terça-feira

Um arquivo de memórias que aproxima gerações

Nota prévia: Jogar inteligentemente com a memória é aumentar a qualidade de vida dos nossos idosos e prolongar-lhes a vida, emprestando também um novo sentido à existência.

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Um arquivo de memórias que aproxima gerações

Ou ouvir Eduardo Serra, de Algodres, Figueira de Castelo Rodrigo, explicar que só as suas irmãs dormiam dentro de casa, e que os rapazes passavam a noite no palheiro: “Uns fardos de palha, e toca a estender o lombo!”. Ou Maria Ester Varelas evocar com nostalgia os bailes da sua juventude. “Era uma dançadeira boa, que não me deixava estar parada”.
O Arquivo da Memória, criado pela Associação de Amigos do Parque e Museu do Côa (Acôa), é um projecto que usa uma base de dados relacional para disponibilizar na Internet centenas de entrevistas gravadas em vídeo, muitas delas a idosos internados em lares, e ainda um acervo de fotografias e outros documentos, permitindo que todo o material seja facilmente pesquisável segundo diferentes parâmetros: nomes de pessoas, ocupações, lugares, temas, documentos.
O arquivo está já acessível em http://www.arquivodememoria.pt, uma plataforma digital que se encontra neste momento em fase de teste.
Concebido pela Acôa a partir de uma ideia original da sua actual presidente, Alexandra Cerveira Lima, ex-directora do Parque e Museu do Côa, o projecto foi apoiado em 2010 pelo programa Entre Gerações, da Fundação Gulbenkian, e incluiu, nessa sua primeira fase, uma parceria com a escola secundária de Foz Côa, cujos alunos fizeram várias visitas a um lar local e ouviram os mais velhos descrever-lhes o estranho mundo da sua juventude, quando os rapazes dormiam em palheiros, não havia quartos de banho em casa, só se comia carne em ocasiões especiais, e namorar uma rapariga era o cabo dos trabalhos.
O objectivo inicial era tornar um pouco mais interessante a vida dos idosos internados em lares, recolhendo os seus testemunhos de vida e associando-os a um projecto que visava sensibilizar velhos e novos para a importância do património cultural e da história das comunidades locais. “A entrada no lar é difícil, mas depois os alunos achavam que afinal estavam muito bem com aquelas pessoas mais velhas, a ouvir histórias”, conta Alexandra Lima, acrescentando que também os entrevistados, quando lhes era mostrado o material e pedida autorização para o divulgar, reagiam positivamente: “as pessoas sentem que estão a deixar o seu retrato e vêem isto como um legado à família, uma coisa para mostrar aos netos”.
Nesta fase de arranque, já se gravavam em vídeo as entrevistas, algumas feitas pelos alunos, outras conduzidas pela equipa do projecto, e foram-se também recolhendo alguns pequenos arquivos familiares, com fotografias e outros documentos cedidos pelos entrevistados. Além disso, foram ainda organizadas várias iniciativas partilhadas por idosos e jovens, de visitas ao Museu do Côa a tardes de jogos tradicionais, de um workshop de desenho à plantação de árvores.
Mas desde então o Arquivo da Memória deu alguns passos decisivos, o primeiro dos quais foi a criação do Clube UNESCO Entre Gerações, que assumiu o projecto e lhe deu uma nova dimensão, potenciando novas parcerias e facilitando a sua expansão territorial: a ideia já desceu entretanto do Douro até V. N. Gaia, onde foi feita uma série de entrevistas a moradores da Serra do Pilar, e nada obsta a que um dia destes esteja no Algarve, ou mesmo nas comunidades de portugueses no estrangeiro. É também a pensar nelas que o site do Arquivo da Memória tem já uma função que permite a qualquer pessoa participar, enviando testemunhos gravados e documentos que a equipa do arquivo se encarrega de editar, digitalizar e colocar online.
Aliás, explica a presidente da Acôa, uma das razões que levou a associação a apostar na criação deste clube, para lá das vantagens de envolver a UNESCO num projecto que nasceu em território que é património mundial da UNESCO, foi “o desejo de criar uma ligação com as comunidades imigrantes”, e em particular com os romenos, numerosos na região do Côa, onde muitos trabalham nas vindimas. “Pensámos que através de um intercâmbio com um clube UNESCO da Roménia chegaríamos mais facilmente a esses imigrantes”, diz Alexandra Cerveira Lima. “A ideia seria ouvir as histórias deles, o percurso que os trouxe até cá e a sua vida aqui”. 
