sábado

Não apareceram príncipes no lançamento do livro do fazedor de reis socialistas


Não apareceram príncipes no lançamento do livro do fazedor de reis socialistas

MIGUEL MANSO


Nem António José Seguro, nem António Costa. O lançamento da biografia Jorge Coelho – o todo-poderoso revelou-se, esta quinta-feira, uma cerimónia deserta de actuais e antigos dirigentes do principal partido da oposição. A verdade é que as dúvidas sobre a presença do biografado também não ajudaram. E assim, a espécie de homenagem ao “homem do poder” coube apenas ao seu ex-colega de Governo, António Vitorino.
Foi assim, um lançamento discreto. À imagem do ex-dirigente socialista, que fez questão de se sentar na ponta da última fila de cadeiras da livraria. Daí ouviu a caracterização que Vitorino fez. “Ele é, de facto, um homem do poder, no partido, no Estado e no sector empresarial”, garantiu o ex-comissário europeu. Que acrescentou, depois, de onde vinha a força: dele: “O que faz o poder de um homem é a sua personalidade e o seu caracter”. Que resultavam na sua “marca excepcional”, a de ter existido e de existir “ainda hoje uma empatia” com os militantes do partido. Era, de longe, “o mais carismático” de todos os dirigentes do PS, depois do fundador e ex-Presidente da República, Mário Soares.
Mas, de facto, o lançamento não permitiu perceber para que lado pende Jorge Coelho na presente disputa no PS. Nem o próprio quis desfazer essa dúvida. “Não vou falar nada”, garantiu aos jornalistas antes da cerimónia.
Mas – através de Vitorino – percebeu-se qual seria o estímulo capaz de garantir o “regresso do filho pródigo” ao PS. O “guterrismo” foi referido por mais de uma vez pelo advogado. Por ser o “homem da confiança absoluta de António Guterres”, pelo seu “papel central”. E até para fazer a reabilitação daqueles anos. Contestando a ideia de que Guterres era uma cópia da Terceira Via do britânico Tony Blair. Lembrou que esse programa de Governo foi redigido ainda antes de Blair chegar ao poder. “Era a nossa via e não foi a cópia de nenhum outro”, rematou.
Mas porquê recuperar esses tempos, tantos anos depois? Vitorino deixou-o antever ao terminar a sua palestra, quando lembrou a sua participação na Conferência Novo Rumo de António José Seguro. “Fiquei tranquilo, ele está de volta”, disse o ex-ministro de Defesa de Guterres. “Calma Jorge, temos tempo”, atirou Vitorino. Afinal, ainda faltam dois anos para as próximas presidenciais.
O livro também já o assinalava. O autor, Fernando Esteves, deu o tiro de partida, quando, no prefácio, citou Guterres a admitir que não excluía em definitivo a hipótese de se candidatar a Presidente da República, e quando advertiu que Jorge Coelho pode voltar a ser um agente político activo, pois poderá fazer o que quiser na política. “Não quero ser candidato, mas não faço juras eternas; há sempre uma probabilidade, mesmo que mínima, de isso acontecer”, admitiu o ainda alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados.
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Obs: Se Pina Moura era, alegadamente, a "eminência parda" de Guterres - Jorge Coelho era o homem do aparelho que fazia a ligação do partido à sociedade, cimentando toda a logística do partido às bases de apoio e simpatizantes que, nos períodos ditos normais e nos tempos de excepção, emparelhavam a base ao topo do partido que então comandava o aparelho de Estado no Governo liderado por António Guterres: o homem que raramente se enganava, mas tinha dúvidas e uma imensa sensibilidade social que lhe permitia compreender os portugueses.

Jorge Coelho era o homem sempre presente, nos bons e maus momentos, encarnava exemplarmente pela sua força de carácter, energia e, acima de tudo, pelo poder do seu voluntarismo político.

Até nos momentos mais difíceis, na sequência da sua demissão de ministro do Equipamento Social, após o acidente Entre-os-Rios, que vitimou meia centena de pessoas. Aqui Jorge Coelho - revelou grande dignidade perante tamanha tragédia humana e uma compreensão perfeita do que deve ser o exercício da função política e de quais são os seus limites num quadro de acontecimentos extraordinário.

Por outro lado, o primado do político sempre foi uma dimensão que se justapôs ao conceito que Jorge Coelho tinha e exerceu da sua função política, pelo que secundarizou os factores económicos face aos factores políticos no exercício do poder. A esta luz, Jorge Coelho foi um "maquiavélico", na medida em que sempre considerou que o fenómeno primordial é o poder, e não os factores económicos, durante muito tempo ligados à propriedade, conforme a tese marxista, para a qual a classe dominante é composta necessariamente pelos proprietários dos factores de produção.

Sem ser intelectualmente elaborado, Jorge Coelho conseguia falar para as bases do partido e as massas, o que facilitou sempre a sua ligação e empatia com a opinião pública e a sociedade em geral. 

Contudo, e com tantas qualidades e virtudes, dificilmente veríamos Jorge Coelho apresentar um livro de António Vitorino que foi, seguramente, um dos melhores comissários europeus desde que há Europa (reconhecido pelos seus próprios pares). No entanto, dificilmente identificaríamos outra pessoa - na área socialista - que estivesse em melhor posição para o fazer do que António Vitorino. 

Seja como for, coincidência do tempo emergente (ou não!!), a apresentação deste livro de JC pode significar que os bons espíritos encontram sempre uma boa justificação para se reencontrarem. Um reencontro cheio de ressonâncias no futuro próximo, e que têm como referência comum o actual Alto Comissário para os Refugiados e ex-PM, o tal que se preocupava com as pessoas e que responde pelo nome de António Guterres. 

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