sábado

Três notas sobre Umberto Eco: a futilidade pós-moderna, o horóscopo e o sorriso


in Macro, Maio, 2015. 

Umberto Eco: "No momento em que todos têm direito à palavra na internet, temo-la dada aos idiotas"

Nota prévia: Sempre que vejo uma referência a Umberto Eco, seguramente um dos maiores filósofos (e estetas) contemporâneos (e com uma variedade de interesses alargada), lembro-me sempre daquele sujeito que conduzia o seu carro pelas ruas de Lisboa à procura de acidentes de viação. Quando via um parava e deslocava-se ao local para ver o sangue e os contornos do acidente. Isso alimentava-lhe o ego e dava-lhe pasto para o dia. Fazia isso sistematicamente. Mais do que um vício, era um gosto, um capricho e depois tornou-se num vício, além do futebol e dos jogos na consola dos então velhinhos computadores amstrads. Esta atracção pelo abismo de nós próprios - desviando-nos o olhar e a reflexão pelos aspectos verdadeiramente importantes e essenciais à vida - é que faz de muitos de nós autênticos idiotas. E esses idiotas estão hoje bem patentes nas redes sociais, na blogosfera e, naturalmente, também fora dela, que é onde começa sempre o "crime" da futilidade, da insustentável leveza dos pensamentos, das preocupações e de grande parte daquilo que as pessoas hoje pensam, dizem e escrevem. As pessoas hoje pouco mais fazem do que mostrar-se, pavonear-se nas imagens que delas fazem, mas a esse excesso de narcisismo corresponde, naturalmente, um brutal défice de formação cultural, histórica, social, económica, estética e o mais que, aliás, espelha aquilo que também alimenta os new media. As pessoas não gostam de assumir isto porque tal implica assumir a sua própria fealdade, mas, infelizmente, Eco tem razão. E só por  isso vale bem uma missa de Domingo, ou duas... Mais importante do que a Grécia antiga é, para alguns, muitos infelizmente, as selfies que as pessoas tiram de si mesmas. Mesmo que desconheçam boa parte da geografia e da história e cultura que os embrulha na sua própria futilidade. 
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UMBERTO ECO: "NO MOMENTO EM QUE TODOS TÊM DIREITO À PALAVRA NA INTERNET, TEMO-LA DADA AOS IDIOTAS"

Umberto Eco na sua casa em Milão
Umberto Eco na sua casa em MilãoFotografia © João Céu e Silva
O escritor Umberto Eco está a lançar o seu mais recente livro: 'Número Zero'. Uma crítica violenta ao esquecimento das pessoas e ao mau jornalismo no que respeita à corrupção política e social. No romance conta a história de um jornal que servirá para pressionar, usando escândalos.

A teoria da conspiração é o prato forte do novo romance de Umberto Eco. Passa-se em 1992 para que a Internet e Berlusconi não viessem piorar o cenário em que uma redação falsa se prepara para lançar um jornal também falso. O escritor gosta do que é falso, até diz que sempre foi fascinado por isso, mas está irritado com a desatenção que os cidadãos prestam aos escândalos políticos, económicos e sociais.
Diz que a escrita deste romance o reconciliou com MIlão, onde vive há 30 anos.
Na entrevista que deu ao DN garante que tudo o que conta, salvo a fantasia sobre o corpo de Mussolini, é verdadeiro, teve processos judiciais e já foi publicado: "O pior do que conto no meu romance não é o que se fez de terrível, mas que as pessoas se estejam nas tintas para todos esses acontecimentos. Vejo que tudo entra por uma orelha e sai pela outra das pessoas, como se as coisas terríveis que se passaram há 50 anos não preocupem ninguém e sejam aceites tranquilamente. Acho que ninguém me quer silenciar pois não sou Roberto Saviano, que conta segredos da mafia atuais. Eu conto coisas sobre as quais até a BBC já fez um documentário."
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As pessoas nascem sempre sob o signo errado, e estar no mundo de forma digna significa corrigir dia a dia o próprio horóscopo.


O Pêndulo de Foucault




Rir é próprio do homem, como mentir. O problema é tão complexo, há tantas razões pelas quais podemos rir... Rimos porque estamos felizes, os soldados japoneses riam-se de vergonha quando eram detidos pelos americanos, os homens riem-se durante um show de striptease para dominar a timidez. Rir tem a ver, de alguma forma, com o facto de sabermos que vamos morrer. É mais ou menos isto, e é imenso. Não, ainda não escrevi este livro.
in Expresso
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