Outro momento crucial foi a decisão de adquirir uma poderosa base de dados relacional, desenvolvida por uma empresa especializada na utilização das novas tecnologias de informação em gestão de património cultural e natural, a Sistemas de Futuro, que tem ajudado o Arquivo de Memória a construir uma plataforma digital à medida das suas necessidades e objectivos. Um instrumento que dá ao arquivo um grande potencial de crescimento, a ponto de se começar já a antever que, no futuro, o volume de informação colocará problemas de alojamento, que será preciso resolver através de parcerias ou comprando espaço na Internet.
“Agora está tudo fidalgo”
Para o leitor ficar rapidamente com uma ideia geral do projecto, o mais prático é mesmo clicar em http://www.arquivodememoria.pt, ir à página inicial do Arquivo da Memória, escolher a opção “Pessoas” e abrir uma das 324 entrevistas já devidamente editadas e colocadas online. Digamos que o acaso o leva, por exemplo, à entrevista de Elisa dos Santos Rei, uma senhora nascida em 1928 no lugar do Púlpado em Martim Tirado, Torre de Moncorvo, distrito de Bragança, e que aos 80 e muitos anos conserva a memória fresca e a palavra pronta.  
Para lá de ser fascinante ouvir esta mulher recordar o avô, que “era muito pequenino, mas muito rijo”, e que tinha duas burrinhas, tocava pífaro e ia a pé até Moncorvo, dificilmente se vê esta entrevista - e o mesmo vale para muitas outras - sem se aprender alguma coisa. Sabia, por exemplo, que quando um rapaz chegava à idade de ir à tropa se dizia que tinha de “ir ao número”? Ou que uma fatia de pão com um bocadinho de queijo é um “mordo”? E imaginaria que a alimentação da família Rei, salvo em raríssimas ocasiões especiais, se limitava a uns caldos de feijão, pão, às vezes queijo ou azeitonas, batatas cozidas e pouco mais? “Agora está tudo fidalgo, já há muita coisa”, diz D. Elisa. No seu tempo, não: “Era só pão, batatas e feijões, era o que comíamos, e bem burros andávamos!”. Mas agora, “agora já são bolinhos, já são docinhos, já são iogurtes de uma maneira, iogurtes doutra...”. 
Quando seleccionamos um dos entrevistados na base de dados, aparece primeiro um breve resumo de cerca de três minutos (com opção de legendagem em português e inglês) e um link para quem queira aceder ao testemunho integral, que pode durar mais de uma hora. Mas mesmo na entrevista completa, é-nos permitido avançar directamente para os tópicos que nos interessarem mais, utilizando uma barra temporal que localiza os sucessivos assuntos tratados ao longo da conversa. E se a entrevistada alude a assuntos comuns a outros inquiridos, e que a organização já inseriu na lista de termos pesquisáveis, podemos premir cada um desses temas, que nos levará não apenas a todas as entrevistas que abordam o tópico em causa, mas aos momentos exactos em que este é referido em cada uma delas.
Mas também se pode abrir a caixa de pesquisa e procurar directamente um tema. Como o projecto nasceu em Foz Côa e a maior parte dos inquiridos é de zonas do interior próximas da fronteira com Espanha, não surpreende que entre os tópicos mais recorrentes se conte o contrabando, que surge em nada menos do que 30 entrevistas. Imagine-se o filão de informação que isto representa, não só para investigadores académicos, mas por exemplo para um realizador que queira reconstituir em filme o quotidiano dos contrabandistas portugueses da raia. E quem diz contrabando, diz outro tema qualquer. Neste momento, o Arquivo da Memória lista já cerca de centena e meia de tópicos consultáveis, que vão da “guerra civil de Espanha” ao “25 de Abril de 1974”, da “partida da amêndoa” à “caça”, da “pastorícia” ao “corte e costura”, da “religião” à “saúde”, dos “jogos” ao “serviço postal” ou do “queijo” às “serenatas” para citar aleatoriamente apenas uma dúzia.
Descontados prováveis acrescentos de última hora, o Arquivo da Memória contém neste momento 324 entrevistas, num total de 230 horas, cobrindo 54 freguesias de dez concelhos. E inventariou 690 documentos. Um trabalho feito por 31 colaboradores e que contou com a parceria de 30 instituições. Números que deverão aumentar bastante no futuro próximo, dependendo dos financiamentos que for possível garantir. A candidatura a fundos comunitários — PROVERE do Côa e ON2  — permitiu já que o projecto se alargasse de Foz Côa e Figueira de Castelo Rodrigo para o vale do Côa e começasse a expandir-se para o vale do Douro.
