segunda-feira

Perspectivismo dos interesses e dos egoísmos mesquinhos. A filosofia do umbigo

Muita gente, e até boa gente, embora sem se dar conta do erro analítico em que incorrem - entende que a Grécia, por estar sem dinheiro e não conseguir assegurar os seus compromissos financeiros, quer com os cidadãos, funcionários públicos e sociedade e Estado em geral, e aos credores externos em particular, deveria vergar-se ao diktat da troika de credores e aceitar mais e mais medidas de austeridade que tem levado o povo grego - literalmente - à miséria, à indigência e, no limite, ao suicídio. Pois é isso que tem ocorrido, nalguns casos com pessoas a imolarem-se nas praças de Atenas, transmitido em directo nas tvs, como bem sabemos. 


- Ante isto, o que faz o PM de Portugal, um país com a mesma dimensão, população, PIB e os mesmíssimos problemas de natureza estrutural e de atraso da economia (talvez com um pouco menos de corrupção e maior eficiência da máquina fiscal)!? 
- Faz o seguinte: um tal Passos, o mesmo que alegou desconhecer que tinha de fazer as suas próprias contribuições à segurança social e foi relapso no pagamento dos seus impostos, diz que a troika deve endurecer as medidas de austeridade à Grécia, e, assim, presta(r) vassalagem a Merkel, que está na origem deste imenso garrote à Grécia (e aos países do Sul da Europa, economias deficitárias relativamente à economia alemã), asfixiando-a até à morte. É assim que Passos julga ser um bom PM de Portugal e um eficiente peão de brega de Merkel. No fundo, o que Passos é, ou representa, é uma espécie de embaixador comercial alemão em andarilho pelo mundo, pago em marcos, junto das economias mais débeis do Mediterrâneo e do sul da Europa. 
- Todavia, e apesar de o Não vencer o referendo de Domingo - nem por isso se adivinha um aliviar da pressão sobre o Governo grego, como denunciam as declarações dos porta-vozes das instituições europeias. Ora, este endurecimento absurdo deve-se a quê, em concreto?! 
- O facto de a troika de credores se sentir derrotada neste braço-de-ferro com o Governo do Syrisa - faz com que apareça algum ressentimento nesses players (Lagarde, Jeoren Dijsselbloem - um nome horrível, como o sujeito que lhe corresponde, mais os serviçais de Merkel) que têm o dinheiro e dominam os mecanismos institucionais de natureza economico-financeira que lhes permitem chantagear a Grécia, dizendo-lhes que vão fechar os seus bancos e asfixiá-los até à penúria. É, ou melhor, foi assim que a Lagarde e o sujeito dos caracolinhos, Jeoren.., se dirigiu em privado aos dirigentes políticos gregos naquelas envenenadas pseudo-negociações em Bruxelas. Um burocrata sem história a dirigir-se assim a responsáveis eleitos democraticamente!!!
-  Naturalmente, esta guerra de nervos irá conhecer novos episódios até haver uma negociação final aceite por ambas as partes, mas o que não é aceitável, como se começa a desenhar no terreno, é que a Europa de credores (agiota e prepotente, teleguiada pela gulosa Alemanha - que tem gerado e multiplicado superavits comerciais à custa da desgraça alheia) tente, doravante, ganhar na secretária o que não conseguiu ganhar em sede de legitimidade democrática, pelo que terá se suavizar os termos, os prazos e os montantes da negociação em ordem a fixar o pagamento da dívida e do seu serviço de juros. 
- Ou será que é necessário recordar o imenso perdão de dívida à dita Alemanha, a mesma que gerou um Adolfo e um holocausto, para acordar a srª Merkel do que lhe compete fazer de imediato?! (cfr., com vantagem, o Acordo de Londres)
- No meio disto tudo, ainda aparecem umas alminhas penadas com citações descontextualizadas e sem qualquer pensamento próprio estruturado (é o chamado pensamento fast-food do facebook!!!), que sabem tanto de política, economia e geopolítica como Cavaco de literatura, a defender que a Grécia deveria amochar (ainda mais!!), pois isso evitaria a queda das cotações das acções em bolsa; e se essas alminhas ingénuas, que pensam primeiro no seu umbigo (na sua conta bancária, bem-entendido) e secundarizam o interesse geral e o bem-estar da Europa, quer em matéria de UEM quer em matéria de crescimento, desenvolvimento e prosperidade de todas essas regiões da Europa (especialmente as do Sul da Europa por serem as mais frágeis e dependentes) soubessem as barbaridades que debitam - calar-se-iam para sempre, e tentariam perceber o que é o perspectivismo de Leibniz, depois continuado por F. Nietzshe e que está latente em toda a política grega em particular, e na política europeia em geral. 
- Ou seja, o que aqui se pretende dizer a essas "viúvas negras" que ainda não digeriram o Não à Grécia - portadoras de acções cotadas em bolsa, ou de interesses directos ou indirectos ligados às empresas cotadas no PSI20 (ou outro interesse mais mediato, ou, simplesmente, que cometem erros de percepção) - é que a política não se reduz à lógica do umbigo individual, dos interesses imediatos dos mercados financeiros, especulativos por natura; a política não decorre duma soma dos interesses das partes; a política diz respeito à polis, ao bem comum, como ensinava Aristóteles, fundador da Política e eminente pedagogo. 
- E ainda que seja problemático transmitir estes valores a essas pessoas ingénuas e, manifestamente, sem preparação sociopolitológica e económica para compreender estas articulações, fica aqui o nosso ponto de vista, que é subjectivo por natureza. Como a própria vida. O que é revelador da ideia de que diferentes sujeitos compreendem, naturalmente, a realidade de modo diverso, ainda que o número de percepções não decorra imediata e directamente do número de pessoas que tentam compreender essa mesma realidade. 

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