sexta-feira

A Náusea à portuguesa - evocação de Jean-Paul Sartre -

- É quando nos sentimos a pensar que julgamos existir, logo, e na linha cartesiana, a existência é uma resultante do pensamento. Só que para alguns a existência apresenta uma face gratuita e ilógica, por vezes compulsivamente mentirosa, razão por que alguns fazem do PERJÚRIO um modo de vida, o qual é, ao mesmo tempo, um modo de prejudicar a vida de terceiros, ou a da sociedade no seu conjunto. 
- Tal decorre da falta duma essência verdadeira, o que faz de certos seres humanos "sub-gente" (evocando o jornalista João Carreira Bom), e é essa falta de essência, ou de chão e de autenticidade, que conduz a uma busca duma outra essência que sirva de sucedâneo à existência: é nesse momento que irrompe a chamada essência artificial, assente na ilusão e dinamizada pela mentira e o fingimento, e são ambos esses mecanismos que tornam a existência de certas pessoas, a tal sub-gente, mais suportável. 
- É, pois, do desenvolvimento desses mecanismos psico(políticos), mitigados pela mentira institucionalizada, que ganhou foros de cidade quando ela encontra na representação dos lugares públicos, nos mais cimeiros do aparelho de Estado, a instrumentação necessária para driblar a lei (a que todos os cidadãos estão obrigados!!), para mentir, omitir, simular e dissimular comportamentos, atitudes e condutas perante a sociedade, que é cada vez mais sábia, interactiva e vigilante e se apercebe do que se passa entre os titulares de cargos políticos. 
- No plano filosófico, encontramos aqui, em breves passagens do pensamento de Jean-Paul Sartre, boa parte da justificação que leva um homem a usar - voluntária ou involuntariamente - toda essa instrumentação da mentira para se evadir dum problema que criou e o enxovalhou perante a sociedade inteira que teima em querer continuar a liderar, mas para a qual não tem já condições, legitimidade, autoridade nem obediência.
- O que se tem passado em Portugal nas últimas duas semanas espelha bem a náusea à portuguesa, o seu contágio às duas principais instituições políticas do Estado, Executivo e PR (o Parlamento encontra-se hoje refém duma maioria artificial para se manter no poder), e a forma como em ambos os casos esses dois homens, em nome dessas duas instituições, revelaram o esplendor da miséria da (sua) condição humana. 
- Pergunto-me se este é apenas um retrato realista circunscrito ao universo político, ou se ele se estende ao retrato que podemos fazer da sociedade portuguesa no seu conjunto. 
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