Mas a equipa coordenadora preferia que esse desejável crescimento, que pode ir em muitas direcções - está neste momento a ser equacionada, por exemplo, a integração no arquivo de várias colecções de pequenos museus locais -  não atraiçoasse algumas ideias essenciais que estão na raiz do projecto, como a sua lógica intergeracional, o envolvimento dos idosos internados - “cada novo colaborador é livre de fazer as entrevistas que quiser, mas gostaríamos que fizesse pelo menos uma num lar”, diz Alexandra Cerveira Lima -, a manutenção da iniciativa Memória em Festa, uma espécie de collection days promovidos nas aldeias para comunicar o projecto junto das comunidades locais, e também o eclectismo dos colaboradores, tentando garantir a qualidade possível sem ceder a uma excessiva profissionalização do projecto.   
A coordenação geral, partilhada com Mafalda Nicolau de Almeida no arranque do projecto, está hoje a cargo de Alexandra Lima, e a coordenação executiva foi assegurada por Bárbara Carvalho, que tratou a maioria da informação hoje disponível. Mas “é sobretudo um trabalho de muitas participações”, diz Alexandra Lima, “como a de Maria Sottomayor, que desde 2011 faz e edita entrevistas em lares e centros de dia, de Foz Coa à Serra do Pilar”.
Peixeira aos nove anos
Algumas das entrevistas levantam questões delicadas, como a da senhora que, durante quase uma hora, descreve a violência continuada que sofreu às mãos do marido. “Era um caso medonho de violência doméstica”, e a senhora, cujo marido já morreu, e que tem filhos, “queria que o seu testemunho ficasse disponível”, diz Alexandra Lima. Dada a sua dimensão privada, decidiram não colocar a entrevista online com acesso livre, mas querem que possa ser consultada por investigadores e estão a estudar um modo de indicar no próprio site que este e outros materiais mais sensíveis existem no arquivo e podem ser acedidos sob determinadas condições.
O PÚBLICO ainda só deu uma primeira espreitadela ao arquivo, mas garante que vale a pena, por exemplo, ouvir Eduardo Rocha Marques, de S. Pedro de Rio Seco, Almeida (a terra natal de Eduardo Lourenço) a contar histórias de contrabando de gado com Espanha, explicando que todos os domingos ia a Salamanca comprar 10 ou 15 vacas. “Punha-as logo no nome de um espanhol, para que ninguém lhes pudesse tocar”. Depois era só pagar aos que garantiam o transporte dos animais até à fronteira, trocar-lhes rapidamente o carimbo e o “brinco” espanhóis pelos correspondentes portugueses, trazer os bichos para o lado de cá e revendê-los com o lucro possível.
Ou ouvir Eduardo Serra, de Algodres, Figueira de Castelo Rodrigo, explicar que só as suas irmãs dormiam dentro de casa, e que os rapazes passavam a noite no palheiro: “Uns fardos de palha, e toca a estender o lombo!”. Ou Maria Ester Varelas evocar com nostalgia os bailes da sua juventude. “Era uma dançadeira boa, que não me deixava estar parada”. Os rapazes acompanhavam-na, a ela e às amigas, “para aqui e para além”, mas nunca lhes deram beijos, garante, “andava tudo na sinceridade”. Ou Helena Tavares, de V. N. Gaia, explicar que teve de começar a trabalhar aos nove anos como peixeira: “Havia fome e a minha mãe botou-me a canastrinha à cabeça”. Ou Arminda da Encarnação Amaral descrever com minúcia as muitas e árduas operações que o fabrico artesanal de telha exige. Ou Márcia Cabral Pimenta, de Foz Côa, lembrar as tradições do entrudo e as “histórias de arrepiar” que se contavam de noite enquanto se partiam as amêndoas, como a do “abade sem cabeça” que deu nome a uma fonte local. Ou António Baptista explicar aos seus jovens entrevistadores como se fazia uma bola de trapos com meias de senhora e as regras do jogo das muletas, da raia ou do batoque (do jogo do cântaro não quis falar muito, que “isso era quando já se namorava a rapariga”), ou ainda o barbeiro José Carlos Caseiro lembrar os tempos em que cortava “barba e cabelo” por “vinte e cinco tostões”.
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