segunda-feira

Morreu Delgado Domingos, a "voz da ciência" contra o nuclear

E agora Professor?

por Duarte d´Araújo Mata, em 07.07.14

Um dia iamos perder o Professor. Já o sabiamos. Foi hoje. E agora Professor? E agora? Quem é que nos orienta nos "seus" assuntos, que são os nossos do dia a dia? link
Quem é que nos diz para não embarcarmos (era uma expressão sua) em tudo o que circule por aí, seja nos jornais, seja em movimentos de opinião, que é absolutamente fundamental ir buscar a informação às fontes e "fazer as contas".
A quem é que podemos mandar um e-mail com uma dúvida, um problema, tantas vezes a exigir um aturado trabalho de verificação de dados, a quem o Professor nunca dizia que não. Dizia sempre "vou ver o que posso fazer". E lá vinham sempre as suas respostas claras, tudo claro e explicado em extensos mails, por vezes a altas horas da noite...É que o Professor nunca se chateava com as nossas dúvidas!
Não sou do tempo em que desmontou esse "grande" negócio do nuclear de Ferrel nos anos 70, mas vi-o há pouco tempo voltar à carga numa investida que aí houve mais recente. Mas lembro-me das suas viagens a Aveiro quando o Ministério Público o obrigou a perder milhares de horas em julgamentos a propósito da co-incineração... julgamento esse que, claro, o Professor ganhou! Tinha razão. Fez-nos um favor a todos nós.
E quando o CO2 apareceu como sendo a razão para todos os males e o Professor veio logo avisar-nos de que ir por aí não ia dar bom resultado, que alarmismos e catastrofismos exacerbados, ao mínimo falhanço, iam ser o descrédito total. E que fazendo as contas se via que o assunto estava a ser mal colocado. E que o problema seriam alterações climáticas, sobretudo pela alteração do uso do solo, má gestão da Paisagem. E cada dia que passava se via que estava com a razão do seu lado.
O Professor fechava o ciclo das coisas, tal como defendia que os materiais funcionavam neste mundo. Um assunto aparentemente estanque numa matéria específica acabava, nas suas mãos, interligado e lógico com outros saberes. E a sua capacidade de argumentar que nos deixava a todos a ouvi-lo se fosse preciso horas, sem pestanejar. Se a Ciência ficou indiscutivelmente mais pobre, ficámos todos muito mais pobres com a sua partida e com a falta que nos fará a sua capacidade de resposta e de proposta. E infelizmente, ficaremos certamente mais vulneráveis para o que aí vem!
Mas permita-me fechar também o ciclo das ideias. É que se o Professor era um grande cientista, era ainda mais uma excelente pessoa e um grande amigo.
(foto PUBLICO, AQUI)
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Obs: Não sendo da área, habituei-me a respeitar este académico e cientista das ciências duras, seja pelo conhecimento que debitava na área energética, seja ainda pelo gosto pela polémica que cultivava. 
- Corporizava também o perfil de professor que mantinha de perto uma relação estreita com os alunos, não era de plástico nem procurava demonstrar aquilo que não era, como hoje é corrente entre alguns académicos da treta cujo tamanho do ego só é proporcional à ambição, ignorância e vaidade - que depois transportam para as redes sociais onde julgam ser muito bem sucedidos com likes alienantes e bajuladores à mistura.
- O prof. Delgado Domingos deixa um imenso legado. veremos como será continuado. 

R.I.P. 

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