domingo

O cemitério é um espaço de vivos

Por regra, os cemitérios são espaços que convocam à dor e ao sofrimento de entes queridos e amigos que partiram. Lá se deitam os que deixaram de viver, e perante a dificuldade de serem sepultados nos adros das igrejas - as autoridades encontraram uma forma de os construir fora das igrejas, sepultando aí os mortos. Resolvendo-se assim o problema da falta de espaço - que se agravou com o aumento da população, a partir dum certo momento.
Mas se nos distanciarmos dos afectos e sentimentos destroçados que implica sempre a memória e recordação da partida de um ente querido - acabamos por dar a volta ao "eu" para começarmos a coleccionar as verdadeiras maravilhas que cada um daqueles mortos - em tempos - representou em cada um de nós.
Católico, protestante, judaico, islâmico ou de outra qualquer religião sempre que cada um de nós entra num cemitério e olha em redor é capaz, sem grande dificuldade, de recuperar a pasta dos tributos que cada um dos que jazem nos legou. E por vezes está lá a enciclopédia completa, com todos os seus volumes.
O exercício nem sequer é arriscado, remonta apenas ao bom senso, à memória e à trajectória de cada um nesta breve passagem pela vida, e que talvez não fosse marginal deixar de invocar. Se, por acaso, houver uma vida no além toda aquela gente que partiu ficará a saber que alguém os evoca, mesmo na casa onde julgamos que eles se encontram - dentro daquelas caixas de madeira com umas pegas laterais que, com o tempo, também se partem.
Desta forma, com A aprendemos a ganhar o gosto pela música; com B aprendemos a conduzir (mota primeiro, depois carro); com C cultivámos o gosto pelo desporto, especialmente o futebol; com D aperfeiçoámos o gosto pelo risco que nos permitiu ir mais longe nos projectos pessoais e profissionais; com E aprendemos - tão só - a ver o mundo de diversos ângulos (que já é muito) e assim por diante, quem sabe até esgotar o abecedário e contar a história de muita vida perdida, fragmentada que só ganhará pleno sentido se essa recuperação metafísica se fizer.
Se assim for o cemitério será o espaço de vivos, um gerador de memória, um funil de pensamentos e um intensificador de identidades.
Este exercício de recuperação da memória para perceber o que cada um de nós aprendeu com os que já partiram, mas se encontram naquela morada (o cemitério) - pode designar-se, à falta de melhor conceito, pela teoria do Cemitério dos vivos.
Aos tradicionais ritos fúnebres que nos encostam à parede como se levássemos um soco no estomâgo - recupera-se antes o legado de memórias e de aprendizagens que ficamos a dever a cada um dos familiares e amigos que que já cá não estão.
Durante a vida nem a sociedade, nem a família, muito menos a escola nos prepara para a morte, a Filosofia é, ela própria - uma espécie de curso geral de preparação para ela, e quando se percebe isso é também o momento de compreender que os Pores-do-sol nos cemitérios também têm o seu encanto, com o seu skyline a delimitar aquilo podemos ver, pensar e sentir.
Especialmente, se alí estiverem não as dores deixadas pelos que partiram, mas todo um legado de coisas úteis e de aprendizagens que recuperamos quando batemos com a testa no portão dum cemitério.
A vida, ou melhor, a morte nunca deixa de nos interpelar e de constituir um mistério, ainda que para espantar os males dos que ficam se inventem umas teorias para explicar o inexplicável. Com a vantagem de alguns deles serem quadrados.
PS: Aos que foram e aos que hão-d'ir na eterna roda dentada da produção de memórias, pensamentos e identidades.