) a sua função - de crato - mandatado pelo Terreiro do Paço, é o de destruir literalmente as instituições de C & T e I & D em Portugal seguindo a política do talhante. De cortar tudo, até o osso. 
Seja por uma questão ideológica, programática, sectária e de pura má fé política, ou de todas elas cumulativamente - que encaixam como uma luva neste ministro-tarefeiro que executa as ordens das Finanças.
Desta erva daninha na 5 de Outubro Portugal demorará uma década ou duas a recompor-se. E o mais grave é que dentro de um ano, ou menos, já ninguém se lembrará destas más elites, não obstante isso será o país inteiro quem pagará esta pesada factura que os coveiros do XIX Governo (in)Constitucional legaram a Portugal e aos portugueses. 
A chave para impedir a prossecução desta débacle reside em Belém. Mas o locatário do Palácio Rosa, por um azar dos Távoras, é também alguém que, em rigor, está mais preocupado com a sua carreira pessoal e política e a imagem que faz de si perante a opinião pública e a história - do que com a verdadeira definição do interesse nacional. 
Talvez por isso se tenham inventado uns conselhos de Estado para falar sobre a melhor forma de aplicar os fundos comunitários, uma competência adstrita ao Governo. 
Tamanha é a confusão que vai nessas mentes antipatrióticas que andam literalmente a escavacar o que resta de Portugal. 
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