quinta-feira

A roda de oleiro - por Viriato Soromenho Marques -

Em entrevista ao DN, o notável sociólogo brasileiro Roberto Mangabeira Unger exortava Portugal: "Estão de joelhos, levantem-se!" Para tal, Unger efetuou sete recomendações, passando a última pela necessidade de "construir um Estado capaz" (ver DN, 5 de outubro, p. 8). Unger parece informado sobre a entropia administrativa em expansão. Construir de novo parece ser mais realista do que reformar. A Justiça mergulhou num mundo virtual. Na Educação o método de colocação de professores corrige erros com injustiças. A crise nacional evoca o ensaio do arqueólogo britânico Bryan Ward-Perkins, A Queda de Roma e o Fim da Civilização (2005). Ao contrário dos mitos benignos de algumas escolas historiográficas francesas e alemãs, que negam uma queda brutal do Império, propondo antes uma transição suave que teria durado vários séculos, o britânico sublinha a rápida queda na barbárie, e a perda dos níveis de conforto. Na Inglaterra romanizada, por exemplo, a roda de oleiro foi "esquecida" durante 300 anos, tal foi o recuo tecnológico que se seguiu ao colapso do Império! O que sucede em Portugal merece meditação séria. Há 40 anos, a Assembleia Constituinte parecia uma Academia das Ciências. Hoje, com algumas exceções mais ou menos visíveis, a política de topo tornou-se um lugar tendencialmente mal frequentado. Por ambições vazias. Por distraídos bem-intencionados. Por coladores de cartazes que ficaram na fila à espera de serem servidos. O colapso do Estado ainda não é inevitável. Mas dentro dos palácios a tecnologia da roda de oleiro parece estar a ser rapidamente esquecida.

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Obs: Medite-se nestas comparações históricas.


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