terça-feira

Evocação de Camilo Castelo Branco

Evocação de Camilo Castelo Branco

Se Queres Ser Feliz Abdica da Inteligência

Os tolos são felizes; eu se fosse casado eliminava os tolos da minha casa. Cada cidadão, que me fosse apresentado, não poderia sê-lo, sem exibir o diploma de sócio da academia real das ciências. Olha, criança, decora estas duas verdades que o Balzac não menciona na «Fisiologia do Casamento». Um erudito, ao pé da tua mulher, fala-lhe na civilização grega, na decadência do império romano, em economia politica, em direito publico, e até em química aplicada ao extracto do espírito de rosas. Confessa que tudo isto o maior mal que pode fazer à tua mulher é adormecê-la. O tolo não é assim. Como ignora e desdenha a ciência, dispara à queima roupa na tua pobre mulher quantos galanteios importou de Paris, que são originais em Portugal, porque são ditos num idioma que não é francês nem português.

Tua mulher, se tem a infelicidade de não ter em ti um marido doce e meigo, começa a comparar-te com o tolo, que a lisonjeia, e acha que o tolo tem muito juízo. Concedido juízo ao tolo, concede-se-lhe razão; concedida a razão, concede-se-lhe tudo. Ora aí tens porque eu antes queria ao pé de minha mulher o padre José Agostinho de Macedo, em cuecas, do que o barão de Sá coberto com a capa daquele grande piegas José do Egipto.

Ris-te?... Se queres ser feliz abdica da inteligência, convence-te, e convence os outras de que és um pária do senso commum, entra nesses camarotes, e diz que a letra do «Barbeiro de Sevilha» é de Voltaire, e a composição do maestro Spinosa; vira-te para a vítima predestinada, e diz-lhe que a música é a voz mística dos anjos confidentes das paixões delirantes, que dos olhos dela deviam partir as inspirações que arrebataram Raphael d'Urbino, que farás autor da «Norma». Se ouvires uma gargalhada insofrida, deixa-os rir; continua; faz-te vítima interessante, acolhe-te à piedade da dama, e fala-me depois... 
Camilo Castelo Branco, in 'Mistérios de Lisboa (1853)

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Cenário de "Amor de Perdição" ao abandono (em imagens), Link

Era um convento feminino, fundado em 1533, no sítio de Monchique (local onde existia uma sinagoga, em pleno território da judiaria) na freguesia de Miragaia, fora dos muros da cidade do Porto. Foi palco da obra de Camilo Castelo Branco.
De acordo com os arquivos da Torre do Tombo, «no dia 10 de junho do ano de 1833, é dada a notícia de haver "religiozas reveldes" em Monchique que tinham abandonado o convento. Outras freiras permaneceram no Convento de Monchique até agosto de 1834, data em que foram removidas para outros conventos de clausura da área da cidade do Porto».
O Convento de Monchique faz parte do cenário de "Amor de Perdição" de Camilo Castelo Branco. Foi a uma janela do Convento que Teresa de Albuquerque acenou ao amor da sua vida, Simão Botelho, quando este passava num barco no Douro, a caminho do degredo.
«- Onde é Monchique? - perguntou Simão a Mariana.
- É acolá, senhor Simão - respondeu, indicando-lhe o mosteiro, que se debruça sobre as margens do Douro, em Miragaia.
Cruzou os braços Simão, e viu através do gradeamento do mirante um vulto.
Era Teresa.
Na véspera recebera ela o adeus de Simão, e respondera enviando-lhe a trança dos seus cabelos».
(In Amor de perdição)
Para o local, está pensada a construção de um hotel.

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